Ranking sentimental

Os discos da minha vida (top 2)

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Então, enfim, pois bem, the end. Chegamos ao setor de desembarque deste ranking de 100 discos. A partir de agora, vocês podem desfivelar os cintos e ligar os celulares. Tocamos o solo, cabou.

E todas as despedidas devem ser breves, certo? Errado. Hoje, para celebrar com o término desta odisseia inútil (afinal, esses são os discos da minha vida, não da sua), vocês ganham dois textos. Dois discos. Os últimos e, é claro, os primeiros.

Nem preciso dizer que deu um trabalhinho escrever sobre eles. Porque planejei um “grand finale”, um adeus reluzente e tal, mas não consegui colocar nada disso no papel. Acontece.

Antes de partirmos para o clímax (ou anticlímax, a depender das suas expectativas, irmãos), devo confessar uma coisa: mantenho uma relação ambígua, conflitante, com os álbuns mais importantes da minha vida. Muitos deles eu nem ouço mais. A maior parte apareceu durante a minha adolescência, uma época em que eu era mais mais ingênuo e sentimental do que sou hoje (percebam o perigo). Se eu descobrisse esses discos hoje, talvez a história teria ocorrido de uma forma diferente.

Mas acredito que eles, de alguma forma, colaboraram para a formação do meu temperamento — mais ou menos como os amigos que você calha de conhecer durante a vida.

Não posso brigar contra eles — contra o poder esses discos. Eles marcaram a minha vida porque marcaram, simplesmente isso. Talvez não por serem extraordinários (muitos deles o são), mas por terem me encontrado num momento importante ou sensível, quando me assombraram de alguma forma especial.

É isso, não é? Tá, acho que vou sentir saudades de me perder nesses flashbacks.

001 | Pet sounds | The Beach Boys | 1966 | download

002 | Ok computer | Radiohead | 1997 | download

Pet sounds é o meu disco preferido. É o que mais admiro. É o que guardo para mostrar aos filhos dos meus vizinhos (porque não pretendo ter filhos). É o parâmetros que uso para lidar com outros discos. É matéria meio que sagrada, e sinto que tudo o que deveria saber sobre música está dentro dele.

Ok computer é outra coisa. Talvez nem seja um disco-disco (não pra mim). Talvez uma espécie de álbum de retratos, um slide sentimental. Quando o ouço, ele abre tubulações para meu passado. E o efeito não é só musical. Não é algo que aconteça com muitos discos. Mas acontece com esse.

Pet sounds era, pra mim, um disco de solidão. Brian Wilson foi o herói da minha adolescência porque eu via nele a imagem de um homem que confiava na arte, apesar de tudo. E que se comprometia de forma quase demente à música, como se não houvesse outro jeito.

Ok computer me parecia um disco de revelação. Ele me mostrava o futuro. E era uma imagem exagerada, mas que soava muito séria. Existe algo de messiânico e ridículo neste disco, como se cada música carregasse plaquetas de “the end is near”. Era fim de milênio, e o contexto aqui importa.

Mas, ao contrário de White Album (o disco do meu pai) e de Dark side of the moon (o disco do meu padrasto), Pet sounds sempre foi um disco só meu. Eu me identificava com ele, e acho até que foram canções como God only knows e Don’t talk que fizeram de mim um sujeito doce e sentimental.

Ok computer abria uma paisagem mais trágica, e provocou em mim a crise que um disco do Dylan deve ter provocado nos moleques de 1965: “alguma coisa estranha acontece”, Thom Yorke me dizia. Era sinistro. Não sei se as pessoas já entendem tudo sobre aquela época.

O som de Wilson vinha do passado, ainda que flutuasse bem acima do tempo e do espaço: transmitia inocência, mas também dor profunda. Incompreensão. Depois li sobre as dificuldades que o homem enfrentou para gravar o disco, aí entendi tudo. É uma luta, o Pet sounds. E Wilson vence.

O som de Yorke, ao contrário, não era um mito, uma unanimidade. Soava novo, era um código que as pessoas iam tentando entender. Daí diziam nas revistas a bateria de Airbag, toda quebrada, observava alguma coisa sobre o mundo. E depois veio Kid A, que desmontou tudo de uma só vez.

Pet sounds é um disco dentro de um sonho. E há momentos de um sonho (pelo menos acontece nos meus) em que um cenário plácido se transforma numa tela desfocada, desconhecida. Quando ouvi pela primeira vez, lembro que pensei: parece familiar e não é.

Ok computer é um disco dentro de um pesadelo. Exit music e Climbing up the walls pareciam avisar que algo estava prestes a chegar ao fim (se é que não havia já acabado), enquanto que No surprises me fez perceber que eu não estava seguro (nesse ponto, era um veneno terrível).

Em Pet sounds, Wilson dá forma musical a um sentimento de desconexão. É como se ele não pertencesse mais ao mundo (e ao mundo da música), e aí tentasse criar para si um lar imaginário. Me parece um disco muito poderoso de rebeldia, mas que soa agradável e, por isso, singular.

Em Ok computer, Yorke tenta modelar um mundo próprio, mas essa intenção só seria consolidada em Kid A. Em Ok computer, no entanto, ele impõe um olhar, ergue trincheiras, e aí nascem canções de fricção, tensas negociações musicais, como Paranoid android e Airbag. É uma guerra, o Ok computer.

Pet sounds desaguaria num álbum ainda mais sofisticado (e seria Smile o Kid A de Wilson?), mas ele me comove também porque ainda tenta conversar com aquele menino que procura um disco de surf music, um álbum pop. E é a ele que Wilson pede: ‘não fale, deite sua cabeça no meu ombro.’ É bonito.

Ok computer tem algo disso. Um disco que se afasta e se aproxima do público, numa reação de nojo e afeição (quase simultâneos), que quer amor e não quer, que frequenta os radicais mas gosta do conforto dos amigos, que não sabe muito bem se precisa ofender ou se deve ser claro e gentil.

Talvez eu seja um pouco como esses dois discos. Eles querem debandar para longe, mas sem perder o contato, sem desaparecer por completo. E nem por medo, por covardia, mas por opção.

Top 3 (Ok computer): Let down, Paranoid android, Climbing up the walls. Top 3 (Pet sounds): Don’t talk (Put your head on my shoulder), God only knows, Sloop John B.

Após o pulo, veja todos os discos que apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (top 5)

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Quem se importa verdadeiramente com o ranking dos 100 discos da minha vida? Perguntinha amarga. Oh well, whatever. Já que chegamos até aqui, não custa nada (quer dizer, custa sim: tempo e paciência) dar mais quatro pequenos passos rumo ao anticlímax também conhecido como paraíso.

Afe! Só posso prometer que não vai demorar (nem doer) muito.

Nesta altura da lista, quem visita o blog sabe o resultado desta equação – mas talvez se surpreenda um pouco com a ordem dos fatores. Logo mais entraremos no top 3. Quem diria, ahn! Tombo cansado só de pensar nos capítulos anteriores desta jornada. E ainda tem gente cobrando que o tio aqui faça um ranking de 100 filmes. Ah. Sério?

Não vamos desviar do tema central deste post, ok? Que o lance hoje é um punch na alma (ou algo dramático do gênero, se é que vocês me entendem).

004 | Nevermind | Nirvana | 1991 | download

Kurt Cobain comentou cinco ou seis vezes que, quando projetava Nevermind, pensou em gravar um disco dos Pixies: simultaneamente agressivo e dócil, punk e pop, louco e elegante. Não acredito que tenha conseguido tudo o que procurava.

Porque, ao contrário de um Doolittle (ou de um, vá lá, Trompe le monde), o segundo álbum do Nirvana soa homogêneo. Não sugere desordem, caos. Na tradução de Cobain, as experiências com contraste e dissonância, tão comuns no indie rock dos anos 80, são arredondadas no formato familiar de uma canção de rádio.

O fã de rock que cresceu ouvindo Radiohead e Animal Collective (e só conhece o grunge dos documentários que passam no VH1) vai encontrar motivos para avaliar Nevermind como um álbum populista e pragmático, que atualiza o punk rock de 1977 e o hard rock dos anos 80 para uma geração que enjoou de tanto mascar gordurinhas pop (e este será sempre conhecido como o disco que destronou Michael Jackson). Talvez seja (também) isso.

No resumo da ópera, Nevermind não mudou o mundo. Não mudou nem mesmo a indústria musical, que, no ocaso do grunge, se virou muito bem com um carregamento de bandas pop inofensivas (Green Day, Offspring e tantas outras). O golpe de In Rainbows, por exemplo, foi mais bonito (e mais sério). Admito que, hoje em dia, fico um pouco sem jeito quando ouço o disco.

Um pouco sem jeito porque, mesmo quando reconheço tudo o que existe de mediano no álbum (a produção de Butch Vig me parece tão unidimensional quanto tudo o que ele já fez, e eu sei que não deveria gostar tanto dela), Nevermind me ataca frontalmente: é daqueles discos que, de tão próximos, me emocionam mesmo nos momentos mais estúpidos.

O mito Nevermind é uma bobagem. E, se pensarmos no mito Cobain, talvez In Útero (ou o lindo Unplugged in New York) funcionem como testamentos mais completos. Nevermind é um álbum single-minded, até certo ponto funcional: uma bela ideia (um disco dos Pixies sem as partes esquizofrênicas, underground sem hermetismo) amplificada e aparada até ganhar status de hit.

Talvez a história trágica de Cobain tenha transformado Nevermind, em retrospecto, num álbum mais humano: existe algo desesperado, suicida, no sorriso sarcástico do disco. Faixas como Lithium e Polly, quando ouvidas após a morte do compositor, passavam a soar como páginas de diário. E Smells like teen spirit, como emblema de uma época ainda inclassificável.

A voz de Cobain é a fissura de autenticidade que rasga a polidez sonora de Nevermind – e é ela que faz do disco algo especial.

Mas não, não vou arriscar uma reavaliação. Neste post, tudo o que ainda preciso fazer é contar como encontrei este disco e por que ele marcou a minha vida.

Foi mais ou menos assim: eu tinha 12 anos, havia me mudado há pouco para Brasília e a minha estante começava a parecer antiquada, tomada por álbuns tolinhos de synthpop. Quando comprei Nevermind, depois de ler uma resenha no Jornal do Brasil, passei a tratá-lo como meu “primeiro álbum”. E, de fato, ele representou o início de uma longa história de consumo obsessivo de discos.

Lá em casa tínhamos apenas uma vitrola, que ficava na sala. Daí que eu ouvia o disco enquanto meus pais jantavam ou tomavam café. Os versos curtos e febris de Cobain me atingiram de imediato (ainda hoje, é o disco sobre minha adolescência), enquanto que meu padrasto fazia gracinhas dos cacoetes do disco: os gritos de Cobain, os riffs simplérrimos, a repetição enervante de acordes. Estava feita a guerrinha doméstica: assim que descobri o desdém com que meus velhos encaravam o disco, passei a amá-lo com mais força.

Lembro que o volume estava sempre alto. De alguma forma, quando o disco começava eu me sentia um menino muito punk.Top 3: Stay away, Smells like teen spirit, Come as you are.

PS: No fim daquele ano, emprestei o vinil para um amigo, que sumiu com o disco. No ano seguinte, comprei novamente e, de alguma forma, o perdi. Um tempo depois, incluí o CD na minha coleção. E (pode parecer incrível) ele sumiu mais uma vez. Comprei outra cópia, que minha irmã quebrou. E assim foi: em quase vinte anos, tive quase 10 Neverminds na minha casa. Hoje, desisti de enfrentar a maldição: me contento com os arquivos em MP3.

Após o pulo, veja todos os discos que apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (top 5)

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Amigos, chegamos: cá estamos dentro do top 5, já batendo perna no tapete vermelho do ranking dos 100 discos da minha vida. Incrível, não?

Bem, talvez não. Porque, nesta altura do joguinho, muitos de vocês já sabem o que vão encontrar nos próximos capítulos desta saga. Sobre esse assunto, serei breve: vocês, os mais ansiosos e sabichões, estão certos – e, ao mesmo tempo, tão errados.

Não sei se vocês lembram (espero que lembrem!), mas esta é uma lista absolutamente pessoal com os álbuns que marcaram a minha vida. Não é um ranking dos melhores, dos mais influentes, dos mais arrepiantes, dos mais premonitórios, dos 1000 que você precisa comprar antes da morte da indústria fonográfica (ou algo do gênero).

Nada disso. É apenas um top sentimental, íntimo e desengonçado feito aqueles desenhos que você faz quando criança e guarda no baú do quarto – por isso, desimportante. Não o levem muito a sério.

Estamos no começo do fim, portanto: cinco discos que eu levaria para um planeta deserto. E a história vai assim:

005 | Blood on the tracks | Bob Dylan | 1975 | download

Não minto em absolutamente nada quando digo que tive a sorte de viver uma infância feliz. E foi um período tão sorridente, tão fácil, tão cheio de recompensas e brindes que, aposto, nenhum roteirista sensato se sentiria desafiado a adaptá-lo para o cinema. Daria um filme otimista, singelo demais. Um “happy end” perpétuo; um inferno (para quem curte um drama).

Mas também não caio em exageros quando lembro que a minha adolescência soou como um “lado B” dessa primavera. Um período nada feliz. Nada sorridente, nem fácil, nem cheio de recompensas e brindes. Enquanto meus amigos demonstravam até fisicamente a raiva e o medo que sentiam (dizer adeus à infância talvez seja a mais dolorida das despedidas), eu também sofria – só que silenciosamente, sem rebeldias, na minha.

E, para complicar tudo, naquela época eu era um rapazinho tímido, trancado no meu quarto, perplexo diante dos pátios abandonados da minha superquadra. Não era o moleque mais radiante. Minha mãe e meu padrasto diziam que a fase passaria logo. Nem meus amigos entendiam o que acontecia comigo. Eu queria entrar em contato com um mundo que não me parecia mais tão próximo: e, às vezes, só os discos, os livros e os filmes me levavam até lá.

Blood on the tracks, um disco tão importante (e que está em 99 entre 100 listas de melhores álbuns de todos os tempos), me encontrou nessa temporada confusa. Eu ainda era um menino que precisava levar conversas sérias com meus ídolos.

Bob Dylan, que eu já conhecia de alguns discos que me pareciam enigmáticos (e entediantes, pelo menos naquela época), cumpriu o papel de um tio velho, talvez experiente demais, que chama o sobrinho para falar sobre as coisas difíceis da vida. e sobre, ahn, os tumultos do amor. Uma situação que nunca aconteceu comigo (infelizmente, meus tios eram todos mais confusos que eu), mas que, imagino, pode ser um tanto constrangedora.

É que, antes que eu ouvisse Blood on the tracks, Dylan me parecia um tio exemplar: um macho-alfa que, sempre no domínio da situação, inventava hinos com a segurança de um marceneiro que martela mais um prego na parede. Parecia sempre tão fácil; e ele nunca esmorecia, não era? Desta vez, porém, o homem parecia frágil, um caco.

Blood on the tracks foi classificado, e com razão, como um disco “confessional”. Em 1975, Dylan cantava o amor frustrado e frustrante, as paixões incompletas, os encontros desencantados, os efeitos surpreendentes provocados pelo vento idiota do acaso. Havia como interpretá-lo como um contraponto a Nashville skyline, de 1969 – o disco do amor pleno, solar. Mas também parecia uma espécie de desabafo, mais instintivo que cerebral. Dylan tinha 34 anos de idade: não era um garoto.

Sabemos que o homem criava discos como quem escrevia os episódios de um longo livro de “autoficção”. Mas ainda prefiro lidar com Blood on the tracks da forma inocente como descobri o disco: é aquele momento raro em que um ídolo baixa a guarda para comentar sobre o que há de mais banal, inexplicável (e patético, porque as coisas são assim) na vida. Sobre os erros que cometemos duas ou três vezes. E as canções que nascem desse processo tolo, difícil de aprendizagem.

Também é, antes que eu esqueça, um disco com canções que nos maltratam gentilmente (Simple twist of fate, mesmo aflitiva, soa pra lá de agradável). Se Nashville skyline soava reconfortante, Blood on the tracks me parece de uma elegância amarga, sábia. O tio não tem boas notícias para contar. Mas encerra a conversa numa nota doce: as coisas talvez não terminem bem, mas a aventura é boa. Top 3: Simple twist of fate, Idiot wind, Tangled up in blue.

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Os discos da minha vida (top 10)

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A inebriante saga dos 100 grandes discos (da minha vida) se aproxima perigosamente do top 5. E isso não é bom sinal, amigos: para as próximas semanas, prevejo posts fracotes com parágrafos chorosos.

Aliás, hoje não é dia apropriado para escrever mais um textinho do ranking. O blogueiro faz aniversário e, soterrado em mensagens agradáveis de Facebook, está otimista, bobão e condescendente.

Antes de adentrarmos esta floresta de emoções, devo lembrar-lhes que postei ontem à noite uma mixtape especial com algumas das minhas músicas favoritas (ou quase isso: a ideia toda está explicada no post anterior, leiam lá). Um CDzinho sentimental que vai bem com este ranking sentimental.

E não sei se expliquei no post de ontem, mas gravei esta mixtape como uma espécie de presente pra vocês: não cometam a desfeita de jogar fora sem abrir o pacote, ok?

Voltando à corrida dos 100… Perdoem o trocadilho, mas o assunto é sério: quem não gosta do disco de hoje é doente do coração (download obrigatório, pois).

006 | Forever changes | Love | 1967 | download

Tal como Pet sounds, dos Beach Boys, Forever changes soa como um playground luminoso, girando em movimento perpétuo – até notarmos que esse parque colorido opera dentro de uma mente solitária.

É aí que a história pode ficar um pouco mais amarga, um pouco mais difícil.

No caso de Forever changes, estamos brincando dentro da percepção (delirante) de Arthur Lee, o “id” do Love. “Quando fiz o disco, eu pensei que morreria logo”, disse Lee. “Então essas seriam minhas últimas palavras.”

Parece complicado entender por que este disco perdurou enquanto vários outros da mesma época (de bandas que, como o Love, não deixaram um legado tão massacrante) esmaeceram. Talvez porque tenha o temperamento romântico, louco, de um testamento: Lee despede-se de uma época, de uma geração.

O disco seria produzido por Neil Young. E, como eu escrevi no post sobre After the gold rush, me parece uma daquelas obras que, apesar de refletir o “estado de espírito” de um período muito específico, encontram uma forma de contaminar meninos como eu, que ouviram este álbum já nos anos 90, contrabandeado via internet.

Ainda me pergunto: um Forever changes by Neil Young teria dado pé?

Acredito que Forever changes dê conta de ilustrar (e muito bem) qualquer seminário sobre a psicodelia sessentista. Mas, ao mesmo tempo, existe no disco um discurso subterrâneo, emotivo, que tem algo atemporal – que fala diretamente a qualquer um; ontem, hoje e amanhã. Porque, ao fim e ao cabo, o que ouço é um épico sobre um homem (Arthur Lee) tentando desafiar o pop.

O tipo de aventura louca que encontramos num disco como Sgt. Pepper’s, dos Beatles, e no próprio Pet sounds.

A diferença, creio é, é que Lee me parece um sujeito menos apolíneo que um Brian Wilson ou um Paul McCartney. Há trechos em Forever changes em que ele simplesmente se deixa levar. E é essa tensão entre o desejo de criar (e é um dos discos mais docemente inventivos que ouvi) e a vontade de se largar na correnteza de uma época que faz dele algo único.

E, mesmo quando abandonamos todo esse contexto (os anos 60, o rock psicodélico, a lisergia de Arthur Lee), ainda restam algumas das canções mais apaixonantes do rock: antes de soar estranhas (e, enfeitadas de exotismos hippies, elas destoam da cartilha beatle-stoneana da época), faixas como Alone again or, Andmoreagain e A house is not a motel nos conquistam de uma jeito mais primário. Como se já existisse beleza nos ossos dessas músicas.

É por isso que, quando sai a notícia de um relançamento de Forever changes, fico feliz: é como se Lee vencesse uma nova etapa numa jornada já muito longa. Quanto mais o tempo passa, nos livramos da obrigação de classificar este disco como o símbolo de uma época. É sim. Mas não é por isso que voltaremos sempre a ele, deslumbrados como crianças num parque de diversão. Top 3: Alone again or, Andmoreagain, Bummer in the Summer.

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Os discos da minha vida (top 10)

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Neste episódio prateado da saga dos 100 discos que reluziram na minha vida, um great oldie que sempre vai soar jovem. Ou: nenhum top 10 faz sentido sem Bowie. Para quem não conhece, recomendo o seguinte: pule o texto (que está qualquer nota) e vá ao MP3. Em 3, 2, 1…

007 | The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars
David Bowie | 1972 | download

Não ouço este disco já há algum tempo. A vantagem é que posso observá-lo com um certa frieza, sem que este texto se transforme num melodrama cósmico. Se bem que, no caso, todas as músicas começam a rodar no meu cérebro – uma jukebox alienígena – assim que leio o nome do álbum.

Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Ah. Este, para mim, é a piada mais sincera: um grande disco de rock e, ao mesmo tempo, uma perfeita caricatura daquilo que esperamos de um grande disco de rock. Uma farsa muito da esperta, às vezes cínica — mas que nos emociona, ô, sim.

No post anterior desta saga de 100 discos, tentei explicar meu amor por Doolittle, do Pixies. Não consegui. Este aqui me parece um caso mais fácil. É que o disco de Bowie consegue (naturalmente!) combinar ironia e afetuosidade, em medidas equivalentes. E essa alquimia é a poção mágica que sempre procurei em filmes, livros e que, mais tarde, eu tentaria (sem sucesso, eu sei) aplicar aos meus textos.

O que Bowie faz é complicadíssimo, mas às vezes parece tão jocoso — quase vulgar — que muitos fãs do sujeito preferem se escorar em álbuns mais respeitáveis: Low, até Aladdin Sane. Ziggy soa como uma troça, uma charge grotesca dos excessos de popstars. É ingênuo. É pueril. Parece até que pede para não ser levado a sério.

Mas vamos lá: é nesse formato teatral, camp, debochado, que Bowie encontra os balangandãs para cravar os dentes num pop melódico, fácil, maquiadíssimo. É desse desejo pelo chiclete mais doce que surgem canções como Moonage daydream e Suffragette City. Conheço poucos discos de rock que soam tão viciantes. Parece que ele ri da nossa cara: você vai ter vergonha de amar tudo isso com tanta intensidade.

Essa, no entanto, é só a parte mais rasteira da lenda.

Lembro que descobri o disco numa época em que eu estava fissurado em Daft Punk e Air — principalmente na forma como os franceses iam buscar no pop mais fuleiro, kitsch, as sucatas para converter em love songs futuristas, soft rock com coração, synthpop de morango (e aqui, meu irmão, não estamos falando em sarcasmo, mas em amor pelo sarcasmo). O disco de Bowie, naquele contexto, me parecia um elo perdido.

Daí que, quando descobri Ziggy Stardust, me vi abandonando todas as minhas bandas preferidas para dar um mergulho na gelatina de Bowie. Descobri álbuns extraordinários — e personagens que renderiam as mais surreais das graphic novels. Mas Ziggy permaneceu acima de todos: era o disco para onde eu voltava todas as tardes, faminto, como quem faz questão de exagerar na sobremesa.

São dois efeitos provocados pelo disco, e acho que eles se complementam: pode ser ouvido como uma das mais perfeitas coleções de hits (e existe outra tão adorável?), e também como uma sci-fi delirante sobre uma década que explodiu em glicerina, purpurina e teclados estridentes (no fim do disco, quando nosso herói sai melancolicamente de cena, começam os anos 80).

Dizem que o álbum ajudou na invenção de um gênero (o glam rock). Pode ser que sim. Minha relação com ele é descomplicada: desde a primeira audição, entendi onde eu pisava. Adolescentes gostam de implodir os clássicos, certo? Em mim ele provocou o mesmo impacto dos primeiros discos dos Beatles: antes que eu pensasse em avaliá-lo objetivamente, eu já estava hipnotizado, perplexo, flutuando no espaço sideral. Top 3: Moonage daydream, Ziggy Stardust, Soul love.

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Os discos da minha vida (top 10)

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A maratona dos 100 discos que salvaram, infernizaram a minha vida segue no top 10. O destino: a minha ideia de paraíso. 

Uma viagem perigosa, sim. Voltar ao álbum desta edição, meus amigos, me deixou com muito medo do top 5. Porque, vocês sabem, perco um pouco a noção quando escrevo sobre o que amo loucamente.

008 | Doolittle | Pixies | 1989 | download

Antes dos Pixies eu já conhecia Nirvana, Beach Boys, Ramones, David Lynch, um pouco de Buñuel e um tantinho da Bíblia. Mas, ainda assim, eu não estava pronto para Doolittle.

Porque o álbum me parecia bizarro, só que de uma forma agradável. Ou, virando a frase de ponta-cabeça: agradável, só de que uma forma bizarra. Diante da criatura deformada (e bela), passei um tempo coçando a cabeça.

Eu conseguia, por exemplo, me identificar com a ansiedade de Black Francis (o homem, o personagem, o ogro, o serial killer, o comediante). E Doolittle é um disco ansioso. Ansiedade, esse sentimento que todo menino de 15 anos compreende intimamente.

Ao mesmo tempo, Doolittle soava como um disco que se esforçava para soar degenerado. Um jogo calculado para nos chocar. Trata de morte, surrealismo, suicídio em massa, macaquinhos mortos, Sansão & Dalila. Mas tudo acabava soando cômico, divertido. O horror convertido em farsa. “O conceito é entreter”, dizia Black, meio que para confundir as coisas.

Não sei ainda se entendo o cinismo do disco (ainda que me pareça muito clara a influência sobre Nevermind, outro álbum punk ultrasarcástico e juvenil, adulterado para soar pop), mas, mesmo polido, ele soa tão psicótico, tão esquizofrênico e lúdico quanto os versos de Black.

É um daquelas discos em que a produção colide (de propósito) com as melodias. As melodias, por sua vez, espelham as letras — que, por sua vez, compõem um território muito específico. É uma coleção perfeita, exatinha, de canções muito tortas. Um “tour” ordenado a uma mente caótica.

Começando pelo começo: descobri o disco em meados dos anos 90, numa época em que os CDs importados chegavam aqui a preços simpáticos (R$ 20, em média) e estavam disponíveis na lojinha da superquadra ao lado. Eu ia a pé (e, para isso, cruzava um terreno baldio, cheio de mato e barro) para visitar uma dessas lojas, quase todas as tardes.

Eu era um moleque enxerido e talvez curioso demais, que chegava mais cedo na Cultura Inglesa para ler os semanários de rock. Mas um moleque sem dinheiro. Um moleque tímido e sem dinheiro, mas enxerido e talvez curioso demais. Daí que, na loja de importados, eu pedia para ouvir os CDs antes de comprá-los. Pedia timidamente. Se eu gostasse dos discos, fazia anotações para pedir de presente de aniversário (ou de Natal).

Naquele período, anotei no caderninho: Slanted and enchanted, do Pavement, Mighty Joe Moon, do Grant Lee Buffalo, e Sister, do Sonic Youth. O balconista viu o papelzinho e soltou uma risada cruel. “Você só precisa de um CD. Este, irmão”, e apontou para Doolittle.

Não o levei muito a sério (o sujeito cantava numa banda de shoegazing, que na época eu detestava), mas, depois de ler um comentário muito positivo de Kurt Cobain sobre o disco, resolvi dar uma chance. Ouvi uma vez, achei engraçadinho, mas não comprei. Não me convenceu. Demorou para me convencer.

Alguns meses depois, cedi à insistência do amigo vendedor. E, graças a ele, a história começou.

Logo, fui fisgado. As músicas soavam imprevisíveis, cheias de surpresas, pecinhas de um quebra-cabeça genioso, o tipo de brincadeira que não cansa — e, claro, tão ansiosas quanto meu primo de cinco anos de idade. Mas o que me capturou foi o espírito enigmático da obra: decodificar o CD se transformou num hobby que ocupou praticamente um ano inteiro da minha vida.

Na pré-história da internet, antes do Napster e do Google, eu fuçava cada número amarelado des semanários à procura de informações sobre as músicas. Quando foi que Black Francis viu Um cão andaluz? O que representam as imagens fúnebres de Wave of mutilation? Monkey gone to heaven é mesmo uma canção ecológica? Perguntas e mais perguntas (algumas, resolvidas quase 10 anos depois).

Acabou que o disco foi perdurando enquanto outros passavam. Slanted and enchanted, apesar de fatal, passou. Mighty Joe Moon, que amo, não me intrigou de tal forma. E, aos poucos, fui criando uma relação com o Pixies que equivale ao fã de futebol: eu queria ter todas as camisas autografadas, todas as figurinhas (repetidas ou não), os singles, os pôsteres.

E, se o Nirvana era uma banda que me afetava na catarse, o Pixies alegrava minha imaginação. Era a trilha para Pierrot le fou, do Godard, que eu descobriria alguns anos mais tarde. Um e outro me pareciam obras aventureiras, destemidas, que iam ao inferno e voltavam com um sorriso e uma flor. E que, talvez contra minha vontade, soavam agradáveis. De um jeito louco que não consigo explicar. Top 3: Gouge away, Debaser, Tame.

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Os discos da minha vida (top 10)

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E não é que a interminável lista dos 100 discos da minha vida está chegando ao fim? Conforme o prometido, nada de textos pomposos antes dos álbuns propriamente ditos. Dois informes, apenas (e velhos informes, para quem já conhece esta brincadeira): 1. o ranking é absolutamente pessoal, então nem venham com a história de que o outro disco da banda é melhor; 2. recomendo, as usual, o download.

009 | Unknown pleasures | Joy Division | 1979 | download

Sombrio. Taí um adjetivo que deveria vestir o casaquinho e se retirar do salão (e sim, estamos falando no Grande Salão da Música Pop).

Há palavras que, de tão reprisadas, perdem o sentido. Reconhecemos a sonoridade, entendemos razoavelmente as emoções evocadas, mas temos a impressão de que elas podem se adaptar a todos os ecossistemas — para se referir a qualquer coisa, pessoa ou evento. Merecem, portanto, o ostracismo.

O termo tem tantas utilidades que me pergunto: o que não é sombrio? Há canções sombrias em discos do Green Day e da Beyoncé. Há quem observe, aqui e ali, a faceta sombria da Lady Gaga. Aposto que há dissertações sobre a fase sombria de Madonna. O visual de Trent Reznor é definitivamente sombrio. Radiohead circa Amnesiac? Sombrio de chorar.

A little bit longer, do Jonas Brothers? É um cadinho sombria, sim senhor.

Mas, se retornarmos à raiz musical da expressão, na pré-história do chavão, tropeçaremos em Unknown pleasures. Será um tombo inevitável – o disco praticamente criou um estilo (e de um clichê, de um lugar-comum) que perduraria nas décadas seguintes, aplicado como modelo para dezenas, centenas de álbuns sombrios.

Closer, o disco posterior do Joy Division, me parece ainda mais tenebroso. Quase insuportável de tão ocre. Ele poderia estar nesta lista. Mas Unknown pleasures me atingiu como uma tentativa de sufocamento. Quando ouvi pela primeira vez, a minha vontade era de não ouvi-lo nunca mais. “É o suficiente”, pensei. Me parecia uma viagem sem volta – a um lugar muito, muito escuro.

Na época (18 anos de idade) eu era fã de fitas de horror, e ficava todo prosa quando desenterrava um italiano mais medonho, obscuro. Mas o terror de Unknown pleasures me assombrou de uma forma mais incômoda que qualquer longa-metragem. Era uma história terrível, mas com que eu me identificava. Não era um tempo feliz.

Há quem trate Closer como uma carta de suicídio ou um bilhete de despedida. Ian Curtis morreu dois meses antes do lançamento do disco, aos 23 anos — o que só fez engrossar um halo macabro que nunca o abandonaria. Unknown pleasures, em comparação, é um álbum até vibrante: o som de uma nova banda inglesa ansiosa para registrar canções de punk rock (mas sem saber exatamente como).

Após o lançamento, a própria banda estranhou o disco. Ele soava ruidoso, abrasivo e abafado demais, como se gravado dentro de uma quitinete apertada, e sem janelas. Quando ouvi pela primeira vez, pensei em pedir outro CD para testar a qualidade do som – talvez o meu estivesse com defeito. Mas não. Em 1979, uma banda de rock tinha o direito de lançar um long-play com aquela sonoridade “errada” e, ainda assim, ser admirada em semanários. Obviamente, no entanto, o álbum foi um fracasso de vendas.

O que não reduz em nada (talvez só aumente) o desconforto que ele provoca. Se produzidas com polidez esmerada, canções como Isolation e She’s lost control estariam entre os hits da época. Existe algo corajoso, contudo, na forma como elas são esmagadas pela mixagem, afogadas num lodo instrumental de teclados, baixo e bateria eletrônica que, apesar de arrancar o couro das melodias, compõem um ambiente único, original, que distancia o Joy Division de todas as grandes bandas daquele período.

E talvez nem seria correto incluí-los entre os grandes, porque o Joy Division ainda soa como uma experiência. Que serviria de rascunho para uma ótima banda pop (o New Order) e de referência para grupos extraordinários, mas que não ousaram desafiar o público tão frontalmente (o Radiohead, por exemplo, não gravou um disco tão sujo, e taí uma adjetivo-clichê que também renova o sentido quando associado a um álbum do Joy Division).

Não bastasse isso, Unknown pleasures (tal como Closer) está entre os discos mais desencantados que ouvi. Não existe disfarces para a sofreguidão de Ian Curtis: ele materializa uma persona romântica, atropelada e arrebentada, em canções que desabam abraçadas a ele. Não existe alívio, não há remédio: o disco vai quebrando aos poucos, se segurando para não cair.

A diferença é que, ao contrário de Closer, este álbum ainda tenta se inscrever no salão da música pop. Tente tocar as canções no violão: elas têm início, meio e fim. As danadas, apesar de arredias, convidam os fãs a criar versões que as banalizem (Moby e The Killers, por exemplo, tentaram simplificar o jogo e se deram mal). Mas não, não há sensações iguais às que encontramos num disco do Joy Division. Eles nos machucam, é verdade. Mas álbuns sombrios não deveriam, pelo menos de vez em quando, nos ferir de verdade? Top 3: She’s lost control, New dawn fades, Disorder.

Após o pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (top 10)

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No top 10 da saga dos 100 discos da minha vida, as regras do jogo mudam um pouco: um álbum indefectível por semana, com textos um tantinho mais robustos (mas ainda constrangedores de tão pessoais, porque o espírito do ranking é esse aí). E nada de prólogos, porque tudo foi dito-  e o que não foi dito, meus amigos, agora merece o silêncio.  

010 | After the gold rush | Neil Young | 1970 | download

Fico me perguntando: o que sentiam os meninos de 15 anos que ouviram After the gold rush em 1970, assim que o disco foi lançado? Faço uma acrobacia de imaginação para descer àquela época, mas é inútil.

Hoje, o disco é uma unanimidade. Quando organizam listas dos melhores dos anos 70, ele geralmente está lá, junto com um Clash, um Joy Division, um Nick Drake, um Lennon, um Stones. Ninguém discute: é clássico.

Tente, ó leitor, investigar na web. Você vai encontrar quatro ou cinco resenhas absolutamente positivas (e calculo apenas as fontes confiáveis) que ressaltam o que o disco tem de irrepreensível. A exceção é um texto publicado em 1970 na Rolling Stone — que avalia o álbum como uma aventura desnecessária na carreira de um bom compositor.

Eis o mistério: o que esperavam de Neil Young em 1970? Acredito que não era pouco. Naquela temporada, o canadense havia lançado um disco de country/folk com Crosby, Stills & Nash (Déjà vu, um sucesso enorme) e o single Ohio, que reafirmava o peso do álbum anterior, o muito elogiado Everybody knows this is nowhere. Tudo bem, tudo bom. Mas em seguida, o que fazer?

Talvez nada muito inesperado, respondia Young. Indo e vindo entre os extremos do músico, After the gold rush deve ter provocado certo desânimo, que o crítico da Rolling Stone rapidamente espelhou: estaria Neil Young matando tempo e afinando as cordas antes de surpreender o público novamente?

O tempo mostrou que essa questão era irrelevante: a carreira de Young oscilaria entre momentos mais e menos ruidosos. O movimento, na trajetória deste herói, se mostrou pendular. Entre guitarras altas e violões interioranos. Entre hard rock e country. Entre dois personagens: o guerreiro épico (envolto em feedback) e o rancheiro melancólico. Indo e vindo, subindo e descendo, para um lado e depois para outro.

Acontece que, na era de After the gold rush, esses dois temperamentos ainda não estavam totalmente definidos. Nem para os fãs, nem para a imprensa, tampouco para o próprio Neil Young. Harvest, que veio em seguida, era um disco mais coeso de country (com algo de loucura, lisergia). After the gold rush soa como um Young atípico, ainda “verde” (na arte do álbum, pelo menos), que tentava engaiolar referências às vezes dissonantes dentro de um LP.

Mas voltando à pergunta que abre este textinho tão modesto: o que teria sentido o menino de 15 anos que ouviu este disco em 1970? Eu, que tinha essa idade quando descobri o álbum (em 1995, se não me engano), admito que me senti um pouco intimidado. Acima de tudo, soava como um disco cheio de si, mesmo quando arriscava passos duvidosos (When you dance you can really love ainda me parece muito estranha).

Eu não conhecia absolutamente nada de Neil Young. Comecei por After the gold rush e depois segui com Harvest e Everybody knows this is nowhere. Não sei se tomei o caminho certo, no entanto foi o que aconteceu. Talvez Harvest seja igualmente impressionante, mas ainda penso em After the gold rush sempre que falam em Neil Young. Me parece um retrato perfeito. A síntese.

Inicialmente, o disco foi escrito como trilha sonora para um roteiro que não chegou a ser filmado. Mas quem precisa de filme quando se tem canções que delimitam um ambiente tão completo e tão poético (uma América de faroestes antigos e pistas de dança desoladas), que soam pessoais mesmo quando parecem contar histórias que pertencem a uma época muito anterior a Young, à invenção do rock? Filme pra quê?

Em 1970, talvez não esperassem de Neil Young um disco de canções de amor. Talvez seja isso. Deve ser isso. Da mesma forma como não esperavam de Bob Dylan, em 1969, a leveza de Nashville skyline. Em 1970, After the gold rush deve ter soado inadequado. Hoje, serve de bibelô agradável em estantes de discos. Obra-prima é obra-prima.

Acredito, no entanto, que o disco pode parecer ainda mais valente, ainda mais vívido, quando tentamos transportá-lo para a perspectiva da década em que foi lançado. Sei que é um esforço quase impossível, mas vale a fantasia. Porque After the gold rush era um disco outsider, frustrante de tão sentimental e antiquado. E, ao mesmo tempo, uma obra que criava um cenário alternativo, quase surreal, de homens solitários vagando em estadas inacabadas. “Tem uma banda tocando na minha cabeça”, Young avisa, na faixa-título. E não haveria motivos para reprimir o som bonito que ela, essa banda de um único homem, produz. Top 3: After the gold rush, I believe in you, Birds.

Após o pulo, veja os outros discos que apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (45)

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A incrível, terrível, estranha (porém previsível) odisseia dos 100 discos da minha vida chega a um episódio especialmente mágico. É que estamos coladinhos no top 10, meus amigos, prontos para a última etapa de uma viagem que começou em… em… quando mesmo? Não lembro. Mas faz um tempão. Um tempão

Estou pensando em alongar o suspense e, a partir do próximo capítulo, ir postando um disco por semana. O que vocês acham? Seria uma desculpa, é claro, para escrever um pouco mais sobre cada álbum, numa torrente quente (e desnecessária) de sentimentos e lembranças. Mas, se vocês preferirem, posso abreviar o novelão e ir aos finalmentes. Então? Vocês é que sabem.

Não custa lembrar que esta aqui é uma lista pessoal  (por isso, sem ambições técnicas, talvez filosóficas) de discos que marcaram a minha vida. Esse critério explica por que há muitos álbuns dos anos 90, época em que eu era adolescente (e cada disco era uma questão de vida ou morte). Aqui, Elliott Smith vem antes dos Rolling Stones. Mas acho que aqui mesmo.

No mais, não existe nenhuma incoerência nisso: no meu ranking de discos mais importantes, influentes, venerados, desejados, adorados etc, não tem Elliott Smith (coitado do homem, mas a vida é assim).

Esta semana, em vez de tecer defesas rocambolescas e apaixonadas para álbuns que são unanimidades, vou seguir jurar fidelidade à lógica desta série de posts e escrever textinhos também muito íntimos, sobre como eu encontrei esses dois álbuns extraordinários e como eles me atropelaram sem que eu percebesse. Simplezinho, ok? Ok.

012 | Automatic for the people | R.E.M. | 1992 | download

O meu primeiro do R.E.M. foi Out of time (1991), uma fitinha-cassete adorável que ganhei de aniversário e ouvi alegremente até o dia em que meu microsystem resolveu trucidá-la com uma mordida. Foi triste. Mas, um ano depois, aquele álbum colorido e melodioso já parecia pertencer à minha infância. Existia uma distância enorme que nos separava, e Automatic for the people chegou como que para mostrar que o R.E.M. estava ciente disso. Aquele era um disco mais cinzento e rarefeito, mais ou menos como eu me sentia em 1992, ano em que me mudei do Rio de Janeiro para Brasília. Depois descobri que era uma espécie de tratado sobre morte e luto, mas na época me parecia um aviso sereno de que uma fase na minha vida havia acabado. So long, meninice. Também era o disco que me uniu ao meu padrasto num período em que mal nos entendíamos. Criou-se um elo, finalmente. Em 1992, Automatic soava como uma ladainha talvez adulta demais, límpida em excesso, um sinal cristalino emitido de um radar distante, velho, suspenso no tempo. Um disco que sempre esteve lá, out of time. Hoje vejo apenas como um álbum lindamente polido, obra-prima desde o berço, perfeito demais para ser verdade. Top 3: Nightswimming, Drive, Everybody hurts.

011 | A tábua de esmeralda | Jorge Ben | 1974 | download

O disco de Ben, o meu brasileiro preferido, me leva ao tempo em que eu aprendia violão (sem muito sucesso). O professor fazia de tudo para defender a delicadeza sublime e a eternidade das batidas da bossa nova, mas aquilo me aborrecia de tal forma que eu acelerava as lições para chegar aonde eu queria: nos Beatles. As melodias que me atraíam eram as de Jorge Ben, os sambas do início de carreira, mas o professor dizia que eu não estava pronto para elas. E me indicou A tábua de esmeralda, uma “suruba de violões, muito louca” (nas palavras do sujeito, sempre muito saidinho). Quando ouvi o disco, saquei imediatamente o que ele quis dizer: não lembro quantas vezes reprisei a introdução de Os alquimistas estão chegando, tentando entender como aquilo era feito. E realmente soava como uma sandice: o Ben que deslizava naquelas músicas não era o malandro galante&sacana dos anos 60, mas um guru louco e genial, tentando engavetar os segredos do universo dentro do refrão – será que Philip K. Dick ouviu aquilo ali para escrever Valis, de 1981? Mas foi quando ouvi o ingrês de Brother que bateu o alívio: então temos o direito a criar músicas que soam como jogos infantis, canções sem sisudez alguma? Depois daquela revelação, as aulas de violão ficaram mais divertidas. Top 3: Brother, Os alquimistas estão chegando, Magnólia.

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Os discos da minha vida (44)

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Enquanto aperto as roupas na mala para sair de férias logo mais (cinco ou oito pares de meia?, eis a questão), deixo vocês com mais um capítulo da saga dos 100 discos da minha vida. 

Lembrando que, apesar da falta de entusiasmo do blogueiro (é uma viagem longa, estou um caco!), estamos muito perto de entrar naquilo que chamariam de reta final. Isto é: o top 10 vem aí.

Ok, eu deveria estar mais empolgado: o TOP 10 VEM AÍ, meu povo!

Certo. Assim está melhor. Mas vocês sabem que a ideia de um top 10 significa muito pouco (quase nada) quando estamos falando de um ranking absolutamente pessoal, cheio de tiques e manias estranhas, que diz respeito a este blogueiro e a mais ninguém. É uma lista dos discos da minha vida. O que, no mais, bloqueia qualquer tentativa de debate ou polêmica sobre os álbuns que deveriam ou não deveriam estar aqui. Este não é o ponto da discussão, meu bróder. Nem nunca foi.

Também lembro que é possível fazer o download desses discos tão especiais. É fácil, é só clicar, e você  não paga nada por isso. Entendido? Então até logo mais. E me deixem descansar um pouco, tá?

014 | Sticky fingers | The Rolling Stones | 1971 | download

Mick Jagger comentou mais de uma vez que, se pudesse, teria regravado Exile on Main Street (1972). Não gosta da mixagem, que avalia como empolada e confusa. Obviamente, não devemos confiar nele: preciosismo tem limites. Mas, heresias à parte, não lembro de ter lido nenhuma observação maldosa do sujeito sobre o disco anterior, Sticky fingers – e seria bom se, nesse caso, o homem ficasse quieto. Porque Sticky fingers, para mim, cristaliza em 46 minutos tudo aquilo que amo nos Rolling Stones – e tudo aquilo que eles não conseguiram repetir completamente desde então. É de uma precisão absoluta. E nem por isso contido (pelo contrário: existe tanto sentimento nessas canções que o suor parece molhar a capa do disco). Os Stones sempre foram uma banda de blues que precisou se adequar aos formatos em voga no rock. Mas, neste disco aqui, eles fazem o percurso contrário: nos vendem um disco de rock que, do início ao fim, experimenta praticamente todos os fundamentos do blues. E isso (percebam a sagacidade) sem soar nostálgico ou reverente aos ídolos. Não, não era apenas rock ‘n’ roll. Top 3Wild horses, Sway, Brown sugar.

013 | XO | Elliott Smith | 1998 | download

O disco mais subestimado, mais injustiçado, mais incompreendido (etc!) de Elliott Smith é aquele que eu sempre ouço com o coração na mão. Se Either/or (que já apareceu neste ranking) era malpassado e sangrento, XO me parece um desafio ainda mais tocante: contratado por uma gravadora grande (a Dreamworks, de Geffen e Spielberg), o nosso herói resolveu gravar um álbum pop. Mas o interessante é notar o que ele entende por pop: um disco-diário de Nick Drake com os arranjos vocais de Brian Wilson, as melodias redondinhas de Paul McCartney e a produção límpida de um Nigel Godrich. É nessa espécie de paraíso sonoro (com nuvens branquinhas ao redor) que Smith aconchega algumas das canções mais otimistas da carreira: sons de libertação (Independence day) e euforia (Bottle up and explode, Everybody cares everybody undestands). Sons também de utopia, de ilusão: entre uma faixa mais alegrinha e outra, aparece na fresta o rosto triste de um homem que não consegue sustentar o sorriso por muito tempo. “What a fucking joke”, ele desabafa, como quem conclui algo importante sobre a vida, a música, o pop e tudo mais. Top 3: Independence dayTomorrow tomorrow, Everybody cares everybody understands

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Os discos da minha vida (43)

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Devagar (quase parando, quaaase parando), lá vamos nós a mais um episódio da incrível jornada dos 100 discos mais paralisantes da minha vida. A ideia era escrever um texto introdutório mui longo e ambicioso sobre os mistérios da exîstência, o poder do amor, a força das lembranças e o fato de que este é um ranking estritamente pessoal (não tente isto em casa!). Mas não. Não. Sem prólogo, amiguinhos. Sem choro. Sem vela. Sem mais.

Hoje com textos muito pessoais e um cadinho derramados, porque eu sei que vocês curtem esse esquema coração-aberto, todo-sentimento, heart-on-sleeve, emoblog, etc. E quem ainda não fez o download destes discos é mulher do padre, viu. 

016 | Pink moon | Nick Drake | 1972 | download

Pensando bem, eu preferiria que Nick Drake não tivesse gravado este disco. Porque, depois dele, o que ele gravaria? O homem decantou o próprio estilo às moléculas elementares. Perto dele, os anteriores soam floreados demais. Não são, é claro. Mas Pink moon tem o poder de colocar a música pop numa outra perspectiva. Não existe outro tão sincero (talvez os do Elliott Smith), e não há pedido de ajuda tão desesperado (talvez os de Kurt Cobain). Lembro que, quando ouvi pela primeira vez, a sensação foi de desamparo. Eu não sabia o que fazer deste álbum: é terrível ou terrivelmente tocante? É um exercício de autocomiseração ou arte lascada, lo-fi da alma? Honestamente, ainda não sei. Só sei que este é um disco que às vezes parece até indecente, indiscreto mesmo: não se comete suicídio na frente de uma plateia de cúmplices. Não se fala sobre assuntos que nos arrepiam ao nos deixar sem respostas. Não se faz. É clichê dizer que este é um disco triste? Talvez seja até um erro, já que Pink moon encara a morte com uma serenidade quase irritante. Dá até um pouco de medo. É assim que acontece quando acontece? Prefiro não saber. Top 3: Free ride, Pink moon, Things behind the sun.   

015 | Achtung baby | U2 | 1991 | download

Achtung baby está aqui no alto da minha lista de 100 por dois motivos. O primeiro: ele merece. O segundo (e mais sentimental): foi o primeiro CD que eu comprei, com o patrocínio da mamãe e os conselhos (sábios) dos críticos de música do Jornal do Brasil (voltaremos a eles mais tarde, ok?). Cheguei ao álbum um pouco tarde (logo depois, o U2 lançaria Zooropa, talvez o meu favorito deles), mas lembro bem que ele colaborou mais que qualquer outro para uma espécie de reforma no meu gosto musical. Aos 12 anos de idade, qualquer luz vem a calhar. E esta aqui, rapazes, é uma luz nunca apaga. Um disco tão GRANDE, sobre temas tão LARGOS (amor, amizade, globalização, fim do mundo, o que mais?), e que consegue de alguma forma resolver o desejo de grandiosidade numa dúzia de canções que ainda estão aqui conosco? Nem parece simples. Demorou muito tempo para que eu percebesse o quanto as guitarras do The Edge estreitaram minha relação com o álbum: elas me pareciam absolutamente improváveis (eu, na época um menino agarrado a um violão, nunca conseguiria fazer igual), e ao mesmo tempo muito familiares. Talvez porque, no fim de 1992, eles já estivessem em todos os lugares. E eu ainda estava só aprendendo. Top 3: Until the end of the world, The fly, Zoo station.

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Os discos da minha vida (42)

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Este é, senhoras e senhores, o quadragésimo segundo capítulo da saga dos 100 discos que fazem a tracklist da minha vida. Hoje, sem prólogo.

018 | Loveless | My Bloody Valentine | 1991 | download

Antes de ter cravado as garras na história do rock (e ele se transformou num disquinho influente, meus amigos), Loveless era apenas ruído rosa: durante toda a década de 90, um álbum que destoava de tudo o que ouvíamos na MTV e na rádio. Extremamente delicado e às vezes extremamente incômodo (e estamos falando numa obra de extremos), o testamento de Kevin Shields é um daqueles projetos destemidos em que um artista pop decide testar os limites das tecnologias de gravação (e em que, nesse processo exploratório, acaba declarando guerra à gravadora responsável por pagar pela festa). Mas isso tudo é história da música pop, certo? Para mim, o que fica de Loveless é a repetição infinita de Sometimes no porão do meu cérebro, indo e voltando como uma canção de ninar pré-histórica, transmitida por meus antepassados. A impressão é de que esta música sempre esteve aqui, entre nós. Ainda me espanto quando percebo que ela foi composta no período em que eu era um menino de 11 anos de idade. Top 3: Sometimes, Only shallow, To here knows when.   

017 | Grace | Jeff Buckley | 1994 | download

Lembro que eu já conhecia duas ou três músicas de Grace antes de comprar o CD. Jeff Buckley ainda não havia morrido, então estávamos livres da carga mitológica que passou a envolver este álbum. Comprei porque havia algo em Last goodbye que gelava meus nervos (a linha de baixo, acho que era isso), e convidei meu pai para a primeira audição. Ligamos o disco num volume alto talvez demais: foi engraçado notar como o estrondo da faixa título, logo após a introdução meio indiana, deixou o velho surpreso. “Uau”, ele disse (e parecia um menino diante de uma montanha-russa sofisticada), e ali eu consegui me identificar com meu pai como em poucas vezes. Nos anos seguintes, voltei a este disco muitas vezes, sempre com um destino diferente. A fase Lover, you should’ve come over foi a mais duradoura: era uma música romântica demais, que talvez tenha me estragado um pouco. Passei a procurar casos de amor que fizessem justiça à canção, mas eles não existiam. Coisa de adolescente. O disco, apesar disso, seguiu galante, the one and onlyTop 3: Last goodbye, Lover, you should’ve come over, Grace.

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Os discos da minha vida (41)

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A saga dos discos que afligiram a minha vida chega a um episódio febril. No capítulo de hoje, este blogueiro (com a cabeça ardendo de preocupação) dá um pause na rotina tumultuadíssima e cumpre com certo atraso o compromisso amplamente babaca de listar mais dois discos de uma lista que contém 100 álbuns selecionados de acordo com critérios muito pessoais.

Há boatos de que estou perdendo meu tempo: sim, meus chapas, estou mesmo. E essa perda descontrolada de punhados e punhados de tempo me põe numa agonia sem fim. A impressão é de que, quando corro meus dedos neste blog, mexo num cadáver. Meio mórbido, eu sei

Minha vida anda tão complicada que renderia muitos posts sentimentais sobre temas que me deixariam envergonhado no dia seguinte. Prefiro ficar na minha. Meu coração vai bem, batendo e batendo feliz, mas o resto está quebrando. Espero que essa sensação ruim vá embora no fim dessa fábula dark. Por enquanto, o Tiaguinho aqui tá no meio da floresta. E é noite.

No entanto, vocês querem saber dos discos e está de hora de irmos de encontro a eles. Ok? A dupla de hoje é, pra mim, fundamental (obviamente). Abrimos o top 20 (oh! negrito!) com uma obra-prima e uma quase obra-prima. E nem vou perder meu tempo batendo na tecla de que são discos importantíssimos, que moldaram meu temperamento, que me educaram e que me deram de comer. Tudo isso tá se tornando muito repetitivo. Para nossa sorte, a jornada se aproxima do fim.

Nem demorou tanto assim, certo? Certo. 

020 | The queen is dead | The Smiths | 1986 | download

Passei tanto tempo congelado em I know it’s over, uma hit premonitório sobre os meus 15/16 anos, que só focalizei o disco muito depois, quando minha adolescência já havia terminado. E aqui, ainda, muito firme ao lado dos que consideram este álbum uma espécie de resumo da Mitologia do Rock Britânico, em tudo o que essa história tem de irônica, elegante, cruel, autodepreciativa e, se pensarmos em melodia/refrão, adorável. Conheci o disco mais ou menos na época em que eu ouvia Parklife, do Blur, e foi como descobrir Hitchcock em meio a uma paixão por Polanski. Primeiro senti algum receio, acho que assombrado pelo romantismo um tanto sufocante de Morrissey, depois entendi que não há muito como resistir. Encontrei nessas 10 músicas a minha balança para pesar cada um dos lançamentos do britpop: discos muito esforçados, sim, mas nenhum perfeito como este aqui. Top 3: I know it’s over, There is a light that never goes out, Cemetry gates.   

019 | Radio-activity | Kraftwerk | 1975 | download

Meu caso com o Kraftwerk começou muito antes da temporada eletrônica dos anos 1990. Ouvia Radio-activity já aos 10, 11 anos, uma época em que eu tratava a música pop com total despretensão. Nada mais era que um vinil tratado com orgulho por meu padrasto. O velho não sabia explicar absolutamente nada sobre a banda (“uns malucos da Alemanha”, ele dizia), mas considerava a sonoridade “estranha” e ao mesmo tempo “envolvente”. E isso, para mim, naquela época, era o bastante. Lembro de ter passado algumas tardes ouvindo o lado A do álbum, tentando decifrar o que aquilo representava. Muito tempo depois, num show da banda, meus olhos encheram de lágrimas quando eles tocaram Radioactivity. Foi quando eu percebi a importância da música e do disco para a minha vida. Voltei a ele, comprei uma cópia em CD, e sempre que eu ouvia era como assistir a um fantasma pairando. Uma pena: o vinil despareceu, e meu padrasto aparentemente não sente falta alguma dele. Top 3: Radioactivity, Antenna, Ohm sweet ohm.

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Os discos da minha vida (39)

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Hoje, na incrível novela dos 100 discos que levaram a minha vida ao delírio: sexo, violência, solidão, horror, êxtase, agonia, manhãs de domingo e o penteado do demônio. Entre outras atrações imperdíveis.

Ainda falta um tantinho para que este ranking chegue ao fim (para efeito de comparação: se estivessemos numa viagem de carro entre Rio de Janeiro e Brasília, este post seria Paracatu). Mas toda hora é hora de lembrar a vocês que esta é uma lista absolutamente pessoal. Ela obedece a critérios obscuros (e obtusos) e é de inteira responsabilidade de Tiago Superoito, o senhor soberano deste latifúndio. Todas as reclamações devem ser feitas diretamente a ele, portanto. E na caixa de comentários logo ali embaixo.

O cardápio do dia é o seguinte: um disco que já se tornou clássico (mas é daqueles clássicos que ainda mordem, atenção com ele!) e outro que vai acabar se tornando uma referência, um cânone, um álbum grandalhão daqueles que você guarda para mostrar aos bisnetos  – isso, é claro, se deus for justo com os homens de bem.

À colheita, irmãos!

024 | The Velvet Underground & Nico | The Velvet Underground | 1967 | download

O primeiro disco do Velvet Underground me acertou primeiro no peito e depois no cérebro. Hoje tenho certeza de que existe algo errado nessa ordem (é um disquinho de nariz empinado, certo?), mas foi o que aconteceu. Eu tinha 14 para 15 anos quando Sunday morning caiu no meu aparelho de som e ficou ali, deitada de monoquini, torrando na brisa. É uma canção tão adorável que, por muito tempo, evitei ouvir o restante do disco. Só depois, alguns meses depois (nota do revisor: na época Tiago tratava os discos com um pouco mais de discplicência, sem respeitar a ordem das faixas ou as intenções do autor; talvez ele deva recuperar o hábito, em minha opinião), percebi que as outras faixas tratavam de temas um pouco mais angulosos. E havia definitivamente algo macabro em Venus in furs, mas eu não sabia definir o conteúdo perturbador da canção. O disco acabou me seguindo por muito tempo, e me segue até hoje. É o meu favorito do Velvet, talvez por combinar com harmonia o delicado e o terrível, amor e morte. É daqueles álbuns que podemos começar a ouvir aos 10 anos de idade e continuar até o dia em que nossos dentes começarem a cair. Aposto que só vou entender The black angel’s death song quando eu fizer oitentinha. Top 3: Sunday morning, Venus in furs, I’ll be your mirror

023 | Odelay | Beck | 1996 | download

Um disco de adolescência. Ah, meus 14 anos! Nada de muito interessante acontecia. Talvez por isso eu tenha me apegado a álbuns superhiperativos, rios de ideias escorrendo pelas bordas. Odelay era a mais querida dessas jukeboxes: Beck Hansen era meu ídolo porque parecia possível ser alguém como ele. Não era um rockstar nos moldes tradicionais (e, aparentemente, ele também desenvolvia paixões platônicas as mais loucas) e sempre me soou mais como um nerd no controle de um painel preenchido por botões coloridos. De qualquer forma, ele sabia operar a maquininha como um jedi: quase tudo o que sei sobre colagem pós-pós-moderna de sons e ideias está contido aqui, em Odelay (depois, é claro, conheci Prince e as coisas começaram a ficar mais complicadas). Where it’s at é a obra-prima do sujeito, sem concorrentes à altura (sorry, haters). Ainda não fizeram nada nem remotamente parecido a The new pollution. Mas não vamos esquecer que é um disco também emocionante, e de um jeito mundano: ouça Jack-ass, uma das canções que aqueceram e adoçaram a minha ó-tão-friorenta juventude. Bateu até um tiquinho de saudade, viu. Top 3: Where it’s at, The new pollution, Jack-ass.

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Os discos da minha vida (38)

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Esta semana, a saga dos 100 discos que zoaram a minha vida chega a uma edição apocalíptica. Melhor: revolucionária. Antes disso: incendiária. Antes ainda: lancinante. 

Um contém os diabinhos frios da minha adolescência, o outro guarda um pedaço importante da minha infância lá dentro. Dois discos que, acima de tudo, me ensinaram o seguinte: tenho todo o direito de criar expectativas quase insuportáveis para a música pop; ela, a música pop, quase sempre me surpreende.

Dois álbuns de invenção, se é que podemos catalogá-los dessa forma. Dois álbuns que pedem para que criemos novas formas de catalogar álbuns. Um disco que abriu (tardiamente) os anos 1960, um que iniciou (pontualmente) os anos 2000. Duas obras-primas.

Muita gente boa (e muita gente ruim) já escreveu vários parágrafos bons (e vários parágrafos ruins) sobre esses discos, então vou me esquivar da responsabilidade e aproveitar este espaço para contar historinhas sobre a minha vida. Dica: não leve estes textos (e este ranking) muito a sério, ok? São apenas textos. E isto é apenas um ranking (e um ranking sem discos do Novos Baianos).

026 | Kid A | Radiohead | 2000 | download

Lembro que foi o primeiro disco que baixei via web, mas a conexão discada lá de casa era tão lenta que demorei mais ou menos uma semana para organizar todas as faixas numa pastinha virtual alaranjada. Quando fui ouvir a coleção, o espanto foi tão grande que eu não sabia quem culpar: se a banda, se o disco, se a conexão discada, se as minhas expectativas, se a web (como um todo). Admito que, cutucando aquela versão aparentemente inacabada de um disco aguardadíssimo, imaginei ter caído numa gozação. Esperei o lançamento do CD, comprei a bolachinha REAL e, bem, e nada: a internet nem sempre mentia (lição duríssima, aliás) e o som era mesmo quebradiço, às vezes bizarro, a trilha sonora vacilante para a era do gelo (e não falo em desenhos animados fofos, mas no apocalipse). Mais do que um álbum de transição, é uma tomada de posição: muito difícil de ser aceita de imediato (principalmente por um fã de Ok computer, meu caso), mas que nos empurra lentamente para uma paisagem de onde não conseguimos nos desvencilhar. Talvez um ambiente glacial, repugnante, mais pessimista do que qualquer livro do Philip K. Dick; também fascinante. Dali pra frente, aprendi rapidinho a baixar mp3. E tudo ficou nos lugares certos. Top 3: Everything in its right place, Morning bell, Optimistic.

025 | Rubber soul | The Beatles | 1965 | download

Meu pai, que nem sei muito bem onde está, gravou este disco para mim numa fita-cassete. Eu tinha acho que 10 anos, talvez um pouco menos. Lembro que era período de férias e eu detestava ficar desocupado, de bobeira na casa do meu velho, deitado no sofá, lançando osso pro cachorro, dormindo enquanto passava filme dublado na tevê. Antes de amar os Beatles, eles serviam para que eu preenchesse meu tempo. E Rubber soul é um dos discos que me levam àquelas tardes tão desalmadas: era como se não existisse mais vida alguma além daquela que saía do meu walkman. Ainda me impressiono como essas músicas acabaram se impregnando nas minhas lembranças, de tal forma que hoje choro quando ouço Drive my car e You won’t see me. Passei muito tempo negligenciando este disco, o trocando por outros (Revolver, por exemplo). Mas agora chega: Rubber soul, ainda que desperte memórias por vezes lamentáveis, até muito tediosas, guarda algo da minha infância que outros discos dos Beatles não têm. Talvez a sensação de que havia um playground lá fora enquanto eu estava preso lá dentro. Para minha sorte, havia um momento em que as férias com meu pai acabavam e, finalmente, eu apertava o stop. Top 3: Drive my car, You won’t see me, I’m looking through you.

Depois do pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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