Série de tevê

2 ou 3 parágrafos | Shrek para sempre

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O primeiro Shrek, hem, que baita alarme falso: a animação, lançada em Cannes em 2001, nos prometia uma disputa criativa muito interessante entre a Pixar (associada à Disney) e a PDI/Dreamworks. Mas a brincadeira perdeu a graça. A Pixar dominou o formato (e seguiu em frente) enquanto que a Dreamworks passou a reviver aquele ano de 2001, mais ou menos como o personagem de Bill Murray em Feitiço do tempo: um dia exatamente igual ao outro. 

Não que o estúdio de Jeffrey Katzenberg tenha se afogado em desleixo. Como treinar o seu dragão, Kung fu Panda e Bee Movie são filmes até cuidadosos, mas nada que se compare a um Ratatouille, a um Wall-E, a um Up – Altas aventuras. Cruel mesmo, no entanto, é comparar os dois “carros-chefe” dos estúdios: as séries Toy story e Shrek. No primeiro caso, a tentativa de crescer junto com o público; no segundo, a repetição mecânica de ideias que deram certo.

Ao contrário de Toy story 3, Shrek para sempre (2/5) deixa a impressão de um episódio mediano de um seriado de tevê que, após três temporadas, perdeu o viço. A narrativa segue um modelo-padrão de programas televisivos (com uma inspiração distante, e muito rasteira, de A felicidade não se compra): o herói passa por um momento de crise que transfigura o mundo em que ele vive – ao fim da trama, porém, a normalidade é reestabelecida. No caso, a normalidade é a vida em família, o matrimônio. Quando o ogro resolve abandonar o home-sweet-home e se lambuzar na solteirice, ele é duramente penalizado. Lição conservadora (e incômoda) da semana: os finais felizes são infinitamente felizes para quem se conforma com as convenções.

2 ou 3 parágrafos | Treme, primeira temporada

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A trama é muito menos intrincada, mas, quando comparo com The wire (e a comparação é inevitável, já que David Simon sempre será conhecido com o homem de The wire), os desafios de Treme (4.5/5) me parecem um pouco mais complicados, mais delicados. E é espantoso como, em 10 episódios, a série consegue se esquivar de tudo o que há de mais perigoso (e simplista) na ideia de usar um punhado de personagens para acertar contas com uma grande tragédia (a ação é encenada em Nova Orleans, três meses após o Katrina).

A comparação, ora pois: The wire era uma série policial que ia subvertendo o gênero ao esquadrinhar o cotidiano de uma cidade (Baltimore, em Maryland). Enquanto que Treme, coescrita por Eric Overmyer, já nasce indefinível. É um drama musical com elementos de investigação policial, digamos, e que me lembra os filmes-coral de Altman. Mais complexo do que isso: os roteiristas estão sempre se equilibrando numa linha muito fina, entre o ensaio sociológico (é o retrato de uma comunidade abandonada pelo governo federal, que tenta sobreviver e, quando muito, se reerguer) e a crônica sobre pessoas que não aparecem nas planilhas oficiais.

A série triunfa de um jeito e de outro. A narrativa é um lago mais ou menos plácido, silencioso, que, quando menos esperamos, é atingido por pedradas (dois momentos violentíssimos têm a ver com a morte de pessoas comuns, em circunstâncias nada extraordinárias). The wire (ou pelo menos a primeira temporada, a única que vi) já era um pouco assim, uma série que permite aproximação gradual entre o espectador e os personagens. Mas, capítulo à parte, Treme usa a música como elemento essencial para narrativa. E já seria uma série grande apenas por mostrar como o sentido das canções tão típicas de Nova Orleans foi renovado pelas circunstâncias desastrosas. A vida, especialmente ali, soou como blues.