Philip Roth

[philip roth]

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“Levar seus livros de uma vida para outra não era novidade para Zuckerman. Em 1949, ele saíra da casa dos pais e se mudara para Chicago levando na mala as obras anotadas de Thomas Wolfe e o Roget’s Thesaurus. Quatro anos mais tarde, contando então vinte anos, deixara Chicago com as cinco caixas de papelão em que acondicionara os clássicos adquiridos a duras penas em sebos, e as levara para o sótão da casa de seus pais, onde ficaram durante os dois anos em que serviu o Exército. Em 1960, quando se separou de Betsy, foram necessárias trinta caixas para transportar os livros retirados de estantes que não lhe pertenciam mais; em 1965, ao se separar de Virginia, as caixas chegavam a quase sessenta; em 1969, mudou-se da Bank Street com oitenta e uma caixas de livros. Para abrigá-los, novas estantes de três metros e meio de altura haviam sido instaladas, de acordo com suas instruções, em três paredes do novo escritório; mas, embora já houvessem se passado dois meses e os livros geralmente fossem os primeiros a encontrar o devido lugar quando ele se mudava de um local para outro, dessa vez eles permaneciam nas caixas. Meio milhão de páginas abandonadas, intocadas. O único livro que parecia existir era o seu. E, sempre que ele tentava esquecê-lo, alguém se encarregava de refrescar sua memória.”

Trecho de Zuckerman libertado, de Philip Roth.

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“O sr. Cantor quebrou por fim o longo silêncio: “Algum de vocês tem amigos que ficaram doentes?”, perguntou.

Alguns confirmaram com um gesto de cabeça, outros disseram que sim.

“Isso é duro pra vocês, eu sei. Muito duro. Nós todos precisamos esperar que eles se recuperem e estejam logo de volta ao pátio.”

“A gente pode acabar num pulmão de aço para sempre”, disse Bobby Finkelstein, um garoto tímido que estava entre os mais tranquilos e que ele vira usando um terno nos degraus da sinagoga após o serviço fúnebre de Alan Michaels.

“É verdade”, disse o sr. Cantor. “Mas isso é quando ocorre uma paralisia respiratória, coisa muito rara. É muito mais provável que a pessoa se recupere. É uma doença grave, pode causar muito estrago, porém há exemplos de recuperação. Às vezes, ela é parcial, mas também pode ser fatal. A maior parte dos casos é relativamente branda.” Ele falou com autoridade, pois a fonte de seu conhecimento era o dr. Steinberg.

“A gente pode morrer”, disse Bobby, insistindo no assunto como raramente fazia. Em geral, parecia preferir que os extrovertidos tomassem a palavra, porém não era capaz de se calar sobre o que aconteceu com seus amigos. “O Alan e o Herbie morreram.”

“É, pode-se morrer”, o sr. Cantor concedeu, “mas as chances são poucas.”

“Não foram poucas para o Alan e para o Herbie”, Bobby retrucou.

“Estou dizendo que as chances são poucas em toda a comunidade, na cidade.”

“Isso não ajudou o Alan e o Herbie”, Bobby insistiu com voz trêmula.

“Você tem razão, Bobby. Tem razão. Não ajudou. O que aconteceu com eles foi terrível. O que aconteceu com todos os meninos é terrível.””

Trecho de Nêmesis, de Philip Roth.

Trecho | A onipotência do acaso

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“Desde o momento em que redescobriu o milagre de uma noite bem dormida, em que foi necessário uma enfermeira acordá-lo para o café da manhã, Axler começou a sentir que o pavor diminuía. Haviam-lhe ministrado um antidepressivo a que ele não se adaptou, depois tentaram outro medicamento, e por fim um terceiro que não tinha nenhum efeito colateral insuportável, mas se aquilo lhe fazia bem ou não, ele não sabia. Não conseguia acreditar que aquela melhora tinha alguma coisa a ver com os remédios ou as consultas psiquiátricas, com a terapia de grupo ou a arteterapia; tudo isso lhe parecia uma perda de tempo. O que continuava a assustá-lo, à medida que se aproximava o dia da alta, era que nada do que estava acontecendo com ele parecia ter a ver com coisa alguma. Como dissera ao dr. Farr, ele havia perdido sua magia de ator sem nenhum motivo, e era também de modo igualmente arbitrário que a vontade de dar fim à própria vida começou a diminuir, pelo menos por ora. “Nada que acontece tem motivo”, disse ele ao médico mais tarde naquele mesmo dia. “A gente perde, a gente ganha – é tudo acaso. A onipotência do acaso. A probabilidade de um revés. Isso, o imprevisível revés e seu poder.”

Trecho de A humilhação, de Philip Roth.

Pessoas feitas de palavras

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“Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado. Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões. E, com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que são as outras pessoas, que se veem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo o mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som, invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco. Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso… bem, boa sorte.”

Pastoral americana. 1997. Página 48. Philip Roth. Para, como de hábito, me mostrar que sou um nada.