Olivier Assayas

Drops | Mostra de São Paulo (9)

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'Carlos', de Olivier Assayas

Aurora| Cristi Puiu | 3/5 | Quem acompanha os filmes romenos recentes – pelo menos aqueles que são exibidos em nossos festivais – pode ficar com a impressão de que eles são assinados por uma mesma pessoa ou por uma comissão que define padrões visuais e narrativos a serem seguidos. De início, este Aurora provoca algum estranhamento ao distender esse modelo a um ponto tão exaustivo que pode provocar no espectador uma sensação de entorpecimento. Talvez essa, aliás, tenha sido a intenção de Puiu (de A morte do sr. Lazarescu), que sabota as convenções de uma típica “fita de serial killer” ao seguir quase solenemente um homem comum, inexpressivo, oco (interpretado pelo próprio diretor), que, nas três horas de duração do longa, mata quatro pessoas. Logo percebemos que Puiu está, de fato, fazendo o filme que esperamos dos romenos (do tema cotidiano à fotografia realista, incluindo aí um olhar muito duro para as relações sociais e as instituições do país), só que distorcido por uma lente-lupa, que amplia e satura cada imagem. No desfecho, quando Puiu mostra uma sociedade tão impassível quanto o próprio protagonista, nos perguntamos se o nosso esforço não teria sido em vão.

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos | You will meet a tall dark stranger | Woody Allen | 3/5 | Allen deseja que tomemos este filme como uma comédia rasteira (a narração em off, por exemplo, trata a trama como se fosse uma grande bobagem), mas esse tom ligeiro diz muito sobre o momento do cineasta que, como no filme anterior (Tudo pode dar certo), elimina quase todos penduricalhos da narrativa para mostrar com muita precisão o que ele vê de patético e de encantador na vida. Muito pouco encanto, na verdade: para suportar o “som e a fúria” da existência, Allen recomenda uma dose diária de ilusão.

Carlos | Olivier Assayas | 3.5/5 | Esta minissérie francesa sobre a trajetória do terrorista venezuelano Carlos, o Chacal, carece da fluência do outro filme-maratona da Mostra, Mistérios de Lisboa. O formato da narrativa me parece até previsível, enfadonho: Assayas não renega muitas das obrigações de uma cinebiografia-padrão (talvez seja o filme mais convencional que ele dirigiu) e usa as 5h30 de duração principalmente para encenar os atos, a performance de Carlos (e dedicação de Edgar Ramirez impressiona) – daí que não será absurda a comparação com o Che de Soderbergh. As três primeiras partes do filme reconstituem os atentados (em ordem cronológica e com recursos de documentário, como a pesquisa de imagens de arquivo) com detalhismo que ressalta a mecânica do terrorismo internacional e o traquejo de Assayas para conduzir sequência de ação. Mas, apesar de todos os méritos (são muitos), essa estrutura se torna cansativa, um tanto redundante, para quem vê a série de uma vez só. Muitas das ideias do cineasta (a trilha sonora de punk e pós-punk, por exemplo) se diluem na imensidão da narrativa, ainda que Carlos me pareça um típico personagem do diretor: o homem que flutua livremente sobre um mundo, vencendo as fronteiras geográficas, a barreira dos idiomas – e, por fim, desaparecendo na paisagem. 

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Adeus, 2009 | Os melhores filmes do ano (parte 1)

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Primeiro, às regras: entram nesta lista apenas os filmes que foram exibidos no circuito de cinemas brasileiro em 2009. Não contam, por isso, os que vi em festivais ou em DVD.

Isso significa, por exemplo, que Guerra ao terror (que chega às telas em fevereiro) talvez fique para o top do ano que vem. E que, para nosso azar, não haverá lugar para 35 doses de rum, Vício frenético, A família Wolberg, O que resta do tempo, Ricky e outros filmes mui bacanas que certamente estariam neste ranking.

Em resumo: o nosso circuitinho anda morno, o circuitão vai pior ainda, mas este foi (surpreendentemente) um bom ano. Os filmes que ocupam as oito primeiras posições são especiais, recomendadíssimos – e há outros, ainda que não tão extraordinários, se comunicam comigo de formas profundamente misteriosas (pule para a 12ª posição). Esta é a minha lista, e eu gostaria muito de conhecer a sua.

Infelizmente, não vi Moscou, do Eduardo Coutinho. Não sei, por isso mesmo, se gosto ou desgosto dele. 

Vou tentar ser breve nos comentários: sei que vocês estão de férias na praia, que a conexão é discada e que, neste mundo, ninguém tem mais tempo para nada. Comecemos (e sem menções honrosas, que aí já é abuso).

20. Milk – A voz da igualdade – Gus Van Sant

O filme político de Gus Van Sant é de uma precisão que emociona. Sem distrações, o cineasta desenha o perfil de um homem que virou mito que virou símbolo. Imagens dignas. E Sean Penn faz o resto do trabalho. 

19. Entre os muros da escola – Laurent Cantet

A escola de Cantet é uma metáfora para as tensões sociais da França, ok: mas bom mesmo é como este filme permite que entremos de corpo inteiro num ambiente tão familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Imersão absoluta – sem a necessidade de óculos 3D.   

18. O equilibrista – James Marsh

Não são muitos os documentários que abrem lacunas misteriosas para que preenchamos com a nossa imaginação. O que motiva o equilibrista Philippe Petit a se arriscar em espetáculos de altíssimo risco. James Marsh, felizmente, não tenta explicar.   

17. O fantástico sr. Fox – Wes Anderson

Um giro colorido e acelerado no parque temático de Wes Anderson, com todos os tiques, neuras e maravilhas a que estamos acostumados. Um avanço importante, no entanto: inesperadamente, o cineasta reencontrou a fluência narrativa e o gosto pelo riso solto. Brinquedinho bom, portanto. 

16. Up – Altas aventuras – Pete Docter

No formato de um curta-metragem de 15 minutos, seria a obra-prima melancólica da Pixar. Do jeito que está, mais para Madagascar do que para Meu vizinho Totoro, mostra que existe um preço que se paga quando o objetivo é agradar à toda família. Para os padrões dos blockbusters de férias, porém, é sofisticação em alto grau.

15. Valsa com Bashir – Ari Folman

Com traços psicodélicos e cores quentes, Folman reconstroi as memórias de uma guerra. De quebra, tira o cinema de animação do quarto das crianças.

14. Se nada mais der certo – José Eduardo Belmonte

Um olhar desconfortável para o Brasil, um país em perigo. Belmonte mira a classe média, essa gente estranha que compra ingressos para ver filmes, mas não se contenta com o diagnóstico da nossa tragédia: nos laços de companheirismo, há esperança. 

13. Avatar – James Cameron

O Star wars de James Cameron também é um filme “para crianças de 10 a 12 anos” (como diria George Lucas), com assumida carga moralizante, personagens-arquétipos e conflitos que cabem em pilulas que alimentam astronautas. Só não é ingênuo. Com a tecnologia 3D, o cineasta nos atira num mundo maravilhosamente estranho. Um planeta de ilusões palpáveis – sonhos reais.  

12. Presságio – Alex Proyas

A ficção científica mais subestimada do ano é também a mais assustadora. Esqueça 2012: Alex Proyas nos conduz numa viagem a um fim de mundo que soa cruel de verdade. O desfecho, que frustrou uma multidão, é a peça de resistência: uma ideia talvez tola, mas levada apaixonadamente às últimas consequências.  

11. Horas de verão – Olivier Assayas

Depois de rodar o mundo no encalço de personagens sem destino certo, Assayas os reúne numa casa de campo. A nossa trajetória deixa algum rastro? Uma crônica em tom menor, atenta a detalhes e à composição de ambientes, que, apesar de aparentemente singela, logo se faz grande: um dos melhores filmes do diretor.