Robert Altman

top 100 | Os filmes da minha vida (9)

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Neste domingo lindo (mentira, tá chovendo), o dia parece mesmo perfeito para um episódio do ranking que produz intensas expectativas entre cinéfilos do Brasil (mentira, ninguém lê).

Sei que vocês estão muito ansiosos para saber quem é o primeiro colocado desta lista (mentira, todo mundo sabe), mas adianto que até os meus amigos mais próximos vão se surpreender com a revelação final (tá, estou mentindo).

É puríssima verdade, no entanto, que o post de hoje contém filmes que vi há muito tempo. E que foram importantes para a minha vida por razões que pareciam todas tão claras, mas que hoje talvez eu não saiba mais explicar (acontece; o tio aqui está ficando velho).

Resumindo o drama: ainda não tenho certeza se devo recomendar estes filmes a vocês, até por que não lembro muito bem deles. A seguir, pequenos parágrafos sobre como os encontrei.

084 | Short Cuts – Cenas da Vida | Robert Altman | 1993

O filme anterior de Altman, O Jogador (1992), era uma dos meus prediletos da época em que me tornei cinéfilo (aos 12, assim que eu e minha família nos mudamos para Brasília). O seguinte, Prêt-à-Porter (1994), eu defendia com muito entusiasmo, mesmo concordando secretamente com os argumentos de quem torcia o nariz para ele. Mas Short Cuts, com suas três horas e sete minutos de duração, era caso à parte: um filme-cidade, com personagens/moradores que viviam tramas/rotinas. Vi no dia do meu aniversário, na minha tela preferida (Cine Brasília), numa sessão fantasmagórica de cinco da tarde. Desde então, Altman se transformou numa espécie de herói de adolescência – e comecei a ler o autor dessas crônicas suburbanas, o também mestre Raymond Carver.

083 | Duro de Matar | Die Hard | John McTiernan | 1988

Este ultimate action movie, ao contrário de Short Cuts, faz parte da pré-história da minha cinefilia, quando eu via os filmes de uma forma ainda muito ingênua, me deixando afetar pelas narrativas sem perceber os truques de encenação. A experiência de Duro de Matar foi, portanto, de um nervosismo sem fim: na época (eu tinha uns 10 anos de idade), me pareceu o filme mais tenso de toda a história do cinema, um atentado sádico contra as minhas férias tranquilas. Para mim, o personagem de Willis nem era herói, mas um homem comum tentando escapar de um pesadelo (e o pesadelo era a trama em si). Quando descobri que não deveria ter levado esse filme tão a sério, era tarde demais.

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2 ou 3 parágrafos | Treme, primeira temporada

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A trama é muito menos intrincada, mas, quando comparo com The wire (e a comparação é inevitável, já que David Simon sempre será conhecido com o homem de The wire), os desafios de Treme (4.5/5) me parecem um pouco mais complicados, mais delicados. E é espantoso como, em 10 episódios, a série consegue se esquivar de tudo o que há de mais perigoso (e simplista) na ideia de usar um punhado de personagens para acertar contas com uma grande tragédia (a ação é encenada em Nova Orleans, três meses após o Katrina).

A comparação, ora pois: The wire era uma série policial que ia subvertendo o gênero ao esquadrinhar o cotidiano de uma cidade (Baltimore, em Maryland). Enquanto que Treme, coescrita por Eric Overmyer, já nasce indefinível. É um drama musical com elementos de investigação policial, digamos, e que me lembra os filmes-coral de Altman. Mais complexo do que isso: os roteiristas estão sempre se equilibrando numa linha muito fina, entre o ensaio sociológico (é o retrato de uma comunidade abandonada pelo governo federal, que tenta sobreviver e, quando muito, se reerguer) e a crônica sobre pessoas que não aparecem nas planilhas oficiais.

A série triunfa de um jeito e de outro. A narrativa é um lago mais ou menos plácido, silencioso, que, quando menos esperamos, é atingido por pedradas (dois momentos violentíssimos têm a ver com a morte de pessoas comuns, em circunstâncias nada extraordinárias). The wire (ou pelo menos a primeira temporada, a única que vi) já era um pouco assim, uma série que permite aproximação gradual entre o espectador e os personagens. Mas, capítulo à parte, Treme usa a música como elemento essencial para narrativa. E já seria uma série grande apenas por mostrar como o sentido das canções tão típicas de Nova Orleans foi renovado pelas circunstâncias desastrosas. A vida, especialmente ali, soou como blues.