Oscar

Coisas do Oscar | O discurso do rei

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Quando eu era pequeno falavam em “filmes do Oscar”, e aí eu logo imaginava dramas históricos, figurinos pomposos, atuações intensas, personagens que carregam o peso do mundo, roteiros com ambições literárias e temas quase sempre importantes (amizade, amor eterno, intrigas políticas, holocausto). Outro dia eu estava conversando sobre o assunto com um amigo – o tipo de papo nada frutífero, mas que, Freud explica, dá alegria aos nossos pobres neurônios – quando a pergunta apareceu: onde eles, os “filmes do Oscar”, foram parar?

De um tempo pra cá, a aparência é de que algo mudou: a Academia optou por valorizar fitas que foram selecionadas pelos estúdios depois de terem se destacado em festivais ou na mídia americana. Daí casos como os de Quem quer ser um milionário?, Onde os fracos não têm vez, Guerra ao terror, Os infiltrados, Crash – No limite. Acredito que o último vencedor a caber totalmente no antigo modelo foi Chicago, em 2003 (O senhor dos anéis é uma fita de fantasia, e Menina de ouro, apesar de ter cumprido o calendário da Warner para o oba-oba, foi conquistando os votantes lentamente, com apoio da imprensa).

Eis que, em 2011, ele reaparece. O discurso do rei (The king’s speech), o favorito da vez, me atirou à infância. O tipo de flashback, por essa perspectiva, desagradável. É o tipo de filme que cumpre rigorosamente as expectativas de uma Hollywood que, hoje, talvez se entedie com a própria imagem. Uma trama simplezinha sobre amizade – entre o rei George VI e o terapeuta vocal contratado para sanar a gagueira do monarca – embalada num contexto histórico em que Todas as Grandes Coisas Aconteceram (até Hitler entra no circo), com atuações “de pedigree” e situações que parecem muito, muito importantes, mas se esfarelam numa película esterilizada. For dummies.

A Disney (e isso nos momentos mais caretas, de animações como Mulan e Pocahontas) não faria melhor: no longa, a ideia talvez tenha sido garantir alguns tons de humanidade à figura dos nobres britânicos (notem, amigos: eles gaguejam!), mas a tintura é tão rala que surte o efeito contrário. George, para começo de conversa, nada mais é do que um poderoso bobalhão, com apenas três traços de comportamento (doçura, complexo de inferioridade, surtos de ranzinzice).

Mais que isso: é um homem invariavelmente bom, uma vítima de traumas terríveis, dos maus tratos do mundo. Talvez premiar um personagem unidimensional conte como uma reação à onda do 3D. Vá saber. Colin Firth se resolve como pode (e existe toda uma técnica vocal complicada que ele aplica ao tipo), mas o que fazer quando cada uma das cenas é calculada para cumprir leis muito envelhecidas de dramaturgia? Está tudo lá: o estranhamento provocado pelo primeiro encontro entre os protagonistas, a primeira ranhura na relação, os preparativos para um grande desafio e o clímax que pode ser previsto desde a primeira cena… Talvez sem intenção, essa narrativa do tempo da vovó acaba espelhando a decadência do modelo de poder que o filme glorifica. Os tios e as tias saem da sessão suspirando: ah, os reis e as rainhas!

Se não falei nada sobre Tom Hooper até aqui, é que o cineasta quase não se faz perceber. E talvez não apareça por não fazer diferença alguma. Não dá para dizer que ele tome o filme para si – este é muito mais um cosmético do produtor Harvey Weinstein, ex-Miramax, que curte esse tipo de entretenimento supostamente clássico, de peito estufado, um arraso nos quesitos técnicos. Mas, se o Oscar embarcar nessa e assinar embaixo, eu vou entender como retrocesso. Ou nem isso: será apenas um sinal de que a Academia muda para permanecer igualzinha. Meus pobres neurônios começam a se sentir aborrecidos com a brincadeira.

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Superoito express (27)

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American slang | The Gaslight Anthem | 8

O maior pecado que se pode cometer com o Gaslight Anthem é tratá-la como mais uma banda americana que se aventura a cingir as estradas do abertas por Bruce Springsteen. De fato, não são os únicos: como o Hold Steady e o Titus Andronicus, este quarteto de Nova Jersey revisa o ‘rock clássico’ setentista (não só Bruce, mas Stones, Clapton, Greatful Dead) com uma sensibilidade punk e uma escrita realista – crônicas de uma América sem glórias, cotidiana. Mas as comparações logo perdem a importância: quando vai ao microfone, Brian Fallon se torna o porta-voz de todos os  roqueiros que abandonaram a juventude, mas não perderam a inquietação. É o homem.

Enquanto o Hold Steady e o Titus ainda conseguem tomar algum distanciamento para narrar a saga dos meninos e meninas da América, Fallon parece contar a própria história (e talvez seja tudo ficção, mas o que importa é o grau de convicção, altíssimo). Mas, em vez de se retrair no canto do quarto, ele combina versos cheios de mágoas e nostalgia com uma sonoridade extrovertida, de cabeça erguida. “Aqueles velhos discos não vão salvar a sua alma”, Fallon avisa, em Stay lucky. Mas American slang, mais conciso e aparadinho do que The 59 sound (2008), soa como um álbum perdido do início dos anos 70: hinos robustos para o sonho que acabou.         

 

Gemini | Wild Nothing | 7.5

Sem querer forçar a barra (mas já forçando), existe pelo menos uma semelhança entre o Gaslight Anthem e o Wild Nothing: ambos soam autênticos mesmo quando seguem todas as regrinhas de certos subgêneros do indie rock. No caso do projeto de Jack Tatum, a matriz é o shoegazing dos anos 80. Mas, se a neblina de Gemini nos transporta imediatamente a um disco do My Bloody Valentine ou do Cocteau Twins, Tatum vai remodelando e atualizando essa sonoridade com a leveza do pop sueco (Summer holidays é bonita de doer) e o noise doce de um Pains of Being Pure at Heart. Em resumo: a delicadeza às vezes exige uma arquitetura complicada.    

White magic | ceo | 7.5

E o sol continua a brilhar na Suécia… O projeto solo de Eric Berglund, do Tough Alliance, é cartão-postal para as belezas do pop escandinavo, a ser consumido com cautela por quem se engasga com melodias acolchoadas e arranjos com cheiro de morango. Canções infinitamente otimistas como Illuminata, No mercy e Love and do what you will são quase exercícios de estilo: coros, flautas, ecos, barulhinhos divertidos, sentimentos nobres e sintetizadores gentis. Uma lindeza. Melhor do que isso, só quando caem as chuvas de verão: Oh God, oh dear, uma ode tocante a Brian Wilson, e a eletrônica nebulosa da faixa-título são remédios contra insolação. “Venha comigo para um lugar que eu chamo de realidade”, convida Eric. Por enquanto não, obrigado.         

Night work | Scissor Sisters | 7

Nada como um produtor sagaz: no terceiro disco do Scissor Sisters, o parisiense Stuart Price transforma um conjunto de canções apenas medianas num álbum que flui como um DJ-set. Um milagre semelhante ao que ele operou em Confessions on a dance floor, da Madonna, e Day and age, do Killers. No caso de Night work, o espírito é o de uma festança para trintões, com doses de dance music safada, new wave e pop dos anos 1970 e 1980. Os nova-iorquinos ainda pilham os hits alheios com humor debochado, camp – mas, desta vez, ganham massa muscular graças aos esteróides roubados de discos antigos do Prince ou de um Midnite vultures, do Beck. De Bee Gees (Any which way) a Talking Heads (Running out), o DJ não falha. No calor da pista, sobra até para os mais românticos: Fire with fire é o tipo de baladona épica que venceria o Oscar de melhor canção em 1986. O suficiente para nunca mais confundirmos Scissor Sisters com Mika.

2 ou 3 parágrafos | E o Oscar foi para…

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Vi o Oscar aos pedaços, pela internet (não sei se perdi muita coisa, perdi?), mas preciso dar duas palavrinhas sobre o resultado. É que me incomoda muito essa conclusão (cada vez mais generalizada) de que a vitória de Guerra ao terror é um soco em Hollywood, um sinal de mudança, uma sandice da indústria. Calma lá. Não é bem o que acontece.

Desde o fim dos anos 80, a Academia aprendeu a lidar com as pressões criadas pelos próprios “independentes”, que passaram a investir em campanhas mais agressivas para emplacar produções e aquisições no Oscar (e o maior exemplo é a Miramax). Mas, já no fim dos anos 90, quando a própria Miramax já tinha sido comprada pela Disney, o conceito de independência ficou nebuloso. O que diferencia verdadeiramente esses filmes daqueles validados pelos grandes estúdios? Quem quer ser um milionário, Juno e Pequena Miss Sunshine, todos com o selo da Fox Searchlight (setor de um estúdio enorme), devem ser classificados como indies? E essa classificação, o que representa hoje além de um valor de marketing? Lembro de uma entrevista que fiz com o Todd Solondz, de Felicidade. “O único cineasta independente é o George Lucas, que controla todo o processo de produção dos próprios filmes”, ele comentou. É por aí.

Guerra ao terror é uma fita distribuída nos Estados Unidos pela Summit Entertainment, uma “pequena empresa” que lançou Crepúsculo e Lua nova. Me pergunto que, se num ataque de loucura dos integrantes da Academia, uma vitória dos vampiros adolescentes teria provocado manchetes em defesa dos independentes. Aposto que não. O que me interessa mais é notar como, nos últimos anos, a Academia tenta usar a (muitas vezes falsa) ideia de autenticidade associada aos “pequenos filmes” para recuperar prestígio e simular a aparência de uma festa relevante e séria, comprometida com um cinema supostamente adulto e legitimado pela crítica. Guerra ao terror cumpre todos esses requisitos. E (ainda que, no contexto, este seja um detalhe) calha de ser um belo filme.

Superoito rápido e rasteiro (2)

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Like you know it all | Hong Sang-soo | 4/5

Este é o segundo filme de Hong Sang-soo que vejo (o outro foi A mulher é o futuro do homem, de 2004). Daí que não posso encontrar as semelhanças entre este Like you know it all e o passado do diretor (são muitas, dizem). E não sei se me incomodaria com elas. O longa retrata situações muito corriqueiras — em resumo: um jovem diretor de cinema frequenta festivais e conhece pessoas  -, mas taí um diretor capaz de olhar para o cotidiano com curiosidade, espanto e a franqueza de um diário. Acredite: neste filme a rotina às vezes parece tomada pelo clima siderado de uma ficção científica.

A divisão da trama em duas partes complementares acentua a impressão de que existe um subtexto misterioso que observa/provoca os personagens. Nada que se aproxime de um tipo banal de misticismo (vide Um olhar no paraíso) ou de filosofices supostamente líricas sobre destino e acaso (vide O segredo dos seus olhos). O diretor é sutil demais para cair nessas armadilhas, e parece entender muito bem os limites e as particularidades do próprio estilo. Estou quase convencido de que seja o único cineasta em atividade que faça justiça às comparações com Eric Rohmer. Próxima parada: Mulher na praia, de 2006.

Lake Tahoe | Fernando Eimbcke | 3.5/5

Por coincidência, logo depois de Like you know it all assisti a outro filme que enxerga as coisas corriqueiras da vida por uma lente torta. Mas, enquanto Sang-soo cria uma atmosfera de leveza à livro de rascunhos (ou de crônicas), o mexicano Fernando Eimbcke desorienta o espectador com uma meta muito precisa: ilustrar a confusão sentimental de um menino metido num drama familiar. O diretor vai tirando lentamente o véu da narrativa (que começa com imagens de uma cidade quase fantasmagórica, filmada em longos planos) até revelar a solução do “mistério” num tom mais carinhoso e pessoal do que poderíamos ter previsto. Muito bonito, ainda que um tanto calculado.

O segredo dos seus olhos | Juan José Campanella | 2/5

O típico candidato que o Brasil inscreveria para concorrer ao Oscar: um drama esguio e posudo (com o “requinte” de uma produção do James Ivory) que me deixou com a maior vontade de assistir a um filme com alguma fluência. Apesar do gosto por melodramas, o forte do diretor de O filho da noiva não é a sutileza (e, nesse ramo, não se aprende muito depois de 16 episódios de Law & Order). É assim, meio no tranco, que ele dá baixa num roteiro complicado (rocambolesco seria um bom adjetivo), que alterna duas tramas em diferentes períodos de tempo, esboça uma reflexão sobre o processo criativo e tenta mesclar uma investigação policial a uma história de amor e obsessão. Existe vida nas cenas finais, mas o filme mal dá conta de carregar o próprio peso.

Percy Jackson e o ladrão de raios | Chris Columbus | 2/5

Quem precisa de um novo Harry Potter? Eu é que não. Este Percy Jackson é um brinquedinho tão oportunista que poderia ter sido engraçado — na trama, que parece uma paródia do último livro da saga de J.K. Rowling, três amigos têm que encontrar pedras misteriosas para salvar o mundo —, mas o mix de mitologia grega, RPG, cosplay, X-Men, Lady Gaga e AC/DC me deixou com saudades de A bússola de ouro. Sério: desta vez, nem os jovens nerds vão (se) aguentar.

Um sonho possível | John Lee Hancock | 2/5

Se Preciosa é o “feel bad movie” da temporada, Um sonho possível usa mais ou menos o mesmo material sensacionalista (o drama de um adolescente negro, obeso, marginalizado, quase catatônico, que encontra um fio de esperança sabe-se lá como) para criar um “feel good movie” para torcidas de futebol americano. Quando Sandra Bullock (interpretando Julia Roberts) vencer o Oscar pelo papel da “mulher branca e bondosa”, você vai testemunhar a maior sandice da Academia desde a vitória de Gwyneth Paltrow por Shakespeare apaixonado. Vai ser triste. Mas já é inevitável.

Um olhar do paraíso | Peter Jackson | 1.5/5

Acusem-no de qualquer coisa (e assinarei embaixo), mas não venham me dizer que Peter Jackson é um sujeito de poucas ambições. O homem é destemido. Depois de se apropriar de Tolkien e King Kong, ele resolveu cruzar a última fronteira e, deus!, filmar o infilmável: o paraíso, o “outro lado”, o indizível, a vida eterna e tudo o mais. Um olhar do paraíso é um objetivo gigantesco disfarçado de “filme pequeno”, daí minha decepção ao notar o quão verdadeiramente pequeno este filme é. O diretor aposta tudo (e ele sempre aposta tudo) num projeto que dificilmente daria certo: encontrar certa harmonia (ou pelo menos um desequilíbrio interessante) entre um thriller PG-13 e uma meditação new age sobre a morte. Acontece que o suspense simplesmente não está lá — e não consigo ver muita diferença entre os delírios de Jackson e aqueles quadros kitsch vendidos em feiras hippie (ou entre este filme e o mortífero Amor além da vida). A menina morta vive nos anos 1970, mas essa não me parece uma justificativa convincente para a overdose de CGI flower power.

2 ou 3 parágrafos | Food, INC

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Se me obrigassem a optar entre este documentário e The cove (ambos indicados ao Oscar), eu jogaria os dois filmes para o alto e escolheria aquele que caísse primeiro no chão. Os temas, é claro, são diferentes. Mas, formalmente, são cineplanfletos muito parecidos. Nos dois casos, o espectador é convidado, ao fim da palestra, a acessar um site e participar de uma corrente ecologicamente correta.

Respeito a ideia de defender apaixonadamente uma causa, sem objetivo jornalístico nem nada, mas a pregação me incomoda um pouco. Esse procedimento lembra um pouco os métodos de Michael Moore e do Al Gore (em Uma verdade inconveniente): todos os argumentos são válidos, contanto que não arranhem a tese do cineasta. Não há espaço algum para contradições, complexidade, coisas inexplicáveis. A ladainha é toda pré-fabricada — o que resta é mostrá-la de forma didática aos “leigos” (isso vale para o vídeo dos golfinhos mortos e, em Food, INC, para a visita aos campos de concentração de galinhas).

Ainda assim, dentro desse molde sufocante, vejo algum interesse em Food Inc (3/5). Não tanto nas “denúncias” do filme (eu mesmo, que nem me preocupo muito com alimentação, já sabia sobre a maior parte das informações que estão aqui), mas por algumas reflexões “de raspão” sobre o comportamento humano. O modo como, por exemplo, instintivamente acreditamos que alguém (ou alguma empresa, associação, ou o governo) garante a nossa proteção quando compramos uma embalagem de pão ou um pote de maionese. A verdade é que ninguém garante: e é esse o horror que está embutido neste filme.

2 ou 3 parágrafos | Indicados ao Oscar

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Bateu um pouco de saudade do tempo em que eram cinco os indicados ao Oscar. Havia os favoritos (no máximo dois, geralmente um), os que perderiam com alguma dignidade (no máximo dois) e os que entravam na lista pra fazer figuração. Agora vemos esse elenco de sempre acompanhado de cinco candidatos que aparecem meio que largados no subsolo, na classe econômica da premiação, totalmente fora de cena.

Não entendi a graça da brincadeira (claro, são 10 os estúdios na briga pelo Oscar de melhor filme, e aposto que todos ficaram muito satisfeitos com a partilha), mas seria interessante se a Academia inventasse o ‘Oscar B’, destinado à disputa entre Distrito 9, Um homem sério, Um sonho possível, Educação e Up – Altas aventuras.

E, como um amigo meu bem notou, dá para dividir os indicados também entre os filmes de guerra (Avatar, Hurt locker, Bastardos inglórios, de alguma forma Distrito 9) e aquelas obras supostamente inspiradoras com lições de superação/perseverança (Amor sem escalas, Up, Educação, Preciosa e Um sonho possível, que vi agora mesmo e é tão pueril que parece ter sido feito pra meninos de cinco anos). Um homem sério, que nem é algo tão atípico ou provocativo assim, fica parecendo até uma pedra na garganta da Academia. Uma disputa não tão interessante (de qualquer forma, estou começando a apostar na vitória de Hurt locker), mas gostei de ver A teta assustada na lista de filmes estrangeiros. Nem por ser sul-americano, ou peruano. Mas por fugir completamente daquele padrão careta de telefilme que as comissões de seleção brasileiras acreditam interessar a Hollywood. Olha lá: não é bem assim.

Os falsários

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counterfeiters

Die fälscher/The counterfeiters, 2007. De Stefan Ruzowitzky. Com Karl Markovics, August Diehl e David Striesow. 98min. 5.5/10

Vi Os falsários ontem pela manhã acompanhado de três adoráveis senhoras que frequentam religiosamente as sessões de cinema organizadas para a imprensa.

Conheço o trio de sexagenárias suficientemente bem: elas gostam de 90% dos filmes a que assistem. Rejeitam furiosamente os 10% que contêm sexo explícito ou cenas grotescas de violência — mas fazem questão de ver até esses, sabe-se lá por que razão misteriosa.

Uma delas fazia 61 anos naquela segunda-feira. O clima estava especialmente agradável. Levaram bolo e, numa garrafa térmica, chá de camomila. “Cinema até no dia do aniversário, é?”, perguntei, irritadiço. “Cinema é meu maior presente”, ela respondeu, delicadamente. Fiquei desconcertado.

Nós costumamos discutir muito sobre filmes. Eu interpreto o papel do rapazinho imaturo e emburrado, que encontra defeito em tudo. Elas atuam como as generosas espectadoras que (coração do tamanho de um balão!) encontram comoventes lições de vida nos filmes do Moacyr Góes. Nos damos bem — quando não estamos nos mordendo feito cachorros. Quando com sono, sou insuportável. As sessões geralmente ocorrem às dez da manhã.

Os falsários, que não contém sexo explícito nem cenas grotescas de violência, agradou ao trio. Elas saíram felizes da sala de exibição. Satisfeitas, como costuma acontecer. Eu, ainda metido numa espécie de bloqueio que me impede de escrever decentemente sobre filmes, sugeri que elas criassem três textos para este blog sobre o longa-metragem que venceu o Oscar de filme estrangeiro em 2008. Blogs não devem ficar parados por muito tempo.

Elas rejeitaram a proposta.

— Não sei escrever nem receita de bolo, meu filho — a mais sincera comentou.

Teimoso, pedi então que elas simplesmente falassem sobre o filme. Eu gravaria a nossa conversa e transcreveria os comentários em forma de parágrafos. Novamente, elas não aceitaram. Tinham medo de passar vergonha num mundo virtual complicado, uma rede de computadores malvados e frios. “Já me basta bater boca com minha neta sobre tecnologia”, ouvi dizerem. Pronunciaram a palavra “tecnologia” como quem diz “astrofísica” ou “paralelepípedo”. Um palavrão. Ficamos assim. Nada de gravação. “Mas posso escrever sobre nosso debate?”

Concordaram.

E aqui transcrevo trechos embaçados daquilo que talvez tenha sido dito no fim da sessão (já se passou um dia e minha memória é curta). Antes, uma breve sinopse do filme: Os falsários, produção alemã dirigida por um austríaco, resgata um episódio histórico inusitado que ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial. Com a intenção de salvar uma economia em colapso, oficiais nazistas convocaram judeus talentosos para fabricar notas falsas de dinheiro. O plano funcionou por poucos anos, mas foi o suficiente para entrar na história como o maior esquema de falsificação de todos os tempos. O ator principal, Karl Markovics, interpreta o maior falsário judeu do planeta — ou algo do gênero.

VOVÓ 1: O Oscar escolhe filmes com histórias bonitas e eu já sabia que esse –

VOVÓ 2 (interrompendo): Filmes sensíveis.

VOVÓ 1: É. Sensíveis.

VOVÓ 2: E importantes.

(30 ou 40 segundos de silêncio)

VOVÓ 1: Eu sei que você quer ver arte, Tiago. Você quer ver arte, essas coisas que você escreve no jornal. Mas não é. Não é o –

VOVÓ 2 (interrompendo): Não é o mais importante.

VOVÓ 1: É importante, mas a história vem na frente. Você às vezes passa por cima disso.

VOVÓ 3 (que estava quieta até então): Você vê o cinema de uma forma diferente e eu sei bem o que você está pensando.

EU: No que estou pensando?

VOVÓ 3: Que somos um bando de velhinhas ignorantes.

EU: Isso não passou pela minha cabeça. Quero saber o que vocês acharam do filme.

VOVÓ 3: O filme é isso aí que você viu, meu filho.

EU: Eu sei. Sejam mais específicas.

VOVÓ 1: É um drama histórico, um filme de época, sobre uma coisa importante. Um filme sobre o nazismo. Sobre judeus que foram obrigados a colaborar com o nazismo. Imagina isso.

VOVÓ 2: É impressionante, né não?

VOVÓ 1: É uma coisa!

EU: Eu sei, mas isso é o suficiente? A trama do filme?

VOVÓ 1: É.

VOVÓ 2: É.

VOVÓ 3: No caso, é.

EU: Então tudo bem.

VOVÓ 1: Não somos burras.

EU: Eu sei.

VOVÓ 3: Meu filho, você cobra demais dos filmes. Um filme é um filme. Um filme às vezes não quer muita coisa. Esse aí quer contar uma história que aconteceu e pouca gente conhece. Não é aquela cooooisa que você chama de arte. Não é David Lynch, entende?

EU: Não é David Lynch.

VOVÓ 3: Não é arte! Eu vejo filme há uns cinquenta anos e sei a diferença.

EU: E por que você vê filmes?

VOVÓ 3: Não dá pra explicar.

EU: Não quer tentar?

VOVÓ 3: Tem a ver com a história, eu acho. Essas coisas. Cada filme é diferente. E discutir filme é que nem discutir religião. Não dá em nada. Nunca deu em nada.

VOVÓ 1: O que você achou do filme, Tiago?

EU: Não sei ainda. Tenho que pensar.

VOVÓ 1: Sem pensar, o que você achou?

EU: Eu gostei. Um pouco. (Silêncio) É um caso bastante curioso, e nisso concordo com vocês. É um episódio de Além da imaginação no holocausto. Mas… Muitas vezes, quando vou ao cinema, me sinto soterrado por filmes medíocres sobre temas importantes. Filmes que poderiam ser panfletos ou programas de rádio ou canções de protesto porcamente produzidas. O tema me interessa. O filme não me interessa tanto assim.

VOVÓ 1: Não é um filme medíocre, Tiago.

EU: É medíocre. A câmera treme gratuitamente o tempo todo, a fotografia é aquele cinza banal, o diretor se faz refém de um roteiro que é, no máximo, correto, convencional. O filme tem personagens ambíguos, sim, talvez isso conte como um acerto. Trata de dilemas morais. O ator é muito bom. Mas, pra mim, só prova que o Oscar está interessado em episódios históricos obscuros, de preferência ambientados na Segunda Guerra Mundial. Nada além disso. Fico impressionado como vocês, que assistem filmes há meio século ou algo assim, não conseguem se sentir irritadas com isso. Eu comecei há uns 18 anos e já me sinto um velho!

(Silêncio profundo)

VOVÓ 1: Vamos cortar o bolo?

EU: Eu não queria incom –

VOVÓ 3 (interrompendo): Não incomodou, Tiago.

VOVÓ 1: Vamos cortar o bolo.

VOVÓ 2: É de chocolate amargo. O recheio é de morango.

Cortamos o bolo. Nesse caso, concordamos: estava delicioso. Nos despedimos com sorrisos: muitos anos de vida! Fiquei sozinho por um tempo. Quantos filmes elas já assistiram? Será que elas fazem a conta? Do que elas verdadeiramente gostam quando vão ao cinema? No caminho de volta, eu era um menino com as bochechas sujas de glacê.