Sleater-Kinney

express | 44

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Wild Flag | Wild Flag | 78 | O último disco do Sleater-Kinney (The woods, um dos meus favoritos dos anos 00) era um prédio implodindo, e soava mesmo como a desintegração sofrida de uma longa história. A estreia do Wild Flag (quarteto com Carrie Brownstein e Janet Weiss, ambas ex-Sleater) bate como uma espécie de renascimento: um bebezinho eufórico e hiperativo, sorrindo, batendo palminhas, cuspindo purê e descobrindo a beleza que existe nos discos do papai punk. As roqueiras-on-board não são mães de primeira viagem, e poderiam muito bem ter criado um disco calculadamente animadíssimo. Mas não. O Wild Flag passa uma impressão muito firme de que elas reaprenderam a se divertir, e o que se ouve é um recomeço a sério. “O som é o sangue entre nós dois”, elas cantam, logo na primeira faixa. E são as canções mais simplezinhas (como Boom, digamos) que se alastram com mais força – e o que seria apenas um disco back-to-basics, com os limites estreitos de uma garagem de quitinete, se torna um álbum que tenta (e consegue) recuperar um sentimento de estreia, de debutar graciosamente. Bonito.

Era extraña | Neon Indian | 71 | É aquela história que vocês conhecem: há os discos sobre a adolescência (Boys and girls in America, por exemplo) e os discos adolescentes (que se comportam inconscientemente como meninos de 15 anos). Este do Neon Indian me parece pertencer ao segundo grupo, e me transporta a um período da vida cheio de contradições, em que eu me sentia simultaneamente horrendo e especial, inadequado no mundo e entusiasmado com o desejo de descobrir esse mesmo mundo. E não faltam bipolaridades teenager a este disco: apesar de atender por Era extraña, ter sido gravado na solidão de um inverno congelante (na Finlândia) e soar dodói, ferido pela contemporaneidade (Future sick é a faixa-tema), também é um álbum empolgadíssimo com tudo o que está up-to-date na indielândia: cada música dá lambidinhas numa referência cool, do synthpop ao shoegazing, tudo amplificado e colorido pela mixagem de Dave Fridmann (aqui, mais para MGMT que para Flaming Lips). Tudo muito pulsante, às vezes cansativo de tão pulsante, às vezes genuinamente juvenil (Alan Palomo tem só 23 anos), às vezes viciante mesmo (Suns irrupt, grude bonito), com repulsa/ tesão por tudo o que brilha nos trending topics. Um disco que será acusado de tudo (novidadeiro e superficial), e talvez seja todo tolo mesmo. Mas se mantém vivo graças a uma energia meio pueril, adolescente (de usar o pop como balão de oxigênio), e dentro dessa fiação elétrica corre sangue – sangue purinho, inocente, mas sangue.

Lenses alien | Cymbals Eat Guitars | 71 | Um daqueles discos que não entrará em quase nenhuma lista de melhor do ano, mas que periga ser reavaliado lentamente. É que as ambições desta banda (pelo menos as ambições que aparecem aqui) têm menos a ver com provocar um efeito acachapante (um “uaaau” de primeira audição) e mais de ir acumulando pequenos efeitos e detalhes, que podem ir nos conquistando sem que percebamos. Parece até um disquinho perverso, que nos tenta a tirar conclusões apressadas (“todas as faixas se repetem numa eterna monotonia, que chato!”), mas depois se mostra muito seguro daquilo que quer – que é criar uma espécie de manto sonoro, que encobre e conecta todas as faixas. Para mim, é uma surpresa: a banda que eu conheci no disco anterior parecia mais disposta a sair se aventurando por aí do que a criar um itinerário circular, simétrico, meio matemático. Pois bem: disco impressiona quando nos familiarizamos a ele, ainda que eu não me sinta atraído a ouvi-lo com frequência, talvez porque a banda ainda me pareça um holograma de bandas mais interessantes dos anos 90. E é um álbum que admiro a certa distância – belo até pode ser, mas tocante (pelo menos para mim) não é.

The High Country | Richmond Fontaine | 59 | Os discos anteriores do Richmond Fontaine (pelo menos a parte que conheço, como Post to wire e o ótimo The Fitzgerald) podem ser lidos como livros de contos, com canções independentes (tramas) que comunicavam sutilmente entre elas. O novo arrisca com um projeto diferente: o que era coletânea de contos agora vira uma espécie de romance beat, com personagens que aparecem e desaparecem entre uma faixa e outra, melodias que alinham cenas, numa estrutura com algo de cinematográfica (tem cena pré-créditos, sequência de ação, momento intimista, clímax…). O repertório de temas daria uma fita indie americana bem previsível: violência doméstica, dramas de “gente comum” em paisagens interioranas e um script com tragédias waiting-to-happen, bem à moda da Fox Searchlight. Como acontece com esse tipo de disco-filme-novelão, a trama às vezes se impõe sobre as canções, a música (mesmo nos belos lamentos country que eles escrevem até dormindo) vai a reboque da ficção. É quando dá a vontade de desligar o disco e ver o filme (ou ler o livro, ou ouvir Johnny Cash).

50 discos para uma década (parte 2)

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Continuando a saga…

montreal

40. Hissing fauna, are you the destroyer? – Of Montreal (2007)

O oitavo álbum do Of Montreal soa como uma anomalia — para a banda, no underground desde 1996, e para o indie rock americano da geração 2000, que encontrou um ídolo ambíguo onde menos esperava. Mas, acima de tudo, o disco conta uma história extraordinária: depois de uma década inteira de psicodelia, Kevin Barnes chegou ao topo exatamente num dos momentos mais trágicos da vida. Transformar os dramas pessoais num cabaré multicolorido e afetado é, sim, um tipo de arte.

yeahyeah

39. Fever to tell – Yeah Yeah Yeahs (2003)

A estreia do Yeah Yeah Yeahs pode ter decepcionado quem esperava a crueza do primeiro EP — ainda, na onda pós-punk do início da década, poucos outros discos soaram tão ásperos —, mas já deixava clara a inclinação pop do trio, que (ironicamente) acabou fazendo sucesso com a faixa mais delicada do álbum (Maps). Apesar das mutações que viriam a seguir, ainda soa como a síntese das ambições da banda: o diabo na carne de Karen O.

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38. Twin cinema – The New Pornographers (2005)

Culpem o Canadá: o “novo rock” viu uma interessantíssima queda de braço entre Nova York e Vancouver, sem vencedores. A liga dos super-heróis canadense atendeu por New Pornographers, uma superbanda de power pop liderada por Carl Newman e fortalecida pelos golpes de Neko Case e Dan Bejar. Qualquer disco vale a pena, mas em Twin cinema a coletividade fala mais alto. E são tantas as pérolas que fica difícil escolher uma (The bleeding heart show?).

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37. The Marshall Mathers LP – Eminem (2000)

Por alguns minutos, esqueça o Eminem entediado e oportunista que você conhece desde meados de 2005. No início da década, o rapper soava como um Andy Kaufman do hip hop (ou um Sacha Baron Cohen pré-Brüno). Depois de criar um curto-circuito entre a própria biografia e a ficção mais doentia (nessa brincadeira, acbaou processado pela própria mãe). O tempo maltratou Eminem, mas The Marshall Mathers LP fica: é um slasher movie narrado em primeira pessoa, hilariante e perturbador.

sleater

36. The woods – Sleater-Kinney (2005)

Um dos discos subestimados da década merece ser redescoberto o quanto antes: o canto de cisne do Sleater-Kinney é um cataclisma — e, de bônus, contém um dos grandes trabalhos de Dave Fridmann na produção (antes de diluir os próprios truques no disquinho superestimado do MGMT). O trio trata as influências de rock clássico com a falta de cerimônias com que encarava o punk rock. O resultado é tão furioso quanto enxuto: nenhum ruído é usado em vão — e haja ruído.

yolatengo

35. And then nothing turned itself inside-out – Yo La Tengo (2000)

Os discos mais acessíveis do Yo La Tengo são os mais diversificados, que soam como coletâneas de rock psicodélico do final dos anos 60. Não é o caso desta pequena e silenciosa obra-prima. que parece ter sido gravada à meia-luz numa noite de inverno. Uma coleção de baladas sobre amor e casamento, trata-se de um dos álbuns mais maduros e delicados gravados por uma banda de indie rock. Provavelmente soou como uma surpresa até para o próprio trio, que não fez nada igual depois.

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34. Nixon – Lambchop (2000)

Quem tratava o Lambchop como uma banda de country alternativo foi obrigado a rever os conceitos depois de ouvir este Nixon, um álbum de soul music made in Nashville. Com arranjos cuidadosos de cordas e melodias etéreas que remetem a Van Dyke Parks, a banda cria sinfonias que revelam novos detalhes a cada audição. O clímax vem precocemente, com o coro gospel de Up with people — mas a maior revelação do disco é a voz de Kurt Wagner — o homem em queda.

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33. Give up – The Postal Service (2003)

O único álbum do Postal Service é um acidente brilhante: Ben Gibbard (Death Cab for Cutie) e Jimmy Tamborello (Dntel) trocaram pedaços de canções pelo correio (daí o nome do projeto) e, quase sem querer, criaram um modelo para toda uma nova geração do lo-fi americano. Em tese, parece bobagem (sussurros confessionais sob eletrônica sutil), mas a simplicidade dos arranjos e o clima de intimidade sugerido pelas canções o transformam num disco singular (e um que eu levaria para uma ilha deserta).

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32. Up the bracket – The Libertines (2002)

Preto no branco: este é o álbum britânico mais influente da década. A estreia do Libertines inspirou dezenas de bandas de garage rock, foi usada pela imprensa inglesa como uma espécie de termômetro para novidades e (apesar das semelhanças com os primeiros singles do Strokes, muito notadas à época do lançamento) vale como lembrança de que a banda de Londres já soou verdadeiramente como um quarteto. Dos grandes.

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31. Silent shout – The Knife (2006)

Há arrepios no terceiro álbum do Portishead, mas o trem-fantasma mais eficiente da década é este “disco de horror” da dupla sueca The Knife. Com vocais distorcidos que se aproximam do grotesco, Karin Drejer Andersson (Fever Ray) e Olof Dreijer fizeram um disco que explora ambiente sombrios e surrealistas como uma versão dark para Alice no país das maravilhas. Ame-o ou deixe-o, mas é complicado negar a sensação de estranheza que ele provoca.