Tony Manero

2 ou 3 parágrafos | Divã e Tony Manero

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A sessão-dupla mais insólita do ano começou com uma sala lotada de senhoras aparentemente saídas de uma reunião da Herbalife (Divã, Globo Filmes via teatro para moças, 4/10) e terminou em clima de naufrágio, com velhinhos abismados e desamparados abandonando o barco antes do final do passeio (Tony Manero, Chile barra-pesada via Quinzena dos Realizadores, 4.5/10). Entre eles, mais semelhanças do que eu gostaria de imaginar.

Se existe um muro invisível entre produções “comerciais” e “de arte”, Divã e Tony Manero nos ensinam que essa divisão não é construída apenas pela imprensa ou por departamentos de marketing, mas também pelos filmes que cumprem rigorosamente (e preguiçosamente) requisitos que satisfazem supostas exigências de “fatias de mercado”.  Daí que Divã é a comédia agridoce adaptado ao gosto do público de telenovelas, com diálogos inflados por trocadilhos engraçadinhos, uma atriz de carisma inabalável e trilha sonora de Guto Graça Mello (se 90% das criações da Globo Filmes morrerão no inferno, a culpa será principalmente dele – Ana Carolina berrando nos créditos finais equivale a matar/roubar). Já Tony Manero é o diagnóstico da nossa miséria contemporânea, desfocada, suja e invariavelmente feia.

O esquematismo reina lá e cá – e asfixia protagonistas que, nos dois casos, são eixos das narrativas. O homem-sombra de Tony Manero, condenado a agonizar em rede nacional enquanto reproduz passos ensaiados de Hollywood, não parece menos pré-fabricado que a quarentona desencantada com o casamento, que leva a vida como num livro imaginário de autoajuda para mulheres decididas. Saí das duas sessões com a sensação de ter acompanhado as etapas iniciais de um workshop de roteiro – Como Desenhar o Primeiro Esboço de um Personagem que Provavelmente Soará Instigante na Metade do Curso, aula 1.