Saga musical

Os discos da minha vida (24)

Postado em Atualizado em

Neste episódio da saga dos 100 discos que atazanaram a minha vida, meu voto é pela economia de parágrafos: vocês sabem como são as regras deste jogo, vocês sabem que as regras deste jogo são muito subjetivas, vocês sabem que este ranking não segue uma lógica muito clara e vocês sabem que somos grãos de areia num universo grandalhão e infinitamente misterioso.

Resumindo: a falta de sentido tem o seu encanto.

Só preciso lembrar-lhes, antes de partir para os álbuns da semana (extraordinários, juro), que é o grande lance desta série interminável de post é clicar naquela palavrinha sublinhada em azul e fazer o download de discos que deixarão a sua discoteca muito parecida com a minha. Não sei se há vantagem nisso, mas fico feliz com a ideia.

054 | Murmur | R.E.M. | 1983 | download

O primeiro LP do R.E.M. ainda soa a expressão mais cristalina da banda. As melodias vêm carregadas de uma intensidade quase bruta, que contrasta com uma poesia sempre engenhosa, enigmática. Uma tipo sofisticado de rusticidade que muitos tentaram copiar, mas cujo efeitos poucos conseguiram reproduzir (a tentativa mais recente: The king is dead, do Decemberists). Nos álbuns seguintes, o R.E.M. se tornaria mais “inconsequente” – com resultados às vezes deslumbrantes, mas sem essa dedicação obsessiva a uma ideia musical. Uma das obras-primas dos anos 80, Murmur retrata uma  juventude precocemente madura – uma banda apaixonada por um estilo que soava simultaneamente novo e clássico, original e velho. E a história estava só no começo. Top 3: Talk about the passion, Pilgrimage, Sitting still.

053 | Parklife | Blur | 1994 | download

Um álbum pop que soa como um daqueles livros infantis que tentam nos surpreender a cada dobradura: se o rock britânico dos anos 90 precisava de monumento, encontrou neste playground do Blur. Mais grandioso que isso:  neste voo panorâmico sobre a ilha, Damon Albarn usa os standards do pop inglês à serviço de uma longa crônica sobre a vida de meninos e meninas anônimos que se aprontam para o feriado, sonham com a América, temem a velhice, sofrem de amor e caminham em ruas enevoadas. Pessoas comuns (so many people!) – cujas histórias são narradas com o misto de euforia e melancolia, excitação e a certeza dolorida de que, apesar dos pequenos prazeres que provoca, o cotidiano não vai mudar. Top 3: To the end, End of a century, Parklife.

Os discos da minha vida (23)

Postado em Atualizado em

Hoje este ranking é só saudade. A saga dos meus 100 discos inesquecíveis chega a uma episódio um tanto choroso, um tanto blue, mas nada grave: pode parecer incrível, mas voltei a ser um menino de 15 anos, ansioso e febril, que anda pelas ruas sem ouvir o barulho dos carros e nem dorme direito de tanto pensar nela. Olho para as nuvens e vejo desenhos engraçados. No trabalho, não me concentro. Sorrio quando os casais se abraçam. 

Eu sei, meus bróderes: soa como uma enxurrada de sentimentos perturbadores. Mas estou me sentindo muito bem, obrigado.

É claro que ela faz falta, está longe, e isso machuca um pouco. Mas, por outro lado, ela se faz sempre tão presente que é como se a distância encurtasse. Entre uma e outra chamada de longa distância, vamos enganando o calendário até o próximo voo, que não demora. Pode parecer uma tortura. Mas estamos bem, obrigado.

Meu único desejo, neste momento, é que a sensação não vá embora. Talvez ela não vá, quem sabe? Me descobri um otimista.

Por tudo isso vocês notarão nos novos textos deste blog – e, por consequência, nesta saga que não acaba nunca – algo de juvenil, de muito ingênuo. Que sou eu na minha expressão mais sincera, eu em janeiro de 2011, eu abobado encarando a parede branca do meu quarto, eu queimando parágrafos com lirismo de colégio, eu num momento da minha vida que ainda me enche de surpresa e alegria. 

Com o tempo, vou explicar melhor o que acontece. Enquanto não consigo, abro minha estante e tiro mais dois discos que talvez vocês gostem de ouvir – talvez vocês precisem ouvir (são dois álbuns que marcaram a minha vida e a vida de uma multidão). Talvez vocês se apaixonem por eles. E aí talvez vocês entendam mais ou menos em que pé estou.   

056Bringing it all back home | Bob Dylan | 1965 | download

Entre todos os discos de Bob Dylan, Bringing it all back home era o favorito dos meus 15 anos de idade, um pouco antes de eu descobrir Nashville skyline e Blood on the tracks. Com o tempo entendi o motivo de tanto fascínio: é o disco em que Dylan bagunça o quarto de brinquedos, talvez entusiasmado demais com todas os objetos coloridos que estão espalhados no chão. É, para efeitos de história do pop, um álbum de transição: metade folky, metade elétrico, o prenúncio da revolução de Highway 61 revisited (também de 1965), mas já surreal e enigmático como as obras-primas que ele gravaria daí em diante. Uma diferença em relação aos outros: neste aqui, Dylan faz a invenção mais sofisticada soar como um hobby, uma brincadeira, uma ideia de diversão. Top 3: Maggie’s farm, Subterranean homesick blues, It’s alright ma (I’m only bleeding).

055 | Music from Big Pink | The Band | 1968 | download

Não foi proposital organizar este encontro extraordinário, dentro de um post, entre o meu disco favorito da The Band e um dos meus preferidos do Bob Dylan. Mas, forçando a amizade, acredito que eles têm semelhanças que vão muito além do fato de que a sonoridade da The Band foi em grande parte amadurecida nos shows de Dylan, com quem se apresentou anos antes. São dois discos que exalam um ar de descoberta. Dylan descobria aos poucos um estilo; já a The Band encontrava uma forma de condensar várias das referências que moldaram o fim dos anos 1960: o rock, o country, o folk, a psicodelia, a contracultura, as estradas sem fim, a cultura hippie, a saudade das tradições. Nasciam os fundamentos do country rock. Todo esse estado-de-coisas cultural inserido naturalmente num disco de 11 músicas. O tipo de fenômeno que não acontece sempre. Mas aconteceu. Top 3: This wheel’s on fire, The weight, I shall be released.

Os discos da minha vida (22)

Postado em Atualizado em

A saga dos 100 discos mais apaixonantes da minha vida chega a um episódio muito fofo: os dois álbuns de hoje são afáveis e sedutores – às vezes, no entanto, eles se machucam (e nos machucam) de tanto amar.

E isso é lindo, não é?

Por coincidência (e sempre é coincidência), os descobri em momentos de crise amorosa. Momentos terríveis. Eu era jovem, eu sofria por qualquer dor de cotovelo, eu era um infeliz, eu tinha 18 anos. Talvez ironicamente, escrevo sobre eles no day after de um fim de semana extraordinário, um sonho dentro de um sonho que, em parte, pode ser resumido com os títulos de dois filmes que eu levaria para uma ilha deserta: Amor à flor da pele e Embriagado de amor

E isso é lindo, não é?

Então tá. Sobre essa história toda, não direi mais nada (talvez em forma de metáfora ou com outros recursos literários; mas não hoje, que ainda estou sob choque). No mais, sou um sujeito muito tímido e a vida não é um reality show, meus camaradas.  

E isso também pode ser lindo, não é?    

058 | Moon safari | Air | 1998 | download

Quando ouvi pela primeira vez, lembro que eu, o moleque aborrecido de 18 anos, resmunguei: “Por que tanto paparico pra um disquinho que soa como a trilha sonora de uma festinha retrô, chique e insuportavelmente cool?” Levou um tempo – levou anos! – para que eu notasse como esse clima blasé e às vezes autoirônico (tão francês!) oculta um disco que usa cada artifício pop para criar canções que desgrudam do chão, flutuam, miram o sublime. Todas as músicas evocam a sensação de doce nostalgia (e certa inocência infantil) que é típica das lembranças de um primeiro amor. Mas é Remember que, interpretada pelo robô mais nostálgico da música pop, derrete minha armadura. Dream a little dream. Top 3: Remember, Kelly watch the stars, Sexy boy.

057 | In the wee small hours | Frank Sinatra | 1955 | download

Este é o disco de Sinatra que o seu avô guarda para ouvir sozinho, quando o almoço terminou, os filhos foram embora e a tarde começa a cair. Não é easy listening. Um monumento da música pop, é considerado o primeiro ‘álbum conceitual’, com faixas compostas e organizadas para criar uma atmosfera de melancolia; um deserto noturno habitado pelos fantasmas de amores perdidos. Ok, estamos falando de valor histórico. O que mais me comove, porém, é como Sinatra aceita se mostrar fragilizado nas canções do disco: em como ele as toma para si. O que aparece não é mais a celebridade irresistível, símbolo de masculinidade e elegância, mas o homem comum, abatido pelas dores que afligem outros homens comuns. Um disco de amor absolutamente verdadeiro. Por isso, dolorido (e bonito) do início ao fim. Top 3: In the wee small hours of the morning, What is this thing called love?, I’ll never be the same.

Os discos da minha vida (21)

Postado em Atualizado em

Esta saga musical abre 2011 com uma leve sensação de déjà vu. Foi mal. Sorry. Por aqui, tudo ainda muito parecido com 2010, o ano em que começamos a fazer contato com os discos que marcaram a minha vida. 

Capítulo 21, hem. Quem diria. Mas notem que ainda nem chegamos à metade do trajeto. Foi um longo caminho até aqui, e ainda tem chão pela frente. Falta um bocado. A boa nova é que estamos no aproximando lentamente do extraordinário, do sensacional, do emocionante… top 50.

Aos caronistas que chegaram agora, lembro as regras da jornada: este é um ranking muito pessoal que não pretende, sob hipótese alguma, elencar os discos mais importantes, mais influentes ou mais respeitados da música pop. Não. O que está em jogo é o grau de afeto entre os álbuns e o sujeito mediano que escreve este o blog. Apenas isso. Uma lista monumental, mas totalmente desimportante – eis a ironia da coisa.

Compreenderam? Nada de cobrar lógica, coerência, sisudez ou vir reclamar que aquele disco joia do Teenage Fanclub ficou muito atrás daquele disco joia (mas SUBESTIMADO) do Pinback. Não vale. Se vocês me perturbarem com esse tipo de ladainha, entenderei o seguinte: vocês trabalham muito, estão sempre apressados e a falta de tempo impediu que vocês lessem as regras do jogo. Mas vou perdoá-los, meus chapas. Que este blog é uma mãe.  

060 | Carnaval na obra | Mundo Livre S/A | 1998 | download

Samba esquema noise (1994), um dos aplicativos essenciais do mangue bit, é um disco mais relevante. Mas Carnaval na obra soa como um degrau mais alto: um álbum destemido, mas também descontente e desencantado, que espana os cacoetes do movimento que a própria banda ajudou a criar. Tem samba, mas é um carnaval cinzento. Cinema marginal. Descobri o disco numa época em que eu estava desiludido com a música brasileira. Me identifiquei completamente com o cavaquinho amargo de Fred 04, ele próprio um solitário, eternamente desconfortável dentro do nosso pop bronzeado. Um pouco mais tarde, em 2001, o Los Hermanos avisaria que Todo carnaval tem seu fim. Para mim, soava como notícia antiga. Top 3: A expressão exata, Ultrapassado, Édipo – O homem que virou veículo.

059 | The Stooges | The Stooges | 1969 | download

Um dos discos que despertaram em mim o desejo de tocar guitarra numa banda. Ouvi e concluí: é possível! Aprendi guitarra, mas o entusiasmo durou mais ou menos três dias. Depois descobri que ele é, junto com Velvet Underground and Nico e Doolittle, daqueles álbuns especializados em produzir grupos de rock. Entendo bem: a euforia rascante do disco nos parece elementar, ainda que não o seja. Voltei a ouvir há alguns dias e ele soa cada vez mais sofisticado: a produção de John Cale cria uma atmosfera de sujeira e aflição que nos transporta a um território perigoso, prestes a desabar. Tudo pensadinho para soar como um campo minado; rock malpassado, sangrando. Top 3: I wanna be your dog, No fun, We will fall.

Os discos da minha vida (20)

Postado em

Semana delicadíssima para a saga dos 100 discos que estouraram o champanhe da minha vida: entre as festas de Natal e ano-novo, muita gente bronzeada está tirando férias, viajando, curtindo a praia, desligando computadores, afogando pen-drives e respirando ar puro. O que é triste: este blog, que costuma receber cinco ou seis visitas diárias, já se sente muito só.

Os que saíram pra curtir a vida vão perder um capítulo especialmente inspirado desta série interminável de posts. Vale por um dia inteiro de sol, mate leão e sanduíche natural (ok, não vale tudo isso, mas vamos fazer de conta que sim).

Por coincidência (e tudo aqui é mera coincidência, reparem), dois discos que me pegaram mais ou menos na mesma época, quando eu era um garoto de 14 anos que amava os Simpsons e a revista Rolling Stone.

Sim, eu vestia camisas de flanela meio pobretonas, adquiridas na C&A. Mas as coisas não eram tão estereotipadas assim (e o outro disco do post mostra que havia algo de complexo naquele tempo bom que não volta nunca mais).

062 | In utero | Nirvana | 1993 | download

A primeira audição foi um terremoto. Minha irmã trancou a porta do quarto, minha mãe avisou que eu estava passando dos limites e meu padrasto me chamou para uma conversinha. Eu mesmo demorei para sobreviver a um disco que soava como uma cirurgia dentária (sem anestesia). Era uma época em que as bandas de rock disputavam para ver quem gravaria o álbum mais enfezado. Kurt Cobain, mais uma vez, venceu. In utero registra com secura (saudades de você, Steve Albini!) o pessimismo dos depressivos, a agonia dos suicidas, a aflição dos obsessivos. Síndromes de uma geração. “A fúria adolescente rendeu muito bem, agora estou entediado e velho”, Cobain admitiu, aos 26. Era como nos sentíamos: velhos, e cedo demais. Top 3: Heart-shaped box, Serve the servants, Pennyroyal tea.

061 | Paul’s boutique | Beastie Boys | 1989 | download

O disco que adaptou o Beastie Boys aos anos 90 (Check your heads, de 1992) me levou a este álbum de 1989 que é, talvez sem chance de discussão, o manifesto do trio por uma colagem pop sem freios ou vergonha na cara. O medley final, B-boy Bouillabaisse, cria uma conexão entre o hip-hop dos anos 1980 e o lado B de Abbey Road, dos Beatles. Por que não? Produzido sem os padrões de polidez da época (saudades de vocês, Dust Brothers!), o disco é uma confusão de samplers e hinos adolescentes que primeiro nos sufoca e depois nos deslumbra. Uma prévia para Odelay, do Beck, e para todos os outros discos pop dos anos 1990 e 2000 que fizeram da reciclagem (e do contrabando de ideias) uma arte. Top 3: Hey ladies, Shake your rump, Shadrach.

Os discos da minha vida (19)

Postado em Atualizado em

Ninguém pediu, mas cá está ela. Depois de uma pausa mais ou menos longa, voltamos a sintonizar a saga dos 100 discos que sonorizaram a minha vida.

Notícia triste: o fim não está próximo.

Explicando as regras do jogo, mais uma vez: este é um ranking totalmente pessoal, cheio de idiossincrasias, serve tão somente para que você entenda quem eu sou. Há, por exemplo, mais discos dos anos 1990 do que de qualquer outra década — foi a época em que comecei a ouvir discos compulsivamente. Um lista que não faz muito sentido, entende? Que não ordena o caos. Que não orienta nada. Por isso, liberte-se da lógica e deixe a vibração fluir.

Neste capítulo, dois discos que não têm nada em comum além do fato de que voltei a eles recentemente, e com muito entusiasmo. Daí que confirmei o seguinte: além de importantíssimos para a minha vida, são obras-primas que poderiam estar em qualquer lista séria de grandes discos que você precisa ouvir antes de se mandar para a Lua.

Não que alguém esteja pensando em se mandar para a Lua, mas é um plano interessante.

064 | Ladies and gentlemen we are floating in space | Spiritualized | 1997 | download

Foi lançado na Inglaterra exatamente junto com Ok computer (16 de junho de 1997, anote no calendário dos Dias Que Abalaram a Música), só consegui ouvir muitos meses depois, quando o CD desembarcou na loja de importados. Acabei construindo uma aura em torno dele que a primeira audição quase destruiu. Quase. Talvez um garoto de 17 anos não saiba (ou não queira) entender o quão desesperado é o desejo de Jason Pierce por “um pouco de amor para mandar a dor embora”. Um pedido de ajuda, sim. Mas também um dos álbuns de rock mais imponentes da minha adolescência, que transportou o rock britânico dos anos 1990 a outras galáxias e nos deixou flutuando no ar. Top 3: Stay with me, Ladies and gentlemen we are floating in space, Electricity.

063 | American beauty | Grateful Dead | 1970 | download

Um dos discos mais queridos (e mais amáveis) do Grateful Dead talvez não represente tão bem o alcance da banda (Workingman’s dead, o anterior, talvez seja ainda mais redondo), mas é o meu preferido. A começar pela faixa de abertura, Box of rain, que contém tudo o que me atrai no country rock (e não é só um gênero musical, certo? É um estilo de vida). Um daqueles discos em que ouço o som de uma banda totalmente feliz com o som que consegue produzir. Dá um pouco de inveja: todas as faixas importam, e elas acabam retratando o clima de uma época sem que isso pareça um fardo, uma missão pesada demais. A perfeição pode ser doce. Top 3: Box of rain, Sugar Magnolia, Truckin.