Pavement

express | 43

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Mirror traffic | Stephen Malkmus & The Jicks | 72 | Pode não ser o melhor disco da fase solo de Stephen Malkmus, mas talvez seja o mais sinuoso (mesmo que, à primeira audição, pareça simples): por um lado, a produção de Beck tenta retomar o formato/espírito do Pavement de Wowee Zowee, com uma coleção longa de musiquinhas relaxadas (mas, aluno de Nigel Godrich, ele dá ao disco um polimento soft-rock à la Terror twilight); por outro lado, Malkmus escreve o autorretrato de um roqueiro de 45 anos – canções sem falsas ilusões, irônicas porém desencantadas (como se não acreditasse mais no efeito cômico provocado por um comentário blasé e muito esperto). Um álbum criado sob tensão criativa, portanto – e uma tensão muito saudável, que vai abrindo conotações inesperadas nas canções. O estica-e-comprime não produz um disco-síntese do Pavement (que talvez Beck quisesse), muito menos um disco totalmente pós-Pavement (que Stephen Malkmus tenta provocar), mas um jogo de reflexos entre o passado e o presente do músico. E isso com algumas das canções mais perfeitas que ele escreveu, como Asking price e Share the red (mas eu viveria bem sem Senator; a charge política não é, e não mesmo, o metiê do sujeito).

Past life martyred saints | EMA | 67 | Quando estou de muito bom humor, isto soa como uma versão em miniatura para um dos discos enfezados da PJ Harvey. Quando penso mais uma vez, começo a desconfiar que Erika M. Anderson tomou os discos de Courtney Love como cartilha e, olhos mareados e pulsos rasgando, foi à batalha (e algumas das confissões da moça me deixam mais constrangido que comovido). De uma forma ou de outra, as comparações com Kim Gordon me parecem um exagero: Erika está só no início, engatinhando, ainda modelando a forma de uma sonoridade que, nos próximos discos, pode até começar a soar arenosa e assustadora como ela pretende. Lembra um pouco o disco da Lykke Li, só que sem o senso de humor: uma mulher perdida no deserto, sem destino definido, mas pronta para desabafar horrores com o primeiro andarilho que passar pelo caminho. “Tenho só 21 anos. Não me importo com a morte”, ela avisa, em California. Te entendo, guria, mas grande pop não é só isso.

La liberación | CSS | 58 | Admito que não era o disco do CSS que eu estava esperando: depois de uma temporada que deve ter sido infernal – de crise, chiliques em revistas bacanas, apocalipse e ressurreição – a banda me sai com uma continuação direta (e “profissional”) para Donkey, o disco anterior. Ora. La liberación inverte a ordem dos sabores (desta vez, o electro docinho&facinho&safadinho vem antes da guitarrada abafada), mas o provoca efeito de reprise: as intenções arruaceiras e engraçadinhas do grupo (tipo: música em portunhol, música sobre mina que sai pra night com os “gay friends”, indiepop de Ibiza com participação de Bobby Gillespie) são amortecidas por uma produção que tudo controla e arredonda. A sensação é de ver um roteiro absolutamente ZONEADO dirigido por, digamos, Breno Silveira ou Cláudio Torres. No idioma deles, pois: it hits me like a pillow.

In the grace of your love | The Rapture | 49 | O tédio que bate quando penso em escrever sobre o disco só é comparável ao que sinto quando leio as entrevistas em que o Rapture discursa sobre “encontrar uma atitude mais positiva”. Zzz. Então deixe-me tirar o brutamonte bobo-alegre da sala, rapidamente: procurar atitude positiva (ou negativa, ou sei lá o que) nada tem a ver com gravar um disco que tenta nos acertar no esquema tentativa-e-erro; uma jukebox ora agradável, ora insuportável, desconjuntada e sem rumo (ou, para quem curte a coisa, “sortida”, “desencanada”), que parece compilar tudo o que era cool há dois anos – de LCD Soundsystem a Stereo love. Falta de timing (e de otras cositas más) é isso aí.

I’m with you | Red Hot Chili Peppers | 49 | Ao contrário de By the way (que era mais primaveril, melodioso) e até de Stadium arcadium (que pelo menos pensava grande), o décimo disco dos Chili Peppers soa amedrontado, feito adolescente em dia de vestibular. É o retrato de uma banda que perdeu o eixo (ou: que perdeu John Frusciante) e que, depois de um período de autoestima elevada, agora não parece entender que papel deve cumprir neste mundão confuso aqui. E esse sentimento de incerteza, que poderia gerar um disco interessante, acaba fragilizando todas as faixas do disco, que, quando muito, se esforçam para encher a barriga dos fãs (e, lá pela metade, a impressão é de que a banda saiu de cena e deixou o trabalho para um androide). O uso de percussão afro é tão sutil que merecia ter ficado na gaveta. Mas ok: é de tentativas assim (bem intencionadas porém inócuas) que vivem as bandas de rock mais profissionais, mais eficientes, não mais relevantes.

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Os discos da minha vida (35)

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A saga dos 100 discos mais faiscantes da minha vida chega a um episódio que é pura apoteose e delírio, rapaziada. Um fogaréu tão intenso que, ao fim do post, só sobreviverão as baratas e – é claro – este ranking sentimental.

Resolvi o seguinte: mesmo que este blog pendure o All Star (é provável), esta odisseia aqui só vai terminar quando chegar ao fim. Combinado? Combinado.

Puxe a cadeira, portanto. Tome um suco de maracujá, um antisiolítico, escreva uma carta longa para a namorada, faça planos para os netinhos, vá grampeando todas as contas de luz e água dos últimos seis meses, ocupe-se. A atividade recreativa não termina cedo.

A partir de agora, todos os discos da lista me levam de volta à minha adolescência e, por isso, vão me fazer chorar feito um bebezinho. Vou sofrer. Vai ter mágoa. Vai ter saudade. Vai ter lembrança cruel. Fica, sensatez. Bróder, veja isto: não consigo ouvir vários desses discos (eles abrem o baú dos meus sentimentos), quiçá escrever sobre eles!

Eu deveria ficar bem quieto. Bico fechado. Ou pedir para outras pessoas escreverem parágrafos distanciados, técnicos. Ou recortar e colar trechos do Wikipedia e do All Music Guide. Ou jogar vinte clichês no liquidificador aqui de casa e postar a vitamina. Não sei. É tudo muito estranho. É tudo muito abstrato. É tudo muito louco, gente.

Certo, sem piadinhas. Vamos aos discos, antes que eu entregue os pontos, perca a cabeça e mate um porco (o download é obrigatório, ok?).

032 | Odessey and oracle | The Zombies | 1968 | download

Eu sei, eu entendo: os seus amigos não conhecem esta obra-prima do Zombies porque ela não paralisou o mundo com surpresas instantâneas (caso de Sgt. Peppers) nem entrou para o livro sagrado dos discos intocáveis, nossos cânones (caso de Pet sounds). Mas é prudente aceitar o óbvio: isto aqui não quer ser uma revolução, mas uma síntese de tudo o que conhecemos por psicodelia britânica, em canções contagiosas, mas também delicadas, que vão se abrindo e nos envenenando feito flores exóticas (é uma metáfora kitsch, ok, tá certo, mas ninguém procura comedimento no pop barroco). Com apenas 35 minutos, e faixas que obrigam reprises infinitas, foi um dos discos que ouvi mais vezes. Uma obsessão que me transformou num fã de rock para sempre frustrado: procuro discos tão extravagantes e bonitos quanto este, quase nunca os encontro. Top 3: A rose for Emily, Time of the season, Friends of mine.

031 | Wowee zowee | Pavement | 1995 | download

O Pavement gravou discos BEM melhores, não gravou? Crooked rain, crooked rain, de 1994, é todo perfeitinho. Slanted and enchanted, de 1992, certamente sai como o mais importante. Mas o meu preferido é Wowee zowee, o “álbum branco” de uma banda arteira demais para levar a sério a ideia de gravar um “álbum branco”. A palavra que mais se usou no lançamento do disco foi ‘ecletismo’. Eu prefiro outra: ‘excessos’. Excessos saudáveis, diga-se. Com acenos a Frank Zappa, um quê de country rock e outro de hardcore, a banda rejeita se enquadrar a qualquer gênero (indie rock, ã-hã) e lança como single uma faixa que, nos anos 70, seria tachada de soft rock (Rattled by the rush). A revista Rolling Stone deu nota baixa. Enquanto isso, eu adotava o CD como uma espécie de segredo perverso, que pouca gente entenderia. Uma piada interna. E assim ficou. Top 3: Father to a sister of tought, Grounded, We dance.

Superoito no Planeta Terra 2010

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Phoenix, meu favorito da noite

A comparação é totalmente injusta, mas digamos que seja inevitável: se show do Paul McCartney foi um fenômeno da natureza, torrente de emoções, uma choradeira infernal, os do festival Planeta Terra foram apenas… shows. Pois é. Uma história bem mais mundana. Mas, ainda assim, a ser contada aos nossos netos roqueiros.

Eu poderia escrever um texto longo sobre o assunto, mas este blog sempre perde a luta contra a minha rotina. No momento, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro toma quase todo o meu tempo, diariamente, das nove da manhã às duas da madrugada. Escrevo este post, por exemplo, num raro intervalo entre uma obrigação profissional e outra, de pé e suando litros.

Pensei em fazer um pequeno diário sobre a mostra de cinema, mas duvido que algum leitor do blog se importe com o evento. Este ano, resolvi pular esta parte para poupá-los do enfado e me livrar de dores de cabeça.

Numa velocidade enlouquecedora (perdoem os deslizes), aí vão pequenos comentários sobre os shows do Terra. Lembrando que só consegui acompanhar as atrações do Main Stage (o som do palco, aliás, estava perfeito).

Phoenix | 8.5 | Um show reto, econômico, quase monocromático (a começar pela iluminação, que esconde os franceses em sombras), mas com o tipo de poder concentrado que encontramos em bandas como Strokes e Arctic Monkeys. A setlist amplia o formato do disco Wolfgang Amadeus Phoenix: um trator de hits compactos interrompido por uma muralha alta chamada Love like a sunset (numa versão bem diferente daquela que está no disco, mais rock e quase nada de eletrônica). Para quem os acusa de blasé, Thomas Mars se retratou direitinho: “nadou” sobre a plateia e provou ser um vocalista mais destemido e atlético do que Mika e Kevin Barnes. Para mim, o show mais divertido da noite (mas admito: minha percepção pode ter sido influenciada pelo fato de que eu fui praticamente atropelado pelo vocalista; saudade daquela grade). Momento mágico: Lasso.

Pavement | 8 | Um flashback estranhíssimo, já que agrada totalmente ao fã (a banda toca as músicas mais conhecidas de cada disco; mais acessível do que isso, impossível) mas, ao mesmo tempo, incomoda um pouco aqueles que, como eu, amavam uma banda menos polida, menos ansiosa por agradar aos fãs. Apesar da sensação de que há algo errado com esse revival, eles estão muito mais afinados (e sóbrios!) do que eu esperava. Velhos amigos, o tempo passou. Momento mágico: Stop breathing.

Of Montreal | 8 | Teatrinho psicodélico mui perverso e hilariante: o tipo de sonho pirado que te deixa encucado no dia seguinte. Ótimo confirmar in loco que Kevin Barnes é mesmo um dos melhores performers em ação — mas o som embolado em músicas como Heimdalsgate like a promethean curse me irritou um pouco. E nada de Famine affair? Momento mágico: Bonny ain’t no kind of rider.

Mombojó | 7.5 | Cada vez melhores (e este show conseguiu superar o do Porão do Rock). Ocuparam quase 1/3 do palco, tocaram às quatro da tarde e, ainda assim, uma performance mais potente do que a de muitas bandas que vieram depois. Só uma ressalva: o clímax do show é muitíssimo superior a todo o resto. Momento mágico: Deixe-se acreditar.

Novos Paulistas | 6.5 | Uma boa estrategia para encontrar uma brecha no palco principal do Terra. E Tiê — que canta, toca piano e violão — é a musa da noite. Momento mágico: Efêmera.

Mika | 6 | Um espetáculo da Broadway condensado em 60 minutos e interpretado quase que totalmente por apenas um ator. Se o quesito principal fosse profissionalismo e técnica, o melhor show da noite. Mas me deixou a sensação de um clipe do American idol: um cantor competentíssimo se virando com um repertório medonho. Momento mágico: Billy Brown.

Smashing Pumpkins | 5 | Um tédio. Eu, que era um grande fã dos Pumpkins nos anos 90 (acompanhem a lista de discos da minha vida e vocês verão), ainda não consigo entender por que Billy Corgan acredita que as músicas novas, de uma pobreza gritante, têm o direito de dividir o palco com maravilhas como Today, Zero e Bullet with butterfly wings. Não me irritei tanto assim com a arrogância do sujeito (cobrar simpatia de Corgan equivale a exigir ‘animação’ do Pavement), mas o problema é muito simples: conceito nota 10 (olhar para o futuro, valorizar inéditas, ignorar o oba-oba dos fãs), efeito nota 0 (as inéditas só revelam o quanto o vocalista tenta repetir o passado). Média 5 para a montanha-russa do festival. Momento mágico: Bullet with butterfly wings.

Agora vou ali ver uns filmes. Abs.

Before today | Ariel Pink’s Haunted Graffiti

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Ariel Marcus Rosenberg tem 31 anos e nasceu no dia 24 de junho de 1978. Eu tenho 30 anos e nasci no dia 25 de julho de 1979. Isto é: não somos exatamente irmãos gêmeos, mas há um cordão invisível que nos une. Há sim. Nós dois, talvez na mesma época, fizemos loucas viagens ao mundo mágico do pop doméstico.

Não é incrível?

É claro, há algumas (pequenas) diferenças entre nós dois: eu gravei umas 20 fitas-cassete incrivelmente toscas, prestei vestibular, consegui um emprego, encostei a guitarra e hoje economizo cada centavo para pagar o aluguel e a tevê a cabo. Já Ariel Pink gravou umas 500 músicas lindamente toscas, fez amizade com o Animal Collective, assinou contrato com o selo 4AD, foi a Abbey Road e, no fim do ano, estará em um punhado de listas de melhores discos de 2010.

Mas voltemos ao mundo mágico do pop doméstico, ok?

A sonoridade de Ariel Pink — mais lo-fi do que o lo-fi — me transporta para 1999, 2000, quando descobri como transferir minhas canções para o computador e, depois submetê-las a cirurgias digitais tortuosas, transformá-las em criaturas esquisitas. Elas continuaram soando incrivelmente toscas, só que também muito bizarras.

Minha carreira musical tornou-se tão obscura quanto a dos candidatos rejeitados nas primeiras sabatinas do American idol. Eu não deveria estar me comparando a um ídolo indie que, de acordo com o Wikipedia, faz “outsider music”. Mas só forcei a barra para explicar que o estilo de Ariel não é uma novidade efêmera (repito, princemaníacos: 1999!) nem algo exatamente original, que surgiu como uma faísca de vida em Saturno. Aos meus ouvidos, soa como uma evolução daqueles testes muito inocentes que eu, Ariel e milhares de outros adolescentes desocupados fazíamos em nossos PCs antiquados.

Entre 2004 e 2008, Ariel lançou uma série de discos longos (cada um dura em média 60 minutos) e desarranjados que são mixtapes cujo objetivo é recriar essa pré-história do indie-digital-de-garagem-suja. Admito que tentei ouvir um desses discos e parei no meio: são experimentos tão particulares que me lembram das primeiras gravações do Pavement. É como se Ariel gravasse por tentativa e erro, sem destino, sem ambições, procurando um som que não sabia bem se conseguiria encontrar.

Mas encontrou. Daí a importância de Before today, que congela essa descoberta em 12 faixas adoráveis que soam como resíduos do apocalipse digital. É como se um vírus perverso resolvesse corromper e embaralhar uma playlist composta por cacos de pop oitentista, soul music dos anos 1970 e rock psicodélico dos anos 1980.

Nos primeiros discos, Ariel soava confuso. Agora, soa como se estivesse no controle de um estilo que, entre outras propriedades, desorienta quem ouve. É um grande avanço.

Cada pedacinho das canções parece estar no lugar certo (e, pela primeira vez, o compositor é acompanhado de uma banda muito afiada, que entra na brincadeira), ainda que o efeito do disco seja o de uma obra espontânea, uma jam siderada. A comparação parece absurda, mas Ariel joga no mesmo time do velho Bob Dylan e do jovem The XX: antes de se preocupar com canções, eles criam atmosferas que remetem a determinados períodos do passado do pop.

Ariel também tem algo em comum com o Super Furry Animals de álbuns ensebados e “datados” como Love kraft e Hey Venus. Mais do que remeter a ídolos da psicodelia, o vocalista tenta reprisar o espírito sacana e mutante de discos do T-Rex, de David Bowie e do Love. Daí que, quando as guitarras explodem em Butt-house blondie, elas nos lembram menos de noise pop e mais do som caloroso (mesmo quando pouco barulhento) de antigos vinis. E o discurso andrógino de Menopause man bate como uma ousadia perdida no tempo, como que tirada de uma cena perdida de Hedwig and the Angry Inch.

O mais divertido, no entanto, é quando Ariel leva uma mochila de vanguarda ao estúdio Abbey Road e sai de lá com Round and round. Uma canção áspera e doce. E tão bonita que me deixou com vontade de desenterrar minhas antigas fitas-cassete e — coragem! — ouvi-las mais uma vez.

Disco de Ariel Pink’s Haunted Graffiti. 12 faixas, com produção de Sunny Levine, Rik Pekkonen e Michael Wagener. Lançamento 4AD. 8/10