Sem aventuras

Gimme some | Peter, Bjorn and John

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Em Gimme some, o disco de indie rock mais eufórico desde o novo do Go! Team, Peter, Bjorn e John pedem uma segunda chance. Pedem não: imploram. Imploram não: se ajoelham.

Você ouve uma, duas vezes e já nota o desespero. É um álbum que faria de tudo (e faz quase tudo) para nos agradar.

Entendo a aflição. Depois de acertar quase acidentalmente com Young folks (e, por consequência, o disco Writer’s block, de 2006), os suecos correram riscos, aumentaram as apostas e, sem sorte, perderam tudo. Quase ninguém entendeu Living thing (2009), o “disco difícil”. E ninguém ouviu Seaside rock (2008), o “projeto experimental”.

Gimme some é o menino interiorano que, depois de fracassar na cidade grande, volta ao lar com presentes para todos os amigos.

O que, se pensarmos mais com a cabeça do que com o coração, não deixa de ser uma tentativa digna de lidar com os reveses do pop.

Amamos os one-hit wonders, mas o grande pop sempre foi um negócio arriscado. As bandas que respondem ao sucesso com discos insensatos, sem certezas ou reprises de melhores momentos, aceitam entrar num jogo que pode sim resultar em invisibilidade comercial (os recentes do MGMT e da M.I.A., por exemplo), mas às vezes garante recompensas incríveis, que nunca serão merecidas por quem se contenta com o mediano (esses estarão sempre a uma distância segura de Radiohead, Wilco, Flaming Lips, Kanye West).

A transformação do Peter, Bjorn and John numa banda que se aventura — em Living thing; que é afobado, mas cheio de boas ideias — provocou um problema de mercado. Como resolver a crise? É a pergunta que Gimme some tenta resolver.

Este é, portanto, o disco que o mercado esperava do trio em 2009. Uma coletânea agressiva de power pop, garage rock, pop-punk, indie para pistas de dança (nos moldes de It could have been so much better, do Franz Ferdinand) e outros mimos que se adaptariam ao ambiente de seriados, anúncios de tevê, trilhas de cinema. É o disco mais amável que eles gravaram — mesmo quando, em raros trechos, os versos soam tão desencantados quanto os do álbum anterior.

Nas duas faixas que se destacam como hits prontos (Second chance e Tomorrow has to wait), eles saem para o verão: a ordem é aproveitar o sol enquanto é dia. “Não espere pela segunda chance. Ela nunca vai aparecer”, avisam (um conselho que, quando apontado para a própria banda, soa até irônico). E volta e meia reforçam a ladainha à “carpe diem”: “Este é o melhor momento da sua vida, o dia seguinte vai ter que esperar.”

Nos momentos menos bronzeados, como Down like me e May seem macabre, que o disco deixa escapar um pouco de amargura, mas nada que altere o tom de doçura, de afabilidade. É muito carinho, muito abraço, estamos todos bem.

É claro que não estamos — e a banda, menos ainda; ela está desesperada, lembre-se —, mas Gimme some é daqueles discos que simulam uma tarde de feriado. Nos discos anteriores, Peter, Bjorn and John alternavam alegria e tristeza, ingenuidade de mentirinha: pop sueco. Agora eles gravam um álbum mais americano, single-minded, até pragmático: é, de fato, um disquinho muito eficiente.

A intenção é aceitar as leis de um mundo que os rejeitou. Eu, que sempre me identifiquei com o temperamento corajoso-porém-precavido da banda, desejo sorte. Eu, você, todos temos contas a pagar, certo? Nos momentos mais otimistas do disco, até esqueço que esse tipo resignado de “volta ao lar” parece sempre um tanto melancólico.

Sexto disco de Peter, Bjorn and John. 11 faixas, com produção de Per Sunding. Lançamento Star Time International. 6.5/10

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