Neuroses

Smother | Wild Beasts

Postado em Atualizado em

Outro dia escrevi que música pop tem algo da urgência jornalística: discos e canções que flagram um momento e depois vão esmaecendo lentamente.

Mas não é só isso, é claro. As coisas não são fáceis assim.

A arte de um Tyler, the Creator, pra mim, tem algo de crônica, de blog. O sujeito encena uma confissão: e é como se estivesse num divã ou numa mesa de bar, num fórum de discussão. Vai lá e (perdoem a fineza, ok?) vomita o almoço e o jantar.

Conheço gente que menospreza esse pop informal, sem arremate ou ambições literárias/poéticas. Percebo o seguinte: deve dar um trabalho, uma trabalheira às vezes infernal, criar um discurso ao mesmo tempo franco e pungente, que nos emociona sem nos subestimar. Deve ser uma odisseia.

Pois bem. Para cada Tyler existe um Wild Beasts. E com o Wild Beasts, entramos na selva das bandas que rock que tentam rivalizar com romancistas, contistas. Os discos deste quarteto têm a densidade que esperamos encontrar, digamos, na literatura russa contemporânea. Smother (fui procurar no dicionário e signifca “sufocar”), o novo, é mais um tijolinho de ambição nesse casarão.

Nada contra as intenções nobres, os gestos mais pomposos, a procura pelo acorde mais sublime etc. Mas, antes de entrarmos com a faca neste filezão, lembremos de uma obviedade necessária: há obras-primas que soam simples porque querem soar simples (Plastic Ono Band, por exemplo) e há obras-primas que soam grandiosos porque querem soar grandiosos (Ok computer, por exemplo).

No pop, a meu ver, o disco “conceitual”, que se leva muito a sério, não ganha vantagem sobre o disco mais instintivo, espontâneo, que não tem nada a perder. Nesta partida, dá empate.

Dito isto, cá está um disco de rock que vai buscar nos livros de Mary Shelley (Frankenstein) e Clarice Lispector o vocabulário para ir fundo nas neuroses de personagens que sofrem por todo tipo de dependência e chantagem sentimental. “O que eu deveria pensar? Tiro você daí ou deixo você afogar?”, pergunta o narrador da primeira faixa, Lion’s share. Eis a questão mui sufocante.

Não estamos falando de uma narrativa linear, mas de uma espécie de fluxo de consciência que, nos momentos menos abstratos, sugere um passeio ao inferno das aflições sexuais. Há narradores que soam obsessivos, doentios (“Eu deitaria em qualquer lugar com você. Qualquer cama de pregos serviria”, diz o pobre coitado de Bed of nails), e há os que, num relacionamento talvez muito errado, admitem frustrações (“Os segredos que eu deveria ter dividido afogam dentro de mim”, lamenta o personagem de Albatross).

Há as vítimas (Em Albatross, por exemplo) e há os algozes (em Plaything, narrado por um sujeito que literalmente brinca com os desejos do amante). Fato é que, em Smother, os relacionamentos amorosos são florestas escuras de onde às vezes não se consegue sair sem arranhões. “É um medo terrível, mas é por isso que a escuridão está lá. Você não precisa ver o que você não consegue suportar”, aconselha o narrador de Lion’s share.

São versos aflitivos, em muitos casos femininos, que, somados, deixam claro o interesse do Wild Beasts pela literatura de Lispector. Também há um quê de Jane Campion (de In the cut, por exemplo) nesses relatos de brutalidade consentida, tortura entre quatro paredes. Se pensarmos apenas no conceito do disco, ele é o mais forte e bem resolvido de toda a trajetória da banda. Perto desse “script” tão sólido, Two dancers fica parecendo uma coletânea de curtas-metragens.

Mas resumir o disco a esse aspecto mais literário, ao conteúdo das letras, me parece muito pouco. Estamos falando, ao fim e ao cabo, sobre música pop. Ou ainda estamos?

Musicalmente, Two dancers era um disco mais desafiador, e com mais recompensas: não existe uma canção verdadeiramente impactante como Hooting and howling aqui, por exemplo, ou This is our lot e We still got the taste dancin’ on our tongues. Para adensar o conceito do disco novo, o grupo sacrifica as canções: Smother surte melhor efeito quando ouvido de ponta a ponta (e, mesmo com econômicos 42 minutos, pode soar um pouco maçante).

Essa é uma opção (consciente) da banda: nos sufocar com uma atmosfera… ahn… compacta. E parece preciosismo reclamar de um disco com melodias e arranjos tão elegantes, que alternam sintetizadores (sutis) com pianos (ainda mais sutis) e algo de experimentalismo no uso da percussão (quase minimalista, sensual, numa repetição do disco anterior). Hayden Thorpe e Tom Fleming não cantam: eles gemem.

Aqui, Wild Beasts toma uma posição e cobra um lugar entre as bandas importantes. Talvez façam por merecer, ainda que este disco (e os anteriores) me pareçam totalmente irrelevantes quando encaro o pop com um olhar jornalístico. Eles soam como que desconectados do tempo em que vivemos.

E (este mais recente principalmente) podem ser lidos como um drama psicológico de Virginia Woolf, um conto de James Joyce. Comparações que certamente deixariam este quarteto orgulhoso.

Mas Smother, o romance de 150 páginas, não me comove como eu esperava. Na verdade, sinto falta de um clímax, de uma canção que cumpra a promessa de imponência e grandiosidade de um disco que, francamente, é quase todo uma grande promessa.

As turbinas fazem barulho, sim, o corpo treme, a alma congela, às vezes dá arrepios. Mas esta máquina pesada (e muito bonita, repare a engenharia sofisticada, a polidez do acabamento!) insiste em não sair do chão. Um tanto frustrante, mas é algo que acontece com os melhores escritores russos.

Terceiro disco do Wild Beasts. 10 faixas, com produção de Richard Formby e Wild Beasts. Lançamento Domino Records. 7/10

Anúncios