Sérgio Machado

Alice

Postado em

Sei que é arriscado comentar episódios-piloto, mas Alice não merece a onda de comentários negativos que anda recebendo. Não digo que eu tenha caído de amores pelo projeto de Karim Aïnouz e Sérgio Machado (a campanha de marketing quer que eu me apaixone, e tudo o que está rolando é uma paquera tímida), mas taí uma série capaz de transportar para a tevê muito do que se tenta de mais interessante no cinema brasileiro contemporâneo.

Muito longe de bobagens como Mandrake, que não fazem nada além de chover no molhado, Alice é outra história, um outro Brasil, um outro cinema (sim, cinema). O olhar sensível de Aïnouz e de Machado para o ambiente que cerca os personagens (que vimos em O céu de Suely e em Cidade Baixa, por exemplo) se deixa revelar logo nas primeiras cenas, rodadas em Palmas, Tocantins. Quando a câmera se desloca para São Paulo, o que vemos não é uma cidade à cartão-postal nem à filme de horror, mas uma terra estrangeira filtrada pela percepção da personagem principal, entre o pânico e o deslumbramento.

Nas matérias de jornal, o que comentam é uma suposta inverossimilhança do roteiro (ninguém reparou as referências a Lewis Carroll?) e uma tese de que Karïm e Machado fizeram concessões demais. Por quê? Por terem optado por uma montagem mais acelerada, sem longos planos-seqüência? Por terem mergulhado numa narrativa urbana e fluorescente, como quem descobre um Brasil que já foi descoberto?

“Acho que a autoralidade está muito mais ligada ao olhar que às escolhas temáticas”, comentou Aïnouz. Alguém discorda? No fim das contas, a forma como os cineastas observam e encenam o país é mais importante que detalhes de dramaturgia – e tudo o que vi parece bastante coerente com o trabalho da dupla no cinema. Se eles conseguirem levar essas possibilidades até o fim, Alice será a primeira série brasileira da HBO digna de um box de DVDs. Estou acompanhando.