Oitavo disco

The king of limbs | Radiohead

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Já passamos da metade de King of limbs, o oitavo disco do Radiohead, quando Thom Yorke sugere, num falsete: “Vamos afundar e ficar em silêncio como camundongos. Enquanto o gato está longe, podemos fazer tudo o que quisermos.”

O trechinho deve inspirar dezenas de interpretações. Eu vejo assim: ele ajuda a entender o temperamento de uma banda que preza a liberdade – mas entende que não se pode conquistá-la sem alguma coragem, sem algum atrevimento.

A trajetória do grupo – principalmente desde Kid A (2000) – conta a história de cinco ingleses que viram a necessidade de criar um território particular, um lugar no mundo, para habitar e fazer tudo o que quisessem.

Esse desejo se manifestou num gesto musical (a “banda de canções” se transformou numa “banda de ambiências, de experimentos”) e também comercial, quando o quinteto rompeu com a EMI e passou a lançar discos por conta própria, criando ou reinventando as regras do próprio jogo.

A música passou a acompanhar as mutações comerciais, até porque eles sabem que não se consome discos como na época de The bends (1995) ou Ok computer (1997). A questão passou a ser: como uma banda pop deve se portar diante de um público que, quando começou a baixar músicas aceleradamente, desmistificou todo o esquema de divulgação e vendas criado pelas grandes gravadoras? Como lidar com um público que perdeu a inocência?

Com In rainbows (2007) e a estratégia do “pague quanto quiser”, o Radiohead criou um pacto com os fãs (os convidou para uma experiência de audição coletiva, mundial, sem área VIP para jornalistas) e descobriu uma forma de ganhar dinheiro com o vazamento do disco, sem brigar com o fato de que a troca de arquivos se tornou inevitável.

Musicalmente, o que surgiu foi uma banda também mais independente, mais relaxada (no bom sentido), despreocupada, mais acessível do que nos tempos de Kid A, amolecida por uma certa inspiração de soul music, uma massa eletrônica por vezes acolchoada, sensual. Não demorou para que aparecesse o veredicto: um Radiohead mais “humano”.

Tanto do ponto de vista comercial quanto musical, The king of limbs dá alguns passos para trás em relação a In rainbows. Em vez de permitir que o público pagasse o quanto preferisse, o grupo estipulou um valor para o download (US$ 9, para a versão em MP3). Em vez de planejar um capítulo novo para o som da banda, gravaram um disco que nos remete aos cacos de outros que já lançaram.

O que pode incomodar, acima de tudo, é a impressão de acomodação. Na manhã de sexta-feira, a experiência de audição coletiva se repetiu exatamente como eles planejaram. Já a sonoridade do disco, dividido claramente em duas partes, tenta uma conexão entre os momentos mais arredios da banda (a fase Kid A/Amnesiac, agora com tempero dubstep) e a languidez de In rainbows.

O encontro entre esses dois “estados de espírito” produz um disco de beleza incomum, difícil – um álbum quebradiço, assimétrico, incompleto, frágil, cujas peças não se encaixam. Provoca, por isso, algum mal estar. Tenho quase certeza, porém, que essa sensação de desconforto estava nos planos da banda.

Isso porque, desde In rainbows, Yorke critica o formato tradicional do álbum. Numa determinada entrevista, avisou que abandonaria de vez os discos – via internet, distribuiria conjuntos de canções, lançadas tão logo fossem gravadas. A banda voltou atrás, mas The king of limbs é um espelho dessas incertezas: ele acaba soando mais como uma reunião de faixas criadas durante um determinado período do que uma obra coesa, envolvida num conceito bem definido. Nesse ponto, lembra Hail to the thief (2003), que também apontava várias direções sem saber (ou sem querer saber) onde aportar.

As ligações entre as faixas são quase etéreas, e aparecem nas imagens de natureza (em Bloom, Lotus flower e em Codex, em que um lago representa a pureza) e em arranjos circulares, percussivos, por vezes alienígenas (o loop de Morning Mr. Magpie, por exemplo), quase sempre amparados na bateria jazzística de Phil Selway e no baixo de Colin Greenwood, que mostram o quanto a banda está ouvindo Flying Lotus e congêneres. “Obrigações, complicações, rotina e agenda, te drogam ou te matam”, diz Little by little, quase num remake da paranoia de No surprises.

Na segunda parte, piano e violão vão amenizando uma atmosfera de tensão e desencanto. Em vez de espezinhar o público, Yorke passa a confortá-lo. “Ninguém se machuca, você não fez nada errado”, em Codex. “Não me assombre”, pede Give up the ghost. O álbum termina dentro de um sonho bizarro e irresistível, de onde o narrador não quer acordar.

Até por ser curto (38 minutos), o disco parece aconselhar que voltemos às faixas várias vezes, até que nos familiarizemos totalmente com elas. Existe nessas músicas, até nas mais selvagens (Feral, digamos), uma aparência de criação doméstica, um som íntimo, sem bordas arredondadas ou produção padronizada, um som que dá a ideia de algo autêntico, que faz do ouvinte um cúmplice. O fã do Radiohead às vezes pode se sentir participando dos discos. 

Desde que se livrou das obrigações da indústria musical, o Radiohead passou a procurar no próprio estilo, na própria tecnologia digital de gravação, a pureza que encontra nos elementos da natureza e que, para a banda, é corrompida pela vida urbana – mecanizada, artificial.

O título do disco, não à toa, vem de uma árvore com mais de mil anos de idade. Raízes bem firmes na terra. Em The king of limbs, o Radiohead vai se infiltrando lentamente nas profundezas do terreno que criou para si. Sem todas as surpresas que sempre esperamos dele (por isso, um disco que pode parecer um tanto frustrante). Mas talvez o momento seja de mapear o habitat: enquanto o gato não vem, os camundongos sonham.

Oitavo disco do Radiohead. Oito faixas, com produção de Nigel Godrich. Lançamento independente. 7/10

Write about love | Belle and Sebastian

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Para quem acompanha a história do Belle and Sebastian desde o início, Write about love será um dos discos mais agradáveis do ano.

Ao mesmo tempo, ele soará um pouco incômodo. Pelo menos um pouco.

A melhor comparação possível: é um álbum que equivale ao dia em que você reencontra uma namorada de infância. Dez, vinte anos depois.

Num primeiro momento, você se curva ao poder de uma lembrança longínqua. Ela, a ex, ‘adulteceu’ graciosamente. Continua com o mesmo sorriso, o mesmo humor, os mesmos tiques (adoráveis) e também sentiu muito a sua falta.

E essa sensação provoca conforto, familiaridade, alívio. “Ainda bem que tudo terminou bem”, etc.

Num segundo momento, você começa a notar as diferenças. Ela, a ex, hoje tem outros interesses, conheceu pessoas, superou decepções, criou novos planos, aprendeu (e desaprendeu) – e se tornou, na soma de todos os traços alterados pelo tempo, uma pessoa muito diferente daquela por quem você se apaixonou. Ainda que pareça igual.

Write about love é um disco que acena (de longe) para o Belle and Sebastian que conhecíamos. A faixa-título, por exemplo, é uma crônica falsamente ingênua sobre tipos comuns, gente que fantasia o amor enquanto se tranca em escritórios cinzentos. É, aparentemente, o mesmo mundo da obra-prima If you’re feeling sinister. Mas quanto tempo passou desde então? 14 anos!

Na época, o Belle and Sebastian era uma banda que guardávamos em segredo. Sabíamos pouco sobre eles e, por isso, ainda havia mistério. As canções nos apresentavam uma juvenília que era um pouco nossa (sob a ironia à Morrissey, Stuart Murdoch sempre foi um sujeito franco e dramático, devoto de Nick Drake) mas, ao mesmo tempo, eram escritas com a finesse literária de um fã de J.D. Salinger e L.P. Hartley. Um estilo

Os versos que abrem It could have been a brilliant career estão entre os melhores dos anos 90: “Ele teve um ataque aos 24 anos. Poderia ter sido uma carreira brilhante” (e seria possível que um adolescente de 16 anos, metido em provas de pré-vestibular, não se identificasse apaixonadamente com isso?).

Não que o tempo tenha maltratado o Belle and Sebastian. Não. O tempo apenas… Passou. Desde o início da década, a banda parece escrever discos que tentam recriar uma sensação que é antiga. Muitos dos adolescentes de 16 anos que os acompanhavam conseguiram, de fato, seguir carreiras brilhantes. E sobreviveram à idade adulta. Eis a ironia da coisa.

Acredito que, desde Dear catastrophe waitress (de 2003), a banda também tenta se adaptar à maturidade. Tenta se sentir confortável em ternos e gravatas. Ao mesmo tempo, se esforça para preservar uma certa sagacidade, um certo desespero juvenil. É uma banda que cresce (em matéria de técnica, eles nunca estiveram melhores) sem desapegar do que a fez relevante, grande.

Mas seria possível combinar as duas ambições? Talvez sim, talvez não.

The life pursuit (de 2006) foi muito elogiado por mostrar um B&S preocupado em refinar a própria sonoridade. A produção de Tony Hoffer (que esteve nos rocambolescos Midnite vultures, do Beck, e 10.000 Hz legend, do Air) podou os últimos resquícios de crueza que ainda resistiam e ajudou o grupo a criar arranjos elegantes, com alguma influência de soul music e pop setentista. Um disco quase pomposo que, de certa forma, ajudou a criar a onda vintage-delicadinha que produziu genéricos como o She & Him. Pior: um disco quase inofensivo (talvez por isso tenha feito tanto sucesso na parada inglesa).

Write about love segue a “evolução” de The life pursuit, mas com alguns avanços: é um álbum mais compacto e menos obcecado por perfeccionismo técnico (uma característica, aliás, que nunca combinou com as atitudes do Belle and Sebastian). As duas últimas faixas, I can see the future e Sunday’s pretty icons, nos transporta ao tempo de Tigermilk (1996): novamente, uma banda que soa próxima, falível. “Para frente, este é o único caminho que você deve seguir. Eu vejo o seu futuro e não há ninguém por perto”, eles avisam, docemente cruéis. 

É, ainda mais do que The life pursuit, um disco que nos acomoda num ambiente aconchegante – uma poltrona de veludo que nunca, em hipótese alguma, dá choque. É um disco, como eu disse, agradabilíssimo (e que pode provocar flashbacks emocionantes em quem viveu os anos 90). Mas, após a quinta audição, comecei a me perguntar se é isso que espero do Belle and Sebastian. Conforto e apenas conforto? Conforto e (medo!) comodismo?

A canção-símbolo dessa fase é, obviamente, aquela que tem a participação de Norah Jones – Little Lou, ugly Jack, prophet John. Soa como um presságio, na verdade: é assim que o Belle and Sebastian soará em 10 anos, quando organizará espetáculos no Carnegie Hall para fãs quarentões. Absolutamente manso. Para os padrões de Norah Jones, é uma bela canção (com todas as arestas aparadinhas e atmosfera jazzy-de-pelúcia). Mas que (eis o choque) poderia ter sido incluída em qualquer disco da cantora.

O restante do álbum é – felizmente – menos perfeitinho, ainda que previsível. I want the world to stop é um encontro entre os vocais amanteigados do Mamas and the Papas com a psicodelia do Love. E I’m not living in the real world poderia ter entrado num dos discos que o Blur gravou antes de Parklife: a pré-história do britpop. A produção de Hoffer cria os tons exatos, “sofisticados”, para o exercício de nostalgia (nada que se aproxime da densidade que encontramos num disco do Clientele, mas eles estão chegando lá).

O destaque, para mim, não deixa de provocar alguma frustração: a faixa-título, com participação de Carey Mulligan (a atriz de Educação), conta a historinha de uma mulher que sonha com um homem “intelectual e quente, mas que me entende”. Enquanto isso, Stuart ensina: “Eu conheço um feitiço que pode te ajudar. Escreva sobre amor: pode ser em qualquer tempo verbal, mas tem que fazer sentido”.

Write about love é gentil assim: faz sentido, aperta o coração, sugere cenas bucólicas, sorri maliciosamente e termina muito antes de provocar silêncios constrangedores. Um encontro feliz, ainda que um tanto rasteiro, com uma antiga namorada. Ela continua muito bonita. Ela sobreviveu. Mas a vida segue.

Oitavo disco do Belle and Sebastian. 11 faixas, com produção de Tony Hoffer. Lançamento Rough Trade. 6.5/10