Os discos da minha vida

Os discos da minha vida (39)

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Hoje, na incrível novela dos 100 discos que levaram a minha vida ao delírio: sexo, violência, solidão, horror, êxtase, agonia, manhãs de domingo e o penteado do demônio. Entre outras atrações imperdíveis.

Ainda falta um tantinho para que este ranking chegue ao fim (para efeito de comparação: se estivessemos numa viagem de carro entre Rio de Janeiro e Brasília, este post seria Paracatu). Mas toda hora é hora de lembrar a vocês que esta é uma lista absolutamente pessoal. Ela obedece a critérios obscuros (e obtusos) e é de inteira responsabilidade de Tiago Superoito, o senhor soberano deste latifúndio. Todas as reclamações devem ser feitas diretamente a ele, portanto. E na caixa de comentários logo ali embaixo.

O cardápio do dia é o seguinte: um disco que já se tornou clássico (mas é daqueles clássicos que ainda mordem, atenção com ele!) e outro que vai acabar se tornando uma referência, um cânone, um álbum grandalhão daqueles que você guarda para mostrar aos bisnetos  – isso, é claro, se deus for justo com os homens de bem.

À colheita, irmãos!

024 | The Velvet Underground & Nico | The Velvet Underground | 1967 | download

O primeiro disco do Velvet Underground me acertou primeiro no peito e depois no cérebro. Hoje tenho certeza de que existe algo errado nessa ordem (é um disquinho de nariz empinado, certo?), mas foi o que aconteceu. Eu tinha 14 para 15 anos quando Sunday morning caiu no meu aparelho de som e ficou ali, deitada de monoquini, torrando na brisa. É uma canção tão adorável que, por muito tempo, evitei ouvir o restante do disco. Só depois, alguns meses depois (nota do revisor: na época Tiago tratava os discos com um pouco mais de discplicência, sem respeitar a ordem das faixas ou as intenções do autor; talvez ele deva recuperar o hábito, em minha opinião), percebi que as outras faixas tratavam de temas um pouco mais angulosos. E havia definitivamente algo macabro em Venus in furs, mas eu não sabia definir o conteúdo perturbador da canção. O disco acabou me seguindo por muito tempo, e me segue até hoje. É o meu favorito do Velvet, talvez por combinar com harmonia o delicado e o terrível, amor e morte. É daqueles álbuns que podemos começar a ouvir aos 10 anos de idade e continuar até o dia em que nossos dentes começarem a cair. Aposto que só vou entender The black angel’s death song quando eu fizer oitentinha. Top 3: Sunday morning, Venus in furs, I’ll be your mirror

023 | Odelay | Beck | 1996 | download

Um disco de adolescência. Ah, meus 14 anos! Nada de muito interessante acontecia. Talvez por isso eu tenha me apegado a álbuns superhiperativos, rios de ideias escorrendo pelas bordas. Odelay era a mais querida dessas jukeboxes: Beck Hansen era meu ídolo porque parecia possível ser alguém como ele. Não era um rockstar nos moldes tradicionais (e, aparentemente, ele também desenvolvia paixões platônicas as mais loucas) e sempre me soou mais como um nerd no controle de um painel preenchido por botões coloridos. De qualquer forma, ele sabia operar a maquininha como um jedi: quase tudo o que sei sobre colagem pós-pós-moderna de sons e ideias está contido aqui, em Odelay (depois, é claro, conheci Prince e as coisas começaram a ficar mais complicadas). Where it’s at é a obra-prima do sujeito, sem concorrentes à altura (sorry, haters). Ainda não fizeram nada nem remotamente parecido a The new pollution. Mas não vamos esquecer que é um disco também emocionante, e de um jeito mundano: ouça Jack-ass, uma das canções que aqueceram e adoçaram a minha ó-tão-friorenta juventude. Bateu até um tiquinho de saudade, viu. Top 3: Where it’s at, The new pollution, Jack-ass.

Depois do pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking

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Os discos da minha vida (38)

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Esta semana, a saga dos 100 discos que zoaram a minha vida chega a uma edição apocalíptica. Melhor: revolucionária. Antes disso: incendiária. Antes ainda: lancinante. 

Um contém os diabinhos frios da minha adolescência, o outro guarda um pedaço importante da minha infância lá dentro. Dois discos que, acima de tudo, me ensinaram o seguinte: tenho todo o direito de criar expectativas quase insuportáveis para a música pop; ela, a música pop, quase sempre me surpreende.

Dois álbuns de invenção, se é que podemos catalogá-los dessa forma. Dois álbuns que pedem para que criemos novas formas de catalogar álbuns. Um disco que abriu (tardiamente) os anos 1960, um que iniciou (pontualmente) os anos 2000. Duas obras-primas.

Muita gente boa (e muita gente ruim) já escreveu vários parágrafos bons (e vários parágrafos ruins) sobre esses discos, então vou me esquivar da responsabilidade e aproveitar este espaço para contar historinhas sobre a minha vida. Dica: não leve estes textos (e este ranking) muito a sério, ok? São apenas textos. E isto é apenas um ranking (e um ranking sem discos do Novos Baianos).

026 | Kid A | Radiohead | 2000 | download

Lembro que foi o primeiro disco que baixei via web, mas a conexão discada lá de casa era tão lenta que demorei mais ou menos uma semana para organizar todas as faixas numa pastinha virtual alaranjada. Quando fui ouvir a coleção, o espanto foi tão grande que eu não sabia quem culpar: se a banda, se o disco, se a conexão discada, se as minhas expectativas, se a web (como um todo). Admito que, cutucando aquela versão aparentemente inacabada de um disco aguardadíssimo, imaginei ter caído numa gozação. Esperei o lançamento do CD, comprei a bolachinha REAL e, bem, e nada: a internet nem sempre mentia (lição duríssima, aliás) e o som era mesmo quebradiço, às vezes bizarro, a trilha sonora vacilante para a era do gelo (e não falo em desenhos animados fofos, mas no apocalipse). Mais do que um álbum de transição, é uma tomada de posição: muito difícil de ser aceita de imediato (principalmente por um fã de Ok computer, meu caso), mas que nos empurra lentamente para uma paisagem de onde não conseguimos nos desvencilhar. Talvez um ambiente glacial, repugnante, mais pessimista do que qualquer livro do Philip K. Dick; também fascinante. Dali pra frente, aprendi rapidinho a baixar mp3. E tudo ficou nos lugares certos. Top 3: Everything in its right place, Morning bell, Optimistic.

025 | Rubber soul | The Beatles | 1965 | download

Meu pai, que nem sei muito bem onde está, gravou este disco para mim numa fita-cassete. Eu tinha acho que 10 anos, talvez um pouco menos. Lembro que era período de férias e eu detestava ficar desocupado, de bobeira na casa do meu velho, deitado no sofá, lançando osso pro cachorro, dormindo enquanto passava filme dublado na tevê. Antes de amar os Beatles, eles serviam para que eu preenchesse meu tempo. E Rubber soul é um dos discos que me levam àquelas tardes tão desalmadas: era como se não existisse mais vida alguma além daquela que saía do meu walkman. Ainda me impressiono como essas músicas acabaram se impregnando nas minhas lembranças, de tal forma que hoje choro quando ouço Drive my car e You won’t see me. Passei muito tempo negligenciando este disco, o trocando por outros (Revolver, por exemplo). Mas agora chega: Rubber soul, ainda que desperte memórias por vezes lamentáveis, até muito tediosas, guarda algo da minha infância que outros discos dos Beatles não têm. Talvez a sensação de que havia um playground lá fora enquanto eu estava preso lá dentro. Para minha sorte, havia um momento em que as férias com meu pai acabavam e, finalmente, eu apertava o stop. Top 3: Drive my car, You won’t see me, I’m looking through you.

Depois do pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (37)

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Há uma semana, aconteceu algo especial neste ranking, mas perdi a cabeça e esqueci de avisar: chegamos ao top 30, meu povo! Top 30! Há 15 anos, quando começamos esta saga, quem imaginou que chegaríamos a este ponto? É um momento importante na história deste blog.

Diga aí: é ou não é? É ou não é?

Ok, NÃO é. Não é um momento importante. Afinal, este é apenas um ranking dos 100 discos da minha vida. Apenas uma lista cheia de idiossincrasias e escolhas duvidosas, tudo muito pessoal e sentimental. Ugh!

Apenas uma lista de álbuns que foram importantes para mim e provavelmente não surtiram o mesmo efeito na sua rotina, amigão. Apenas isso, apenas aquilo, apenas aquilo outro. Arg!

Bem, nas minhas andanças por São Paulo aprendi uma gíria que me agrada muito e que combina muito bom a fase atual deste blog: estar zuado. Há vários usos para o termo, que na maior parte das vezes tem conotação negativa. Por exemplo: hoje eu acordei todo zuado, ou o tempo está zuado, ou este é um disquinho muito zuado (sobre o novo do Strokes, por exemplo). Ou, na real: este blog anda extremamente zuado. Espero que as coisas melhorem em breve (também estou na torcida, acredite).

Lembrei da palavrinha porque um dos discos desta lista é apelidado com uma das gírias mais bacaninhas da língua portuguesa: transa. Que quer dizer uma série de coisas, com conotação geralmente positiva. Daqui para o fim desta lista você vai encontrar dois discos brasileiros, que são (obviamente) os discos brasileiros mais importantes da minha vida. O primeiro está aqui. O outro chega aparece mais.

Já o outro disco do dia chegou enfezado, foi se instalando, e praticamente ensinou tudo o que sei sobre indie rock (na época já chamavam de indie rock?). É o disco mais lindamente tosco que eu conheço, e você devia conhecê-lo.

Sem mais firulas, vamos à dupla desta segunda-feira azulada em Brasília, cinzenta em São Paulo e blue dentro do meu coraçãozinho cheio de saudades. Top 30 goes on.

028 | Transa | Caetano Veloso | 1972 | download

Na época do lançamento, Caetano rodou a baiana quando descobriu que, na confecção do encarte, esqueceram de incluir os nomes dos músicos que participaram das gravações. Injustiça gravíssima, de fato, já que este é o disco cuja sonoridade foi inventada em grupo e registrada como que para simular um ensaio livre e muito espontâneo, sem cronômetro ou prazos (um esquema que se repetiria em outros grandes álbuns dos anos 70, como Tábua de esmeralda, de Jorge Ben, e Ogum xangô, de Ben e Gil). Com Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa, Caetano finalmente atingiu um ponto de equilíbrio entre as ideias mui cerebrais (e quase intransitivas) dos discos anteriores e um formato mais solto, transitivo – e a (boa) impressão é de que às vezes o compositor se deixa perder dentro da onda sonora, como quem desce num longo mergulho. You don’t know me, ele avisou, submerso no transe londrino. E um cara rejuvenescido, menos controlado e mais satisfeito com a própria arte, parecia ter sido partejado ali. Top 3: You don’t know me, Nine out of ten, Triste Bahia.

027 | Zen arcade | Hüsker Dü | 1984 | download

O fã de Green Day que descobre este disco do Hüsker Dü pode ficar com a impressão de ter assistido a uma versão censura-12-anos para o teen movie mais desiludido de todos os tempos. Este é o mundo de Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton: um álbum “conceitual”, na visão distorcida do grupo, é um disco duplo de 70 minutos de duração (e 23 faixas) sobre um moleque que, ao fugir de casa, descobre que o mundo lá fora é mais cruel ainda. “Algo que aprendi hoje:”, ele conta, logo na primeira faixa, “preto com branco dá sempre cinza”. E está explicado. No álbum, o Hüsker Dü experimentou com folk, jazz e psicodelia. Mas o som que nos maltrata é o de guitarras sempre muito secas, e de vocalistas que cantam como se a garagem estivesse sempre prestes a cair em centenas de pedaços. Um disco de rock que soa como um monumento feito de sucata, peças antigas, máquinas de pinball defeituosas, brinquedos velhos encontrados no quintal. E a infância chegando ao fim. Top 3: Something I learned today,  Never talking to you again, Somewhere.

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Os discos da minha vida (36)

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Os 100 discos da minha vida, edição especial. Edição comemorativa. Ou algo assim.

Minto, minto. Todas as edições deste ranking são especiais. São porque elas mexem aqui na minha essência, no meu eu interior, nas profundezas das minhas sensações, no lado esquerdo do peito. Você sabe como é, meu irmão. Admito que tenho um pouco de medo de escrever sobre esses disquinhos. Medo de ter um ataque cardíaco e desabar aqui no chão gelado do apartamento.

Sério! Ok. Não tão sério.

É que (repetindo toda a ladainha que vocês curtem à beça) este é um ranking estritamente pessoal, com os discos que abalaram a minha vida, portanto não espere encontrar indicações lúcidas sobre as obras fonográficas mais influentes, importantes, ambiciosas (deus!) da música pop. Não. É só uma listinha modesta, criada com um tanto de orgulho e outro de desleixo, mui sentimental, honesta, digna e que (ainda) está na flor da idade.

Ninguém quer saber dela, mas ela não tá nem aí. Se é que vocês me entendem.

Novidade! A partir desta edição, você pode clicar num linkzinho ali embaixo e conferir o restante do ranking. Pra refrescar a memória. Recordar é viver.

No mais, os dois discos de hoje não são apenas obrigatórios. São incontornáveis. Históricos. Fundamentais. São diamantes. São coisinhas tão bonitinhas do pai. São créme de la créme. E tudo o que mora acima desses elogios todos.

030 | Nashville skyline | Bob Dylan | 1969 | download

Em 1969, este não era o disco que o mundo queria de Bob Dylan. Ele, o auteur folk que trocou violões por guitarras, deveria estar matutando algo mais complexo: era uma época em que o rock era a arte moderna que todos os garotos sabidos da classe queriam experimentar. Mas nosso herói resolveu sacar não o álbum que esperavam dele, mas aquele que queria gravar. Que parecia, em tese, uma bolachinha singela: uma coleção curta de country rock sobre os momentos felizes na vida de um sujeito que (por um momento) encontrou na vida doméstica uma espécie de idílio. Nashville skyline se entrega já na capa: Dylan sorri como nunca antes, segura o chapéu num gesto elegante, encara a câmera sob o sol de um dia quente. Pois é nesse álbum tão banal, tão pouco inventivo, que o homem o conforto, a plenitude, a paz de espírito e o amor. É tão bonito que machuca (já que nós, pobres ouvintes melancólicos, estamos sempre à procura desses momentos totalmente felizes). E, se vocês buscam um motivo prático para colocar este disco pequeno entre os seus favoritos, Dylan canta como se estivesse descobrindo a própria voz. Uma interpretação serena, despreocupada, sublime – de um jeito que não existe em nenhum outro álbum do homem. Top 3: Tonight I’ll be staying here with you, Lay lady lay, Girl from the North Country

029 | Low | David Bowie | 1977 | download

Quando descobri a discografia de Bowie (aos 15, 16 anos), decidi seguir o itinerário sem grandes estripulias: em ordem cronológica, álbum a álbum. Parecia que eu havia embarcado num foguete que se afastava lentamente do solo. Desde o começo da carreira, o compositor se cercou de símbolos de ficção científica, talvez por não encontrar outra forma de definir uma sonoridade ao mesmo tempo mutante e imprevisível, lost in space, flutuando em gravidade zero. Quando cheguei a Low, bateu em mim a desconfiança de que não havia mais para onde ir: a nave chegou ao ponto mais extremo da viagem. Era como se nosso comandante tivesse decidido abandonar todas as convenções mundanas que ainda apareciam nas jornadas anteriores para se escorar num estilo ainda virgem, ainda em gestação. Work in progress. Expedição inacabada. Nos discos posteriores, o encontro com o produtor Brian Eno ganharia um formato mais preciso, mais palpável. Mas foi em Low que Bowie dividiu com o público o prazer da descoberta de um planeta exótico, de um som novo. Ele gravaria ainda meia dúzia de belos discos: nenhum tão insólito quanto este. Top 3: Sound and vision, Speed of life, Warszawa.

Após o clique, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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Os discos da minha vida (35)

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A saga dos 100 discos mais faiscantes da minha vida chega a um episódio que é pura apoteose e delírio, rapaziada. Um fogaréu tão intenso que, ao fim do post, só sobreviverão as baratas e – é claro – este ranking sentimental.

Resolvi o seguinte: mesmo que este blog pendure o All Star (é provável), esta odisseia aqui só vai terminar quando chegar ao fim. Combinado? Combinado.

Puxe a cadeira, portanto. Tome um suco de maracujá, um antisiolítico, escreva uma carta longa para a namorada, faça planos para os netinhos, vá grampeando todas as contas de luz e água dos últimos seis meses, ocupe-se. A atividade recreativa não termina cedo.

A partir de agora, todos os discos da lista me levam de volta à minha adolescência e, por isso, vão me fazer chorar feito um bebezinho. Vou sofrer. Vai ter mágoa. Vai ter saudade. Vai ter lembrança cruel. Fica, sensatez. Bróder, veja isto: não consigo ouvir vários desses discos (eles abrem o baú dos meus sentimentos), quiçá escrever sobre eles!

Eu deveria ficar bem quieto. Bico fechado. Ou pedir para outras pessoas escreverem parágrafos distanciados, técnicos. Ou recortar e colar trechos do Wikipedia e do All Music Guide. Ou jogar vinte clichês no liquidificador aqui de casa e postar a vitamina. Não sei. É tudo muito estranho. É tudo muito abstrato. É tudo muito louco, gente.

Certo, sem piadinhas. Vamos aos discos, antes que eu entregue os pontos, perca a cabeça e mate um porco (o download é obrigatório, ok?).

032 | Odessey and oracle | The Zombies | 1968 | download

Eu sei, eu entendo: os seus amigos não conhecem esta obra-prima do Zombies porque ela não paralisou o mundo com surpresas instantâneas (caso de Sgt. Peppers) nem entrou para o livro sagrado dos discos intocáveis, nossos cânones (caso de Pet sounds). Mas é prudente aceitar o óbvio: isto aqui não quer ser uma revolução, mas uma síntese de tudo o que conhecemos por psicodelia britânica, em canções contagiosas, mas também delicadas, que vão se abrindo e nos envenenando feito flores exóticas (é uma metáfora kitsch, ok, tá certo, mas ninguém procura comedimento no pop barroco). Com apenas 35 minutos, e faixas que obrigam reprises infinitas, foi um dos discos que ouvi mais vezes. Uma obsessão que me transformou num fã de rock para sempre frustrado: procuro discos tão extravagantes e bonitos quanto este, quase nunca os encontro. Top 3: A rose for Emily, Time of the season, Friends of mine.

031 | Wowee zowee | Pavement | 1995 | download

O Pavement gravou discos BEM melhores, não gravou? Crooked rain, crooked rain, de 1994, é todo perfeitinho. Slanted and enchanted, de 1992, certamente sai como o mais importante. Mas o meu preferido é Wowee zowee, o “álbum branco” de uma banda arteira demais para levar a sério a ideia de gravar um “álbum branco”. A palavra que mais se usou no lançamento do disco foi ‘ecletismo’. Eu prefiro outra: ‘excessos’. Excessos saudáveis, diga-se. Com acenos a Frank Zappa, um quê de country rock e outro de hardcore, a banda rejeita se enquadrar a qualquer gênero (indie rock, ã-hã) e lança como single uma faixa que, nos anos 70, seria tachada de soft rock (Rattled by the rush). A revista Rolling Stone deu nota baixa. Enquanto isso, eu adotava o CD como uma espécie de segredo perverso, que pouca gente entenderia. Uma piada interna. E assim ficou. Top 3: Father to a sister of tought, Grounded, We dance.

Os discos da minha vida (34)

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Sem cabeça, sem pulso, sem estômago para a saga dos 100 discos que zonearam a minha vida. O mais seguro é terminarmos este post logo, antes que eu me aborreça. O pavio aqui está curto, amigos.

Antes, rapidinho, um sonho que tive ontem. Era assim: por engano, postei no Facebook os cinco primeiros colocados deste ranking. Percebi cinco minutos depois, apaguei o post, mas depois me amaldiçoei por ter arruinado a surpresa. Desliguei o computador, tomei um copo de suco de laranja, liguei de novo, voltei ao Facebook e percebi que a lista estava toda errada, muitos dos discos eu sequer havia ouvido. Aí não entendi mais nada.

Interpreto o sonho da seguinte forma: dou importância excessiva a esta série de posts, que certamente não vai dar em lugar algum e, pior, promete terminar num anticlímax tenebroso. Que deus nos proteja. Outra interpretação possível: estou dormindo pouco, escrevendo demais e comendo pouco cálcio.

Que seja. O importante é que com sonho não se brinca. Eles sempre têm alguma razão.

Os discos deste post destoam um pouco daqueles que apareceram recentemente nesta lista faraônica. Não são álbuns que costumam pintar em listas de melhores de todos os tempos e, coincidentemente, eles resumem dois períodos muito específicos da minha vida: meus 13 anos (já morando em Brasília) e meus 11 anos (ainda no Rio de Janeiro).

Preparem-se para o mais pessoal, o mais estabanado, o menos instrutivo entre todos os posts desta saga que só me traz pesadelos e ansiedade. Até semana que vem.

034 | Last splash | The Breeders | 1993 | download

Lembro que gravei o CD numa fita-cassete, dai eu podia descer do apartamento e ir ouvindo enquanto caminhava até a Cultura Inglesa (que ficava a uma quadra do prédio). Eu tentava chegar ao fim do disco, tentava sempre, mas passei algumas semanas indo e voltando entre as faixas 1 e 4 e, por uns meses, aquele me parecia o conjunto de canções mais perfeito. O maremoto caloroso de New Year, o apito de Cannonball, o sabor melado de Invisible man e, finalmente, os versinhos estilhaçados, sacanas e ao mesmo tempo tão desesperados de No aloha (a minha preferida do disco). Um dia fui assaltado. Demorei um tempinho para perceber (estava em Saints, outra joia), então entreguei meu relógio e perguntei se eles queriam o walkman. Olharam para aquele objeto arranhado, encardido, e disseram não. Me senti o menino mais fraco da cidade, os ossos quase partindo de tanta tristeza, mas capturei os fones a tempo do refrão: “O verão está pronto quando você está.” Top 3: No aloha, Saints, Invisible man.

033 | As quatro estações | Legião Urbana | 1989 | download

Lembro que as tias organizaram um amigo-oculto de fim de ano. Então obrigaram a gurizada a escrever no papel as opções de presente. Um primo meu pediu uma bermuda. Minha irmã, roupas da Barbie. E eu, que não pensava em outra coisa, tratei de anotar: boneco de Batman. Mas acabei ganhando (um tanto decepcionado, admito) a minha segunda opção: o disco As quatro estações, da Legião Urbana, que tocava nas rádios e parecia divertido. Acho que foi ali que minha relação com a música começou a mudar, sem que eu notasse. Alguns versos soavam completamente misteriosos (“lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa”), outros me pareciam non-sense, aí eu sorria toda vez que os ouvia (“quando o sol bater na janela do seu quarto, lembra e vê que o caminho é um só”), três ou quatro faixas fugiam totalmente da minha compreensão (Maurício, Sete cidades) e o sucesso da temporada, Meninos e meninas, me parecia apenas uma música sobre meninos e meninas. Ouvi tantas vezes que o vinil arranhou. Até os meus 12 anos, era o melhor disco do mundo. Depois, virou o melhor disco da minha pré-adolescência. Assim ficou. Ainda há trechos que, hoje, faço questão de não entender. Melhor desse jeito. Top 3: Há tempos, Eu era um lobisomem juvenil, Quando o sol bater na janela do teu quarto.

Os discos da minha vida (33)

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Só por hoje, vou simplificar a equação. Os discos + Minha vida = Saga dos 100 discos da minha vida. Capítulo 33. 

Facinho.

Sem pormenores, então. Que não tá fácil pra ninguém, a vida. Tenho uma montanha de livros para ler, muitos discos para ouvir, filmes para três vidas, séries de tevê que adormecem na dimensão dos desejos que não serão realizados. No meio tempo entre uma e outra coisa que não vou fazer, ainda tenho que aprender a fritar ovo e a talhar madeira. Hoje, o que me resta é escrever este post, esticar as pernas na cama e dormir. Que o tio aqui está pregado. 

E ainda tem que peça pra eu escrever mais sobre cinema. Vocês, hem.

Os dois discos deste post são insubstituíveis. Caso contrário, não estariam entre os meus 40 favoritos de todos os tempos. Darei um jeito de encher uma caixa de papelão com os 40 disquinhos, daí vou carregar todos comigo para uma ilha deserta. Vamos ficar bem.  

036 | Daydream nation | Sonic Youth | 1988 | download

Este é um dos raros discos de rock que a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, selecionou para efeitos de preservação. É justo. Mas imagino o que vai acontecer quando, daqui a 50 anos, um menino muito curioso, 12 anos de idade, se aventurar numa pesquisa sobre a música pop do fim do século 20 e esbarrar nisto aqui. Certeza: um tanto de susto será inevitável. Ainda mais se ele tiver crescido na companhia de bandas que se acostumaram ao conforto das escolhas óbvias, dos pequenos riscos, dos hits de efeito imediato e curta duração. O Sonic Youth de Daydream nation é um esporte inseguro: as longas jam sessions que deram origem ao disco transformam cada música em cruzamentos de pop e vanguarda, Jimi Hendrix e Joni Mitchell, Neil Young e Andy Warhol. O estilo da banda já estava criado, mas aqui ele é amplificado numa moldura monumental. Para museus de arte contemporânea, garagens encardidas e afins. Top 3: Teen age riot, Providence, Silver rocket.  

035 | What’s going on | Marvin Gaye | 1971 | download

What’s going on é soul music naquilo que, a partir dos anos 70, o gênero teria de essencial: um homem perplexo diante do mundo. Depois de se tornar uma das vozes mais populares da Motown, Gaye ignorou as obrigações do pop-para-rádios para compor um disco que pode ser “lido” como uma carta aberta, uma crônica pessoal sobre o início dos anos 1970. O personagem principal – um veterano que retorna do Vietnã e encontra um país despedaçado – era um reflexo do cantor, perdido numa década que não prometia ilusões. A pergunta que guia o álbum ecoava, por isso, com o poder de um emblema: “O que está acontecendo?”. Ainda ecoa, aliás. Hoje, pode não ser fácil a identificação com versos que comentavam um período histórico muito específico. Mas o sentimento de inadequação que transborda nessas canções é universal, eterno, e continua a nos emocionar. Top 3Mercy mercy me, What’s going on, Inner City blues.

Os discos da minha vida (32)

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A saga dos 100 discos que cegaram a minha vida chega a um episódio de estourar as retinas: dois discos reluzentes, brilhantes, que nos obrigam a usar óculos escuros. 

Não adianta, meus amigos: a tendência é que os textos desta lista se tornem cada vez mais descontrolados, dramáticos, um derramamento de lágrimas sem fim. São álbuns tão luminosos já me arrepio só de ver as capas.

Nessa altura, vocês já sabem como este neverending ranking funciona. Ele não obedece a nenhum tipo de critério muito prático e a única certeza que temos é a seguinte: provavelmente, ele não acaba nunca. Ok, falando sério: são discos que estiveram lá nos momentos mais importantes da minha vida e que, de certa forma, determinaram a forma como ouço música. Eles explicam quase tudo o que eu sei: atenção a eles, portanto.

E, caso vocês não os conheçam (duvido muito), há como fazer o download dessas joias.

038 | The soft bulletin | The Flaming Lips | 1999 | download

Em 1997, o Flaming Lips lançou Zaireeka: uma coleção de quatro CDs que, para serem compreendidos, deveriam ser ouvidos simultaneamente. Lembro que só conseguiu realizar a experiência uma única vez – depois de pedir emprestado o micro system do vizinho -, mas não esqueço a sensação: era como estar no centro de uma orquestra de space rock formada por um bando de músicos pirados. Era um projeto fascinante, mas só para os devotos de Wayne Coyne. Lançado dois anos depois, The soft bulletin transporta essa sonoridade 3D, obsessivamente criativa, para o formato de um disco de pop rock. O efeito, inebriante, não deixa nossos sentidos em paz. Interpretando o papel de um louco cientista de sons, o vocalista escreveu canções sobre ciência, filosofia, o espaço sideral e morte. No disco inteiro, a impressão é de que Coyne está surpreso, perplexo, eufórico com as músicas que inventou. Na última faixa, ele se desintegra diante dos nossos olhos. De volta ao pó, e certo de que não conseguiria repetiria o truque. Top 3: Suddenly everything has changed, Race for the prize, Waitin’ for a Superman

037 | Abbey Road | The Beatles | 1969 | download

A despedida mais tocante da música pop não é frágil e desconjuntada (como são os discos de bandas decrépitas, desunidas, aos pedacinhos), mas o oposto disso: seguros de que existe algo muito desafiador, muito excitante na ideia de escrever um capítulo final, os Beatles se reuniram para compor uma obra-prima. Especialmente no lado B, quando uma canção tropeça na outra e formam uma espécie de ópera-rock-n’-roll, a intenção de escrever uma obra definitiva supera as promessas da banda e as nossas expectativas: lá estava um disco singular, como ninguém ainda havia ouvido. Até chegar na apoteose que é esse desfecho, ainda nos deparamos com os Beatles na forma mais pura (Here comes the sun e Because) e na mais áspera (I want you, Oh! Darling). O futuro parecia enorme. Mas não olhar para trás é, no fim das contas, uma forma digna de dizer adeus. Top 3: The end, Because, Something.

Os discos da minha vida (31)

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A saga dos 100 discos que estilhaçaram a minha vida chega a um episódio particularmente descontrolado. Um dos discos aqui listados é a obra-prima do punk rock – sem mais. O outro tem uma capa bucólica, árvores e tudo, mas soa mais furioso que qualquer hardcore. 

Cuidado que o cão ladra e morde!

Aos que tropeçaram e caíram de barriga neste blog, aqui vai um guia relâmpago para este ranking: isto aqui, caro visitante, é a lista sentimental dos discos que eu vou levar para o shopping center deserto quando o mundo for tomado por uma epidemia zumbi. Um lance muito pessoal, entende? Portanto, aqui você não encontra (ainda que coincidências às vezes ocorram): 1. os álbuns mais relevantes, mais elogiados, mais queridos da música pop; 2. os álbuns que mais fizeram amigos e influenciaram pessoas; 3. os 1001 álbuns para ouvir antes de morrer; 4. ou algo do gênero.

Aos visitantes mais experientes, toda essa ladainha é antiga e enfadonha. A novidade é a seguinte: hoje entramos no maravilhoso, inesquecível, fundamental, fascinante top 40!

Não que isso represente algo muito importante (esta lista, convenhamos, é uma bela bobagem). Mas pelo menos você tem mais dois discões para fazer o download e ir recheando a sua coleção. É bom, né não?

040 | London calling | The Clash | 1979 | download

Lançado dois anos antes, Never mind the bollocks, do Sex Pistols, é o emblema do punk britânico: urgente, ruidoso e irônico/suicida o suficiente para se destruir em pedacinhos. Mas London calling, ainda que exiba quase todas as características da onda de 77 (muita gente boa o considera, e não por pouco, o maior entre os álbuns punk), é tudo menos efêmero. A estrutura é a de um álbum de rock “convencional”, com um mostruário bem amplo de sons e temas que, no fim das contas, parece criar o mapa afetivo para uma Inglaterra que se transformou para sempre. Talvez nenhum outro disco tenha conseguido  mostrar simultaneamente um olhar combativo para a vida (as faixas enfrentam temas como desemprego, racismo, rebeldia juvenil) e para a música (do punk faz-se ska, jazz, rockabilly, reggae). Daí que ele acabou se transformando no modelo de perfeição para muitos dos álbuns que viríamos a amar. Um template inatingível, digamos, mas que ainda nos guia. Top 3: Train in vain, London calling, Spanish bombs.     

039 | Plastic Ono Band | John Lennon | 1970 | download

É o avesso de um disco dos Beatles: se as canções de Lennon/McCartney nos espantam pela forma como são cuidadosamente projetadas (suor + arte), os espasmos de Lennon em Plastic Ono Band tiram o nosso ar quando deixam a impressão de que não poderiam ter sido gravados de modo mais cru, mais verdadeiro. Toda a história que cerca este registro – as sessões de terapia de Lennon, o acerto de contas com o ‘fab four’, etc – rendem reportagens muito interessantes, mas o que nos sobra, sempre, é a voz de um homem adulto confrontando incertezas. É uma briga sangrenta, levada aos trancos, mas que nos revela um artista que não conhecíamos: frágil e imaturo, desconfortável e ainda incapaz de compreender a liberdade que exigiu para si. Os outros discos de Lennon são mais profissionais, mais apresentáveis. Este aqui é um grito no escuro, desesperado, incompleto, quebrado e único. Top 3: Isolation, Mother, Hold on.

Os discos da minha vida (30)

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É carnaval, afinal: a saga dos 100 discos que jogaram serpentina na minha vida apresenta dois clássicos para ouvir antes da quarta-feira de cinzas.

O blog está um pouco combalido, coitado, numa eterna ressaca de viver, mas este ranking não nega fogo. É muito chão, ó folião. Muito samba, suor e download.

Se este blog fosse uma escola do grupo especial, estes discos desfilariam na velha guarda, ensinando à ala dos novatos como é que se dança.

O download é obrigatório. Minto: não é obrigatório nada, já que obviamente vocês conhecem os disquinhos como a palma da mão.

E perdoem o desânimo. Este post foi escrito quando o trio elétrico passou na poça de lama e deu um banho no sujeito que estava ali no calçamento. O sujeito era eu. Em outras palavras: muito trabalho e pouca diversão fazem do Tiago um blogueiro sem paixão.

E chega de concentração.

042 | Younger than yesterday | The Byrds | 1967 | download

“Então você quer ser um astro de rock ‘n’ roll?”, provoca o Byrds, logo na faixa de abertura deste disco. Antes de inventar o country rock (e Sweetheart of the rodeo é desses discos indispensáveis), a banda de Jim McGuinn e David Crosby ajudaram para criar a ideia de juventude que fez dos anos 60 uma década fundamental para a música pop. Genial já no título, Younger than yesterday é todo dedicado a essa mescla de ingenuidade e atrevimento, como se dissesse adeus a um tempo que estava prestes a mudar. No lado B, a versão para My back pages (Bob Dylan) funciona como uma declaração de intenções: uma banda de rock um tanto saudosista, mas que nada pode fazer além de olhar para frente — quase por acaso, ia deixando discos extraordinários no meio do caminho. Top 3: Have you seen her face, My back pages, So you want to be a rock ‘n’ roll star

041 | Exile on Main St. | Rolling Stones | 1972 | download

Ninguém deve entrar na discografia do Rolling Stones por esta porta aqui, mas foi o que aconteceu comigo. Não me arrependo, mas audições compulsivas de Exile on Main St. podem lançar uma luz dura, cruel, sobre os outros álbuns da banda. Seria melhor tratamos como uma espécie de hors concours: nas primeiras audições, soava como pura selvageria — a longa jornada de um grande grupo de rock rumo à selva do blues. Literalmente: soul music. Depois, já conhecendo a história do disco, percebi que ele vai muito além de uma homenagem a certas tradições americanas. Este mamute registra os humores de uma banda que é sim gigantesca, por vezes caótica, e, por isso tudo, se revela por completo quando numa sala espaçosa, com tempo livre, dezenas de guitarras coloridas para brincar. Um retrato ampliado, este aqui. Top 3: Shine a light, Tumbling dice, Rocks off.

Os discos da minha vida (29)

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A saga dos discos que incineraram a minha vida chega a um episódio muito-muito caloroso: dois clássicos da minha discoteca particular. Bolachinhas sagradas que ouço com cuidado, até para não evocar as santas melodias em vão.

God bless ‘em.

Antes que você novamente se confunda todo, deixe-me explicar as regras deste ranking fervente: são 100 álbuns, organizados numa ordem mui subjetiva que diz respeito apenas a este que vos escreve.

Se você perguntar “Tiago, qual é o critério desta bagunça?”, eu vou gaguejar, olhar para o teto e correr soluçando pro banheiro. Foi mal, gente, são normas sentimentais e sentimento a gente não explica, a gente sente, a gente experimenta, a gente vibra, etc.

Entenda o seguinte: são os discos que, de certa forma, fizeram de mim um homem mais plano. Uma pessoa mais humana, mais vertebrada, mais gente. Manja? Então. E desculpe se pareço meio meloso hoje – é que acabei de sair de um desses fins de semana que amaciam nosso coração, um desses fins de semana que convertem assassinos mancos (não era meu caso, tou usando exemplo!) em missionários pacíficos, em ativistas ecológicos.

Não me culpem. Está tudo bem. Tudo azul. E não pensem em abandonar o blog por conta disso. Vai ficar bom. Vai ficar melhor. Vai ter bolo!

Antes que eu me afogue de vez no meu idílio (e taí uma das 1001 coisas que você precisa fazer antes de morrer: se apaixonar), continuamos com a longa caminhada rumo ao meu disco-xodó-number-one, que vai aparecer aqui sabe-se lá quando (talvez no dia de São Nunca, há!). E, se você não conhece estes dois discos aqui, o download é obrigatório, sem desculpa. Certinho? Então tá (e me despeço usando minhas mãos pra fazer o sinal da pomba da paz, té mais).

044 | Stankonia | Outkast | 2000 | download

Ouvi tantos discos de hip-hop que não há como fazer a soma, e (em algum momento eu teria que admitir isso, que seja agora) fui sim um daqueles adolescentes cagalhões que invejam os negões do rap por motivos que nem eles – os adolescentes cagalhões – conseguem explicar. Mas eu poderia resumir todos os meus discos preferidos do gênero neste aqui, Stankonia. Tudo o que admiro no hip-hop (e no Outkast) está contido nestas 24 faixas: fúria & franqueza, poesia & putaria, invenção & curtição, graça & troça. Os discos de Big Boi e Andre 3000 são incontroláveis e excessivos por natureza (e é disso que gostamos), mas este aqui faz do caos uma espécie de parque temático, um saboroso bufê de mil opções. Um disco que deseja loucamente nos atiçar com sons e ideias que talvez não tenhamos ouvido em outro lugar – e faz de tudo para cumprir um objetivo que, honestamente, me parece um dos mais dignos quando se fala em música pop. Top 3Ms Jackson, So fresh so clean, B.O.B.

043 | Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band | The Beatles | 1967 | download

Quando eu era um moleque e precisava de orientação para não me preder na Beatlecity, meu pai sempre foi o meu pastor. E ele dizia o seguinte: “Sgt. Pepper’s soa como o melhor disco do mundo, todos estão certos. Mas não ouça muito. Que enjoa.” Daí que talvez eu tenha ficado com medo dos riscos de me apegar demais ao álbum.  No catálogo do fab four, é o que menos ouvi – mas cada audição, talvez como uma recompensa pela parcimônia, provoca em mim o efeito brutal de um descobrimento. A mais recente, quando comprei a versão remasterizada do CD, me deixou às lágrimas, percebendo detalhes que eu não havia reparado antes. Nem sei se eu deveria incluir este disco no ranking porque não faço ideia se já o entendo. E não há exagero nisso: todos os outros discos dos Beatles me parecem tangíveis. Este aqui soa perfeito, por isso intocável, por isso misterioso. Não sei se enjoa (talvez sim: é um álbum preciso, mas composto por canções barrocas, exuberantes, que talvez cansem quando não se está no espírito para guloseimas de mil folhas), mas continuo seguindo a recomendação do meu pai. Ouço sim. De vez em quando. Top 3: A day in the life, She’s leaving home, Good morning good morning.

Os discos da minha vida (28)

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Sem tempo para os 100 discos, meus amigos. Escrevo este post enquanto devoro um prato de macarrão, telefono para minha mãe, organizo as contas do mês e preparo a lista de compras (supermercados congelam a minha alma). Parece simples. Não é.

Ainda assim, apesar de tudo, resistindo a chuvas e terremotos, cá está mais um episódio da saga dos álbuns que sequelaram a minha vida. Queimando pneus a 120 por hora.

Outro dia eu estava pensando em, depois deste ranking (que só deve terminar em 2020, mas não tenho pressa),  criar uma lista também muito pessoal com os 100 filmes que eu levaria para uma videoteca secreta. Mas aí pensei: será que compensa? Será que eu mereço? Toda essa batalha. Toda essa epopeia. Todo esse suor. Todo esse drama. Todas essas piadinhas infames. Não, não, talvez não.

Me afogo em trabalho e aí percebo que minha vida não é tão espaçosa quanto imagino. Não é furgão; é fusca. No mais, talvez eu tenha que pisar o freio e ficar parado no acostamento um tempinho, admirando a paisagem.

Enquanto isso não acontece, vamos à rotina.

Os álbuns de hoje representam duas vertentes desta lista. A dos discos que entraram na minha vida com um chutão na porta – impossível ignorá-los. E a dos discos que me ensinaram quase tudo o que sei sobre música pop.  Ambos fundamentais – e não sei se pra você também.

046 | Is this it | The Strokes | 2001 | download

Talvez tenha sido apenas um delírio coletivo, mas, quando Is this it foi lançado, soava como o melhor disco do mundo. Parecia tão primário e ao mesmo tempo tão irresistível – riffs e ruídos, verso e refrão -, e talvez por isso deixava a impressão de estarmos começando de novo. Esqueça todos os ídolos: o rock, no nosso rock (que, num surto de euforia, foi apelidado de novo rock), nascia ali. Com o passar do tempo, ficou até um tanto embaraçoso explicar por que este álbum tão sucinto, um resumo do pós-punk de Nova York (numa coleção de singles de dois, três minutos de duração) foi acolhido como um marco. Mas talvez devamos tomá-lo como o sintoma de um período muito específico – o início do século, o começo dos anos 00. Com o placar zerado, o Strokes entrou em cena como um bando de pioneiros. Posudos, estilosos, irônicos, ridículos. Nos tomaram pelo braço. E com eles nós dançamos como se fosse a primeira noite. Top 3Hard to explain, Last nite, Take it or leave it.

045 | The Who sell out | The Who | 1967 | download

Há, é claro, as gravações gigantescas, destemidas, ousadíssimas, que afirmam as possibilidades do álbum enquanto obra, enquanto conceito, enquanto aventura humana (e aí eu penso em Zaireeka, o disco quádruplo do Flaming Lips, que só consegui ouvir integralmente uma única vez, com a little help of my friends). Mas The Who sell out, apesar de ser geralmente incluído nesse Clube dos Grandes Álbuns (com maiúscula), tem uma história um pouco diferente: existe uma ideia forte que sustenta o projeto (soa como se transmitido por uma rádio pirata), mas o humor venenoso do grupo vai corroendo esse arcabouço até nos deixar confusos sobre as intenções do projeto. Autoparodia ou não, piada interna ou não, é um exemplo de que ambição nada tem a ver com sidudez: pode ser hilariante e prazeroso fazer um Álbum, principalmente se você tem à disposição algumas das canções mais saborosas dos anos 60. Top 3I can see for miles, I can’t reach you, Rael.

Os discos da minha vida (27)

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O capítulo de hoje da indomável saga dos 100 discos vai ao habitat de uma espécie perigosa: os discos aparentemente mansos sobre sentimentos selvagens.

Cuidado com eles.

Antes de escrever alguns garranchos sobre esses dois álbuns tortuosos – e extraordinários – preciso lembrar-lhes das regras deste ranking. Isto aqui é uma seleção absolutamente pessoal de discos que foram pontilhando alguns dos momentos mais importantes da minha vida. É isso e só isso.

Portanto, nada de vir reclamar que o disco X está muito atrás do disco Y, ou que o disco Z foi subestimado e que o disco K, ignorado. A brincadeira não tem nada a ver com isso. E, sem querer ser grosseiro, tem muito pouco a ver com você – ainda que eu recomende com força o download de desses álbuns, que continuam me emocionando ano após ano.

Muitos dos discos desta lista fazem parte do cânone da música pop. Vocês o conhecem ou ouviram falar sobre eles. Há uma parte desse ranking, no entanto, que correu pelas bordas dos top 10s e, na opinião deste blogueiro, merece um pouco da sua atenção, ó leitor. É o que acontece neste episódio de número 27. Um deles é o clássico. O outro é aquele que, num mundo perfeito, seria um clássico.

Não estamos num mundo perfeito, eu sei, mas este blog tem uma missão a cumprir.  

048 | Mighty Joe Moon | Grant Lee Buffalo | 1994 | download

Muito antes de integrar o elenco de Gilmore Girls e de gravar discos com alguma maquiagem pop, Grant-Lee Phillips era o homem dos falsetes infinitos, que parecia ter encontrado um atalho secreto para conectar a rusticidade do country rock com a sensualidade do glam. Fuzzy, da estreia, é a canção indie mais sexy dos anos 90 – mas é no segundo álbum que o som do Grant Lee Buffalo explode em milhares de cores numa tela gigante de Drive-in, sem a vergonha de nos seduzir com efeitos de estúdio e riffs que se lambuzam com as apelações do hard rock. Como os discos que Elliott Smith gravou para a Dreamworks, este também apresenta uma versão compacta, pontiaguda (talvez polida) de um estilo já totalmente pronto. Talvez não seja o melhor da banda, mas é aquele que esconderemos para sempre nos nossos armários, junto com os velhos gibis soturnos e as blusas de flanela: um disco perfeito para uma época que menosprezava discos perfeitos. Sugiro o seguinte: dane-se a época, fiquemos com o disco. Top 3: Mockingbirds, Rock of ages, Drag.    

047 | Astral weeks | Van Morrison | 1968 | download

Talvez o disco mais difícil da minha adolescência: não foi na primeira, nem na segunda, nem na terceira tentativa que finalmente consegui comprar o tíquete para a terra nebulosa – mágica, não duvide – de Van Morrison. É um dos álbuns mais importantes dos anos 60, principalmente por catalisar uma série de signos da contracultura: o lirismo beat, o folk à Dylan, o jazz e o blues, o misticismo riponga e a imagem de liberdade anexada à figura de um homem que inventa a própria bússola e assim desbrava o mundo, sem lenço ou documento. Mas (e vocês querem sinceridade, certo?) eu só consegui me afeiçoar por ele quando percebi que ele pode ser compreendido como uma das seções de O som e a fúria, de Faulkner: um narrador que, com uma voz muito particular, tenta dar conta de um ambiente. Admita: você nunca vai entender verdadeiramente o que Morrison quer dizer. Mas olhar o mundo através dessas canções ainda pode ser uma experiência fascinante. Top 3: Cyprus Avenue, Madame George, Astral Weeks.

Os discos da minha vida (26)

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A saga dos 100 discos da minha vida chega a um episódio histórico. Sim, meu amigo, aqui começa o tão aguardado, o tão especial, o irresistível, o atraente, o galante… Top 50.

Sim, meninos e meninas! Estamos exatamente no meio do caminho. Sabe quando você espia o retrovisor e está muito longe para voltar? É a estrada que tomamos. 

A partir de agora, este ranking passa a contar a história dos 50 álbuns que estariam na cabeceira do meu quarto se nela coubessem 50 álbuns. Lembrando (e nunca é tarde para que você aprenda as regras do jogo) que esta é uma lista absolutamente pessoal, que obedece critérios que só eu compreendo. Os discos da minha vida, capiche? Não serve para coisa alguma, mas ganha automaticamente o direito de fazer o download de álbuns nada vulgares.

No capítulo de hoje, dois discos atrevidos. Um bom negócio, garanto. Boa metade de viagem pra você. 

050 | Ramones | Ramones | 1976 | download

Um álbum que acompanhou toda a minha adolescência sem que eu precisasse parar e ouvi-lo com atenção. Essas músicas simplesmente estavam por toda parte: nas festas dos colegas de colégio, no walkman da minha primeira namorada, na MTV e na abertura do showzinho de rock. Depois, aos 20 e poucos, decidi que era hora de tratá-lo com algum cuidado, e foi só o começo da maratona: virei noites ouvindo a discografia completa do Ramones, me apaixonando e desapaixonando por um som que sempre me pareceu primário (hey, ho! let’s go!) e essencial. Dizem que o punk nasceu aí. Há controvérsias, mas este também é um disco cujo punch não perde o sentido quando destacado do contexto daquela onda musical. Talvez seja mais prudente encará-lo sem tantas complicações: o som dos rapazes que se vestem de preto, matam aula, enfrentam o bons hábitos, dão de ombros para os penteados simétricos e contam as melhores piadas. Tudo o que queríamos ser e não fomos. Top 3: Blitzkrieg bop, Let’s dance, Judy is a punk

049 | Histoire de Melody Nelson | Serge Gainsbourg | 1971 | download

Um homem de meia-idade atropela uma adolescente angelical e o que segue é a obra de arte mais provocativa, perversa e, vá lá, sexy desde Lolita. Ou seria mais justo tratá-la como uma versão pop art do romance de Nabokov, com o colorido das latas de sopa Campbell e as melodias familares, adocicadas da muzak? Isso ou aquilo, de uma forma ou de outra, é o álbum mais escandalosamente tocante de Gainsbourg – não à toa, influência óbvia para disquinhos também enloquecidos de desejo como Moon safari, do Air, e Sea change, do Beck. É curto (27 minutinhos) e sedutor: já na segunda audição, nos prendamos por livre e espontânea vontade nesse delírio infernal, o sonho de um homem que não conhece os próprios limites. E o Super-ego, desta vez, teve que esperar. Top 3: Ah! Melody, Melody, Cargo culte.

Os discos da minha vida (25)

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A saga dos 100 discos que conheço como a palma da minha mão chega a um capítulo especialmente doméstico. Vamos esfriar a cabeça e conversar sobre família? Só por um minuto?

Sei que há temas muito mais urgentes (questões sobre gagueira em O discurso do rei, para ficarmos num tópico muito quente), mas este ranking já é grandinho e anda com as próprias pernas. Deixem o moleque ser feliz, ok?

Voltando ao tema: família. Os discos de hoje se aninharam na minha vida graças às influências da minha mãe e do meu padrasto. Eu disse que seria uma listinha muito pessoal, certo? Sejam bem-vindos à sala de estar.

Também são discos que, durante a infância, eu detestava até a morte. Detestava até debaixo d’água. Detestava até com cobertura de chocolate. Detestava até com geleia de framboesa. Detestava. Detestava.

E detestava porque eles sempre estavam lá. Eles sempre estavam rodando na vitrola. Produziam ruídos familiares. Acredito até que fui um pouco alfabetizado por eles. Primeiro em português, depois em inglês. Quando comecei a crescer, e a rejeitar tudo o que pertencia aos meus pais, esses dois discos sofreram muito, pobrezinhos.

A redenção veio muito depois, quando eu fiz 20, 25 anos, e voltei aos álbuns que soavam como parte do meu organismo. Fui ouvir os discos a sério e descobri que eles eram velhos companheiros. Irmãos briguentos, mas adoráveis. Irmãos que desaparecem e depois voltam. Irmãos que, quando a gente menos espera, começam a fazer falta.

É esta a história. Vamos a eles, esses bastardos cheios de glória.

052 | Construção | Chico Buarque | 1971 | download

Entre os discos do Chico, não é aquele de que minha mãe mais gosta (de longe, o preferido é Almanaque), mas é aquele que gravei numa fita cassete e levei comigo. Com o tempo, quando abandonei os traumas de infância e me familiarizei com a discografia inteira do homem, descobri aquele que talvez seja o mais valente dos discos brasileiros. Destemido em tudo: nos arranjos épicos de Rogério Duprat (que o aproximam de uma sonoridade tropicalista, impensável nos álbuns anteriores, muito comprometidos com a tradição do samba), em versos que confrontam o regime militar com uma proximidade quase suicida, nas canções que descortinam um país tomado por um certo mal estar (mas um Brasil também infinitamente lírico, vasto). Tudo isso e sim, claro: um disco mais moderno do que 90% do que é gravado hoje no país. As mães, acredite, têm razão. Top 3Deus lhe pague, Valsinha, Construção.

051 | The dark side of the moon | Pink Floyd | 1973 | download

O disco favorito do meu padrasto sempre me pareceu de uma pompa insuportável. Lembro que, aos 12 anos, eu reclamava sempre que os sinos começavam a soar na sala – e isso acontecia praticamente todo fim de semana. Era o álbum que, na época, representava tudo o que eu queria combater: os enormes monumentos erguidos por meus pais. Eu me trancava no quarto e ouvia grunge, punk rock. Foi muito tempo depois, quando até o meu padrasto parecia ter se cansado do tilintar da máquina registradora (e de outros efeitos especiais), encontrei nas canções o lado obscuro da minha adolescência. O som que batia à porta do meu quarto. Foi como voltar àquelas tardes tão banais: meu padrasto encostado na janela, sugado por melodias que irradiavam de outro planeta. Uma parte da vida também foi engolida por este disco, e aí não importa mais se acho uma grande de uma chatice cósmica (mas fiquem tranquilos: não é). Top 3Breathe, Us and them, The great gig in the sky.