Philip K Dick

Trecho | As coisas mais triviais

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‘Eu não existo‘, disse para si mesmo. ‘Não há nenhum Jason Taverner. Nunca houve e nunca haverá. Para o inferno com minha carreira; quero apenas viver. Se há alguém ou alguma coisa querendo eliminar minha carreira, tudo bem, à vontade. Mas será que não tenho licença nem para existir? Será que eu nem nasci?’

Voltando ao seu quarto de hotel, deu uma boa olhada no espelho todo cheio de sujeira de mosca. Sua aparência não se havia alterado; apenas precisava fazer a barba. Não estava mais velho. Nenhuma ruga nova, nenhum cabelo branco aparecendo. Os ombros e braços fortes de sempre. Nenhuma gordura na cintura, o que lhe permitiria usar a roupa justa que estava na moda para os homens.

‘E isso é importante para a imagem de uma pessoa’, pensou. ‘O tipo de ternos que se pode usar, especialmente aqueles apertados na cintura. Devo ter uns cinquenta desses. Ou pelo menos tinha. Onde estarão agora?’, perguntou-se. ‘O pássaro se foi; em que ravina cantará agora? Ou algo assim’. Uma coisa do passado, do seu tempo de escola. Esquecida até este momento. ‘Que estranho’, pensou, ‘as coisas que aparecem na cabeça da gente numa situação desconhecida e sinistra. Às vezes são as coisas mais triviais que se possa imaginar.'”

Trecho de Identidade perdida, de Philip K. Dick.

Drops | Mostra de São Paulo (4)

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'O sequestro de um herói', de Lucas Belvaux

Entre as sessões da Mostra, leio O homem do castelo alto, de Philip K. Dick. Mais do que preencher meu tempo enquanto os filmes não começam, o romance me hipnotiza de tal forma que o sistema de cotações que vocês encontram nestes drops do festival poderia muito bem obedecer ao seguinte critério: a nota mínima iria para os filmes que provocam em mim a imensa vontade de abandonar a sala de projeção e voltar ao livro, enquanto que a nota máxima ficaria com aqueles que me expulsam por completo do mundo de K. Dick. Dito isso, todos os filmes que vi ontem me deixaram com saudades do livro.   

Lixo extraordinário | Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley | 2.5/5 | O doc usa um formato informativo, pragmático, para registrar o processo criativo que envolveu o artista plástico Vik Muniz e catadores de lixo do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. As ambições do filme não são extraordinárias: mostrar o projeto e as pessoas que participam dele.  É, digamos, simpático. Ainda assim, senti falta de um interesse menos superficial pela arte de Vik. Um longa mais forte certamente não precisaria usar trechos do Programa do Jô para orientar o espectador.

Agreste | Paula Gaitán | 3/5 | Este perfil siderado da atriz Marcélia Cartaxo mostra o quão retraída é a maior parte dos documentários sobre “figuraças” da cultura brasileira. Nas primeiras cenas, uma breve narração em off descreve tudo o que precisamos saber sobre a biografia da atriz. Imediatamente depois, Gaitán se deixa levar pelas sensações e impressões de Cartaxo. É uma divagação tão árida quanto as paisagens nordestinas do filme, por vezes tortuosa (e são muitos os que não resistem aos 78 minutos e abandonam a sessão). Não é uma experiência agradável, mas que me interessa mais do que um típico doc com depoimentos e cenas de arquivo. 

O sequestro de um herói | Rapt | Lucas Belvaux | 3/5 | O thriller de Balvaux me parecia apenas um exercício sem muita ressonância (um empresário é sequestrado, mas a empresa que ele preside se recusa a pagar o resgate e cria um impasse político em torno do caso), mas é desses filmes que, aos 45 do segundo tempo, nos obrigam a rever as opiniões que formamos a respeito deles. Mais pontualmente, a virada acontece nos 30 minutos que antecedem o desfecho. É quando a narrativa, até então à mercê da ação, abre uma discussão moral que justifica muitos dos malabarismos do diretor. Termina bem, ainda que o estilão cinzento de Belvaux me pareça genérico demais.

Sentimento de culpa | Please give | Nicole Holofcener | 1.5/5 | Num mundo dividido entre pessoas sensíveis e insensíveis, uma nova-iorquina altruísta tenta enfrentar o cinismo da vida moderna. Um conselho: se você arriscar este drama lo-fi sobre famílias disfuncionais, não invente de fazer uma sessão dupla com Cyrus. No caso, ficará a impressão (talvez equivocada, tenhamos fé) de que, neste momento, o cinema ‘indie’ americano é o mais insípido e infantil do mundo. Mas são tramas e personagens que, pelo menos, produzem algo de reconfortante: eles me fazem perceber que, no fim das contas, minha vida não é totalmente uma merda.

Trecho | Um sonho, um mapa falso

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“Eu também tenho sonhado com outro lugar, um lago ao norte, com chalés e pequenas propriedades rurais ao redor de sua margem sul. No meu sonho, chego até lá vindo do sul da Califórnia, onde moro; esse é um local para passar as férias, mas é muito antiquado. Todas as casas são de madeira, com aquele tipo de tábua marrom tão popular na Califórnia antes da Segunda Guerra Mundial. As estradas são de terra. Os carros também são mais antigos. O que é estranho é que não existe nenhum lago assim na parte norte da Califórnia. Na vida real, já dirigi todo o caminho para norte que leva até a fronteira com o Oregon e cheguei a entrar no Estado do Oregon. Só existem 1500 quilômetros de território árido.

Onde é que existe esse lago – e as casas e estradas ao redor – na verdade? Sonho com ele inúmeras vezes. Como nos sonhos tenho a consciência de que estou em férias, de que minha verdadeira casa fica no sul da Califórnia, às vezes dirijo de volta até aqui, Orange County, nesses sonhos interconectados. Mas quando volto para cá, estou morando numa casa, ao passo que na realidade vivo em um apartamento. Nos sonhos, sou casado. Na vida real, vivo sozinho. O mais estranho ainda é que minha esposa é uma mulher que nunca vi antes.

Em um dos sonhos, nós dois estamos do lado de fora, no quintal, regando e podando nosso roseiral. Posso ver a casa ao lado: é uma mansão, e temos em comum com ela um muro de alvenaria. Rosas selvagens foram plantadas numa trepadeira que sobe pelo muro, para torná-lo atraente. Quando passo meu ancinho ao lado das latas de lixo de plástico verde que enchemos até a boca com galhos podados, olho para a minha mulher – ela está regando as plantas com uma mangueira – e olho para o muro com suas trepadeiras e rosas, e sinto-me bem; penso: não seria possível viver feliz no sul da Califórnia se não tivéssemos esta bela casa com seu belo quintal. Preferiria ser o dono da mansão ao lado, mas de qualquer maneira eu pelo menos posso vê-la, e posso entrar no seu jardim mais espaçoso. Minha mulher veste blue jeans; ela é magra e bonita.

Quando acordo, penso: eu deveria dirigir até o lago ao norte; por mais bonito que seja cá em baixo, com minha esposa e o quintal e as rosas selvagens, o lago é mais bonito. Mas aí percebo que estamos em janeiro, e haverá neve na rodovia quando eu chegar ao norte da Área da Baía; não é um bom momento para voltar para a cabana no lago. Eu deveria esperar até o verão; afinal de contas, não sou lá um motorista muito bom. Mas meu carro é dos bons; um Capri vermelho quase novo. E então, quando acordo, percebo que estou vivendo num apartamento no sul da Califórnia sozinho. Não tenho esposa. Não existe aquela casa, com o quintal e o muro alto com trepadeiras e rosas. O que é mais estranho ainda: não só não tenho uma cabana no lago ao norte como também não existe nenhum lago assim na Califórnia. O mapa que seguro mentalmente durante meu sonho é um mapa falso; ele não mostra a Califórnia. Então, que Estado ele mostra? Washington? Existe uma grande massa de água ao norte de Washington; já sobrevoei na ida e na volta para o Canadá, e já visitei Seattle certa vez.

Quem é essa esposa? Não apenas sou solteiro, como nunca fui casado nem jamais vi essa mulher. Mas nos sonhos eu sinto um profundo, confortável e familiar amor por ela, o tipo de amor que só cresce com a passagem de muitos anos. Mas como é que eu sequer sei disso, já que nunca senti um amor assim por ninguém?

Ao me levantar da cama – estava tirando um cochilo no finzinho da tarde -, entro na sala de estar do meu apartamento e sou atingido de imediato pela natureza sintética da minha vida. Som estéreo (sintético); aparelho de televisão (este é certamente sintético); livros, uma experiência de segunda mão, pelo menos comparada com dirigir subindo a estrada estreita de terra que margeia o lago, passando por baixo dos galhos das árvores, finalmente chegando à minha cabana e o lugar onde estaciono. Que cabana? Que lago? Consigo até mesmo me lembrar de ter sido levado até lá orginalmente, anos atrás, por minha mãe. Agora, às vezes, vou por via áerea. Existe um vôo direto entre o sul da Califórnia e o lago… a não ser por alguns quilômetros depois do campo de pouso. Que campo de pouso? Mas, acima de tudo, como é que eu consigo suportar a vida artificial que levo aqui neste apartamento de plástico, sozinho, especificamente sem ela, a mulher magra de blue jeans?”

Trecho de Valis, de Philip K. Dick