Radiohead

Paranoid android | Radiohead

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Um guitarrista de uma banda de rock de Brasília, que entrevistei ontem, disse tudo o que precisamos saber sobre os shows do Radiohead no Brasil. Ele não é fã dos ingleses (aposto que prefere Primal Scream ou My Bloody Valentine), mas, quando perguntei se havia comprado ingresso, respondeu até com alguma irritação: “Óbvio, é uma das maiores bandas do século 20.”

Quem discorda? Impossível menosprezar uma apresentação do Radiohead. Não dá. É crime. Para o fã de música, de qualquer música, trata-se de um evento obrigatório (minto: para os fãs que estacionaram nos anos 80, recomendo o revival de Iron Maiden). Temos que usar traje esporte fino? 

Numa rodada de entrevistas com músicos de Brasília – da geração que hoje tem 30, 35 anos -, foi impressionante notar como a banda é admirada até por quem nunca se interessou verdadeiramente por eles. Mais que influência musical, deixam uma lição de integridade que, por si só, justifica o culto. Quem mais conseguiu praticar tão radicalmente, e por tanto tempo, o sonho da liberdade de criação? 

Teorizar sobre rebeldia é uma coisa – outra é lançar um single como Paranoid android (acompanhado deste clipezinho estranho aí, de Magnus Carlsson), sem refrão e quase sem nexo, para abrir os trabalhos de um álbuns violentamente machucado pelas tensões do fim de milênio.

Para mim, ainda parece um absurdo. Só de saber que eles vão tocar essa música, essa anomalia, essa obra-prima, daqui a alguns dias, ali na minha frente, dá frio na barriga. É como se o mundo estivesse para acabar.  Se eu sobreviver, juro que tento uma explicação.

Grammy Awards

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grammy

Eu interpretei como uma espécie de solução de emergência. A Recording Academy estava dividida entre os dois álbuns mais bem-sucedidos (comercialmente) de 2008: o do Lil Wayne e o do Coldplay. Não são discos ousados, inventivos, revolucionários nem nada (mesmo que o Coldplay pense o contrário), mas, para os padrões conservadores do prêmio, sempre parece mais razoável tirar um veterano da cartola e consagrá-lo pela enésima vez.

Alguém mais lembra que a versão unplugged de Layla, do Eric Clapton, desbancou Smells like teen spirit como melhor canção do ano? Raising sand, o disco do Robert Plant com Alison Krauss, me parece correto (apesar das pouquíssimas audições e do imediato desinteresse pelo projeto). Mas convenhamos: o encontro de um símbolo do rock e de uma musa do bluegrass soa mais palatável para o Grammy que um álbum solo de Plant, por exemplo.

Para mostrar que não vive do passado, o Grammy colocou o disco-amostra-grátis do Radiohead na briga. Não colou (cadê TV on the Radio, heim?). O que se nota (e isso vale para a premiação como um todo) é um descompasso cada vez maior entre o grande prêmio da indústria fonográfica e uma (não tão) nova dinâmica da música pop, que deixou de precisar do aval das grandes gravadoras para se segurar de pé. Não sei se vocês perceberam, mas os independentes praticamente foram excluídos da festa (o disco do Plant é da Rounder Records, mas é quase todo de regravações e tem o selo do T. Bone Burnett).

Quer o exemplo mais gritante? Na concorrência por melhor álbum alternativo (e são mais de 100 categorias!), Radiohead era o único verdadeiramente indie: disputava com bandas como Raconteurs e Gnarls Barkley, ambos da Warner. Nem se viu sombra de Vampire Weekend. E No Age disputou o prêmio de melhor embalagem de CD. Perdeu para o Metallica, aliás.

Daí que fica aquela coisa: o pop rock segue em frente (de um jeito muito diferente), enquanto a indústria continua olhando para trás. Não vai terminar bem.

Pelo menos tem gente encontrando brechas nesse sistema antiquado. O que nos leva aos dois melhores momentos da noite. O primeiro, de longe, foi o surto do Radiohead, que apresentou 15 step com uma banda daquelas de parada militar. Intenso.

Antes disso, uma M.I.A. que naquela hora provavelmente já havia rompido a bolsa d’água, encontra os manos do hip hop (Kanye West, Jay-Z, T.I. e Lil Wayne) num número musical que, apesar de todo planejadinho, acabou soando espontâneo como poucos.

No mais, Gilberto Gil perdeu (com justiça – por aqui, o álbum do ex-ministro bateu e voltou), Adele foi eleita a revelação do ano e até o Coldplay, com visual mendigo-chic, ficou surpreso com o prêmio de melhor álbum de rock. Sabe aquela cena de Titanic em que a banda toca enquanto o navio afunda? Eis o Grammy 2009.