The-Dream

Mixtape! | Setembro, teen spirit

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A incrível, contagiante (e um tantinho neurótica) mixtape de setembro chegou cedo (surpresa!) para iluminar setembro.

“Por que a pressa?”, vocês me perguntam, intrigados. É que, na próxima semana, o Tiaguinho aqui não terá tempo para nada: não vai ouvir música, blogar bobagens, bolar mixtapes, muito menos respirar. Estarei no Festival de Brasília: trampo day&night, portanto (vou tentar postar alguns textinhos sobre os filmes da competição, mas não garanto nada).

Mas isso aí é assunto pra outra hora.

Cá está ela, então. Prematura porém bonitona, cheia de charme, com um desejo enorme de te emocionar. Irresistível. Sério. Eu já ouvi tanto que decorei e aprendi as cifras de todas as músicas (!).

Em resposta à mixtape de agosto, que veio sequelada por uns tons de cinza-deprê, esta aqui irrompe iluminando a paisagem. É uma coletânea para os dias muito amarelados da estiagem brasiliense. E uma coletânea que, além de sugerir alguma coisa de juvenil (daí o título), está povoada de moças e rapazes eufóricos/confusos.

Aqui você encontra (nesta ordem) Neon Indian, The-Dream, CSS, St. Vincent (que está na foto lá no topo do post), Laura Marling, Cymbals Eat Guitars, Wild Flag, Wilco e Male Bonding. O lance é dinâmico, e flui que é uma beleza (a lista de músicas está na caixa de comentários).

Minha sugestão: faça o download (desta vez, todas as canções se encaixam direitinho). Mas você também pode ouvir a coletânea aqui no site, clicando na jukebox que se encontra no fundo deste post.

Seria bacana se, além de ouvir, você escrevesse um comentário avaliando a seleção musical deste mês. Mas não vou cobrar nada. Eu não tenho tempo, você não tem tempo e isto aqui, no mais, é só um blog. Relaxe.

E faça o download da mixtape de setembro.

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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1977 | Terius Nash

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O fim de uma relação amorosa produz angústia, pesadelos, talvez tremedeira, incertezas, traumas, dor, noites maldormidas, às vezes alívio, quase sempre medo, em alguns casos saudade, rancor, pode ser que raiva, insegurança. Também produz blogs terrivelmente pessimistas, diários borrados em canetinha vermelha, e-mails furiosos (que nunca serão enviados) e canções tristes que você dedilha no violão enquanto chora feito um menino órfão.

A primeira separação, dizem, pode ser fatal. Há quem não se recupere. Conheço gente que ainda não sarou. Tem aqueles que se arrepiam só de pensar no assunto. E os que guardam fotos e cartas, esperando o dia em que, sabe-se lá, quem sabe.

É uma dor universal. É um clichê.

Aprendi que existe sabedoria no lugar-comum dos corações regenerados (e ele diz: “o tempo resolve tudo”). Mas essa é apenas minha experiência — ela não pode ser tratada como uma espécie de regra geral para namoros&casinhos. Há os que sofrem muito, há os que sofrem pouco, há os que não sofrem nada (e há os psicopatas). Mas uma sensação, uma espécie de ressaca sentimental, talvez nos conecte, nós que já namoramos e separamos: com distanciamento, após um certo tempo, as lembranças do período imediatamente posterior à separação podem parecer um tanto patéticas.

E digo isso com todo o respeito por aqueles que estão passando por essa fase neste exato momento (força, gente!): a única perspectiva boa que posso oferecer é que, quando terminar a temporada de sofrimento excessivo, você vai olhar para trás com um pouco de vergonha. “Por que sofri tudo isso?”, é a pergunta recorrente que as pessoas fazem antes de começar a sofrer tudo de novo.

O inferno é que, nesse período desconfortável de quase-loucura (quando estamos no parapeito, pulando sem asa delta), as pessoas às vezes escrevem e gravam discos. Infelizmente, elas não têm amigos que recomendem “escreve as músicas, meu velho, mas deixe para gravá-las daqui a três anos. Enquanto isso, faça um blog, veja séries de tevê, leia Nick Hornby, coma sorvete.”

Há grandes discos que são escarrados por esse furacão pós-separação. Mas são poucos. Posso contá-los nos dedos da minha mão. O melhor deles, Blood on the tracks (de Bob Dylan), não é apenas terapêutico: ele parece flutuar sobre a tragédia, observando (até com um pouco de graça) toda a dança confusa de encontros/desencontros/tropeços/azares que desenha a trajetória de uma história de amor. Sea change (de Beck), me parece mais agressivamente pessoal: ainda assim, existe no disco um produtor (Nigel Godrich) que cumpre o papel do bom amigo, que não deixa o sofredor dar vexame.

Nenhum desses milagres, no entanto, acontece neste 1977. Aqui, temos um compositor com total controle do processo de gravar as mais confessionais das canções de dor de cotovelo. E sem amigos por perto.

É um disco franco e imaturo. Honesto, talvez até verdadeiramente honesto. A alegria do ouvinte sádico. E a polaroide já amarelada de um período muito específico na vida de Terius Nash (mais conhecido como The-Dream), que se separou de Christina Milian em julho de 2010, pouco depois de ter completado 33 anos.

O produtor “profissa” de hits femininos como Single ladies e Umbrella (e de bons discos “de amor” como Love vs. money, de 2009, e Love king, de 2010), talvez tenha se inspirado em Kanye West para gravar um “break-up album” de machinho que, como aconteceu com 808s and heartbreak, poderia muito bem ser chamado de Love vs. sanity. Lembranças de Here, my dear (1978), de Marvin Gaye, serão inevitáveis.

Como Kanye e Gaye, Nash também se deixa engolir pelo tumulto sentimental. E não deve ser culpado por isso (o doente de amor pode ser especialmente irritante, mas quem nunca sofreu disso?). Mas, ao se exibir com tanta franqueza, ele acaba listando um festival de bobagens juvenis que serviriam de bons argumentos para os amigos da ex-mulher. Eles apertariam o play e diriam: “Foi com esse sujeito que você se casou, menina?” Nos momentos de humor involuntário, 1977 pode ser lido como uma espécie de Blood on the tracks for retardados.

Se eu tivesse 18 anos de idade, me identificaria com este disco. Juro que sim. Sim. E muito. Ele mostra um homem sofrendo (de um jeito estúpido) por amor. Eu adorava esse tipo de confissão. Hoje, me sinto um pouco constrangido diante desses desabafos. É como se um terapeuta tivesse violado um segredo e decidido me contar mágoas que não quero conhecer. O que mudou em mim? Talvez eu tenha crescido. Ou talvez eu tenha ouvido “break-up albums” em demasia.

Que seja. 1977 soa, antes de tudo, como um desperdício de bons arranjos, de ideias musicais até decentes, tudo muito bem acolchoado numa linda sonoridade que é de Terius Nash e de mais ninguém (e, se nos concentrarmos apenas no som dos sintetizadores e violões, este é um disco que supera o mais recente do Weeknd, por exemplo).

Daria uma ótima mixtape instrumental. Uma das faixas (a única que não me deixa com vergonha alheia) me parece um hit extraordinário: Long gone mereceria entrar numa coletânea do The-Dream. Pena que, para chegar lá, temos que ouvir ladainhas lamentáveis.

Used to be, a faixa número 2, é a mais humana de Nash. E deixa saudades do tempo em que ele soava como um androide. “Pare de foder com a minha vida, mulher”, ele ordena, no refrão. Antes disso, compara o tempo em que a esposa era sua “cool bitch”, antes de se transformar numa chata. “Você era contra a internet, agora fica aí blogando e fazendo outras merdas”, desabafa. E depois passa a lição: “As ‘bitches’ de verdade sabem que estou falando a verdade, já as ‘fake bitches’ estão todas se mijando”.

Medo!

As músicas em que ele admite que se sente carente soam menos infantis. Miss you still, apesar da pobreza poética (“O sol brilha, mas a dor nunca seca”), não é tão sofrível quanto Wake me when it’s over (“Por que você é tão estúpida? É fácil expor quem você ama, o difícil é ficar com a boca fechada”). Na metade do disco, eu já me perguntava se não estaria perdendo tempo demais com um sujeito que merecia ficar trancado no quarto por alguns meses, sem contato com pessoas and shit.

Nash lançou o disco de graça, na internet. Brigou com a gravadora, chorou pitangas, se sentiu agredido e humilhado etc. Mas acho que lançou do jeito certo, e tem razão – este é um disco feito para durar o mesmo tanto que um trending topic. No fim do ano, quando lançar The Love IV, talvez consiga observar a experiência dolorida da separação de forma a transformá-la em, quem sabe, arte. Aqui, em 1977 (o ano em que nasceu), ele consegue produzir faixas ocas, quando não estúpidas. Como Wedding crasher, quando Nash admite que está muito bêbado e que tem medo de não encontrar uma mulher à altura daquela que o abandonou.

Acontece, meu velho. Agora vá lá abrir um blog.

Quarto disco de Terius Nash (The-Dream). 11 faixas, com produção de Terius Nash. De graça na web: baixe aqui. 42

Superoito express (26)

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How I got over | The Roots | 7

Note o paradoxo: How I got over está entre os discos menos caóticos que o Roots já gravou (e é conciso, o danado: um álbum de hip-hop e R&B cheio de participações especiais e com apenas 42 minutos de duração) – mas é também, e de longe, o mais ameno entre todos os que ouvi deles (e ouvi vários). Não sei se interpreto esse momento como uma resposta da banda à era Obama ou às transformações no mercado pop norte-americano (o rapper mais badalado do momento é o Drake, um sujeito romântico e doce). De qualquer forma, é um novo tempo.

E, não tenho dúvidas, é um disco que cumpre os próprios objetivos de uma forma muito precisa e com eficiência germânica: uma coleção de hits agradabilíssimos (Walk alone, Radio daze, Now or never, são tantos…)  que confirma o gosto da banda por andar “on the indie side”, com flertes a Monsters of Folk (Dear God 2.0, que tem ares de Fleetwood Mac), Dirty Projectors (A peace of light) e Joanna Newsom (Right on tem sample da moça), sem abandonar o mainstream (vide a ponta de John Legend e a produção polida, sob medida para as rádios). O discurso também continua comprometido com o social e levemente agoniado, ainda que positivo. O importante é que eles ainda fazem a coisa certa, e a faixa-título começa assim: “Nas ruas onde cresci, sempre me ensinaram a não estar nem aí. Esse tipo de pensamento não te leva a lugar algum. Alguém tem que se importar.” Sacou? Mesmo mansinhos, eles ainda se importam. 

Brothers | The Black Keys | 7

O sexto álbum do Black Keys é uma espécie de continuação de Attack and release (2008), também produzido por Danger Mouse, com o mesmo blues-rock compacto, comprimidíssimo (o maior impacto no menor espaço), que soa como se alguém tentasse encaixar o som do Led Zeppelin dentro de um dedal. Mas, ao mesmo tempo, Brothers estica esse estilo para que caiba numa tela grande. É uma questão de duração: em 15 faixas, a dupla se obriga a se exercitar mais. E, nesse esforço, a banda acaba beliscando o pop (as últimas faixas, baladonas bluesy, são até tocantes). Claro que nem tudo dá certo, e o duo ainda me incomoda muito quando faz o decalque fácil de uma certa estética de brechó à anos 70, sem nervos, sem sangue, diluída para desfiles de moda e peças publicitárias (e aí chegam muito perto de um Lenny Kravitz). Tropeços acontecem, mesmo quando (acredite) estamos falando do disco menos acidentado que eles gravaram.    

Love king | The-Dream | 7

Timing perfeito: o terceiro de Terius Youngdell Nash chega na cola de Thank me later, a estreia do Drake. Eles disputam o título de melhor álbum perdidamente amoroso de rap ‘n’ soul, e não vejo muitos outros concorrentes na pista (a menos que Kanye West decida manter o tom dramático de 808s and heartbreak, o que acho improvável). Por mim, dá empate. Drake me agrada um pouco mais, já que me parece tão convencido quanto vulnerável, cheio de dúvidas e traumas de infância e frescurinhas mil. The-Dream é só convencido, mas tem a vantagem de trabalhar duro para aninhar um estilo – enjoativo ou não (e, em muitos momentos, não tenho paciência para o excesso de mel com morangos e chantilly das faixas bônus), este som aveludado é só dele. Love vs. money (2009) era mais sortido, mas Love king soa como um álbum conceitual (!) muito ambicioso, sexy toda vida, às vezes cafajeste (ouça Sex intelligent) e meio monocórdico sobre… o amor, o amor e o amor, é claro (também sobre sexo com champanhe num pornô-chic dos anos 80, quando muito). Coloque na estante perfumada ao lado de Futuresex/Love sounds, do Justin Timberlake.     

Recovery | Eminem | 5

Demora apenas duas faixas. E lá vai: “Os críticos nunca têm nada legal para dizer, cara. Você quer saber o que eu penso sobre os críticos? Os críticos nunca perguntam como foi o meu dia.” Recovery é bem isto: um disco totalmente na defensiva. Curiosamente, o próprio Eminem parece admitir essa má fase – caso contrário, o nome do disco não seria Recovery, e sim algo imponente do tipo Staying on top ou Still king. Daí que, se o álbum anterior (Relapse, 2009) era uma tentativa bem picareta de reprisar o que deu certo antes (o humor cartunesco, a persona violenta, o clima de fita de horror, as paródias pop, etc), o novo tenta algo como The blueprint 3, do Jay-Z: um disco de rap comercial by-the-numbers, eficiente, 1×0 sem show de bola, com participações especiais de gente famosa (Pink, Lil Wayne, Rihanna) e samplers que já ouvimos de algum lugar (tem até What is love, do Haddaway!). Se a meta de Eminem era sair com um disco mediano de rap, que qualquer outro rapper mais ou menos talentoso poderia ter gravado, conseguiu. E pelo menos sobre um aspecto os críticos vão ter que concordar: é menos vergonhoso do que os dois anteriores.

Thank me later | Drake

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Você conhece Drake? Então está na hora.

Até porque, nos próximos meses, será impossível não reconhecê-lo por aí. Nas rádios. Na MTV. Nas trilhas de cinema. O rapaz tem bons amigos (Lil Wayne, Jay-Z, Kanye West, Timbaland, The-Dream, T.I., Alicia Keys), vem no embalo do marketing da Universal Music e está prestes a lançar um disco de estreia que, se tudo der certo, o transformará num astro do R&B.

Está escrito.

O plano, aparentemente, é fazer de Drake um novo Usher, um novo The-Dream, um novo sexymothafucker (e é provável que isso aconteça). Mas, é claro, não é por isso que você precisa conhecê-lo.

Dou três motivos:

1. Na mixtape So far gone, lançada no ano passado, a terceira música é uma balada robótica, na linha do Kanye West de 808s and heartbreak, chamada Successful, que virou single e rodou até no VH1. A faixa seguinte é uma versão para Let’s call it off, de Peter, Bjorn and John. Isto é: o sujeito não ouve qualquer coisa.

2. O refrão de Successful (muito simplezinho, até: “tudo o que quero ser é bem-sucedido”) não vem embalado no tom fanfarrão típico dos novos-ricos da black music, mas, surpreendentemente, existe nele uma certa melancolia, como se o intérprete da canção soubesse que o sucesso é doce e amargo.

3. Drake é um ator de 23 anos, ex-astro teen de seriado de tevê. E canadense.

Se nenhum desses argumentos parece suficientemente forte para que você dê uma chance ao moço, então não há nada a ser feito. Provavelmente, o álbum não vai colar. Não é sua praia. Vá por mim. Não perca o seu tempo.

Para começo de conversa, o disco soa conservador: não rejeita um modelo muito típico de R&B, pelo contrário. É quase um disco-de-gênero, songs for the lovers com alguma marra hip-hop. Nada que Kanye West, The-Dream ou Jay-Z não tenham feito. E Thank me later pode até ser ouvido dessa forma: como um álbum pop muito eficiente, coleção de hits, tudo nos devidos lugares, arquive entre Justin Timberlake e Rihanna.

O instigante na história, no entanto, é como Drake pega esse formato industrial e, sutilmente, se apropria dele. Sutilmente. O tom desiludido como o vocalista – que se chama Aubrey Graham – interpretou Successful é a colcha sonora do disco. Um fantasma que está sempre lá.

Há artistas que só se decepcionam com o sucesso lá pelo quarto álbum de estúdio. Pois a primeira música de Thank me later, Fireworks, abre com versos como “o dinheiro mudou tudo” e “meus 15 minutos de fama começaram há uma hora”. Novamente, Drake soa dúbio, na contramão das estrofes: a letra celebra a boa fase, o “sonho”, mas não existe alegria alguma na interpretação. A melodia é mecânica, cheia de lacunas e ecos.

Estranho.

Felizmente, todos os produtores – e são muitos! – parecem entender esse perfil introspectivo do cantor, que vai flutuando sobre névoa de teclados e efeitos metálicos. Nas primeiras faixas (as melhores do disco), não há festa: Drake narra dramas familiares (a separação dos pais, aos cinco anos), decepções amorosas e transformações da idade adulta. O sucesso não cura nada disso, e ele sabe disso. “Do que tenho medo? Isso deveria ser meu sonho. Mas todas as pessoas olham para mim e dizem a mesma merda: ‘você prometeu que nunca mudaria'”, ele desabafa, em The resistance.

A soul music de pesadelo atinge a catarse logo na quarta música, que se chama (olha aí) Over. Nesse ponto, Drake beira a esquizofrenia. “Conheço muitas pessoas que eu não conhecia há um ano. O que aconteceu? Fizemos de tudo ontem à noite, mas não lembro de nada. O que estou fazendo? O que estou fazendo?”, ele pergunta. Em seguida, porém, muda o discurso: “Eu estou me divertindo, estou vivendo a vida, e vou continuar assim até o fim.”

O hit é narrado com uma atmosfera dramática, tensa, que os produtores Boi-1da e Al Khaliq pressionam ao limite. O videoclipe mostra Drake fuzilado por canhões de luz, sozinho em um quarto de hotel.

Já ali, na quarta faixa, dá para concluir que Drake tem o “algo mais” que falta a muitos aspirantes ao trono do R&B: o intérprete paira acima dos produtores, das canções, de tudo. O álbum soa coeso, quase uniforme, porque é um retrato do cantor (ou talvez do personagem que o ator criou para si).

Na segunda metade, esse clima asfixiante das primeiras músicas vai se dissipando, ora em faixas mais animadinhas como Find your love (produzida por Kanye West), ora quando o “padrinho” Lil Wayne entra em cena, em Miss me. Mas até aí o show é de Drake. Em Miss me, o que fica na memória não é o falatório nonsense de Wayne, mas o apelo infantil, carente do vocalista. “Você vai sentir minha falta quando eu for embora?”, ele pergunta.

Superprodução programada para cumprir expectativas de uma indústria, Thank me later equivale a uma fita de fantasia dirigida por Sam Raimi: sob os efeitos especiais, há um coração que bate.  

Primeiro disco de Drake. 14 faixas, com produção de Lil Wayne, Birdman, 40, Al Khaliq, Boi-1da, Crada, Francis and the Lights, Jeff Bhasker, Kanye West, No I.D., Omen, Swizz Beatz, Timbaland e Tone Mason. Lançamento Universal Music. 7.5/10

Superoito express (10)

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jonas

Ou: por que a crise da indústria musical é um tédio.

Lines, vines and trying times | Jonas Brothers | 4 | E a triste história vai assim: Nick, Joe e Kevin eram três adolescentes ingênuos e serelepes que, apesar de bastante satisfeitos com o confinamento numa interminável sitcom do Disney Channel, ouviram os conselhos dos executivos errados e resolveram… bem, resolveram crescer. O resultado dessa jogada comercial meio apressada é um disco que soa como um longo, aborrecido especial da VH1. Eu, que gosto do power pop abertamente juvenil de A little bit longer, não passei da terceira audição. O excesso de sopros e teclados nos leva a um canto dos anos 1980 que deveria permanecer (para sempre) pouco iluminado. E não sei ainda o que o rap Don’t charge me for the crime embaça mais: a carreira dos Brothers, a reputação de Common ou todo o staff incompetente da Hollywood Records (um galho da Universal, vale lembrar)? Meu conselho: continuem imaturos.   

Music for men | Gossip | 5.5 | Não vou negar o carisma de Beth Ditto, uma band leader que me parece imensa em absolutamente todos os sentidos. Mas, por aqui, o Gossip continua soando como aquela banda do single espetacular (quando decidirem que você deve pagar mico como DJ, vá por mim e não esqueça de Standing in the way of control) e de álbuns inconsistentes. Este é o mais frágil de todos, e uma típica estréia em grande gravadora: a produção de Rick Rubin lima o descontrole que coloria o som do trio, agora sem as arestas punk e atado a um formato glam dançante e “sensual”  (entre aspas mesmo, já que a coisa toda soa mais fria que a morte). O primeiro single, Heavy cross, é uma diluição de Standing in the way of control — uma estratégia bem comum entre novatos amedrontados com a indústria. Nossa sorte é que a Columbia ainda não conseguiu submeter Ditto a uma dieta radical de carboidratos — ela (e pelo menos ela!) segue em forma.

Love vs. money | The-Dream | 6 | O melhor álbum desta listinha deprimente (e o único que recomendo a vocês, ainda que sem muito entusiasmo) é o novo projeto conceitual do produtor de Umbrella, também conhecido como Terius Hagert Youngdell Nash. Ao lado de convidados como Kanye West e Mariah Carey, The-Dream narra um palpitante melodrama pop sobre as tantas e doloridas maneiras como o dinheiro mata o amor e o amor é maior que o dinheiro e o dinheiro não compra o amor e o amor sem dinheiro vale mais que dinheiro sem amor. Etc. Um tanto monotemático, certo? Mas a crítica mainstream adora (e dá até pena ver revistas que já foram consideradas relevantes transformando o Jonas Brothers ou a Lady Gaga em artistas respeitáveis, mas este é o nosso mundo) e eu entendo o porquê do falatório: se o pop anda em busca de um salvador da pátria (e vamos lembrar que Michael Jackson já havia nos deixado há uns bons 30 anos, ok?), The-Dream parece uma opção até razoável. Ele tem tino para a melodia (Right side of my brain é um baita algodão-doce) e é um romântico incurável. Tem muito dinheiro, certo. Mas canta o amor com certa franqueza (na medida do possível — este é um disco da Def Jam). Meu voto é dele.

The fame | Lady Gaga | 4.5 | Ah, sério?  Quando descobri que a Nova Musa do Pop era aquela que cantava praticamente todos os cinco hits vagabundos que rodam incessantamente nas academias de ginástica e estações FM (e descobri tarde, mas não perdi quase nada), fiquei com saudades dos momentos mais açucarados da Kylie Minogue. Há quem encontre influências de David Bowie e Queen, mas suspeito que elas tenham contribuído mais para a performance da moça e menos para a sonoridade de um disco que dilui a cartilha do electropop (letras sacanas e engraçadinhas sobre celebridades lindas, sujas e ricas) num modelito pop “para pistas” que não machuca ninguém. Provavelmente eu deveria ouvir mais vezes, mas prefiro acreditar que o delírio coletivo vai acabar passando e, em dois anos, todo mundo estará novamente mais interessado no novo da Madonna.

Wait for me | Moby | 5 | Por último, um disco que soa como uma coletânea de bonus tracks. Pobre Moby: hoje em dia, a grande ambição do sujeito é fazer um álbum mais ou menos parecido com Play. Engraçado ler a chamada da Folha de S. Paulo: “no novo disco, Moby mistura eletrônica com soul music”. E não é o que ele sempre fez? Um editor mais honesto pouparia o eufemismo e lascaria logo: “no novo disco, Moby mistura seus discos mais recentes com os discos que gravou há algum tempo”. É mais ou menos por aí: um projeto mais introspectivo e caseiro que os anteriores (ok, melhor que os anteriores), mas tão óbvio e aguado quanto tudo o que ele lançou desde Play. Uma pena, já que o primeiro single (a instrumental e sombria Shot in the back of the head) sugeria um desvio de rota. Não é bem isso. Na verdade, é quase nada.