Nova York

Heart in your heartbreak | Pains of Being Pure at Heart

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O disco mais polêmico da temporada, quem diria, é o fofo Belong, do Pains of Being Pure at Heart. A Pitchfork deu nota 8.2 pros nova-iorquinos. A New Musical Express lascou um 3. Nada contra a controvérsia: discordâncias são saudáveis numa crítica que me parece cada vez mais padronizada. Difícil, porém, é torcer o nariz para o clipezinho colorido que eles escolheram para abrir os trabalhos do álbum. Entenda como um curta-metragem sobre a doce vingança de uma banda de rock amadora. Dirigido por Mike Luciano.

Superoito express (33)

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Man on the moon II: The legend of Mr. Ranger | Kid Cudi | 7

Um álbum de hip-hop dividido em cinco atos (um deles atende por You live and you learn), com uma faixa chamada Scott Mescudi vs. the world e um título que parece ter sido concebido pelo George Lucas. Tem como não gostar? Infelizmente tem, se o seu iTunes emperrar na faixa 8, Erase me, um rockzinho ordinário que nem Kanye West salva. Antes que você comece a refletir sobre o quão terrível é o fato de que os mais promissores pupilos do rap geralmente não sabem diferenciar Kings of Leon de Queens of the Stone Age, sugiro um rolê no segundo ato do disco, A stronger trip, usa psicodelia e dub para fins medicinais (a dobradinha Marijuana e Mojo so dope é, perdoe a falta de inspiração, viciante).

E, quando o sujeito resolve brincar com um sampler soturno de St. Vincent (“Paint the black hole blacker”, em Maniac), a pergunta volta a fazer sentido: tem como não gostar? Tem, principalmente para quem ainda se encontra perdido nos vãos de My beautiful dark twisted fantasy, de Mr. West. Dois álbuns talvez igualmente ambiciosos, mas note as diferenças: enquanto West bagunça o interior das canções (que são longas e sinuosas), Cudi tenta nos impressionar com o acúmulo de faixas que disparam ideias coloridas, mas por vezes superficiais. É daqueles discos que nos agradam mais pelo temperamento frenético do repertório do que pelas canções em si. Não é tudo o que pensa que é – mas tem como não gostar?   

Le noise | Neil Young | 7

Em tese, é o disco em que Young decanta a própria identidade até que restem apenas os elementos essenciais: a guitarra (alta, ruidosa, massacrada por toneladas de efeitos) e a voz. Mas nada na trajetória do homem é simples como parece, e basta lembrar que o disco anterior a este é o desgovernado (mas muito franco) Fork in the road, praticamente um álbum conceitual acerca de um carro ecológico. O que o produtor Daniel Lanois faz em Le noise é um ‘extreme makeover’ parecido com o método que aplicou em Time out of mind, de Dylan: criar uma atmosfera crepuscular, cinematográfica, mas com lacunas para que o compositor vença os maneirismos de estúdio. Mas esse conceito rigoroso por vezes parece uma estratégia para empacotar canções não exatamente inesquecíveis. Elas condensam tudo o que esperamos de um disco de Young – os lamentos de guerra e os hinos pacifistas e os retratos de homens solitários e a fúria juvenil – sem muitas surpresas ou desafios. De qualquer forma, é sempre uma alegria ver o sujeito verdadeiramente se esforçando e criando maravilhas como Peaceful Valley Boulevard. E, sejamos justos, é o mais coeso dele desde Silver and gold, de 2000. 

Marnie Stern | Marnie Stern | 7

O terceiro disco da nova-iorquina pode ser interpretado de uma forma pessimista (soa como uma reprise dos anteriores, um beco sem saída, um exercício seguro etc) e de uma forma muito otimista (soa como uma celebração do estilo que Marnie talhou nos dois outros discos). Minha tendência, no caso, é o pensamento positivo: este é o primeiro disco dela que não me parece um projeto frio de faculdade de Arte, com todas aquelas camadas calculadas de distorção supostamente agressiva. Acredito que, desta vez, Marnie conseguiu vencer se livrar desse véu chamativo e se encontrou nas canções. A última faixa, The things you notice (que incluí na mixtape de outubro) poderia muito bem servir de ponto de partida para o próximo disco: tem o molde atormentado, paranoico, pontiagudo, do restante da discografia que ela lançou – mas é como se a autora das canções finalmente se expusesse de corpo inteiro. É bonito, é delicado (de uma forma inusitada) e, melhor ainda, soa intenso.

 Swanlights | Antony and the Johnsons | 6

Um dos discos mais valentes do ano, já que Antony renega quase todos as referências pop para encontrar uma sonoridade tão serena e introspectiva quanto é (aparentemente) o momento em que ele vive. E encontra: mas pena que é um som tão etéreo que às vezes se dissolve nos headphones. Ouvi o disco pelo menos cinco vezes e só consigo me lembrar das faixas que destoam desse climão solene: I’m in love, que soa como uma daquelas divinas criaturas de Van Dyke Parks, e Thank you for your love, que abre um caminho soul no coração desta floresta gelada. Não é um álbum que consigo ouvir com frequência (e não recomendo a ninguém que acabou de romper um namoro; a dose de melancolia pode ser brutal). Mas, no momento certo, pode ser o antídoto aos excessos que imperam no indie rock.

Interpol | Interpol

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Para mim, escrever sobre o novo do Interpol neste momento é uma espécie de tortura. Não que o álbum dê náusea ou enxaqueca. É que a discografia da banda pontuou todo o meu namoro. E essa história, vocês sabem, acabou de acabar.

Deveríamos pular este post, eu sei. Mas é só um texto de blog, não é? Então vamos.

Turn on the bright lights, de 2002, foi a trilha do período que antecedeu o namoro. O início antes do começo. Ouvimos esse disco no carro na noite em que nos beijamos pela primeira vez. Lembro que chovia e as pistas estavam escorregadias. Lembro também que a sonoridade do álbum — misteriosa aos nossos ouvidos — ecoava as descobertas daqueles dias. Tudo parecia novo e excitante, mas também um tanto cifrado, como no primeiro parágrafo de um bom livro.

Antics, de 2004, embalou a nossa primeira temporada juntos e (talvez um pouco por conta disso) é o meu preferido. Um álbum mais enérgico, um pouco mais generoso do que o anterior; uma banda mais apaixonada pelo som que consegue produzir. E um disco (desculpe o palavreado) teso.

Em Our love to admire, de 2007, algo saía dos eixos. O disco indicava cansaço. Comodismo. Desinteresse. Isso e todos os outros venenos que vão corroendo um relacionamento longo. Ainda assim, nos apegamos ao que ele (e o namoro) preservava dos bons tempos: espasmos de vigor (The Heinrich maneuver, Mammoth), de vez em quando paixão.

Depois assistimos a um show deles — e, como os discos, isso nos serviu de espelho. Vimos uma banda descendo a ladeira, lutando para manter uma química que parecia esgotada, inviável. Algo deprimente (mas seguimos em frente mesmo assim).

No início deste ano, o Interpol passou pela pior das crises: um dos integrantes, o baixista Carlos D, preferiu pedir a conta. Nós, inconscientemente, os acompanhamos. Nos distanciamos, nos perdemos. E, também por coincidência, o namoro terminou na semana em que o quarto disco do Interpol vazou na internet. Era o fim.

Comecei a ouvir o álbum nos dias seguintes à separação. Uma experiência difícil, é claro, mas também reveladora — que me explicou um pouco sobre as relações longas que, a todo custo, tentamos manter com as pessoas e com as bandas de rock que amamos.

O disco mostra três pessoas que talvez não deveriam estar ocupando o mesmo palco. Mas que ainda o divide — possivelmente a duras penas. Como em Our love to admire, as canções se arrastam, como se interpretá-las exigisse esforço. Mas, ao contrário daquele disco, não se nota um único estalo de entusiasmo. Trata-se de um longo telefonema de despedida — que demora 45 minutos e 53 segundos para terminar.

É também uma tentativa de acertar o passo, de remendar a relação, de simular um recomeço. O tipo de ato desesperado (mas legítimo) que não costuma dar certo. Não culpemos os apaixonados: depois de romper com a gravadora que lançou Our love to admire, o Interpol voltou ao antigo selo (a Matador Records) como quem reata com uma ex. É compreensível. Somos todos uns fracos.

Mas, nesse tipo de flashback, algo sempre se perde. No caso, falta ao Interpol a vivacidade dos primeiros discos, o desejo de tomar o mundo pela cintura, aquela sensação intensa de segurança que nos toma quando o nosso desejo é retribuído. O que sobra é uma banda mais adulta (inevitável), cheia de sequelas (também inevitável), mais melancólica e um tanto amedrontada com o mercado, com os fãs, com a música (o disco anterior foi rejeitado por parte dos críticos, e isso sempre deixa alguma marca).

Quando uma banda decide usar o próprio nome para apelidar um álbum, deixa a sugestão de que escreveu uma obra capaz de resumir toda uma trajetória. Para o Interpol, parece apenas um esforço de autoafirmação. Eles se olham no espelho e dizem: somos o Interpol, sobrevivemos e estamos de pé.

E certamente são. Há marcas neste disco que partencem a eles, apesar de todas as heranças. Muitas das canções, como Lights e Always malaise, vão se erguendo aos poucos para explodir em clímaxes que soam como os ensaios de uma banda cover do Pixies interpretando canções do Joy Division (Safe without, uma das melhores, é Frank Black sob efeito de propofol). E isso é Interpol.

Mas de pé? Não estão. Mesmo em canções tocantes como Memory serves e Success (que poderiam ter entrado em Antics), só consigo imaginar um Paul Banks de pijama, se arrastando no quarto depois do quinto analgésico, se recuperando de uma terrível dor de cotovelo. Talvez a fraqueza toda esteja na produção, da própria banda, que esvazia as canções e deixa todos os esqueletos à mostra. É um mar de ossos.

E são boas as canções, em grande parte mais elaboradas do que as do disco anterior. Memory serves é um exemplo de como a banda elegantemente apresenta as faixas: a cada minuto uma surpresa sutil, um desvio de rota, um elemento alienígena que engrandece os arranjos. Sedução lenta.

Mas como consertar o que está quebrado? Nenhuma bela canção esconde o quão corrompida está essa banda. Daí a tristeza que sinto ao ouvir este disco: ele é o retrato de um romance que perdeu o pulso; de um caso de amor que agoniza (a capa, aliás, explica tudo). O disco transpira a frustração de quem tenta resolver um impasse e não consegue. De quem quer voltar ao começo e não pode.

Uma tentativa ingênua, estúpida – mas que, no entanto, acaba soando tão genuína quanto as nossas.

Quarto disco do Interpol. 10 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Matador Records/Soft Limit. 6/10

Lisbon | The Walkmen

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Viajei a Lisboa certa vez, mas é como se eu ainda não conhecesse a cidade. É essa a sensação: estive lá, mas não estive. 

Uma viagem curta demais (dois dias), mas lembro que acordei cedo numa manhã de sábado para bater perna. Outro dia sonhei com aquela paisagem surreal: prédios centenários anexados a shoppings ultramodernos, escolas muito simples diante de consultórios médicos pré-históricos, ruelas curvilíneas que pareciam não levar a lugar algum (ou nos trazer de volta ao ponto de partida, o que me parece ainda mais estranho). Se eu pudesse, ficaria caminhando sem parar, indo e voltando e indo mais uma vez. 

É uma cidade que parece conciliar algo do passado e algo do presente (e do futuro?), mas que também parece solta no tempo, flutuante, desinteressada em atualizar-se ou em justificar a própria nostalgia. Algo assim.

Peter Bauer, o organista do Walkmen, contou numa entrevista que o novo disco do quinteto de Nova York se chama Lisbon muito por conta de um sentimento associado àquela terra, uma ideia que não consegue descrever. “A cidade captura algo que tem a ver com a nossa música”, resumiu (sem resumir coisa alguma).

O engraçado é que eu, que conheço pouquíssimo da capital portuguesa, consegui sentir aquele meu breve passeio por Lisboa quando ouvi o disco. É como se aquelas imagens, que resistem com muita força na minha memória, entendessem perfeitamente os objetivos de uma banda que faz um tipo de música pop simultaneamente contemporâneo e antiquado. Mais importante: uma música que integra naturalmente o hoje e o ontem, sem esforço, sem refletir muito sobre o assunto.   

Experimente transportar essas 11 músicas (sem a produção ruidosa tipicamente novaiorquina, é claro) para os anos 1950: elas soam como standards bastardos do cancioneiro americano. Great oldies. Desde You and me, o disco anterior, o Walkmen encontrou uma sonoridade em sépia, envelhecida e melancólica, que pode deixar uma certa impressão de familiaridade: já ouvimos isso em algum lugar, em outro tempo, em uma jukebox empenada, (talvez) dentro de um sonho.

Se existe um personagem escondido em todas as canções do disco, ele é um homem bêbado e aflito que, numa madrugada congelante, entra em um bar e geme velhos clássicos de Elvis Presley e Roy Orbison. 

Lisbon é uma continuação de You and me (quase um You and me too), e não encaro isso como uma notícia ruim. Sim, fica o deja vu. Mas o entendo como uma confirmação de que, no disco anterior, a banda finalmente encontrou o som que procurava. Guitarras dissonantes sob melodias cristalinas – versos diretos sobre amores perdidos, solidão e desespero. Canções que cravam punhais na garganta de Hamilton Leithauser.

É, em comparação ao anterior, um disco mais conciso, com versos ainda mais límpidos (sensações ainda confusas, no entanto). Um disco ainda mais sóbrio, digamos. E um disco que não nos soterrra, que não embaça nossa visão. Talvez por isso eu não tenha me apegado muito a ele e ainda prefira com muito mais força o anterior.

A banda gravou mais de 30 faixas, mas preferiu optar por um formato mais compacto, direto. O curioso é que o conjunto soa tão homogêneo que precisei de algumas audições para desgrudar uma canção da outra. Imediatamente, as mais diferentes se destacam: principalmente a marcha fúnebre Stranded, um dos poucos momentos em que o disco quase endoidece de vez.

Não é, apesar disso, um álbum monótono: Angela Surf City, Woe is me e Victory têm a fervura que se espera de uma banda que, por algum tempo, representou a crueza nervosa do rock nova-iorquino circa 2000. Mas, honestamente, não me interessam tanto quanto as love songs despedaçadas, oblíquas, sem salvação, antigas-porém-novas, hinos gospel interpretados por um vocalista que parece não acreditar em mais nada: dessas, fico com All my great designs e Torch song.

Se existe um personagem escondido em todas as canções do disco, ele é aquele homem estilhaçado de You and me, só que às oito da manhã, caminhando pela cidade, de volta para casa. “Nessas primeiras horas da manhã, conte uma história para a sua esposa”, eles aconselham, na faixa-título, que termina com guitarras manhosas, como que anestesiadas, desabando aos poucos.

E a vida do nosso pobre herói retorna à aparência de normalidade, a uma Lisboa serena, purificada pelo olhar de um estrangeiro  – um país inventado; uma ilusão, enfim.

Sexto disco do Walkmen. 11 faixas, com produção de John Congleton. Lançamento Fat Possum/Bella Union. 7/10

Root for ruin | Les Savy Fav

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Qual disco do Pixies é o seu favorito? O meu é Doolittle, de 1989, que pede bênção a Buñuel e inventa Smells like teen spirit. O preferido do Les Savy Fav, aposto, é Trompe le monde, de 1991. O capítulo em que nossos heróis perdem a cabeça (de vez).

Tensão. Eis a palavra. Poucos álbuns de ruptura soam tão atordoados, como que flagrados em pleno ataque de nervos. Frank Black queria gravar um disco pontiagudo e nervoso, o avesso de Bossanova (1990). E o resto da banda queria ir para casa. Resultado da guerra: um artefato que explode a cada cinco segundos, desmonta, volta a se erguer e, entre uma metralhada e outra, encontra um ou outro acorde agradável – só que nos momentos errados.

É uma obra-prima. Mas uma obra-prima quase acidental, marcada pela tragédia (e o charme, o mistério todo talvez esteja aí).

Pois bem: fico com a impressão de que, desde 1997 (quando lançou o ótimo Let’s stay friends), o nova-iorquino Les Savy Fav tenta simular esse contraste entre guitarras desesperadas e lapsos de candura. Tenta gravar um Trompe le monde.

E o pior é que eles são candidatos seríssimos a esse tipo de reprise. Tim Harrington, o vocalista, talvez seja o mais digno sucessor de Black. Ele entende que o elemento perigoso (e que nos desconcerta, nos perturba) dos Pixies era a disposição da banda se entregar a atos de loucura. Ao vivo, o barbudão parece interpretar o narrador de Debaser – o sujeito que, aos berros, tenta (e não consegue) descrever a excitação que sentiu diante das cenas surrealistas de Um cão andaluz.

Um pirado.

O desafio do Les Savy Fav é transportar essa persona psicótica de Harrington para os discos. Acredito que ainda não conseguiram. Let’s stay friends é um competentíssimo álbum de indie rock que poderia ter sido gravado pelo Modest Mouse. Nota 8+. Mas desconfio que Harrington não está aqui para agradar ninguém (era mais ou menos a angústia de Frank Black, não era? Daí Trompe le monde e uma carreira solo orgulhosamente ‘demodé’).

Root for ruin também não é esse terremoto todo. Mas a banda continua tentando encontrar o formato exato para provocar aquela sensação de que o apocalipse varreu o mundo (não sem ter deixado alguns cacos de melodia). Talvez o culpado (fica a dica!) seja o produtor Chris Zane, que cisma em adaptar o som do quinteto a um modelo-padrão de indie/hardcore, talvez polido demais para traduzir imagens febris, cenas surreais. Ainda não combina com o que eles têm a dizer.

O que devia soar como um contraste chocante acaba por parecer mera contradição. O disco abre com duas faixas violentas (dois golpes, quase nocaute!) que citam Dead Kennedys, At The Drive-In e outros atentados – uma delas fala em apetite, apetite, apetite (é um filme de zumbis, quase), e nos prepara para uma matança. 

Mas aí chegam duas canções (isso aí: canções) que vão aplacando essa fúria e domesticando o lobo: Sleepless in Silverlake e Let’s get out of here (essa última, talvez o maior decalque de Pixes que eles já fizeram, com acordes roubados de Velouria, de Bossanova) dariam ótimos singles, mas soam um tanto oportunistas. De qualquer forma, ótimos singles. E quero muito ver a reação de quem acusou o Wolf Parade de, em Expo 86, ter se adaptado a um esquema confortável de indie rock.

O disco vai oscilando entre a celebração (Lips n’ stuff é uma delícia) e o horror (Clear spirits é uma confusão só, mas que deixa a sensação de que, finalmente, as peças estão todas fora dos lugares) – e confirma o Les Savy Fav como uma banda mais típica, mais convencional do que ela própria talvez queira ser.

Talvez o erro deles esteja num detalhe: Trompe le monde era um disco que nos pegava despreparados, que nos enfrentava. Root for ruin é um álbum que cumpre requisitos para agradar a quem já se adaptou a esse tipo de confronto. Um tapa, mas com luvas macias.

Quinto álbum do Les Savy Fav. 11 faixas, com produção de Chris Zane. Lançamento Wichita Recordings. 6.5/10

The Drums | The Drums

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Fofofóbicos, tremei: The Drums não é uma banda para vocês.

Não é. Recomendo desistência por antecipação. Sei qual é a dos fofofóbicos, essa gente com aversão a fofuras e chamegos xaroposos e guti-gutis afins. Para eles, Belle and Sebastian, Camera Obscura, The Shins e Sufjan Stevens equivalem a ursinhos de pelúcia róseos e muito simpáticos e macios (simpáticos e macios demais, diriam). E Juno só seria um filme decente se banisse aquele nerd delicado, com hálito de suco de laranja. Irc.

Gente estranha. Não os entendo.

Quer dizer: tento entender. Tento porque convivo com eles. Tento porque sei o que eles detestam. E eu nem veria problema em apontar nomes, já que todos acreditam que meu blog é aprazível, delicadinho, emotivo e, por isso, abominável feito algodão-doce de morango.

Eu acho, sinceramente, que eles deveriam se tratar. O que seria do mundo sem os momentos de fofura, meus amigos? Eu nem quero saber.

Mas, como eu ia dizendo, tento entendê-los. E bandas como o The Drums me ajudam nessa luta. É uma banda muito fofa, aviso logo. Um doce. Fofíssima: dá vontade de pegar no colo. Ela é formada por quatro sujeitos que são ou extremamente cínicos ou perigosamente carentes. Nada de errado com carência. Todos nós, até os fofofóbicos, vivem dias, horas, segundos de carência. É claro: eles superam as agruras com três ou quatro abdominais ou barras de chocolate (meio-amargo). Nós, os tristes, descarregamos nossas pitangas na música pop.

E o curioso é que nós, os tolerantes a excesso de fofura, queremos sempre mais. Mais choro, mais desencanto, mais fragilidade, mais doçura, mais melancolia. Então não nos irrita o fato de que uma banda como o The Drums (e há tantas!) acabe soando como um encontro meio literal entre The Smiths e The Shins, com sintetizadores agradáveis que afagam a nossa nuca e um manto acolchoado de guitarras que nunca espeta nossas costas. Logo nos primeiros acordes, nos sentimos acolhidos, seguros.

Para quem congela só de ouvir a palavrinha “twee”, aviso: mantenha distância. The Drums soará simplesmente intratável. É uma daquelas bandas que aprenderam o bê-a-bá do “beach pop” (que vem lá dos anos 60, Beach Boys e congêneres) e o aplicam ao gosto de uma geração que traduz essas influências de uma forma estudada, meio blasé, autoirônica (mas sem se aproximar da autoparódia). Algo como os momentos mais delicados do Vampire Weekend e do Ra Ra Riot.

The Drums é assim: demonstra muito talento para usar aquele velho clichê californiano (versos tristes para melodias alegres) de uma forma que soa muito sincera. É um quarteto de Brooklyn, Nova York, e a procedência talvez explique por que eles às vezes deixam a impressão de participar de um grupo de estudos avançados sobre indie pop. E, se alguém tinha dúvidas sobre a origem da faixa mais grudenta do disco (Me and the Moon), está tudo lá: The Strokes via Phoenix.

Essa música, a mais animadinha (e a mais derivativa de todas), é desvio de rota num álbum até certo ponto monocórdico e (falsamente?) ingênuo. “Você é meu melhor amigo, então você morreu”, canta Jonathan Pierce na faixa de abertura, Best friend, que vai desfiando memórias da adolescência muito doloridas, embaladas em arranjo dance. Mais adiante, ele confessa que a vida vai ficando cada vez mais difícil. “Eu imaginava que ficaria mais fácil”, diz. E coisa e tal.

Lá nas últimas faixas, a banda acrescenta uns violões safados ao pão-de-ló sentimental. E aí entendo a birra dos fofofóbicos. Da mesma forma como nós, os sentimentais, reclamamos da dureza impassível de algumas bandas de heavy metal e de hard rock, eles também têm o direito de se irritar com os trejeitos frágeis dessa turma à flor da pele. Nos dois casos, existe uma fórmula em ação. Há truques e há golpes baixos. The Drums usa essa artilharia com eficiência (é um primeiro disco!), mas, admito, parece cuidadosamente adaptada para agradar a um público que sabe o que vai ouvir e, ainda assim, quer mais.

Numa pastilha (de uva): é previsível, sim. Mas os bons sentimentos me parecem verdadeiros. Ou muito bem encenados. E acredito que é por conta desse elemento secreto, misterioso, que esta banda consegue se destacar em meio a tantas outras. Não tem nada a ver com marketing, ó descrente. A fofura, em alguns momentos, nos comove, nos levanta um espelho. E aí é como se, de um jeito meio torto, acertasse nossos nervos.

Como explicar esse efeito a alguém que nunca se apaixonou terrivelmente por algo impossível, por uma fantasia? E como explicar tudo isso a alguém que nunca encontrou conforto nas melodias chorosas das love songs? Não dá.

A estreia do The Drums não é nada extraordinária. E nada medíocre. Não é o céu nem o inferno. É um purgatório em azul-bebê, digamos, com cheiro de lavanda, etc. Por isso, pode soar irritante ou apaixonante. Eu escreveria um longo texto negativo sobre este disco e provavelmente vocês concordariam comigo. Mas este não sou eu. Meu coração tem 12 anos de idade. E (perdão, fofofóbicos) ele bateu feliz com o que ouviu.

Primeiro disco do The Drums. 12 faixas, com produção de Jonathan Pierce. Lançamento Moshi Moshi e Island Records. 7/10

Superoito express (22)

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Infinite arms | Band of Horses | 6

O disco de estreia do Band of Horses, o muito promissor Everything all the time (2006), apontava dois caminhos para este grupo de Seattle: um mais aventureiro, feito de pedrinhas brilhantes (em grandes momentos como The funeral e The Great Salt Lake, que merecem entrar em qualquer coletânea de achados da Sub Pop), outro mais mundano (o country rock de Weed party, baladas delicadas e inofensivas como I go to the barn because I like the). Me parece um enorme desperdício, mas, de lá para cá, a banda mostrou mais interesse por essa segunda trilha (agradável, pop) e menos por aquela outra (misteriosa, imprevisível).

Infinite arms confirma essa preferência e, por isso, pode fazer do Band of Horses um mascote indie muito querido e popular (e indie é força de expressão, já que a bolachinha tem o selo da Columbia). É um álbum de melodias infinitamente graciosas, com toques sutis de psicodelia californiana (Compliments é um encontro de Brian Wilson com Greatful Dead, com a assinatura inconfundível do produtor Phil Ek) e versos sobre amor e nostalgia. Uma doçura (um tanto aguada, mas uma doçura). E que não cheira a produto falsificado – como o Wilco de Sky blue sky, taí uma banda que se emociona com o soft rock. Vamos assobiar juntos! Mas que dá pena ver uma banda tão talentosa se acomodando nesse sofá confortável e quentinho, isso dá. O próximo disco nos mostrará se eles estão no time do Grizzly Bear ou do Kings of Leon.

Pigeons | Here we go Magic | 7.5

E por falar em aventura… É quase certo que, em 2010, o Here we go Magic não vai vender nem 1% dos discos do Band of Horses. E, se quisesse, este quinteto de Nova York escreveria um álbum inteiro com love songs de partir o coração (eles conseguem: ouça Casual, lindíssima). Mas eles preferem caminhar na areia movediça. Este Pigeons faz questão de nos espantar (e de bater asas para bem longe) a cada faixa: começa como uma brincadeira com a psicodelia britânica do fim dos anos 60 (Hibernation e Collector), é ejetado aos anos 90 (Casual lembra Radiohead), prova do indie americano (Surprise tem um quê de Pinback) e recicla as loucuras de Brian Wilson em clima ambient (Vegetable or native). Tem isso e mais. O disco termina e ainda não sabemos direito que banda é esta. Uma boa sensação.

High Places vs. mankind | High Places | 7

O segundo disco do High Places desmente muito do que (achávamos que) sabíamos sobre este duo de Nova York: Rob Barber e Mary Pearson não querem ser conhecidos como os hipsters esquisitões que vivem trancados numa estufa gelada, em contato apenas com a natureza e com um laptop. High Places vs. mankind soa mais urbano e humano: On giving up, por exemplo, se aproxima do trip hop lânguido que Goldfrapp fazia no início da carreira (já She’s a wild horse e Canada usam e abusam de orientalismos fake). Não é uma transformação radical, mas a floresta mágica do High Places guarda mais segredos do que imaginávamos.

Talking to you, talking to me | The Watson Twins | 6.5

As irmãs Watson passam por uma transição delicada neste novo disco. Já na capa, o álbum adota um verniz “adulto contemporâneo” que parece mais apropriado a uma Sheryl Crow do que a uma Jenny Lewis (e muito longe do tom revisionista de Rabbit fur coat, o belo álbum que elas gravaram com Lewis). Mas elas vestem esse novo modelito sem muito desconforto: a soul music modernosa de Harpeth River soa como uma tentativa de vendê-las ao público da Amy Winehouse (e baladas jazzy como Forever me vão agradar aos fãs de Norah Jones), mas elas conseguem envenenar essas fórmulas radiofônicas com versos dark e interpretações elegantes. O melhor fica por último: Modern man pede bênção ao Radiohead de In rainbows e nos prega uma surpresa aos 45 do segundo tempo. O recado: elas se venderam, mas continuam muito vivas.