Se não me falha a memória

Superoito e a turma de 92

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Não me considero um sujeito saudosista, apesar de tremer quando ouço qualquer hit rasteiro de 92. Até os hediondos. How do you do, do Roxette, por exemplo. O efeito é quase sempre devastador: a enxurrada sentimental me atinge com a fúria de um velho álbum de fotografias.

Por isso me incomodei com a notícia de que a turma de 92 finalmente se reencontraria. Depois de quase 20 anos, os amigos perdidos de uma época perdida se reuniriam num sábado calorento para uma feijoada. Não seria bonito? Depois de uma intensa troca de e-mails, entramos em acordo sobre o horário (por volta das duas da tarde) e o local (um clube no início do Lago Sul). Nos dois dias seguintes, cerca de 20 pessoas confirmaram presença. Todos pareciam muito ansiosos e animados – queriam compartilhar fotografias e conversar sobre os bons tempos que não voltam mais.

Num primeiro momento, tentei escapar da obrigação. Fiz que não era comigo. Esse tipo de encontro, para mim, sugere um punhado de telefilmes chorosos dos anos 80. E nunca fui dos grandes fãs de John Hughes, after all.

Em 92 eu era um garoto de 12 para 13 anos de idade. Sem qualidades. Mas eu sobrevivia, obrigado. Não lembro como, mas fazia amigos e influenciava duas ou três pessoas. Eu era desajeitado e tímido. Eu era sentimental e ingênuo. Eu acreditava em Stephen King e Pedro Bandeira. Em resumo: num mundo de meninos invisíveis, eu era também invisível. Um serzinho ordinário – um detalhe no papel de parede do ambiente onde eu vivia.

Em muitos aspectos (quase todos), eu presumia que aquele Tiago não existisse mais. O menino inocente havia se transformado num homem feito, de 30 anos, calejado pela vida e tolerante feito um mestre tibetano. Pensei logo que não valeria a pena buscar conforto na imagem atualizadas de amigos que provavelmente se esqueceram de mim da mesma forma como me esqueci deles. A ideia soava falsa e despropositada – reencontrar para quê? Não seria melhor deixar as coisas como elas estão?

Ao mesmo tempo, havia um tipo quase mórbido de curiosidade que me empurrava de encontro à turma de 92. Não foi um período triste da minha vida, pelo contrário. Logo que cheguei a Brasília, eu era feliz quando cercado pelas grades de uma escola pequena e obscura, que se orgulhava de ensinar os alunos sobre as maravilhas da arte (aprendíamos teatro, literatura, um pouco de música e artes plásticas) e que afagava delicadamente o ego de cada estudante, sem exceções. Não à toa, todos nos traumatizamos quando demos o salto para o segundo grau, trancados em colégios que nos tratavam como números frios numa longa lista de chamada.

Daí que sábado, mesmo metido num semestre infernal (minha namorada estava a poucos dias de se mudar definitivamente para São Paulo, uma notícia que ainda me deixa desconcertado), resolvi arriscar o mergulho nesse lodo nostálgico. Não sei o que eu procurava (talvez um contato realista com uma infância que idealizo, não sei). Saí inteiro, mas não sem alguns hematomas.

Em tese, toda esta história parece muito simples: você vai ao clube, encontra os amigos de infância, conversa sobre assuntos que interessam à humanidade como um todo (trabalho, família, amores, vá saber), come um pouco da gororoba, vê as malditas fotografias e volta para casa com o espírito renovado, mais ou menos como um virgem de 30 anos. É isso, não é?

É. E não é.

E explico por que não é. Exatamente como eu e você, os velhos amigos crescem e se transformaram em pessoas diferentes. Mas continuam a revelar traços de personalidade que existiam desde a infância. Esse descompasso provoca uma sensação curiosa: ao rever um desses mortos-vivos, é como se você topasse numa pessoa que te lembra fortemente um amigo que ficou para trás. O detalhe aterrorizante é que essa nova pessoa, na verdade, é exatamente aquele amigo do passado.

Parece confuso, eu sei, mas foi o que aconteceu comigo. No grupo de 20 convidados, cinco deles eram mais ou menos familiares. De alguma forma, nos encontramos durante a adolescência ou no período da faculdade. Por isso, e mesmo com alguma remodelagem no layout (um deles estava quase careca), não nos estranhamos. O choque veio quando me encontrei com pessoas que foram extremamente importantes para mim, mas que haviam desaparecido da minha memória.

Logo que entrei no clube, um sujeito sorridente, baixinho e parrudo me recebeu:

– Tiago!

Eu o encarei com os olhos espremidos, como quem faz todo o esforço do mundo para encontrar um sinal, uma marca, um traço de fisionomia… Mas nada. Alguns segundos depois, quando consegui descobrir quem ele era, a imagem completa se formou com velocidade na minha cabeça. E notei que estava diante de um amigo que ainda se lembrava de fatos mínimos da minha vida – e que de certa forma sempre esteve lá, no avesso do meu cotidiano.

– É você! – eu disse, enfim

– Sou eu.

– É você.

E ficamos nisso por alguns minutos. Não havia o que dizer, mesmo quando sabíamos que havia muito a ser dito. Tomados por um transe, todos os antigos amigos se reconheciam e se abraçavam, gaguejavam algumas palavras entusiasmadas e lembravam de cenas irrelevantes e choravam enquanto trocavam fotografias amareladas. E tiravam fotografias digitais, para garantir que nada daquilo era apenas delírio. Fizemos poses para a câmera, trocamos telefones e combinamos que nunca perderíamos contato. Aposto que, num canto discreto do clube, duas amigas renovaram o pacto de sangue – dedinho com dedinho.

O lado patético da história é que ninguém saberia explicar o motivo daquela reunião. O que era? Queríamos de volta o gosto da nossa infância, que nos roubaram para sempre? Nosso desejo era pela certeza de que não estávamos sozinhos no mundo-cão? Ou tudo era apenas uma forma de renovar o compromisso com um período da vida que deixa saudades doloridas? Queremos provar para nós mesmos que estivemos lá, que experimentamos da infância doce?

Nós éramos, de certa forma, testemunhas uns dos outros. Ou quase. Uma das amigas, ausente, decidiu seguir o chamado e virar freira.

Eu não esperava por tantos momentos tocantes numa tarde de sábado, mas reconheço que me deixei levar pelo furacão. Quando a noite chegou, algo inusitado aconteceu: os amigos começaram a reviver literalmente os momentos da infância. O engenheiro civil e a psicóloga contavam piadas debochadas, o advogado mijava na latinha de cerveja do agrônomo e a professora de violino se contorcia no chão imitando uma minhoca com dores de barriga. Eu mesmo sorria como o menino imaturo que ainda sou. Por alguns momentos, me imaginei dentro de um episódio de True blood dirigido por David Lynch.

Mas foi divertido. De um jeito doentio, quase. O auge da comoção coletiva se deu quando o anfitrião disse ter uma confissão a fazer (a feijoada, nessa altura, era uma papa gelada e indigesta).

– Isso aqui… Isso aqui, minha gente… Isso aqui… Estou emocionado, gente.

Na terceira tentativa, o discurso decolou.

– Isso é um momento histórico. Histórico. Encontro em vocês tanto carinho, minha gente. Tanto carinho. Que é como… Nem sei. Não sei se vocês sabem, mas eu quero sair de Brasília. Quero sair pra sempre. Passei parte da minha vida longe da cidade, casei, separei e tive um filhotinho lindo. E agora, voltar para a cidade… É difícil. É que essa cidade vai devorando e maltratando. É tudo muito solitário e vocês sabem disso. É tudo fechado, e sou daquelas pessoas que deixam a porta de casa aberta. E os amigos entram. Sei que, de hoje em diante, vou poder contar com vocês, meus amigos. Vocês são mesmo… mesmo… Vocês são incríveis.

Depois dos aplausos e das conversas bêbadas e inconseqüentes, marcamos outro encontro e combinamos que aquele elo resistiria. Intimamente, sabíamos que era tudo mentira. Mas vivemos a mentira intensamente. Voltamos para as nossas casas. Sei de gente que não conseguiu dormir direito. No dia seguinte, chegaram as fotos. No outro, os comentários sobre o encontro (‘inesquecível’, alguém avaliou). No terceiro, os e-mails sentidos das pessoas que não puderam comparecer.

Mais tarde, as mensagens começaram a rarear. A onda bateu na areia e ficamos novamente em silêncio, seguramente a alguns quilômetros de distância uns dos outros.

Como se nada tivesse acontecido. Mas imagino que, de alguma forma, ficamos orgulhosos do que fizemos, do nosso pequeno ato de rebeldia. De verdade. Vá lá, conte esse como um final feliz. Já que, sem sentido ou explicação, algo aconteceu.