Smashing Pumpkins

Os discos da minha vida (40)

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A saga dos 100 discos que traumatizaram a minha vida apresenta um episódio especialmente freudiano. Não sei exatamente por que, talvez meus sonhos expliquem (talvez seja algo que reprimi na infância), mas sempre tremo nas bases quando ouço os dois álbuns que aparecem neste quadragésimo episódio da saga mais geniosa e sensível do ciberespaço.

Algumas explicações possíveis: o disco de número 22 tem The fool on the hill, que resume o lado carente/autodepreciativo da minha pré-adolescência, e a instrumental Flying, que serviu de trilha sonora para o primeiro filme caseiro que dirigi (uma animação de fantoches inspirada livremente em Caminhos perigosos). 

Mais explicações: o disco de número 21 tem Disarm, que resume o lado psicótico/suicida da minha pré-adolescência (que, como vocês podem notar, foi um tanto contraditória e movimentada), e Soma, que me apresentou ao universo de Aldous Huxley sem que eu desconfiasse disso.

São dois ótimos discos, que eu gostaria muito de ouvir mais vezes, mas não consigo. O efeito de nostalgia e (às vezes) puro desespero que eles provocam é mais forte do que a revisão de fotografias antigas (sabe aquelas fitas empoeiradas de VHS, gravadas no aniversário da vó? pior). Por isso, faço o convite: ouça essas belezinhas, mas não me convide, ok?

E vamos em frente que esta segunda-feira está mais sonolenta que de costume. 

022 | Magical mystery tour | The Beatles | 1967 | download

Na história dos Beatles, está longe de representar um capítulo dos mais especiais. Na verdade, é uma loucura colocá-lo à frente de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado naquele mesmo 1967. Mas taí: esta coleção oportunista de singles (que abre com EP de trilha sonora) ainda me parece o bufê de sobremesas mais apetitoso do rock britânico, irrecusável do início ao fim. Algumas das minhas favoritas do grupo estão aqui (entre elas, a preferida de John Lennon, I am the walrus). No mais, o tempo mostrou que “sobras” de Sgt. Pepper’s como Strawberry fields forever e Penny Lane são mais poderosas, mais perenes que a maior parte das canções incluídas naquele discão. Sem querer forçar comparações absurdas (mas já forçando), é como se os Beatles tivessem decidido gravar uma alternativa pop, despreocupada, ao formato conceitual que estava em voga na época: um Help! com material de Sgt. Pepper’s. É claro que a história não aconteceu assim, mas a sensação de leveza genial é essa aí. Top 3: I am the walrus, Strawberry fields forever, The fool on the hill.

021 | Siamese dream | Smashing Pumpkins | 1993 | download

Você, caro leitor, não era um moleque de 14 anos quando este disco foi lançado? Então entendo por que Siamese dream talvez não tenha despertado empatia imediata. Antes de se tornar uma figura quase cartunesca (em alguns momentos, grotesca), naquela época, no inverno rigoroso de 1993, Billy Corgan era apenas um velho adolescente com muitos esqueletos (e algumas belas canções) dentro do armário. Poucos discos de rock do período (talvez apenas Nevermind) se comunicaram tão diretamente com uma juventude que não conseguia mais se conectar com o colorido eufórico e impessoal da MTV. Today, o single que estourou por aqui, talvez sintetize essa melancolia irônica, essa vontade louca de quebrar os brinquedos de plástico: o clipe se aproveitava de uma palheta agradável de cores, mas havia algo histérico, desesperado na interpretação de Corgan. Ele nos convencia que não, hoje não é o melhor dia de todos – e amanhã as coisas não vão mudar. O sofrimento do vocalista, naquela temporada grunge, soava tão overacted e tão plausível quanto o nosso. Se consumido depois dos 30 anos, este belo disco de teenage angst deve perder quase todo o charme (mas não sei, morro de medo de tentar de novo). Top 3: Disarm, Cherub rock, Today

Após o pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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Superoito no Planeta Terra 2010

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Phoenix, meu favorito da noite

A comparação é totalmente injusta, mas digamos que seja inevitável: se show do Paul McCartney foi um fenômeno da natureza, torrente de emoções, uma choradeira infernal, os do festival Planeta Terra foram apenas… shows. Pois é. Uma história bem mais mundana. Mas, ainda assim, a ser contada aos nossos netos roqueiros.

Eu poderia escrever um texto longo sobre o assunto, mas este blog sempre perde a luta contra a minha rotina. No momento, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro toma quase todo o meu tempo, diariamente, das nove da manhã às duas da madrugada. Escrevo este post, por exemplo, num raro intervalo entre uma obrigação profissional e outra, de pé e suando litros.

Pensei em fazer um pequeno diário sobre a mostra de cinema, mas duvido que algum leitor do blog se importe com o evento. Este ano, resolvi pular esta parte para poupá-los do enfado e me livrar de dores de cabeça.

Numa velocidade enlouquecedora (perdoem os deslizes), aí vão pequenos comentários sobre os shows do Terra. Lembrando que só consegui acompanhar as atrações do Main Stage (o som do palco, aliás, estava perfeito).

Phoenix | 8.5 | Um show reto, econômico, quase monocromático (a começar pela iluminação, que esconde os franceses em sombras), mas com o tipo de poder concentrado que encontramos em bandas como Strokes e Arctic Monkeys. A setlist amplia o formato do disco Wolfgang Amadeus Phoenix: um trator de hits compactos interrompido por uma muralha alta chamada Love like a sunset (numa versão bem diferente daquela que está no disco, mais rock e quase nada de eletrônica). Para quem os acusa de blasé, Thomas Mars se retratou direitinho: “nadou” sobre a plateia e provou ser um vocalista mais destemido e atlético do que Mika e Kevin Barnes. Para mim, o show mais divertido da noite (mas admito: minha percepção pode ter sido influenciada pelo fato de que eu fui praticamente atropelado pelo vocalista; saudade daquela grade). Momento mágico: Lasso.

Pavement | 8 | Um flashback estranhíssimo, já que agrada totalmente ao fã (a banda toca as músicas mais conhecidas de cada disco; mais acessível do que isso, impossível) mas, ao mesmo tempo, incomoda um pouco aqueles que, como eu, amavam uma banda menos polida, menos ansiosa por agradar aos fãs. Apesar da sensação de que há algo errado com esse revival, eles estão muito mais afinados (e sóbrios!) do que eu esperava. Velhos amigos, o tempo passou. Momento mágico: Stop breathing.

Of Montreal | 8 | Teatrinho psicodélico mui perverso e hilariante: o tipo de sonho pirado que te deixa encucado no dia seguinte. Ótimo confirmar in loco que Kevin Barnes é mesmo um dos melhores performers em ação — mas o som embolado em músicas como Heimdalsgate like a promethean curse me irritou um pouco. E nada de Famine affair? Momento mágico: Bonny ain’t no kind of rider.

Mombojó | 7.5 | Cada vez melhores (e este show conseguiu superar o do Porão do Rock). Ocuparam quase 1/3 do palco, tocaram às quatro da tarde e, ainda assim, uma performance mais potente do que a de muitas bandas que vieram depois. Só uma ressalva: o clímax do show é muitíssimo superior a todo o resto. Momento mágico: Deixe-se acreditar.

Novos Paulistas | 6.5 | Uma boa estrategia para encontrar uma brecha no palco principal do Terra. E Tiê — que canta, toca piano e violão — é a musa da noite. Momento mágico: Efêmera.

Mika | 6 | Um espetáculo da Broadway condensado em 60 minutos e interpretado quase que totalmente por apenas um ator. Se o quesito principal fosse profissionalismo e técnica, o melhor show da noite. Mas me deixou a sensação de um clipe do American idol: um cantor competentíssimo se virando com um repertório medonho. Momento mágico: Billy Brown.

Smashing Pumpkins | 5 | Um tédio. Eu, que era um grande fã dos Pumpkins nos anos 90 (acompanhem a lista de discos da minha vida e vocês verão), ainda não consigo entender por que Billy Corgan acredita que as músicas novas, de uma pobreza gritante, têm o direito de dividir o palco com maravilhas como Today, Zero e Bullet with butterfly wings. Não me irritei tanto assim com a arrogância do sujeito (cobrar simpatia de Corgan equivale a exigir ‘animação’ do Pavement), mas o problema é muito simples: conceito nota 10 (olhar para o futuro, valorizar inéditas, ignorar o oba-oba dos fãs), efeito nota 0 (as inéditas só revelam o quanto o vocalista tenta repetir o passado). Média 5 para a montanha-russa do festival. Momento mágico: Bullet with butterfly wings.

Agora vou ali ver uns filmes. Abs.

The suburbs, o clipe | Arcade Fire

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Este clipezinho arrepiante dirigido por Spike Jonze vai direto aos nervos do disco do Arcade Fire: existe algo nessas imagens que sintoniza a sensação de fim da adolescência. Até o subtexto político combina com as paranoias de Win Butler e cia – mas, mesmo sem isso, o clipe já seria um acompanhamento precioso para o vídeo de 1979, dos Smashing Pumpkins. Teenage angst.