Psicodelia

Superoito express (40)

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4 | Beyoncé | 7

Faltou timing, é verdade. Mas, se existe um disco da Beyoncé que faria por merecer o nome Dangerously in love, é este aqui. E não muito por conta do clima de guerrinha dos sexos que embala o primeiro single, Run the world (Girls). Aliás, um hit tão colante, no esquema super-bonder (o chiclete mais gostoso que a M.I.A. não confeccionou em 2011), quanto enganoso. Não é, de forma alguma, um cartão de visitas confiável pro álbum. O perigo, nas canções, é de ordem sentimental: a protagonista deste drama não é a musa girl-power, mas um mulherão que peca por amar demais.

O gênero é melodrama. Melodrama pop. Melodrama sirkiano. Na faixa de abertura, Beyoncé geme de desejo, deitada nos lençóis cor-de-rosa do produtor The-Dream (e há um fortíssimo perfume kitsch em versos como “não entendo muito de álgebra, mas sei que um mais um é igual a dois”, da baladona 1+1). Logo depois vem a ressaca moral: em I care, lamenta não ser totalmente correspondida (“sei que você não se importa muito, mas eu ainda ligo”, avisa), enquanto o refrão vai desmoronando em guitarras pop-rock. A seguinte, I miss you (de Frank Ocean), tranca as portas do quarto: soa como um sussurro, uma declaração quase constrangedora de amor (e é uma pena que a faixa pareça incompleta, sem um terceiro ato).

Nas primeiras faixas, o disco vai se lambuzando nesse gel romântico com tanta convicção que soa coeso como nenhum outro que Beyoncé gravou. Depois, no entanto, chegam os argumentos para quem defende a ideia de que o álbum morreu. São tantas as expectativas comerciais em torno da cantora que ela não consegue manter o foco: recorre à inevitável cartilha brega de Babyface (Best thing I never had, broxante), vai ao songbook de Diane Warren (I was here, tão ruim que arrepia) e desce à pista de dança quando parece menos apropriado (ainda que Party, produzida por Kanye West, tenha algum músculo). O disco termina com dois bons singles: além de Run the world, tem Countdown. Que vão fazer sucesso, sim, como não? Mas que acabam denunciando o fracasso de Beyoncé: não foi desta vez que ela conseguiu gravar um ÁLBUM (e o triste é que, aqui, esse parece ter sido um objetivo levado a sério).

D | White Denim | 7

Deveria parecer uma progressão natural: uma banda de garage rock assmidamente saudosista – que concebeu um repertório inteiro replicando o som de ídolos bastardos do fim dos anos 1960 – resolve virar as páginas do calendário e gravar o que entende como o típico disco psicodélico setentista, com todas as dores, delícias e manias do período (espere, portanto, encontrar clichês de prog rock, jazz, blues, além de letras sobre drogas e fazendas). Em tese, é uma guinada até muito previsível. Mas ainda me parece surpreendente notar que aquele trio meio desleixado e galhofeiro (que já foi comparado a The Hives e White Stripes) se reinventou como um quarteto detalhista, até um pouquinho cerebral (o disco é praticamente uma homenagem completa, faixa a faixa, aos ídolos do grupo). Tudo o que eu não esperava deles era uma balada sóbria como Street joy. Que está aí prontinha para entorpecer o fã de Tame Impala, se é que eles ainda estão na sala (estão?).   

Cults | Cults | 6.5

Não é uma história nova, sabe? Cults é a novidade nova-iorquina absolutamente adorável que amacia os nossos headphones neste outono gelado. Deveria, é claro, existir um prêmio para esse tipo de disco, que transforma a vida em algo muito mais simples e doce – numa canção açucarada de dois minutos. Mas, dissipado o encanto dos primeiros dates, este début fofo começa a soar um tantinho como aquela comédia romântica agradável-porém-ordinária. Entende o que quero dizer? Aquela que, apesar dos diálogos espertinhos e do turbilhão de afeto, perde um pouco da graça assim que notamos o quanto depende de um esquema narrativo que é mecânico, velho, e não tem alma. Go outside e You know what I mean estão à altura do primeiro disco do Pains of Being Pure at Heart, mas eu aposto que este duo boy-meets-girl vai dormir um soninho totoso no meu hard drive, de conchinha com as Pipettes e o I’m From Barcelona. Apenas mais um rostinho bonito?    

Born this way | Lady Gaga | 6.5

Antes que me crucifiquem, preciso admitir que o novo da Lady Gaga é um avanço tremendo, quase inacreditável, em relação a seus discos anteriores. Porque antes, amigos, eu ficava com a impressão de existir duas Gagas: a popstar dos clipes e das revistas, que curtia uma avacalhação nonsense, e a cantora de hits tão convencionais (e medrosos, veja a contradição) quanto qualquer armação do Black Eyed Peas. Em Born this way, a imagem finalmente entra em sincronia com o som. O resultado dessa sobreposição, como não poderia deixar de ser, é um disquinho esquizofrênico, frenético, indeciso, tomado por falsas polêmicas e um desejo enorme de aparecer. Talvez nem tão pessoal quanto parece (na verdade, é apenas um álbum que combina com o visual mutante e os golpes de marketing de Gaga), mas um produto mais vívido que os anteriores. O que não justifica, porém, as crises histéricas mais irritantes: da faixa-título, que reprisa Express yourself sem piscar o olho para o público, a misturebas inaudíveis como Americano, o disco melhora muito na segunda metade, quando engole todos os excessos oitentistas que nem Brandon Flowers tem a pachorra de defender. Termina muito bem, com o saxofone viciante de Egde of glory. Mas é um caminho longo, cheio de lombadas e ranhuras, que pode nos levar a disquinhos um pouco menos tortuosos. Ainda assim, não há como negar: Born this way é o DNA de Gaga, a personagem.  

Nostalgia, ultra | Frank Ocean | 6

Por falar em picaretagem pop, Frank Ocean leva o conceito de copy+paste a um outro patamar. Soulman da geração Soulseek, o rapaz sensível da gangue Odd Future lançou por conta própria este EP (de 14 faixas, vá entender) que tem a aparência de uma mixtape gravada às pressas para a namorada. Isso é o futuro? Pode ser que sim. Mas, se eu fosse a musa do sujeito, recomendaria urgentemente uns 20 discos interessantes para que ele não precisasse roubar as melodias de Strawberry swing, do Coldplay, e de Hotel California, do Eagles. Apelações à parte (e são muitas), fica difícil resistir aos amassos de Novacane, mais um indício de que o novo R&B vai seduzir o mundo com um charme marrento todo especial (Drake e The Weeknd estão na luta, mano). No fim do baile morno, entendi por que o homem preferiu rotular este disco com o formato EP: o melhor, o maior e o mais intenso, tenho certeza, está por vir (e vamos combinar de uma vez por todas, bróder: Coldplay não é um tipo muito saudável de nostalgia, ok?).

Os discos da minha vida (13)

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Bom dia, amiguinhos, cá estamos nós: mais uma segunda-feira, mais um capítulo do enorme folhetim sobre os 100 discos que enevoaram a minha vida, mais um post escrito diretamente de São Paulo, mais um dia nublado.

Por coincidência, no capítulo de hoje, dois discos para manhãs nubladas. E não vou explicar mais nada – vocês sabem como esta máquina funciona, e prometo que ela vai funcionar exatamente deste jeito até o fim.

076 | Deserter’s songs | Mercury Rev | 1998 | download

Em 1998, Deserter’s songs era o álbum de ‘space rock’ que despertava paixões fulminantes e encabeçava listas de melhores do ano. Hoje, até entendo quem o trata apenas como um herdeiro psicodélico da primeira fase do Pink Floyd: tal como Syd Barrett, Jonathan Donahue escreve versos surrealistas para melodias que nos transportam a outras galáxias. O que pode passar despercebido (e seria uma pena se isso acontecesse) é como o Mercury Rev enquadra essas referências num ambiente cinematográfico, em scope, que amplia cada canção até transformá-las em épicos para uma América sonhada, impossível. Ao mesmo tempo, um disco tão franco quanto os trechos finais de Holes, quando Donahue quase que sussurra: “Bandas são planos tão engraçados que nunca funcionam bem”. Top 3: Holes, Tonite it shows, Goddess on a Hiway.

075 | On the beach | Neil Young | 1974 | download

Neil Young tem pelo menos 10 álbuns que entrariam neste ranking, mas On the beach é aquele que, quando tentamos organizar a discografia do homem, não se acomoda em nenhuma classificação: não soa exatamente como um disco de rock (muito menos como um disco de country rock ou de blues), mas como o registro íntimo de uma crise – página rasgada de um diário. A crueza do álbum se aproxima do tom de Tonight’s the night (que, rejeitado pela gravadora, foi lançado um ano depois), mas o que encontramos nestas canções é um Young quase sempre furioso, indomável, socando a parede do showbusiness. “Sou um vampiro, babe”, ele resume, num dos discos mais assombrados que eu ouvi. Top 3: Ambulance blues, Motion pictures, Walk on.

Bluish | Animal Collective

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Tudo azul (e um pouquinho vermelho) no novo clipe do Animal Collective. Dirigido por Jason Oliver Goodman, o vídeo tem constelações, bolhas de sabão, dançarinas exóticas e tudo aquilo que a gente imagina quando ouve esta que é uma das minhas canções favoritas do grande Merriweather Post Pavilion. Boa viagem.

Halcyon digest | Deerhunter

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Há momentos (e não são poucos) em que me envergonho de textos que escrevo.

Dias em que penso: escrevi demais, contei o que não devia. Ou então: usei as palavras erradas, fui ansioso e indulgente, não reli, faltou rigor. Ou: exagerei na pieguice e nas gracinhas, fui fraco, apelei, perdi.

Esse sentimento de frustração me acompanha já por muitos anos e, honestamente, não sei o que fazer dele. Escrevo para trabalhar e para me divertir. Escrevo pelos cotovelos, vocês sabem. Mas, ainda assim, mesmo com a prática, às vezes me falta coragem para ler o que escrevi. Quando leio, quase sempre me decepciono. Acabo chegando à conclusão triste de que ainda falta muito (talvez muito-muito) para que eu consiga os parágrafos que me matariam de orgulho.

Meu maior defeito, admito, é escrever além da conta e, no processo, me expor excessivamente. Daí que me identifico, e sempre me identifiquei, com as pessoas (os músicos, os escritores, os cineastas) que também não se poupam – que deixam, talvez por não conseguir evitar, que experiências muito íntimas contaminem os próprios “textos”. 

Que escrevem como que para um diário – sem medo, talvez sem cautela ou limites. E que depois largam o diário no banco da praça. 

Bradford Cox, vocalista do Deerhunter, é desses. Mas eu poderia estar falando sobre Elliott Smith e Kurt Cobain, sobre o John Lennon de Plastic Ono Band, sobre o Nick Drake de Pink moon, sobre o Beck de Sea change. E sobre cineastas como Jacques Nolot ou Hong Sang-soo ou Elia Suleiman. Todos tão perdidamente eles próprios, mesmo quando inventam, mesmo quando falseiam ou se camuflam em tipos de ficção.

No quarto disco do Deerhunter, Bradford Cox se exibe em quase todas as canções. Ora melancólico (quase suicida), ora estranhamente eufórico, otimista. Em todos os casos, leva às gravações um discurso franco, sem corretivos, que nos toma pelos braços. Somos cúmplices. Pode ser encenação – mas, nesse caso, a técnica só valoriza um álbum que soa como os posts desesperados (e ansiosos, e por vezes apressados) de um blogueiro que ouviu demais.  

O narrador só se revela por completo nas últimas faixas do disco – especialmente em Basement scene e Helicopter, duas das canções mais brutais (e tocantes) do ano. “Eu não quero acordar. Eu não quero envelhecer”, Bradford avisa, sobrevoando uma canção de ninar psicodélica. E depois, como um rockstar condenado, solitário, lamenta: “Nos clubs as pessoas sabem o meu nome”. Os fãs não curam. O palco é uma piada. A vida segue.

A faixa seguinte afoga o vocalista em um loop aquático. Profunda agonia. “Todas essas drogas que eles fabricam… Elas não surtam o efeito que provocavam. Eu costumava usá-las dia após dias”, conta. “Ninguém se importa comigo. Eu não tenho companhia.” E a voz de Bradford, 28 anos, vai sendo engolida por efeitos sonoros coloridos e distorcidos. Um parque de diversão decadente.

O restante do disco, ainda que não vá tão longe nessa autoanálise, vai compondo a persona dúbia de Cox com uma caligrafia trêmula. Mas atenção: trata-se de uma confissão desarranjada e não muito confiável (no sentido documental da coisa, digo), já que confunde sonhos, desejos e memórias. “Este é um disco sobre a forma como reescrevemos e editamos nossas lembranças para formar uma versão condensada e agradável daquilo que queremos lembrar”, disse o vocalista.

O impressionante é como Cox – e a banda, que não se ausenta – leva essa ideia para a sonoridade do disco, que alterna trechos mais oníricos (como Helicopter, Earthquake e Sailing) com faixas cruas (como He would have laughed, escrita em homenagem a Jay Reatard, que morreu este ano). No conjunto, as melodias do disco talvez tentem simular aquele estado breve que antecede o sono, quando nossos pensamentos sobre o cotidiano (nossas preocupações de cada dia) começam a se diluir em sonhos. Soa quase delirante.

A produção de Ben Allen (de Merriweather Post Pavilion, do Animal Collective) ajuda a moldar uma sonoridade a um só passo extravagante e familiar. O disco começa num andamento lento, duro (Earthquake é uma canção do Air remixada por Kevin Shields), mas logo se abre para arranjos de garage rock sessentista (Don’t cry, Revival) e versos inocentes. “Venha cá, garoto, você não precisa chorar. Você não precisa entender todas as razões”, Cox adverte, em busca da infância perdida (um tema que retorna em Memory boy).

Em Sailing, a brisa já passou. Cox está à deriva. “Apenas o medo pode fazer você se sentir sozinho por aqui. Você aprende a aceitar qualquer coisa que consegue encontrar.” E o disco então se parte em dois: verão e inferno, alegria e depressão, lado B misturado ao lado A. Mais do que em qualquer outro álbum do Deerhunter ou do Atlas Sound (até mesmo de Cryptograms, totalmente esquizofrênico), o vocalista depura uma sonoridade que resume um temperamento imprevisível, que oscila a todo momento.

Talvez mais interessante do que isso: uma sonoridade que mostra um compositor capaz de combinar referências de todo canto (do shoegazing ao pós-punk), que se transforma ora em Bowie, ora em Lou Reed, ora em Thurston Moore, ora em Julian Casablancas (na ótima Desire lines, escrita pelo guitarrista Lockett Pundt). Que é todos e ninguém (e, por isso, mascote de uma geração que ouve música exageradamente, apressadamente, talvez sem prudência).

Bradford Cox é um dos nossos: ele vive cada disco como se não houvesse amanhã. Ele está lá. Eu estava me perguntando por que, para mim, parece muito complicado comparar este Halcyon digest com qualquer outro álbum do Deerhunter (até com Microcastle, também hipnótico). Encontrei a resposta: Cox nos faz acreditar que este disco é a imagem fiel – até constrangedora, em alguns trechos – de quem ele é neste exato momento. Aqui e agora. E o que ficou lá atrás, enquanto durar este feitiço, não mais interessa. 

Quarto disco do Deerhunter. 11 faixas, com produção da própria banda e de Ben Allen. Lançamento 4AD Records. 8.5/10

False priest | Of Montreal

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Kevin Barnes, nosso herói. Nosso Scott Pilgrim (15 anos depois). Nosso Ziggy Stardust (transfigurado por efeitos grotescos de Photoshop). O homem, o mito, o supergeek.

No episódio de hoje, preparem-se: Kevin namora uma colegial, enfrenta o mundo e grava um disco pop. Mais ou menos nessa ordem.

Antes, um rápido flashback: no gibi anterior, Skeletal lamping (de 2008), o intrépido protagonista se transformou em George Fruit, um “homem negro que passou por várias mudanças de sexo”. Agora, pelo menos aparentemente, o band leader do Of Montreal está de volta ao normal.

Skeletal lamping era uma graphic novel proibida para menores de 21 anos, com cenas de sexo, perversidades à rodo, sarcasmo refinado, black music safada, desejos carnais. E um narrador com déficit de atenção. Cada uma das páginas se desdobrava em duas, três ou trezentas. Uma sandice.

(Também era, falando a sério, um disquinho corajoso, que radicalizava o temperamento frenético e bipolar do Of Montreal. As canções se confundiam umas com as outras, se perdiam e não se encontravam, iam da euforia à depressão em questão de segundos).

Mas essa fase passou. False priest é um mangá adolescente, proibido para menores de 14 anos, tão perigoso quanto aquele pônei que sua irmã pequena sonhava em ganhar de presente. Mas falsamente ingênuo. Falsamente infantil. Um gibi pop escrito por um sujeito de 36 anos.

De certa forma, Kevin nos preparou para essa mutação. Apareceu, quase domesticado, no disco da Janelle Monáe (que retribui em duas músicas novas). Lançou um EP com faixas remixadas por Jon Brion, um fã de power pop (que produziu Fiona Apple e Kanye West). E, agora, solta um disco que ele descreve como “ear-candy”. Um doce.

Primeira grande mudança: ao contrário de Skeletal lamping (e até do agoniado Hissing fauna, are you the destroyer?, o melhor disco que ele gravou), Kevin passa a namorar um formato de composição que se aproxima do convencional. As faixas estão quase sob controle: têm verso e refrão, raramente grudam umas nas outras, têm DNA de rhythm & blues e deliram de olhos abertos.

Exemplo: Coquet Coquette começa como um hit do Black Keys, com guitarras de blues-rock e um refrão grudento, e depois, lá no fim, vai se perdendo numa névoa de space-rock, até finalmente congelar no espaço. Dura 3:44.

Outro exemplo: Famine affair começa como guitarras mecânicas à Phoenix (via Strokes), embala no hard rock, tem um interlúdio amalucado (com coros, manhas psicodélicas), e depois volta ao começo, repetindo o refrão. Dura 3:49 (e é a minha preferida do disco).

Essa estrutura se repete em quase todas as faixas, como se Kevin compactasse o estilo do Of Montreal dentro de um pote de geleia de morango. Quem acompanha a banda já conhece quase tudo o que está neste disco, mas nunca de uma forma tão polida, tão imediata, tão calorosa (mais intrumentos, menos sintetizadores!), tão oferecida, tão Jackson Five meets David Bowie. Jon Brion, é possível especular, domou os chiliques de George Fruit.

Seria gratuito, mas o novo visual veste muito bem o Kevin teenager que passeia por essas canções. Ele define o disco como uma obra-prima (não é tudo isso!) talvez por entender que está escrevendo crônicas da juvenília que soam tão ardidas, tão irônicas quanto as de um Damon Albarn, de um Jarvis Cocker. Our riotous defects é talvez a melhor que ele compôs, sobre uma “garota maluca” que testa os nervos do narrador. “Eu até ajudei o seu blogzinho estúpido”, reclama Kevin, mais Scott Pilgrim do que o próprio.

E maravilhas desta estirpe: “Coquete, com você eu só consigo ver constelações de luz negra. E outras merdas que não tenho o vocabulário para descrever.” (em Coquet Coquette).

Isso quando o rapazinho não inventa uma passagem secreta entre a discoteca e o hinduísmo. “Levei séculos para me especializar em você. Na próxima vida, vou precisar aprender mais rapidamente” (em Sex karma, com participação de Solange, irmã da Beyoncé). Ou quando não nos surpreende e, num rompante, se rasga todo. “Se eu tratasse outra pessoa da forma como eu me trato, eu estaria na prisão” (Girl named hello). As crises depressivas vêm no pacote, vide a lindíssima Casualty of you e o desfecho esquizo You do mutilate?.

Para seguidores calejados, False priest pode parecer um passo em falso rumo às paradas de sucesso. Uma distração. Ok, ok, Kevin merece chegar lá e está fazendo o possível. Mas, antes que o crucifiquem, o disco também deve ser lido como um sobrinho de Midnite vultures, do Beck: uma traquinagem pós-moderna, dançante e tola as hell, que se diverte (e, ao mesmo tempo, faz graça) com pedacinhos de hits ultracomerciais dos anos 70 e 80. Uma bobagem seríssima.

Prince acusaria de plágio. Já o Girl Talk daria um sorriso. E Kanye West pediria autógrafo. Temos ou não temos o disco pop mais sem-vergonha do ano?

Nosso herói.

Décimo disco do Of Montreal. 13 faixas, com produção de Kevin Barnes e Jon Brion. Lançamento Polyvinyl Records. 8/10

Congratulations | MGMT

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Você já foi o primeiro da classe? Eu já. E garanto: não é tão divertido quanto parece.

Foi assim: aos 14, eu era um aluno muito tímido e, por isso, discreto – daqueles meninos invisíveis que fazem o possível para não tirar notas inferiores ou superiores a 7. Sempre 7. Naquela época, minha meta era desaparecer na lista de chamada. Eu vivia para não ser notado: preferia as roupas em tons neutros, podava meu cabelo com máquina 3 e lia revistinhas do Batman. Meus amigos me tratavam como um chapa razoavelmente bacana, já que eu era igual a eles. E as garotas, como que por tradição, me confundiam com as pilastras do colégio. Mais tarde descobri que todos – meninos e meninas, sem exceção – éramos simplesmente desinteressantes. Uns comuns.

Mas, naquela época, eu ainda era um rapazinho muito inocente. Tão ingênuo que, num surto de vaidade e fôlego olímpico, resolvi gabaritar uma prova de português. Não que eu precisasse dos pontos no boletim (eu era um estudante nota 7!), mas, na falta de algo melhor a fazer, resolvi me desafiar. Estudei duas horas por dia e, um touro!, tirei 10. O único 10 da classe. Os meus amigos começaram a me evitar na hora do recreio. Quando tirei meu segundo 10, comecei a receber sorrisos orgulhosos da professora. As garotas passaram a me encarar como uma geladeira vazia. No mês seguinte, milagrosamente, eu era o representante da turma numa maratona de gramática.

Aceitei. Eu mal sabia que, meu amigo!, aquela seria uma das experiências mais desagradáveis da minha vida. Passei três horas trancado numa sala gelada, preenchendo lacunas em textos de revistas semanais e respondendo questões enigmáticas que faziam minha cuca ferver. Saí da sala desencantado, insatisfeito com aquela sina solitária. Para meu alívio, fiquei em último lugar na competição. Salvei minha pele. Após cinco ou seis valentes notas 7, recuperei meu lugar entre os medíocres.

Às vezes acho que estou lá até hoje.

Mas chega de devaneios. Fim do flashback. E o que essas lembranças tão tolinhas têm a ver com o disco novo do MGMT?, você me pergunta. Eu respondo: é que eu entendo o que acontece com o MGMT. Sei muito bem que um hit pode representar uma espécie de condenação.

Meus hits (as notas 10 em português) me colocaram numa desconfortável posição de destaque diante dos meus colegas invejosos (mas muito queridos). Transformaram o Tiaguinho Sem Qualidades num cidadão de primeira classe (e tudo o que eu queria era me espreguiçar nas poltronas econômicas!). Os hits do MGMT fizeram estragos mais profundos: converteram Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden em astros pop. Lá no topo da classe. Gabaritaram o teste das rádios. Hoje sabemos que não era bem esse o objetivo deles.

Mas não é mesmo extraordinário ser um astro pop? Fama, moçoilas afoitas, programas bizarríssimos de auditório, clipes com CGI, trilha sonora de comédia retardada, contratos extravagantes, mansões em Miami Beach, champanhe e cerejas. Quem não quer? Mas e se você nunca tivesse desejado sinceramente nada disso?

Não conheço Ben e Andrew (e eles me parecem uns sujeitos bem convencidos), mas a história de Congratulations é essa aí: depois de acertar com três hits grandahões (Time to pretend, Kids e Electric feel), eles resolveram se dedicar ao que importa (a eles): reatar com os antigos amigos da turma do indie rock. Para os fãs, pode parecer uma reviravolta frustrante: aquela bandinha tão simpática, que se deleitava com o algodão-doce radiofônico, decidiu gravar um disco sem singles, sem gosto de milkshake de Ovomaltine, uma trava-língua psicodélico sem um único candidato a chacoalhar o assoalho e sangrar a pista de dança.

Sim, é um mistério. A Sony que se cuide. Enfezado, o MGMT penaliza os fãs que se deixaram enfeitiçar pelos três hits (e só por eles). Aposto que são muitos. Se você ignorar essas três faixas, o disco anterior deles (Oracular spectacular, de 2007, superestimado toda vida) soará até parecido com este novo: uma homenagem singela, mas carinhosa, ao rebanho sagrado do rock lisérgico, de Love a David Bowie, de Roxy Music a Syd Barrett.

Congratulations é a continuação desse álbum “paralelo”, adquirido por um milhão de pessoas, mas incompreendido por quase todas elas. Nos shows, sempre muito confusos, a dupla sofreu com comentários de que só os hits faziam a diferença (sorte a nossa: eram três!). Daí o salto corajoso: Ben e Andrew podiam simplesmente bolar mais um LP irregular porém acessível (e ninguém reclamaria disso: álbuns são tão démodé!). Mas preferiram gravar um disco que finalmente honra as influências setentistas do grupo – um disquinho coeso e esperto que quase mereceria ser chamado de “conceitual”.

Nada de efeitos rasteiros, portanto. Preocupado em criar uma obra respeitável (taí uma ambição saudável e difícil), o MGMT compôs um disco menos para os fãs e mais para os ídolos. Repare que duas músicas são homenagens: uma a Dan Treacy, da inglesa Television Personalities, e outra a Brian Eno (o Eno sapeca do Roxy Music, e não aquele que zanza por aí produzindo o Coldplay). As outras, ainda que não explicitamente, são declarações de amor: a de abertura, It’s working, é o mais próximo que eles chegaram de sintonizar as vibrações de Arthur Lee. E Siberian breaks, com 12 minutos, se desdobra infinitamente num épico esquizo com um quê de Frank Zappa. Parece até a trilha para o funeral da new rave.

Escalar esse arranha-céu sem o escudo dos hits é o desafio imposto pela banda. Com versos sobre a ressaca do sucesso, Congratulations até pode ser considerado a estreia deles no mundo dos álbuns. Como se, no encarte, eles reconhecessem que tomaram o caminho equivocado e, por isso, merecem uma segunda chance. Acontece que, nessa versão mais vulnerável, o MGMT revela fragilidades que já existiam no disco anterior: acima de tudo, a forma superficial como eles tratam referências que, nas mãos de um Beta Band (ou até de um The Coral), rendem experiências menos genéricas.

O importante é que Congratulations promete ao MGMT alguma longevidade. A partir de agora, podemos levá-los um pouco a sério. Talvez, no fim das contas, Ben e Andrew tenham mais admiração pelo Flaming Lips do que pelo Empire of the Sun. Não estão apressados para chegar ao fim desse arco-íris fluorescente. E, enquanto batem perna, estão dispostos a deixar pelo caminho álbuns sinceros, imperfeitos, álbuns quase à moda antiga, como este aqui. Um típico (e valente) nota 7.

Segundo disco do MGMT. Nove faixas, com produção de Pete Kember e do MGMT. Lançamento Sony/Columbia. 7/10

PS: Para quem acompanha este blog (vocês são poucos, mas são vips), informo que vou postar a mixtape de março às 21h de quarta-feira. Estão avisados: não quero ninguém reclamando quando os arquivos evaporarem, ok?

Superoito express (16)

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Heartland | Owen Pallett | 7

E o prêmio de aluno mais dedicado da classe vai para… Depois de compor arranjos de cordas para discos como Funeral (Arcade Fire), The age of the understatement (The Last Shadow Puppets) e The flying club cup (Beirut), Owen Pallett aposenta o codinome Final Fantasy, assina com a Domino Records (talvez o selo mais bacana do mundo) e sai do armário (artisticamente, pelo menos) num álbum que, se dependesse da torcida vip e das expectativas que provoca, teria acesso garantido às listas de melhores de 2010.

Heartland é uma sinfonia pop com uma premissa insólita: um fazendeiro grosseirão de um planeta fictício olha para o céu e, siderado, trava uma série de monólogos com seu deus. Com uma piração dessas, o Flaming Lips escreveria uma ópera psicodélica. Pallett é mais contido, polido e blasé (e, às vezes, pálido): mais Van Dyke Parks, menos Pink Floyd. A primeira metade do disco, à beira do pop, resume tudo o que o violinista faz de melhor – trilhas perversas para desenhos da Disney. A segunda, espaçosa, vai diluindo a trama num cartoon para adultos. Voo alto, mas errático. Ainda assim, não vai desapontar os fãs de Andrew Bird e Sujfan Stevens.

Odd blood | Yeasayer | 6.5

Um alerta: este pode soar como um disco projetado para dar alguma ocupação aos fãs do MGMT e do Empire of the Sun – psicodelia-chiclete em modo hiperativo, com surpresas reluzentes e superficiais a cada curva. Mas o trio de Nova York (que estreou bem com All hour cymbals, de 2007) leva um pouco mais a fundo o projeto de experimentar com elementos do pop e do underground, sem compromisso com nenhum dos dois times. Daí esquisitices muito alegres e saborosas como O.N.E. (que parece até homenagem ao Erasure) e o single Ambling Alp. A estratégia de distribuição explica muito sobre o álbum, lançado nos Estados Unidos pelo selo independente Secretly Canadian e nos outros países pela EMI. Vai ser impossível, por isso, não ouvir falar sobre eles em 2010.

End times | Eels | 5.5

Até os fãs concordarão que o “álbum de divórcio” do Eels soaria um tantinho mais tocante se lançado antes de pelo menos outros três discos dele que lidam mais ou menos com a mesma angústia (e com a mesma receitinha sonora). Para Mark Oliver Everett, a depressão provocada por desilusões amorosas é um standard. Por mais que as circunstâncias nos levem a admirar End times como um esforço corajoso e extremamente franco (separado da mulher, mais desamparado que cão sem dono, Mark se isolou no porão de casa, onde vomitou o álbum inteiro num gravador fuleiro), o resultado da terapia ocupacional soa como o lamento de alguém que acabou de sofrer um baque desses: os amores acabam e o mundo é cruel. Multiplique o drama por 14 canções.  

Of the blue colour of the sky | OK Go | 5

Produzido por Dave Fridmann (Flaming Lips, MGMT), o terceiro disco do OK Go é a projeção em 3D de um filme mediano. Os efeitos especiais entretêm, mas não tente procurar mais do que isso. Fridmann, ainda enfeitiçado pelo sucesso do MGMT, segue maltratando uma fórmula que ajudou a criar com os Lips (o pai de todos esses disquinhos pop meio aguados e muito apelativos, acredite, é The soft bulletin). A banda o anunciou como um “álbum honesto e dançante, inspirado em Prince”. Previsível assim. Três discos, participações em trilhas sonoras, fã-clube no YouTube, tapete vermelho estendido por uma grande gravadora… Nada disso ajuda o OK Go a forjar uma identidade. Como alertaria o Eels, mundo sarcástico o nosso.