Rage against the machine

2 ou 3 parágrafos | Jean Charles

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Ontem à noite, na bilheteria do cinema: “A mulher invisível. Uma inteira.” “Mas minha senhora, a sessão começou há meia hora.” “Então me dê uma inteira pro outro filme do Selton Mello.”

Acho que meu incômodo com Jean Charles (o “outro filme do Selton Mello”, 4.5/10) veio principalmente daí: as cenas sugerem uma produção barata e singela, com atores desconhecidos e um desejo de encenar a “vida como ela é”, o drama dos migrantes. Mas aí Selton Mello entra em cena e o que nos resta é um retrato distante, artificial, do brasileiro que morreu assassinado pela polícia de Londres. Ele está bem ou mal? Nem sei. O problema é anterior a isso: o personagem é, desde o início, engolido pela imagem conhecidíssima do astro.

Até os 15 ou 20 minutos finais, me pareceu um filme completamente primário e desinteressante. A narrativa é didática (as imagens do noticiário britânico são intercaladas ao dia a dia de Jean, por exemplo) e as cenas parecem trombar umas nas outras. Vai ter gente dizendo que são imagens “honestas”, uma homenagem “digna” mas, para mim, é tudo precário. No finzinho, o filme cresce um pouco quando apela para o sentimentalismo e atiça a indignação do público. As pessoas se comovem. Rage against the machine. Mas esse mesmo impacto poderia ter sido provocado por um documentário ou uma reportagem sobre o assunto, não?