Superoito express

Superoito express (41)

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Nesta edição: 1, 2, 3, 4, 5 machos solitários (e foi por acaso – não é incrível?)

Within and without | Washed Out | 7.5

Já não alertamos que é perigoso inflar as nossas expectativas? A Sub Pop, que lança o long-player de estreia do Washed Out, admite que está entusiasmada com o disco num nível quase insuportável. A onda de elogios para este projeto de Ernest Greene, o novo prodígio de Atlanta, deve atingir escala oceânica nas próximas semanas – quanto sites que sempre apostaram no rapaz tentarão nos convencer de que Within and without é a última ilhota verdejante do Atlântico. A Spinmandou ver: “Chillwave para quem não aguenta mais chillwave”. Uau.

Ouvir o disco, nesse contexto de euforia, parece até dispensável. Comigo aconteceu o contrário: ouvi o disco quase por acaso, sem atentar muito para todo esse foreplay, e me interessei por ele sem grande empolgação. Digamos que eu tenha admirado a atmosfera aquática, fluida, que Greene cria para envolver as composições – mas não consegui notar uma identidade forte neste disco, que me faça defendê-lo como algo verdadeiramente especial. Eu confundiria algumas dessas faixas com as do Toro Y Moi, com as do Memory Tapes (leia textinho a seguir). Talvez por isso o rótulo chillwave tenha colado tão bem a esses projetos: é que, em muitos momentos, eles acabam soando como exercícios de gênero.

O sujeito pode ser um diretor competentíssimo de fitas policiais. Mas daí ser um Michael Mann… Greene é sim competente, se aproveita do formato conciso que a Sub Pop tanto preza e se alia a um produtor experiente sem se deixar asfixiar por ele (o homem é Ben Allen, de Merriweather Post Pavillion, do Animal Collective, e Halcyon digest, do Deerhunter). Os momentos mais extrovertidos são os que mais me fisgam – o romantismo sem-medo-de-ser-passional de Amor Fati, acima de todas -, mas nota-se que a praia do Washed Out é uma introspecção por vezes etérea, vaporosa, mas sempre cheia de sutilezas: um estilo que Greene defende com convicção e rigor; qualidades que serão recompensadas pela torcida.  

Player piano | Memory Tapes | 7.5

Desconfio que o LP de Dayve Hawk não será recebido com tanta euforia e condescendência quanto o do Washed Out (até porque o Memory Tapes lança pela Carpark Records, selo minúsculo em comparação à Sub Pop), mas acredito que estejam num mesmo patamar e que até se complementem – e não me canso de ouvir um logo após o outro. Enquanto o Washed Out vai depurando os traços mais visíveis da chillwave, o Memory Tapes trata de pressionar os limites do gênero – de tal forma que Player piano acaba sabotando nossas expectativas. As faixas mais surpreendentes são também as mais dóceis, que chegam a lembrar o pop eletrônico de um Postal Service, por exemplo (ouça Wait in the dark e Sun hits). As colagens do disco anterior dão espaço para composições mais diretas, quase corriqueiras, mas não dá para dizer que este disco tente o caminho mais fácil: Hawk arrisca para tentar encontrar um sotaque, uma voz reconhecível, uma marca. Não acredito que tenha chegado lá, mas a aventura tem lá seu encanto (e o finalzinho de Worries é amor para o inverno inteiro, não dá pra negar). 

Dedication | Zomby | 7

Deixando o distrito da chillwave rumo às quebradas do dubstep (ou algum lugar próximo dali), o novo do produtor inglês nos recebe com um temperamento quase oposto à ternura triste do Washed Out e do Memory Tapes: o tecido aqui é áspero, o clima soa apreensivo – estamos presos num dia chuvoso. A faixa-guia é Things fall apart, que praticamente resume a ambiência pós-apocalíptica do disco: não são poucas as coisas que desmoronam. Por mais que eu tenha dificuldades sérias com o dubstep mais arredio e single-minded (a exceção é James Blake, mas acredito que ele não se enquadre completamente no gênero), Dedication não me parece uma jornada aborrecida noite adentro. Ainda que não fuja da premissa do disco, que poderia ser usado como trilha para um filme de serial killer do David Fincher, Zomby vai abrindo vielas soturnas a cada faixa – e as melhores, como Digital rain e Mozaik, ficam rondando o nosso cérebro horas depois da audição, feito resíduo de pesadelo. Atormentam.  

Goodbye bread | Ty Segall | 6.5

Para quem conhece Ty Segall só agora (e é meu caso), Goodbye bread pode reavivar as lembranças da fase mais doméstica de um Elliott Smith, de um Guided By Voices. Está certo que essa aparência de despojamento se transformou num clichê do indie rock, mas existe algo neste disco que nos deixa com a certeza de que ele foi gravado quase por acidente, em meio às atividades cotidianas do compositor (a canção que resume tudo, aliás, se chama Comfortable home). E também soa caseiro até pela forma meio despreocupada, às vezes óbvia, como ele vai perfilando as influências de Segall – e Fine, o desfecho, acaba saindo homenagem pra lá de digna à fase solo de John Lennon (ainda que a letra otimista pareça ter sido escrita por McCartney). No meio do caminho, psicodelia lavada a seco: My head explodes e I can’t feel it são canções enormes armazenadas sem muito cuidado, em pequenos recipientes. Tá certo: é só o começo de uma amizade.   

Demolished thoughts | Thurston Moore | 6

Pensando bem, e que tolice a minha!, nos anos 90 eu acompanhava os episódios da música pop como quem assistia a um filmezinho maniqueísta – grunge versus punk-pop, Nirvana contra Michael Jackson, Radiohead infinitamente mais legítimo que Muse. Nesse script, o Sonic Youth me parecia uma banda na contracorrente da década, e minha impressão era de que eles reagiam a absolutamente tudo o que era criado na época. Daí meu espanto ao ouvir um disco de Thurston Moore que não apenas tem a produção de um dos artistas-símbolo dos anos 90 (Beck Hansen, o mascote do pós-tudo) como não faz nadinha para destoar daquilo que a gente espera de um álbum-padrão de singer/songwriter. Polido, “delicado”, franco, direto (e inclua aí qualquer outro adjetivo que você aplicaria a um disco solo do Richard Ashcroft), Demolished thoughts é uma das maiores surpresas do ano. E tem baladas tocantes que machucam de verdade, como Illuminate. Atenção ao contraste brutal entre a interpretação distanciada de Moore e melodias tão afetuosas. Pena que, depois da terceira faixa, o álbum sinta a falta de canções mais duradouras – metade do disco parece Sonic Youth unplugged, faixas conhecidas num modelito diferente. E aí, meu filho, não há Beck Hansen que dê conserto.

Superoito express (40)

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4 | Beyoncé | 7

Faltou timing, é verdade. Mas, se existe um disco da Beyoncé que faria por merecer o nome Dangerously in love, é este aqui. E não muito por conta do clima de guerrinha dos sexos que embala o primeiro single, Run the world (Girls). Aliás, um hit tão colante, no esquema super-bonder (o chiclete mais gostoso que a M.I.A. não confeccionou em 2011), quanto enganoso. Não é, de forma alguma, um cartão de visitas confiável pro álbum. O perigo, nas canções, é de ordem sentimental: a protagonista deste drama não é a musa girl-power, mas um mulherão que peca por amar demais.

O gênero é melodrama. Melodrama pop. Melodrama sirkiano. Na faixa de abertura, Beyoncé geme de desejo, deitada nos lençóis cor-de-rosa do produtor The-Dream (e há um fortíssimo perfume kitsch em versos como “não entendo muito de álgebra, mas sei que um mais um é igual a dois”, da baladona 1+1). Logo depois vem a ressaca moral: em I care, lamenta não ser totalmente correspondida (“sei que você não se importa muito, mas eu ainda ligo”, avisa), enquanto o refrão vai desmoronando em guitarras pop-rock. A seguinte, I miss you (de Frank Ocean), tranca as portas do quarto: soa como um sussurro, uma declaração quase constrangedora de amor (e é uma pena que a faixa pareça incompleta, sem um terceiro ato).

Nas primeiras faixas, o disco vai se lambuzando nesse gel romântico com tanta convicção que soa coeso como nenhum outro que Beyoncé gravou. Depois, no entanto, chegam os argumentos para quem defende a ideia de que o álbum morreu. São tantas as expectativas comerciais em torno da cantora que ela não consegue manter o foco: recorre à inevitável cartilha brega de Babyface (Best thing I never had, broxante), vai ao songbook de Diane Warren (I was here, tão ruim que arrepia) e desce à pista de dança quando parece menos apropriado (ainda que Party, produzida por Kanye West, tenha algum músculo). O disco termina com dois bons singles: além de Run the world, tem Countdown. Que vão fazer sucesso, sim, como não? Mas que acabam denunciando o fracasso de Beyoncé: não foi desta vez que ela conseguiu gravar um ÁLBUM (e o triste é que, aqui, esse parece ter sido um objetivo levado a sério).

D | White Denim | 7

Deveria parecer uma progressão natural: uma banda de garage rock assmidamente saudosista – que concebeu um repertório inteiro replicando o som de ídolos bastardos do fim dos anos 1960 – resolve virar as páginas do calendário e gravar o que entende como o típico disco psicodélico setentista, com todas as dores, delícias e manias do período (espere, portanto, encontrar clichês de prog rock, jazz, blues, além de letras sobre drogas e fazendas). Em tese, é uma guinada até muito previsível. Mas ainda me parece surpreendente notar que aquele trio meio desleixado e galhofeiro (que já foi comparado a The Hives e White Stripes) se reinventou como um quarteto detalhista, até um pouquinho cerebral (o disco é praticamente uma homenagem completa, faixa a faixa, aos ídolos do grupo). Tudo o que eu não esperava deles era uma balada sóbria como Street joy. Que está aí prontinha para entorpecer o fã de Tame Impala, se é que eles ainda estão na sala (estão?).   

Cults | Cults | 6.5

Não é uma história nova, sabe? Cults é a novidade nova-iorquina absolutamente adorável que amacia os nossos headphones neste outono gelado. Deveria, é claro, existir um prêmio para esse tipo de disco, que transforma a vida em algo muito mais simples e doce – numa canção açucarada de dois minutos. Mas, dissipado o encanto dos primeiros dates, este début fofo começa a soar um tantinho como aquela comédia romântica agradável-porém-ordinária. Entende o que quero dizer? Aquela que, apesar dos diálogos espertinhos e do turbilhão de afeto, perde um pouco da graça assim que notamos o quanto depende de um esquema narrativo que é mecânico, velho, e não tem alma. Go outside e You know what I mean estão à altura do primeiro disco do Pains of Being Pure at Heart, mas eu aposto que este duo boy-meets-girl vai dormir um soninho totoso no meu hard drive, de conchinha com as Pipettes e o I’m From Barcelona. Apenas mais um rostinho bonito?    

Born this way | Lady Gaga | 6.5

Antes que me crucifiquem, preciso admitir que o novo da Lady Gaga é um avanço tremendo, quase inacreditável, em relação a seus discos anteriores. Porque antes, amigos, eu ficava com a impressão de existir duas Gagas: a popstar dos clipes e das revistas, que curtia uma avacalhação nonsense, e a cantora de hits tão convencionais (e medrosos, veja a contradição) quanto qualquer armação do Black Eyed Peas. Em Born this way, a imagem finalmente entra em sincronia com o som. O resultado dessa sobreposição, como não poderia deixar de ser, é um disquinho esquizofrênico, frenético, indeciso, tomado por falsas polêmicas e um desejo enorme de aparecer. Talvez nem tão pessoal quanto parece (na verdade, é apenas um álbum que combina com o visual mutante e os golpes de marketing de Gaga), mas um produto mais vívido que os anteriores. O que não justifica, porém, as crises histéricas mais irritantes: da faixa-título, que reprisa Express yourself sem piscar o olho para o público, a misturebas inaudíveis como Americano, o disco melhora muito na segunda metade, quando engole todos os excessos oitentistas que nem Brandon Flowers tem a pachorra de defender. Termina muito bem, com o saxofone viciante de Egde of glory. Mas é um caminho longo, cheio de lombadas e ranhuras, que pode nos levar a disquinhos um pouco menos tortuosos. Ainda assim, não há como negar: Born this way é o DNA de Gaga, a personagem.  

Nostalgia, ultra | Frank Ocean | 6

Por falar em picaretagem pop, Frank Ocean leva o conceito de copy+paste a um outro patamar. Soulman da geração Soulseek, o rapaz sensível da gangue Odd Future lançou por conta própria este EP (de 14 faixas, vá entender) que tem a aparência de uma mixtape gravada às pressas para a namorada. Isso é o futuro? Pode ser que sim. Mas, se eu fosse a musa do sujeito, recomendaria urgentemente uns 20 discos interessantes para que ele não precisasse roubar as melodias de Strawberry swing, do Coldplay, e de Hotel California, do Eagles. Apelações à parte (e são muitas), fica difícil resistir aos amassos de Novacane, mais um indício de que o novo R&B vai seduzir o mundo com um charme marrento todo especial (Drake e The Weeknd estão na luta, mano). No fim do baile morno, entendi por que o homem preferiu rotular este disco com o formato EP: o melhor, o maior e o mais intenso, tenho certeza, está por vir (e vamos combinar de uma vez por todas, bróder: Coldplay não é um tipo muito saudável de nostalgia, ok?).

Superoito express (39)

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Burst apart | The Antlers | 7.5

Como seria nossa amizade com o The Antlers se esse trio tivesse nascido em Londres e lançasse discos por uma grande gravadora (a EMI, digamos)? Talvez eles seriam rotulados como uma aposta da indústria musical para reforçar o segmento ocupado pelo Elbow, pelo Wild Beasts: grupos que, em maior ou menor intensidade, satisfazem os desejos de fã trintão que ainda torce para que o Radiohead grave um novo Ok computer (ou, vá lá, um outro In rainbows).

Mas, já que eles são nova-iorquinos e lançam discos por selos muito pequenos, a tendência é que essa história seja lida de outra forma, com um pouco de condescendência. Ok. É uma banda que soa tão sincera, tão verdadeiramente à beira de uma convulsão (corações sangrando!), que dobra nossa ranzinzice e faz com que desviemos o olhar daquilo que está na cara: Peter, Michael e Darby ainda estão digerindo muito lentamente, e com deslumbramento, o som dos ídolos (e, enquanto isso, criando derivações lindas como No widows e Putting the dog to sleep).

Ó, irmãos, cá está o dilema: diante de um disco tão apaixonante (e também tão óbvio, para padrões do indie rock), como proceder? Para cada referência superficial (e para cada versinho rebuscado que não chega a lugar algum), o Antlers vai criando um novelo sentimental que nos captura por completo. É singelo, às vezes apelativo, mas irresistível: por isso muito parecido com o primeiro disco do Band of Horses, Everything all the time. Menos monocromático e deprimente que Hospice, de 2009, porém mais arriscado, e por opção (se eles quisessem, gravariam um disco inteiro de climões sinistros). Me ganharam. Só não me saiam com um Infinite arms daqui a seis anos, ok?

w h o k i l l | Tune-Yards | 7

Merrill Garbus, a voz do Tune-Yards, poderia passar apenas como a musa perigosamente imprevisível da estação – o equivalente às meninas do Warpaint (temporada 2010) e ao Micachu and the Shapes (temporada 2009). E, de fato, whokill é um álbum cuja estranheza colorida, frenética, nos seduz logo na primeira audição – é disco perfeito, por isso, para jornalistas que trabalham demais. Quando ouço com mais calma, encontro: lo-fi pós-tudo feito com autoridade (Gangsta, Es-so), lo-fi pós-tudo que desbota com o tempo (My country, Doorstep), certa obsessão por violência (Killa), uma linda canção triste no lugar errado (Wooly wolly gong) e ideias de afro-pop que soam ainda imaturas, mas que talvez rendam grandes coisas nos próximos discos. É um grude. Mas é só o início.

Hot sauce committee part 2 | Beastie Boys | 6.5

Há os que compararam à energia teen de Licensed to ill (1986), há os que lembraram do espírito noise de Check your head (1992) e Ill communication (1994). Eu, que ouvi todos esses discos muitas vezes, não arredo pé: pra mim, Hot sauce committee part two vem no mesmo feixe de Paul’s boutique (1989) e Hello nasty (1998), discos em que a zoeira de samplers, que piscam feito árvore de Natal, domina a festa. Ouça Ok, por exemplo: é ou não é um filhotinho de Intergalactic? Soa como se eles tentassem, com muita força, reprisar o lance mágico. Taí: percebo uma banda tentando se reintegrar à própria mitologia – como o sujeito que, depois de uma crise, retorna à cidade de origem. Talvez por isso o disco seja um pouco parecido com qualquer outro que eles gravaram: e também um pouco melancólico, já eles próprios sabem como, em 2011, já não fazem mais tanta diferença assim.

Wasting light | Foo Fighters | 6

É, de certa forma, quase um irmão desse disco novo dos Beastie Boys – já que o Foo Fighters também faz um flashback para recuperar algo que a banda perdeu. Os mais recentes (principalmente Echoes, silence, patience and grace) eram discos muito técnicos, álbuns polidos, para disputar campeonato de eficiência. O que eles procuram aqui é a virulência dos primeiros discos e algo do desespero de Kurt Cobain – mas parece uma busca inútil, já que, por mais que se tente reprisar a juventude, tudo o que nos resta no fim do espetáculo é um grupo de adultos entediados, ricos, famosos, tocando rock numa garagem. A produção de Butch Vig é pragmática (como sempre), evitando espaços em branco, e Dave Grohl segue abastecendo o repertório para arenas superlotadas. Mas, pronto-falei: não consigo acreditar numa única palavra que ele canta. E, no mais, isto aqui soa mais ou menos como os discos anteriores: eficiente. Só que mais enxuto. É o bastante?

Circuital | My Morning Jacket | 5

Para uma banda que começou a carreira como uma espécie de Grateful Dead para fãs de Flaming Lips, o My Morning Jacket não poderia ter se transformado em algo mais distante daquilo que esperávamos dele: Circuital soa como Fleetwood Mac para fãs do Wilco. Eu não consigo ir contra essa filosofia de mudar e surpreender a cada disco, mas, deus!, taí uma das poucas bandas que deveriam parar de tentar. Quase todas as reviravoltas me parecem desengonçadas ou, no mínimo, equivocadas. Em Evil urges (2008), que era medonho, eles acenaram para Prince e Radiohead. Desta vez, eles criam uma espécie de mashup com Creep e Sting, numa faixa-título que resume as fraquezas do disco. Algumas faixas ainda retêm a graça country-rock do primeiro disco, mas vêm embaladas numa produção inofensiva, higiênica. O crítico da revista pode até curtir (olha lá, eles são inquietos!), mas duvido que ouça pela quarta vez.

Superoito express (37)

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Wounded rhymes | Lykke Li | 8

Francamente: quando usada para fins terapêuticos, a música pop pode provocar efeitos vexatórios. Para cada Blood on the tracks e Plastic Ono Band, há toda uma galeria de astros do emocore e musas folk “sensíveis” para deixar muito claro que às vezes é melhor abrir um blog do que torrar dólares em estúdios de gravação. Wounded rhymes prometia momentos de vergonha alheia — é um álbum à beira de um ataque de nervos, neurótico toda vida, em que Lykke Li tenta nos convencer de que não é a menina graciosa e sentimental de Youth novels (2008) —, mas prefiro entender este disquinho chiliquento, temperamental, como o primeiro capítulo de uma série de HQs sobre uma super-heroína sueca que calhou de acordar com o pé esquerdo. Robyn que se proteja.

Lykke Li entende o funcionamento desse tipo de álbum e, como acontece de forma quase generalizada no pop sueco (o disco é produzido por Bjorn Yttling, do Peter Bjorn and John), interpreta as canções com um distanciamento irônico que altera o sentido das letras enfezadas: elas deixam de soar como desabafos gratuitos e passam a contrastar com melodias que simulam a doçura de grupos femininos dos anos 60. Os hits são facílimos, o clichê do clichê, mas existe algo dissonante nos arranjos, cheios de ecos e efeitos fantasmagóricos que sugerem a imagem de um galpão vazio, abandonado. No meio desse deserto cor-de-rosa, depois de se rasgar toda, Lykke cria o clima sinistro: “O silêncio é meu namorado. Ó, silêncio, eu sou soa namorada.” Uma graça. E assustador.

Underneath the pine | Toro Y Moi | 7.5

O segundo disco de Chaz Bundick pode soar como uma evolução se comparado ao anterior, Causers of this (2010). Mas, pelo menos para mim, a comparação parece quase impossível. Aquele era um disco introvertido, sussurrado, tão nórdico — o novo é um mil-folhas recheado de soul e psicodelia, caixinha de sonho nos moldes de Andorra, do Caribou. Em entrevistas, Chaz diz a ideia era criar um álbum folk, e talvez essa seja uma boa forma de descrevê-lo: é folk music processada no laptop de um leitor de blogs de indie rock (Sonic Youth, Daft Punk e J Dilla estão entre os ídolos do sujeito). Nas primeiras faixas, parece um joguinho frio — mas é no miolo do disco (com as carnudas Got blinded e How I know) que Chaz mostra o plano de voo de um álbum que decola lentamente, vai às nuvens e depois desce ao solo com total elegância. É o que chamam de ataque surpresa.

Hardcore will never die, but you will | Mogwai | 7

Meu preferido do Mogwai ainda é Come on die young, de 1999. Mas admito que o disco me infernizou porque a sonoridade da banda, para mim, ainda soava como um mistério. Era diferente de tudo o que eu ouvia na época: selvageria e delicadeza em medidas equivalentes, free jazz + punk (e a impressão de que havia algo doentio no ar). Com o tempo, a banda teve que lidar com o fato de que esse estilo passou a soar familiar aos nossos ouvidos. Talvez desde Rock action (2001), eles gravam discos que não nos assustam, mas que vão humanizando esse estilo (“space rock”, prog, “pós-rock”, chame como quiser). Hardcore will never die é um dos melhores momentos dessa fase mais desencarnada: você ouve o disco e imagina uma banda ensaiando no estúdio, procurando por horas e horas o “riff mágico”. É uma outra beleza, muito diferente daquela antiga, mas tá lá: ela também nos hipnotiza.

Space is only noise | Nicolas Jaar | 7

A história de Nicolas Jaar é tão cinematográfica que nos deixa à vontade para ignorar o que há de mais frágil neste disco de estreia: nascido em Nova York, ele passou a infância em Santiago (Chile) e estreou na eletrônica aos 14 anos. Space is only noise é o catálogo de referências desse garoto-prodígio (agora com 21 anos): pop francês e jazz, Kraftwerk e trilhas sonoras de ficção científica, minimal e Ray Charles. Os sons desencontrados, às vezes abandonados em vinhetas — mas tudo de propósito, já que o conjunto abre centenas de possibilidades para o próximo disco, vide Flying Lotus e Bibio —, mostram que Nicolas está afinado a um grupo de artistas que vê o álbum como uma espécie de bloco de notas: cada faixa é uma experiência — e a graça não é transformá-la numa canção convencional (mas exceções como a faixa-título e I got a woman provam que o garoto se sairia muito bem nesse ramo).

Superoito express (36)

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Let England shake | PJ Harvey | 7.5

Quando o contista que sempre escreve livros em primeira pessoa, íntimos, resolve lançar um romance histórico em terceira pessoa, o leitor fiel primeiro estranha e depois entende que, no desvio inesperado, o ídolo se põe nu. Soa como uma especie de recomeço. Na saga de PJ Harvey, Let England shake é essa obra que desorienta: musicalmente, a cantora permanece numa zona de conforto (cercada por uma “guarda real” que inclui o parceiro John Parish e o produtor Flood), mas o tema e o contexto das canções — que poderia render um roteiro de filme de guerra pra inglês filmar — obriga a cantora a romper o próprio estilo num ponto fundamental (e vou explicar de um jeito singelo, mas lá vai): em vez de olhar para dentro, ela agora olha para fora.

Daí que, se o disco não chega a parecer um objeto totalmente estranho dentro do repertório de Harvey (a sonoridade, uma espécie de folk rock despedaçado, lembra um pouco A man a woman walked by, que ela gravou com Parish em 2009), me parece o mais arriscado de uma carreira com muitos riscos. É que, no momento em que ela se obriga a seguir um “script” e ir descendo ao passado sangrento da Inglaterra (e com toda uma pesquisa musical que é aparece de modo sutil, um pouco como uma atualização das war songs de Dylan), ela deixa de depender do tal “ponto de vista feminino” que conduziu discos inteiros, como Uh huh her (2004) e Is this desire? (1998). Não serei eu a desconsiderar um esforço desses.

Mas acredito que essa transformação — que tanto entusiasma os fãs do disco — acaba escondendo ou até compensando as fragilidades do álbum, como se fosse o suficiente para provar que Harvey é uma grande artista. Quanto mais ouço, menos forte, menos “importante” ele parece. Principalmente a segunda parte, quando as ideias de Harvey (tanto musicais quanto poéticas) vão se quebrando em pequenas narrativas que se dissolvem no ar. Já a primeira parte contém, de verdade, algumas canções valentes: The words that Maketh Murder levaria Nick Cave às lágrimas, e a balada England, que parece convidar o espírito de Joan Baez para bater um papinho com Joanna Newsom. Mudar de perspectiva é um desafio para Harvey, mas me pergunto se ideias monumentais não deveriam vir acompanhadas de canções um pouquinho mais corajosas. Admirável, mas não consigo cair de amores.

Here we rest | Jason Isbell and the 400 Unit | 7

É o disco em que entendemos, muito didaticamente, por que Jason Isbell saiu do Drive-by Truckers, para onde provavelmente nunca voltará. Enquanto a banda procura um country rock lascado, que combine com personagens degenerados, o som de Isbell se torna cada vez mais polido, como se o objetivo do compositor fosse as paradas de sucesso para o público “adulto contemporâneo”. Dito isso, lembro que Isbell é um compositor tão talentoso quanto a dupla principal dos Truckers e, se a produção do disco higieniza tudo o que encontra pela frente, as canções sobrevivem a esse perfume de “soft rock”. É um disco para os fãs de Sky blue sky, do Wilco, e de The king is dead, do Decemberists: melodias aparadas, sem fissuras, como pedaços de madeira talhados com esmero e amor pelo ofício — no mais, Alabama Pines, Codeine e Stopping by são canções que o Uncle Tupelo lançaria com muita alegria no início dos anos 90.

12 desperate straight lines | Telekinesis | 7

Aprendam aí, Jonas Brothers: Michael Lerner cumpre todos os mandamentos do power pop, mas nem por isso soa como se estivesse diluindo o repertório do Fountains of Wayne e do Wings. Os discos do Telekinesis são aparentemente muito simples, quase tolos (o riff estrondoso, os versos cheios de tristeza juvenil, o refrão que ilumina uma cidade inteira; tudo isso em menos de três minutos), mas também muito precisos nesse tentativa de explorar tudo os fundamentos do gênero: franqueza, doçura, alguma melancolia. Está tudo no título: 12 linhas retas e desesperadas. Em 50 ways, Lerner cita Paul Simon (mas soa como uma versão nervosa do The Shins). Em Car crash, fala sobre um caso de amor que começa bem até o momento em que você começa a se sentir tão sozinho. Em Dirty thing, narra o início o meio e o fim de um namoro de verão. Não tem muito happy end por aqui. E é tudo muito dolorido, ainda que pareça fácil.

Hotel Shampoo | Gruff Rhys | 6

Lembro que, quando ouvi Rings around the world (2001), imaginei o seguinte: quando o Super Furry Animals assumir de vez, sem culpas, o amor por Burt Bacharach, talvez grave o disco pop mais bonito do mundo. A banda sempre ficou em cima do muro em relação a isso, mas, 10 anos depois, Gruff Ryhs parece praticar essa ideia de “disco de easy listening” com este Hotel shampoo. A má notícia é que, além de não ser o disco pop mais bonito do mundo, o álbum joga água na feijoada de Rings around the world, amenizando quase tudo o que aquele disco dizia. Se aquele era um álbum que brilhava forte no escuro, Hotel shampoo é de pelúcia, uma tentativa meio estabanada de pescar e adoçar algumas referências do rock dos anos 60. Sem muita convicção. Como se Gruff avisasse: estou brincando de ser gentil, aguardem o meu próximo disco. E, apesar de faixas muito boas (como Candy all over), acaba soando, no máximo, engraçadinho.

Superoito express (35)

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Zonoscope | Cut Copy | 7.5

O terceiro do Cut Copy é daqueles discos dedicados, espaçosos, que cobram nossa atenção pelo menos por uma noite inteira (a última faixa tem 15 minutos e se chama Sun God). Nota-se que os australianos estão aflitos para iniciar um relacionamento sério com público & crítica, mais ou menos como a garota que convida o namorado para jantar e prepara uma paella com cinco opções de sobremesa. E lá está o sujeito empapuçado, esparramado no sofá, pensando: “mas não precisava tanto…”

Uma das músicas atende por Blink and you’ll miss a revolution, e esta é uma prova de que os chapas — apesar da aflição — têm bom humor. No mais, estamos lidando com caso tardio de “tensão do segundo disco”, em que um novato bajuladíssimo se vê obrigado a honrar um álbum que nos conquistou lentamente, que roeu corações pelas beiradas (o ótimo In ghost colours, de 2008). Missão inglória. Mas taí.

Primeira consequência, inevitável: Zonoscope é mais gordo que o anterior, com um cenário mais vasto (a capa tem um quê apocalíptico) e novas combinações de referências dos anos 80 e 60 — de uma vez por todas, eles se esquivam de rótulos como “electropop” e “indie dance”. A primeira metade soa mais fluente do que a segunda; que, por sua vez, se aproxima das colagens de James Murphy (eletrônica pelo ponto de vista de fãs de rock). Mas, ao mesmo tempo, ele confirma uma banda que quer abraçar o mundo (Take me over é descaradamente um candidato a sucessor de Take me out, do Franz) e, ao mesmo tempo, soar imprevisível (a psicodelia de Where I’m going lembra outra banda australiana, o Tame Impala). Ben Allen, produtor de Animal Collective e do Deerhunter, faz a mixagem — talvez o responsável pela camada de poeira sonora que faz do disco um set turvo, dopado.

Muita gente vai elogiar (e esse tipo de esforço merece ser reconhecido), mas não vou esconder: é um álbum que me agrada quando relaxa os músculos — a parte final de This is all we’ve got, por exemplo, é uma lindeza. Deixa uma ótima impressão (e sim, vieram para ficar), mas… Não precisava tanto.

Dye it blonde | Smith Westerns | 7.5

No primeiro disco, de 2009, havia faixas como Dreams, Girl in love, Be my girl e My heart. No segundo, Weekend, Fallen in love, Smile e Dance away. Só pelos títulos, já se percebe que este quarteto de Chicago ainda não acordou de um sonho bom. E impressiona como eles conseguem prolongar este verão: Dye it blonde é um disquinho jovial de glam, power pop e certa melancolia teen (os integrantes têm entre 18 e 20 anos) que soa tão coeso, tão autoconfiante quanto a estreia do Pains of Being Pure at Heart, por exemplo, ainda que muito mais doce. E pode parecer simples, mas é algo raro — um álbum que soa muito agradável, mas nunca nos provoca com golpes de fofura barata. Várias doses por dia e aposto que dá espinha.

Ventriloquizzing | Fujiya & Miyagi | 6

Nos dias bons, Fujiya & Miyagi gravou faixas que soam como um Kraftwerk movido a antidepressivos — versos singelos, disparados como slogans publicitários, com texturas se sobrepondo de 15 a 15 segundos. É um modelo que ainda não me entedia (há pelo menos um grande momento neste quarto disco, Sexteen shades of black and blue), mas ele ainda não dá conta de justificar um disco inteiro. E, sinceramente, não sei se a situação melhoraria se eles decidissem lançar uma compilação com as melhores faixas da carreira: ainda assim soaria repetitivo, como se a primeira faixa fosse o suficiente. Em pílulas, no entanto, soam adoráveis.

Kills | jj | 6

Uma mixtape estranhíssima da dupla sueca, que sampleia quase didaticamente canções que conhecemos muito bem (Kill you, por exemplo, chupa Paper planes, da M.I.A., já batidíssima; também tem Power, do Kanye West) e vai “matando” uma a uma. Não conta como um álbum “oficial”, e esse tom de brincadeira deixa a banda mais livre para cometer todas as loucuras possíveis. Mesmo com tanta liberdade, não consigo encontrar muitas faixas realmente matadoras (perdoem o trocadilho), e em muitos casos a anedota não surte o efeito que eles desejam. De qualquer forma, uma banda capaz de tudo.

Superoito express (34)

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Tron: Legacy | Daft Punk | 6.5

Pode soar como uma trilha sonora muito funcional, daquelas que só fazem sentido quando anexadas às imagens do filme. Mas é um disco mais engenhoso do que isso: como de costume, o Daft Punk vai ao laboratório e altera a composição de gêneros já muito conhecidos. Em Discovery, a matéria-prima era a disco music. Em Human after all, os riffs de hard rock. Agora, a pompa cinematográfica de maestros como Maurice Jarre e Vangelis.

A orquestra de 85 integrantes não intimida os nossos robôs favoritos, que vão alternando elementos de música erudita com a eletrônica mais comercial. O mix não soa agressivo, pelo contrário (a sensação é de que já ouvimos esta trilha outras vezes), mas a ideia de recombinar vários clichês de soundtracks explica muito sobre os métodos da dupla. As faixas aterrissam aceleradamente – às vezes desembarcam sem que as notemos. Quase impossível amá-las. Mas brilham feito vagalumes.

Body talk | Robyn | 8.5

Quando escrevi sobre os dois ótimos minidiscos que Robyn lançou durante o ano, comentei que, unidos num mesmo pacote, eles dariam no grande álbum pop de 2010. Pois bem: aí está ele. As novas faixas deste Body talk redux podem não provocar dependência química, mas o set já soa como greatest hits. Pelo menos 80% das músicas entende o que há de mais poderoso na música pop: cumplicidade e catarse. Com arranjos introspectivos, seria um dos discos mais melancólicos da temporada (reparem nos versos sobre amores perdidos, crises de identidade, depressão e solidão). Mas o clima é festivo de doer. Blood on the dancefloor.

Come around sundown | Kings of Leon | 5.5

Remete aos dois primeiros discos da banda — sob uma brisa de country rock setentista —, mas o Kings of Leon continua gravando álbuns que me parecem unidimensionais: uma única ideia não muito particular aplicada repetidas vezes, com um estilo reto, plano, “honesto”. Ainda não me convence, mas fico muito satisfeito que eles tenham abandonado alguns dos artifícios dos álbuns mais recentes, principalmente aquele verniz genérico de “modern rock” que os transformou quase que numa boy band. De qualquer forma, aposto que muitos dos fãs vão tratar este disquinho amarelado, despreocupado, como uma pausa para admirar a paisagem. Tem lá alguma beleza.

Happiness | Hurts | 5

Uma estreia que sofre de excesso de informação, como se cada faixa tivesse a obrigação de servir como carta de intenções para a banda. Pior é quando se nota que a banda em si nada tem de extraordinário: apesar do hype da imprensa britânica, o duo de Manchester não é o primeiro (nem será o último) a atualizar o synthpop dos anos 1980 — no caso, mais para New Order do que para Pet Shop Boys. Três singles muito fortes (Wonderful life é daqueles que não se esquece nunca), mas deixa a sensação de que eles ainda precisam encontrar alguma tesouro no mar de purpurina. De qualquer forma, confirma a tendência da imprensa inglesa para superestimar projetos imaturos.