Pedantismo

2 ou 3 parágrafos | Trama internacional

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international

Os bancos são os inimigos, o sistema financeiro não poupa ninguém, o mundo corporativo é mais frio que a morte, the end. Dito dessa forma, Trama internacional (6.5/10) parece uma bobagem. Adianto logo: na onda de thrillers inspirados no cinema americano dos anos 1970, este é o menos fluente, o mais pedante e “confuso”. Mas tudo isso me cheira a uma boa tomada de posição: sem paciência alguma para passatempos à Tony Gilroy, Tom Tykwer (que é alemão, e aqui essa informação se faz essencial) constroi uma fita de espionagem a base de aço, vidro e paranoia. É um arranha-céu moderníssimo: elegante e gélido, doa a quem doer.

O diretor de Corra, Lola, corra não é o mais adequado para pilotar um Boeing desse tamanho, com todos os botões luminosos e um manual de instruções de mil páginas. Essa relação desconfortável entre Tykwer e as normas do gênero acaba fazendo bem ao filme. Admito que perdi o interesse em mais de um momento (as cenas de ação, desastradas, atropelam a narrativa feito um caminhão) e não enxerguei o fio que liga todas as teorias da conspiração atiradas pelo roteiro (se é que existe um fio). O que notei foi um confronto até mesmo entre o roteiro — um falatório sem fim — e a direção, que parece mais interessada em compor um ensaio visual sobre arquitetura.

É esta, aliás, a camada do filme que mais me atrai: Tykwer não precisaria de diálogos nem de personagens nem de uma mirabolante rede de intrigas para comentar sobre o nosso pesadelo corporativo. A arquitetura das cidades diz tudo. A primeira cena mostra o primeiro registro cinematográfico de uma arrojada estação ferroviária de Berlim. Já o clímax, quando o herói finalmente enfrenta o “sistema”, é rodado num antigo telhado de Istambul. O contraste entre novo e antigo, as cores quentes contra os tons frios, a “moral da história”, está tudo ali: uma bela exposição de fotografias perdida num thriller apenas razoável.

Manners | Passion Pit

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passionpitParticipo há quase dez anos de uma coluna de rock publicada semanalmente no jornal onde trabalho. Hoje, três jornalistas colaboram para essa página, cujo projeto gráfico lembra o de um fanzine. Dedicamos o espaço a bandas independentes. Tentamos cobrir a maior parte dos lançamentos de Brasília e, quando possível, mapear cenas de outros estados. Uma ou duas vezes por mês, publicamos matérias sobre grupos internacionais.

O processo de trabalho é, na medida do possível, democrático: sabemos que um jornal de Brasília deve acompanhar as bandas locais. Fazemos isso. Entendemos que, com a crise da indústria fonográfica, o rock independente brasileiro se fragmentou em um punhado de cenas relevantes: há boas novidades em Cuiabá, em Recife, em Porto Alegre e no Acre, por exemplo. Nos esforçamos para chegar longe. Acredito que fazemos esse trabalho com competência.

Quando abrimos janelas para o rock internacional, entramos num ambiente um pouco mais nebuloso. Mas, para mim, fascinante. Em vez de cobrir tudo o que acontece (seria impossível), somos obrigados a fazer apostas. Elegemos bandas que consideramos importantes. Com o tempo, aprendemos que, nesse ramo, não há apostas certas e erradas. Há apostas. Tentamos nos convencer de que a história toda é simples assim.

Não juramos fidelidade a gêneros ou nichos. Há edições em que escolhemos um tema (grupos liderados por mulheres, digamos) e destacamos uma banda inglesa, uma americana e uma sueca. Temos essa liberdade. Não consigo imaginar outra forma de escrever sobre rock independente internacional num jornal diário: as opções são tantas que é preciso fazer escolhas duras. A indústria de discos ainda pauta os jornais — mas os álbuns do Arcade Fire e do Animal Collective nos entusiasmam mais que os do U2 e do Green Day.

Digo tudo isso (e peço desculpas se tudo soa óbvio) para contextualizar uma situação que me deixou um pouco incomodado. Outro dia, na caixa de comentários de um site, uma pessoa criticou com violência a coluna que ajudo a escrever. Não tenho nada contra críticas, vocês sabem. Mas essa me deixou meio perdido: a leitora enfezada dizia que somos “alternativozinhos pedantes” e nos limitamos ao “som da Inglaterra”.

Compreendo o primeiro comentário — não é de hoje que serei acusado de pedantismo (algo que não aconteceria se eu me concentrasse em analisar a discografia de duas ou três bandas conhecidíssimas). Mas o segundo… Escapa do meu entendimento.

Hoje em dia, podemos falar num “som da Inglaterra”? Ou em “som do Canadá”? “Som de Brasília”? Sempre que ouço um comentário do gênero, fico com a impressão de que estamos encarando a música pop contemporânea com ouvidos do século passado.

Aos 13 anos de idade, eu descobria as bandas novas da Inglaterra nas páginas dos semanários Melody Maker e New Musical Express, que chegavam com bastante atraso na biblioteca da Cultura Inglesa. O Tiaguinho Superoito conhecia os discos em detalhes, mas (em quase todos os casos) não conseguia ouvir as canções. Pouco tempo depois, o cenário mudou por completo: eu já conseguia ouvia todas as canções (via internet), mas aquela mesma imprensa musical britânica parecia presa a um antigo formato. A New Musical Express publicada hoje em dia é muito parecida com aquela que eu lia nos anos 90.

Hoje, aposto que os meninos de 13 anos obcecados por música pop usam os semanários e revistas como complemento para a leitura de sites e blogs. Essa mudança de panorama não é superficial (ainda que os jornalistas britânicos de rock queiram nos convencer do contrário).

As bandas eleitas pelas revistas inglesas e norte-americanas nos anos 90 refletiam uma tendência à formação de cenas (o britpop, o grunge, o nu metal, por exemplo). Por mais que se sinta saudades dos “bons tempos”, precisamos admitir que o avanço da internet alterou o eixo da música pop: a partir de 2000, os sites e blogs (que, por conceito, não estão atados a territórios) passaram a se identificar com bandas que fragmentam gêneros e borram fronteiras, que parecem ter nascido em qualquer lugar, em qualquer época. Phoenix soa francês da mesma forma como CSS soa brasileiro. De que passado vêm o Strokes e o White Stripes? E o Vampire Weekend?

O que resta às velhas revistas é correr atrás de bandas que, no fim das contas, nada mais são que reflexos para uma nova forma de ouvir música.

É uma transformação complicada, que mexe com estruturas caducas, que desafia a fé de antigos fãs de rock. Mas, como não estou disposto a escrever uma dissertação sobre o tema, vou abreviar a pregação com um estudo de caso: Passion Pit.

O quinteto, que você já conhece, foi formado em Massachusetts. Lança discos por um selo de Nova York. Ficou conhecido em blogs e sites. O som alterna referências do indie rock mais emotivo (à Death Cab For Cutie) com electropop oitentista, meio debochado (Cut Copy vem à mente). Os falsetes do vocalista às vezes lembram Robert Smith, às vezes Los Campesinos. Um clima de excitação juvenil costura as faixas, que simulam o recreio de um colégio abarrotado de criancinhas.

Que banda é essa? Como classificá-la? De onde ela vem?

Um fã de Oasis que congelou-se no tempo provavelmente acusaria o disco de soar confuso. Para mim, parece saturado de ideias. Cada faixa acrescenta elementos a um estilo já denso e, se a estrutura pop das canções soa fácil, aproximar-se do álbum exige algumas audições. Mas taí um grupo que transpira o tempo em que vive. Manners tem canções soltas umas das outras, despreocupadas em seguir uma determinada linha sonora (The reeling, o single mais forte, provoca uma fissura no disco). Um álbum pop lindamente desamarrado.

Nada surpreendente, por isso, que a Columbia Records tenha ouvido, gostado e se associado ao selo indie Frenchkiss para lançar o disco. Uma notícia que, no início dos anos 90, seria recebida como uma pequena revolução. E que, hoje, é procedimento de rotina.

Me pergunto se os leitores de colunas de rock publicadas em jornais diários percebem ou se preocupam com esse tipo de mudança. Eles ouvem música da mesma forma como ouviam há dez anos? Eles acreditam no poder que o pop tem (e sempre teve) de ecoar as transformações do nosso mundo? Espero que acreditem (para esses, sugiro Passion Pit) — caso contrário, temo ter desperdiçado meu tempo com palavrinhas ocas abandonadas em pedaços de papel.

Primeiro disco do Passion Pit. 11 faixas. Lançamento Frenchkiss Records/Columbia Records. 8/10