Noite escura

Black and Blue

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“Mas por que então se sente tão insatisfeito, tão incomodado com o que escreveu? Diz para si mesmo: o que aconteceu não é na verdade o que aconteceu. Pela primeira vez em sua larga experiência de redigir relatórios, Blue descobre que as palavras não funcionam necessariamente, é possível que elas obscureçam as coisas que estão tentando dizer. Blue olha em torno do quarto e fixa a atenção em vários objetos, um após o outro. Vê o abajur e diz para si mesmo: abajur. Vê a cama e diz para si mesmo: cama. Vê o caderno e diz para si mesmo: caderno. Não vai dar certo chamar o abajur de cama, pensa ele, ou a cama de abajur. Não, essas palavras vestem com perfeição as coisas que denominam e, no instante em que Blue as pronuncia, experimenta uma satisfação profunda, como se tivesse acabado de provar a existência do mundo. Em seguida, olha para o outro lado da rua e vê a janela de Black. Está escura, agora, e Black está dormindo. Este é o problema, diz Blue para si mesmo, tentando encontrar um pouco de coragem. Isto e nada mais. Ele está lá, mas é impossível vê-lo. E mesmo quando o vejo, é como se as luzes estivessem apagadas.”

Paul Auster, em Fantasmas (em A trilogia de Nova York). Ao som de Our Hell, de Emily Haines & The Soft Skeleton.

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Dark night of the soul | Danger Mouse e Sparklehorse

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darknightPosso ser simples e direto? Dark night of the soul é uma instalação coletiva de arte contemporânea. Audiovisual. Pós-moderna. E de bolso.

E é também (antes que eu esqueça), um projeto de música pop. Daqueles que David Bowie e o Flaming Lips adorariam ter gravado nos anos 90. E que será, inevitavelmente, acusado de tentar abraçar o mundo com as pernas. Em resumo: um álbum “de arte”.

Danger Mouse e o Sparklehorse escreveram os versos e melodias, que são interpretados por uma dezena de convidados. Inspirado nas canções, o cineasta David Lynch criou um livro de fotografias de 100 páginas. Atravancado por uma disputa judicial com a EMI, o CD talvez não chegue às lojas. Por enquanto, é distribuído gratuitamente via internet. O livro de Lynch vem com um CD-R em branco, a ser preenchido pelo leitor.

É uma obra que, ainda que não tão radicalmente quanto o disco quádruplo do Flaming Lips (aos que não lembram, Zaireeka só fazia total sentido quando ouvíamos os quatro CDs simultaneamente), será assimilada aos pedaços. Eu, por exemplo, ouvi todas músicas, mas não vi o livro de fotos. Olhei algumas imagens no site oficial. Desfocadas, esverdeadas e perturbadoras, elas me lembram os trechos mais abstratos de A estrada perdida. Para Lynch, aparentemente, este é um álbum de horror.

O título indica um tipo mais introspectivo de colapso. Por acaso, descobri no Wikipedia que a expressão “dark night of the soul”, inventada por um padre do século 16, é uma metáfora para períodos de profunda melancolia e solidão. Quando penso nesses sentimentos, lembro de discos como Pink moon, do Nick Drake, e Closer, do Joy Division. São noites escuríssimas.

Mas não é o caso. Repito: este aqui é, acima de tudo, um álbum pop. 

Para Mark Linkous, o homem chamado Sparklehorse, o conceito soa familiar. Os mais belos discos gravados por ele — Good morning spider (1998) e It’s a wonderful life (2001) — são exatamente isso: jornadas na noite da alma. Principalmente no início da carreira, o americano fez do rock um confessionário cruel: escreveu versos de isolamento e melancolia. Ardidos de febre.

Brian Burton, o Danger Mouse, também não é o sujeito mais otimista do mundo. O segundo álbum do Gnarls Barkley, The odd couple, é pop maníaco-depressivo: melodias saltitantes para pensamentos autodepreciativos. Por isso mesmo, quando Burton produziu Linkous no disco Dreamt for light years in the belly of a mountain (2006, do Sparklehorse), o encontro pareceu menos estranho do que esperávamos. 

Dark night of the soul é e não é uma continuação daquela. Todas as músicas combinariam com a interpretação agoniada de Linkous e carregam temas já explorados pelo Sparklehorse, mas também deixam a impressão de que foram escritas especialmente para os cantores e cantoras que as interpretam. O maior mistério do álbum está aí: como uma coletânea pode soar tão coesa?

Noto que a grande jogada de Danger Mouse é usar as marcas dos convidados como ornamentos para um núcleo sonoro que mantém-se imutável no decorrer do disco. Talvez seja por isso que, lá pela quinta ou sexta audição, tudo comece a soar um tanto unidimensional, apesar da variedade de vozes (quase todas tristes). Mas há ideias interessantes: chamar Jason Lytle, do Grandaddy, provoca quase um efeito cômico, já que seu jeito de cantar é parecidíssimo com o de Linkous. A participação do Flaming Lips também deixa essa impressão de homenagem enviesada.

Há diálogos mais sutis. Just war, com Gruff Rhys, caberia perfeitamente num álbum do Super Furry Animals — é de um colorido psicodélico marcante. Little girl, com Julian Casablancas, também surpreende: a faixa explicita o lado desiludido que do cantor que está implícito no repertório do Strokes. E James Mercer leva as fórmulas do Shins a Marte com Insane lullaby, a minha favorita do projeto.

Outras contribuições parecem perdidas no breu: a faceta mais garageira do disco, com Iggy Pop e Frank Black, é dispensável (Danger Mouse e Linkous simplesmente não se sentem à vontade nesse ambiente). E as vozes femininas de Nina Persson e Suzanne Vega não carregam o desespero que o restante do álbum sugere. Passam em brancas nuvens.

Isto é: Não é estamos diante de um Império dos sonhos (e não foi dessa vez que Danger Mouse, superficial que só ele, escreveu o álbum de soul music sombria que ele tanto tenta fazer). Mas é um disco que, pelo menos, oferece um trilha sonora até muito digna para aquela frase de F. Scott Frizgerald: “na verdadeira noite escura da alma, é sempre três da manhã”. No caso, uma madrugada fria. Numa fantasmagórica galeria de arte.

Projeto de Danger Mouse, Sparklehorse e David Lynch. 13 faixas, com produção de Danger Mouse e Sparklehorse. 7/10