Por uma vida ordinária

Superoito e a questão do estacionamento

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O apartamento onde moro fica no final de um corredor longo e estreito. Hoje fiz o cálculo: do elevador à porta são quase 60 passos. Parece uma eternidade, um martírio, mas prefiro encarar a localização com algum otimismo. Meu quarto-e-sala fica grudado à lixeira do prédio (isto é: desovo minha bagunça quando e como bem entendo, de cueca amarela furada às três da madrugada, e tudo isso me dá uma sensação refrescante de liberdade), bem perto da saída de emergência (sou dos que preferem ficar bem perto das saídas de emergência) e, no mais, a caminhada até o elevador dá um belo de um exercício físico.

Gosto dele. Do corredor.

Morar no fundilho do prédio também traz outra vantagem: a janela da sala não dá para uma parede acinzentada, mas para a rua, para o horizonte, para o mais extraordinário e terrível vazio. Quando bato de frente com o cenário (tão plácido!), às vezes esqueço que vivo num cubículo. E isso melhora o meu dia, de alguma forma.

Quando me mudei para o apê, sem lenço e sem documento, pensei que seria só isso: eu e o apê, o apê e eu. Logo fui surpreendido por um elemento estranho: o vizinho.

Descobri num susto. Era sexta-feira, quase oito da manhã. O interfone tocou. E foi também aí quando descobri que eu tinha um interfone e, repare!, ele fazia barulho.

– É o Tiago?

– É. O Tiago.

– Está acordado?

– Um pouco.

– É da portaria. Parece que você bateu no carro do seu vizinho.

– Meu vizinho?

– O da frente. O seu vizinho da frente. Ele tem um carro preto. Parece que você bateu no carro preto do seu vizinho.

– Impossível.

E bati o interfone. Eu estava assustado. Meus sonhos são muito vívidos. Eu estava sonhando. Nada daquilo parecia real. Primeiro, um interfone. Depois, um vizinho. E um carro preto. Uma batida. Eu era o culpado. Eu era o culpado? A situação toda parecia extremamente irreal.

O interfone tocou novamente.

– Tiago, seu vizinho está na garagem. Ele mediu a batida com uma fita métrica e parece que foi você mesmo. Você bateu. Mesmo.

– Não lembro de ter batido em ninguém. Falo a verdade.

– Mas foi você. Eu desci até a garagem, eu vi a batida. Desci duas vezes. Foi você.

Em vez de prolongar a discussão, decidi vestir um trapo e ir à cena do crime. Eu realmente não lembrava de ter batido no carro de ninguém. As vagas da garagem são todas muito apertadas, mas sou cuidadoso.

Foi ali, naquela situação meio esdrúxula, que vi meu vizinho pela primeira vez. Um sujeito baixo, de rosto redondo, devia ter uns 28 anos, cabelo rigorosamente aparado e penteado para a direita. Usava uma camisa branca sem mangas por dentro da calça – e na camisa havia letras coloridas que formavam as palavras “Engenharia Mecânica”. Lembrei que eu nunca me dei bem com pessoas que usam camisa branca sem mangas por dentro da calça. Tomei aquele estranho como um inimigo e fui me irritando com ele pouco a pouco.

– Desculpe o incômodo, mas você bateu no meu carro.

– Eu bati no seu carro? Ontem é que não foi.

– Se não foi ontem, foi anteontem. Mas que bateu, bateu.

– E você vai provar?

– Veja. Aqui, uma fita métrica.

– Eu sei. Uma fita métrica.

– Então observe. A altura da batida no meu carro é exatamente a mesma desse arranhão aqui no seu carro (e, enquanto o sujeitinho explicava, eu só conseguia ler as palavras “Engenharia Mecânica”).

– Pode ter sido coincidência.

– Não pode. Olhe bem. O formato da batida. É redonda e pequena. Agora veja o arranhão no seu carro. É redondo e pequeno.

– Certo. Mas isso prova tudo?

– Isso prova tudo. A fita métrica. Você quer chamar a polícia?

– Não, óbvio que não. Polícia, meu deus. Entenda isso: eu não lembro de ter batido no seu carro. Não lembro. E você não me conhece. Não me conhece. Se você me conhecesse, saberia que não saio batendo nos carros dos meus vizinhos. Não sou desse tipo.

– Sei.

– É verdade.

– E então?

Decidi desistir da briga. Era manhã de sexta-feira, eu precisava vestir uma roupa decente e ir trabalhar.

– Olha… Você tem a prova de que eu bati. Eu não tenho provas de que não bati. Você venceu. Ponto seu. Leve o carro ao mecânico e veja o preço do conserto. Depois me ligue. No interfone. E é uma batida tão pequena que ninguém nem vê.

– É que comprei o carro mês passado e –

– Então faça o orçamento. Tem outra forma?

Ele guardou a fita métrica, provou o gostinho de uma vitória tola, deu um sorrisinho cruel e tudo o mais. Nesse momento, no entanto, notei que ele estava um pouco constrangido com a situação toda. Uma batida de nada, quase invisível, havia rendido uma discussão capaz de arruinar a relação entre dois vizinhos. Ficamos parados ali na garagem por alguns desconfortáveis minutos. Ele resolveu mudar de assunto. Mudar o tom. De thriller sanguinolento para um ameno buddy movie.

– Você mora aqui há muito tempo?

– Não. Poucos meses. Você?

– Dou aula. Engenharia.

– Certo. Certo.

– Que situação, hem?

– Pois é.

– Desculpe por ter ligado tão cedo, é que meu carro, o carro é novo, é meu, o meu carro, sabe como é…

– Sei como é. Tudo bem. Eu é que tenho que pedir desculpas. Bati no carro. Bati sem saber, mas bati. Acontece. Vivendo e aprendendo. E agora tenho que correr pro trabalho está tarde e outro dia a gente resolve tudo vai terminar bem vão consertar é só uma batidinha de nada você vai ver tchau e até mais prazer em conhecer abraço adeus.

Passei uns três meses sem falar com o meu vizinho. Falei com meus amigos sobre o vizinho, a camisa sem manga por dentro da calça, a fita métrica, a batida estupidamente minúscula, e eles acharam graça, que coisa, Tiago, que azar, que coisa, logo você, ninguém merece. Ele nunca comentou sobre o orçamento do conserto. Eu nunca perguntei. Ficamos assim. Outro dia, notei que ele recebia visita. Quando entrei no corredor, vi uma cena inusitada: o vizinho estava ao lado da lixeira, posando para uma foto, com a mãe e o pai e possivelmente a irmã de uns 16 anos. Notei que ele ficou envergonhado com a situação e tomei aquilo como uma espécie de vingança. Entrei no meu apê com um sorriso sádico pregado no meu rostinho diabólico.

O tempo passou. E, durante esse tempo, tentei contato com outros vizinhos. Mas é complicado. Não sei se isso acontece em outras cidades, mas existe em Brasília uma espécie de código social que dificulta as relações de vizinhança. É um estereótipo, sim, mas que sempre cercou a minha experiência brasiliense. Eu vivi o lugar-comum. Na pele. Desde que cheguei à cidade, aos 12, fiz amizade com pouquíssimos vizinhos. Um deles era um fã de heavy metal que me pedia para traduzir os versos do Iron Maiden. Ainda assim, era uma amizade apenas protocolar. Ele tentava me convencer de que a obra do Iron Maiden era uma forma superior de arte (eu fazia de conta que acreditava), eu tentava convencê-lo de que Billy Corgan era o messias (e ele fazia de conta que acreditava), e era isso.

Noto que, nesse ponto, nada mudou. Quando nos cruzamos no corredor, eu e meus vizinhos desviamos olhares, trocamos preguiçosos “ois” e respiramos fundo na torcida para que o elevador chegue rápido e nos livre do encontro incômodo com o desconhecido. Com o desconhecido que mora no apartamento ao lado. No prédio onde moro, não somos muito sociáveis. Não queremos ser incomodados. Somos terrivelmente individualistas e auto-suficientes. E estamos muito bem desse jeito, obrigado.

E poderia ser diferente?

Anteontem, por uma dessas coincidências que não significam coisa alguma, encontrei meu vizinho na garagem. Eu estava chegando de carro, ele também. O encontro seria inevitável. Pensei até em fazer um desvio, sair do prédio, tomar um sorvete e retornar em cinco, dez minutos. Mas decidi encarar a vida como ela é. Estacionei cuidadosamente o carro. Ele fez o mesmo. Acenei e ele, assustado, respondeu com um aceno desajeitado. Estávamos, veja isso!, nos comunicando – e desconfio que, com aqueles acenos típicos de uma vida social saudável, quebramos duas ou três regras definidas pela reunião do condomínio.

Eu tentei encerrar a aproximação ali. Saí do carro discretamente, abri a mala, tirei minha mochila e duas sacolas de supermercado. Notei que meu vizinho estava tirando do carro dele uma mochila e duas sacolas de supermercado. Percebi que a imagem do meu vizinho com uma mochila e duas sacolas de supermercado era um tanto patética, mas logo reparei que eu talvez parecesse igualmente patético. Fiquei um pouco perturbado com a comparação e apressei o passo para o elevador. Ele veio atrás. Apertei o botão do elevador com ansiedade. Mas o elevador não chegou e acabamos nós dois ali, eu e meu vizinho. Eu e o desconhecido. E o silêncio.

Eu devia ter feito um comentário engraçadinho. Mas não havia nada a comentar com o panaca que me acordou às oito da manhã por causa de uma batida idiota.

Para minha surpresa, ele resolveu puxar assunto.

– E então, está gostando de morar aqui?

– Sim, sim. Mais ou menos. Enfim. E você?

– É. Até que sim. É bom. É silencioso. É até muito bom.

– Mas aí vão construir o shopping e daqui a pouco…

– É. Vão construir o shopping e daqui a pouco…

O elevador chegou. Entramos.

– Dizem que o shopping fica pronto em novembro ou dezembro.

– Ouvi falar que é dezembro.

– Já disseram novembro.

– Vai ser um inferno.

E o corredor, longo que só ele. 60 passos.

– Vai ser um inferno.

– É. Vai ser um inferno.

– Vai ser um inferno.

20 passos. Na sacola de supermercado, ele levava alface e consegui notar umas latas amarelas de não-sei-o-que (talvez milho, ou mostarda).

– Só espero que resolvam a questão do estacionamento.

– A questão do estacionamento é importante. Espero que resolvam.

– Espero sim. A questão do estacionamento.

– Que resolvam a questão do estacionamento logo.

– É a mais importante.

Então chegamos. Nos despedimos sem deixar ganchos para próximos episódios. Com alívio. Estava encerrado o encontro. Um confronto difícil. Um épico de Hollywood. Mas nos saímos razoavelmente bem. Com palavras educadas e ocas, provamos para nós mesmos que podemos ser vizinhos até bastante civilizados. Em dois meses, estaremos jogando cartas e abrindo garrafas com os dentes na companhia de outros vizinhos educados e civilizados e tão ocos e tão desajeitados e tão trancados por dentro quanto eu e o desconhecido da porta à frente. Desmentimos a lenda urbana e fizemos de Brasília uma cidade calorosa, simpática e cortês. Viu só? Não é impossível.

No dia seguinte, quando eu estava prestes a sair para o trabalho, o interfone tocou. E tocou de novo. O barulho era mais estridente do que eu imaginava. Deixei tocar. Tocou de novo. Pensei em atender. Pensei duas vezes. O danado gritava. Num salto de dois metros, peguei minha mochila, arrumei meu cabelo, molhei as plantas, abri a janela (tão plácido!), meti a chave na porta. O bicho barulhento ficou gemendo na sala. Eu, que não sou bobo, parti.

Superoito e a cidade vazia

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Você conhece Brasília?

Se não conhece, recomendo o seguinte itinerário: agende a passagem de avião para um domingo à noite. Ao desembarcar, tome um táxi para o final da Asa Norte. Ao motorista, peça especificamente que ele siga pelo Eixão. Por volta das nove, dez da noite, haverá alguns carros na pista. Alguns, não muitos. É uma pista bastante larga, seis faixas. Garanto que, num domingo como outro qualquer, ela nunca parecerá suficientemente movimentada.

Para uma experiência completa do trajeto, preste atenção a estas instruções. Primeiro, repare a extensão da via. Note como ela parece seguir indefinidamente, com postes que brilham feito estrelas mortas. Depois, vire o pescoço para a direita e observe o desenho dos prédios. Uma paisagem estranhamente ordenada, que sugere assepsia e civilidade. Não? Na altura da rodoviária, faça a sugestão ao condutor: ‘tome o Eixinho, por favor’.

Para chegar ao Eixinho Norte, você verá rapidamente a Esplanada dos Ministérios, a Catedral e, bem lá ao fundo, o Congresso Nacional. Faça de conta que isso tudo é uma miragem. Eles nunca existiram. O Teatro Nacional é uma nave de brinquedo daquelas que você ganhava de presente de Natal quando tinha seis anos de idade e era início dos anos 1980 e a ceia parecia um filme previsível e agradável. Esqueça o teatro.

Esqueça as memórias (por um segundo). Estamos no Eixinho Norte. Os prédios cresceram e quase nos engoliram, estão todos maiores (ainda uniformes, só que maiores). Seis andares. Ordem e progresso. Olhe para o alto. As antenas são tão pequeninas e finas e discretas que talvez não sirvam nem para os passarinhos, vá saber. Veja o meio-fio, a passagem de pedestres. E, neste momento, perceba que não há pedestres na calçada. Eles não estão na rua. Eles não estão em lugar algum. Talvez estejam em casa (as luzes dos apartamentos, provas do crime, estão acesas).

Na parada de ônibus há duas ou três almas, mas elas não parecem pertencer àquele ambiente e por isso se sentem desconfortáveis – enfeitiçadas pelos relógios de pulso, quanto tempo falta para? Na altura da 312, peça para o taxista descer a tesourinha (ele sabe muito bem o que isso significa, não se preocupe), siga até a superquadra e indique o bloco B. Pague a corrida e ofereça gorjeta.

Ao lado do bloco B existe um gramado que, há alguns anos, era maior do que é hoje. Antes, a quadra ao lado não estava habitada. Hoje está. Os prédios têm seis andares, os jardins apareceram da noite pro dia (mas são muito bonitos, acredite) e os carros que entram e saem são quase todos do ano. Ainda assim, existe uma parte do terreno não foi alterado – e imagine aí um espaço vazio onde caberiam cinco ou seis campos de futebol – e ele lembra a minha adolescência. Foram tardes e mais tardes na janela, olhando para aquela área oca, serena, um deserto amarelado cravado na cidade planejada.

Sempre me pareceu um erro de cálculo. Aquela área vazia. Como pode? Uma capital tão perfeitamente serena, tão perfeitamente organizada. E aquilo. Aquele rasgo no meio do nada. O terreno baldio. O mato crescendo. As crianças se escondendo no mato. Os meninos e as meninas se escondendo alegremente no mato. Os trombadinhas assaltando as velhinhas no mato e tudo o mais. O terreno é tema de algumas lendas que o taxista não saberá explicar a você, infelizmente (e não há guias turísticos decentes nesta cidade, por incrível que pareça). Dizem que, numa madrugada fria de junho, uma mulher se perdeu no meio do mato e descobriu um fosso fundo e largo que brilhava e dava no fim do mundo (ou em algum lugar muito distante, não lembro direito). Quando eu era mais novo, eu olhava pela janela e via um fim do mundo bastante plácido. Hoje tenho 30 anos de idade.

Não moro mais lá. Minha avó mora. Vez ou outra, volto àquele prédio para dar carona à velhinha. Paro o carro no estacionamento e fico por uns minutos observando aquele matagal todo. Continua o mesmo, apesar de tudo. Nem a capela que construíram há uns seis meses (um prédio baixo no formato de um hexágono) conseguiu acabar com ele. Não sei se vai durar muito tempo, mas aquele vazio todo ainda está lá para me lembrar dos dias mortos da minha adolescência. Eu passava tanto tempo na janela. Pensando no quê?

Domingo passado foi assim. Deixei minha avó no apartamento, segura, na paz de deus, com os anjinhos e todos os santos, e fiquei alguns minutos diante do terreno baldio, paralisado. Não encontrei respostas para absolutamente nada. Os dias têm sido assim: perguntas. Antes disso, de quase desabar no terreno vazio, passei a manhã na casa da minha mãe. Calado. Não sou um sujeito calado. Mas eu estava calado. Ando calado. E um pouco apático, mas acima de tudo (e isto é o mais estranho) calado.

As pessoas perguntam se estou bem. Digo que estou. Não existe outra alternativa. Eu sou o homem da casa e não posso esmorecer. Percebi isso há uns dois, três dias: eu devo assumir o posto de homem da casa. O homem da casa. Eu. O homem da casa. Tiago, o homem da casa. Minha família é pequena e está ruindo. A doença do meu padrasto, a instabilidade da minha irmã, a velhice da minha avó, o todo peso quase insuportável que descarregamos nos ombros da minha mãe. Tudo ali, exposto de uma forma extremamente crua. Na hora do almoço, quando eu estava prestes a voltar para o apartamento pequeno e frio onde moro, minha mãe pediu para que eu ficasse por lá, naquela casa ampla com cachorros e horta. Que passasse a semana. Que me derramasse no quarto, talvez para sempre. E foi um apelo tão sincero, tão simples e sincero, que tive que engolir saliva para não chorar.

Eles precisam de mim. Ou seria mais correto imaginar que eles querem, querem muito que eu participe disso tudo, dessa tragédia muda, do entardecer dessa família, desse ato final dolorosamente longo e triste? “Você vai sair assim, antes dos créditos finais?”, e fico com a impressão de que me fazem essa pergunta sempre quando saio.

Mas saio. Continuo saindo. E por enquanto me pergunto o que acontece, o que vai acontecer comigo e com eles e com todos os que conheço. Não há respostas e não faço ideia se todas elas aparecerão num flash, pipocando e me cegando instantaneamente. Foi o que senti naquela tarde de domingo. O terreno vazio, as pistas silenciosas e uma dificuldade tremenda de entender por onde devo seguir e o que devo fazer a partir de agora. É a hora. Nada parece seguro. Deus não existe. E a cidade não tem alma. É de concreto, com seis andares e um lindo jardim falso.

O problema talvez seja meio tolo: eu não cresci (ainda). Não estou pronto. Preciso de um tempo. Tomar fôlego, não sei. Ainda busco as soluções que eu encontrava quando era adolescente. Ainda quero abandonar tudo e passar a tarde morta olhando por uma janela. Pensando o quê? Ainda acredito que, quando a minha aeronave perder o rumo, saltarei num colchão confortável e sairei da catástrofe ileso, protegido. Deve ser isto: secretamente, ainda tento me convencer de que, apesar de tudo, existe uma zona de conforto e que este período de turbulência terminará em serviço de bordo e num pouso tranquilo.

Por isso não consigo falar no assunto. As pessoas me perguntam: está tudo bem? E eu: está tudo bem. Quando desabafo, desabafo para poucos. Depois, me sinto mal. Como se eu tivesse inventado uma história sobre a minha vida. Uma história em que ainda não acredito. Talvez seja uma questão de tempo.

E é isto. Recomendo que você dê três ou cinco passos dentro do terreno baldio e olhe para cima. Para a janela do terceiro andar. Lá estou eu. Em seguida, caminhe até a entrada da quadra. É um trajeto curto e que não cansa, três minutinhos. Recomendo os taxistas da região, que cobram caro, mas são confiáveis.

Tome o Eixão e siga para o aeroporto, de olhos fechados. A cidade não existe mais. Você não deve olhar nos olhos dela. E, no mais, você já a conhece. Em 20 minutos, no máximo, estaremos no aeroporto. Coma uma empada no setor de desembarque e beba suco de laranja. Compre uma revista amena ou um livro de 150 páginas. Ouça uma música não muito pesada. Tome o voo de volta. E aqui estamos de novo: boa viagem, até mais.

Superoito não mora mais aqui

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270420091011

(O horizonte na janela do meu apartamento: things they are a-changing)

Sair da casa dos pais, dizem, é um rito de passagem. Um daqueles episódios que modelam o futuro. O primeiro capítulo do resto de nossas vidas. Não? Quase seis meses transcorreram desde o dia em que levei meu colchão, minhas roupas e a tevê para o pequeno apartamento onde durmo quase todas as noites. Seis meses – e, apesar de saber perfeitamente que passei por uma espécie de teste importantíssimo, ainda não consigo avaliar minha performance. A estranha impressão é de que tudo, de alguma forma, mudou. Só não entendo exatamente como.

Há algumas perguntas recorrentes, que interrompem meus pesadelos e martelam alfinetes na minha consciência: como me saí nessa prova? Qual foi o resultado? Fui aprovado? Está tudo ok? Mais importante: se me transformei numa pessoa diferente, quem é ela?

Aparentemente (e surpreendentemente), deu certo. Com o devido distanciamento, sou capaz de reconhecer que cumpri algumas etapas corretamente e que, num período reduzido de tempo e aos olhos invisíveis do mundo, eu tenha finalmente me transformado num cidadão adulto e independente. É esta a versão oficial dos fatos: pago todas as minha contas, compro alimentos e produtos de higiene, lido com impostos e taxas, organizo compromissos, cultivo minha vida social e (um pequeno passo para o homem) estou a alguns minutos de virar sócio na videolocadora da quadra.

Falta plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Mas são detalhes. E quem lê livros, afinal?

Para mim, ainda parece incrível imaginar que, há um ano, nada disso parecia plausível. Durante minha adolescência, rejeitei conscientemente as expectativas e os hábitos do cidadão comum. Revoltei-me contra adultos metódicos, conformam com rotinas medíocres. Contra indivíduos sorridentes que, felizes com pouco, contentam-se com empregos maçantes. Deixam-se massacrar pela burocraria. E ainda assim casam-se, têm meninos fedorentos e com eles visitam o zoológico. Eu não os compreendia. Eu não me enxergava neles. A idade adulta parecia apenas entediante e aborrecida: uma infinidade de obrigações que não dão em nada. Muito trabalho, nenhuma diversão.

Talvez por isso eu tenha imaginado que viveria até os 25 anos de idade. Seria o suficiente. Aos 26, me vi sem um plano B. Aos 29, olhei no espelho e notei um adolescente desbotado. Era hora de mudar.

Conheço algumas pessoas que também nasceram no final dos anos 70 e, como eu, viveram sem a necessidade ou a angústia de pensar no futuro – até o momento em que o futuro bateu à porta. Possivelmente faça parte de uma doença geracional: uma resistência quase irracional à idéia de abandonar o ninho. Sabemos que algo está errado, mas não queremos saber. Entendemos a necessidade de seguirmos em frente, mas não entendemos por que. E assim vamos: presos à barra da saia de mães superprotetoras, no aparente conforto de um lar que nos oferece segurança e, como contrapartida, poda nossa liberdade e nos cobra obediência a regras infanto-juvenis. Queremos sair de casa. Mas não queremos.

Desde quando me mudei, virei uma espécie de guru para esse tipo de incerteza. Eu, que pensava ter sido o último solteiro da cidade a alugar uma quitinete, me vi cercado por pessoas em crise, cheias de dúvidas. Pessoas que trabalham, recebem salários razoáveis, freqüentam restaurantes bacanas, gastam uma fortuna com o combo do Cinemark mas, ainda assim, não sabem direito se estão aptas ao Grande Passo. Qual o momento certo?

A elas, só tenho a minha versão da experiência – ainda nebulosa. Não sei muito bem o que aconselhar (e, no mais, este não é um blog de autoajuda), mas compreendo esse tipo de cobrança. Para quem está longe do furacão, o drama pode parecer ridículo, insignificante. Tai você, zombando: “eu me mudei aos 12 anos para um cortiço, quando aprendi a conviver com estivadores e estelionatários: quem quer papo com essa gente imatura?” Para quem está metido lá dentro, é como desbravar uma selva sob ameaça de mães inconsoláveis, chantagens sentimentais, insegurança financeira, aluguéis caríssimos, filas de supermercado, IPTU, vizinhos rabugentos e medo de ter abandonado cedo demais os sonhos de juventude.

Eu, que não sou o superman, também sofri essa trama diabólica. Mas saí vivo e forte. Pergunto-me como.

Para variar, não vou me fazer de vítima: foi até fácil, sabe? Como arrancar um dente de leite. Não há entretenimento no processo de lidar com a papelada do aluguel do apartamento, e organizar as contas com alguma eficiência também leva um certo tempo. Mas, com dois ou três meses, nada disso passa a irritar. Quer dizer: a menos que a operadora de tevê a cabo vá à falência e o obrigue a comprar o pacote de uma concorrente acostumada a preços abusivos. Acontece. Mas é uma questão de saber definir uma margem de risco para absolutamente todas as situações do dia-a-dia. E lidar com autocontrole. Troquei os DVDs pelos livros. Cortei viagens. Não fui ao Coachella (ok, não iria mesmo). Há noites em que passo fome. Perdi cinco quilos. E não consigo reclamar de nada disso.

O que mais mudou na minha rotina não tem a ver com dinheiro, mas com relações familiares. Foi o grande baque. A maior ruptura. Talvez a aventura definitiva. Nesse ponto, tudo está diferente, e não tenho condições de prever o desenrolar da história. Quando me perguntam sobre o impacto da mudança, respondo de imediato: ganhei uma outra família. Note a confusão: eu, uma outra pessoa, ganhei uma outra família. Devo marcar terapia?

Se bem que, descubro lentamente, a boa nova tem um quê de maldição. Não é simples acostumar-se a um núcleo familiar renovado, e a primeira sensação é de que aquelas pessoas que você conhece intimamente não vivem mais com você (reparem que é uma sensação ao mesmo tempo óbvia e profunda). Você é uma visita querida, recebida com sorrisos e regalias. Ao mesmo tempo, você não está lá.

Desde que minha mãe passou a me receber com um generoso tapete vermelho (e toneladas de chocolate), não consigo encarar esse cenário sem dar algumas risadas. Parece que trocaram a aquela mulher por um robô adorável, programado para me agradar. E que, reparem a sofisticação da tecnologia, me telefona algumas vezes por semana para massagear meu ego e me perguntar se está tudo bem. O único defeito de fabricação é que, depois de duas ou três horas de visita, a andróide passa a lamentar a ausência do filho. Às vezes se tranca no quarto. Chora silenciosamente enquanto prepara o pudim.

Passei pela fase em que a distância da família parecia o paraíso. Ok, eu sei, tudo mundo vive esse tipo de coisa e eu devia estar escrevendo sobre o novo álbum do Bob Dylan. Mas veja: até meu padrasto, que não é de muita conversa, me recebia com análises demoradas sobre as principais notícias da semana. Minha irmã, que quase me trucidou com uma faca de cozinha quando eu tinha 14 anos de idade, faz convites graciosos para tocarmos violão e cantarmos canções bobinhas que escrevemos juntos quando éramos pequenos. Até meus cachorros parecem especialmente gentis. Eles sentem minha falta e, mais importante, querem demonstrar isso.

Levou quatro, quase cinco meses para que eu sentisse o empurrão. O susto. Depois de um período de intensa felicidade, me descobri afastado da minha família de uma forma que talvez nunca conseguirei entender. O que aconteceu? Quem deu permissão para que cortassem as cordas que me prendiam ao teto do teatro? Cumpro com afinco a rotina de visitas nos fins de semana, telefono e pergunto por novidades. Ainda assim, é como se eu não participasse ativamente de nada. No tempo em que levei para me acostumar com a ausência da minha família, eles se acostumaram com meu desaparecimento. E decidiram continuar vivendo, corajosamente.

É, veja bem, quase uma idéia de morte. Mais ou menos quando encerramos um longo caso amoroso.

Às pessoas perturbadas pela idéia de mudar-se de casa, evito comentar que existe sim uma conseqüência desagradável para essa saga: mesmo quando não se quer notar, você assina um contrato com a solidão. Ela estará lá, de qualquer jeito. Não haverá como evitar. De madrugada, quando todos os ruídos parecem bombas nucleares. Na estrada que nos leva de volta à casa, depois de um domingo em família. Principalmente quando nosso cérebro começar a tecer prognósticos de um futuro que parece assustadoramente indefinido, incompleto. Diante dele, estamos sós. Com os ruídos. Um apartamento vazio. E ninguém mais para nos guiar pela mão.

Pode ser que aí esteja a resposta para a pergunta que nos atormenta: o que vamos ser quando finalmente crescermos? Um pouco mais solitários, possivelmente. Mas com a esperança tranquila de que, um dia, já perfeitamente curados, conseguiremos lidar com esse e outros tipos de aflição. De uma forma adulta. E sem drama.