Mostra de São Paulo

mostraSP | Dias 8, 9 e 10

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Nesta rodada de textinhos sobre os filmes que vi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, parágrafos sonolentos e constipados que possivelmente não vão acrescentar muita coisa às experiências dos espectadores que acompanham o evento. Mas, para não deixar acumular serviço (como diria minha avó), cumpro a obrigação com mais divagações curtas, mais rascunhos, mais reflexões apressadas que, eu sei!, não levam a lugar algum. Deixe-me afrouxar a gravata, ok?

A cotação que uso para avaliar os filmes, como vocês bem sabem, vai da letra D (de, digamos, dodói), à letra A+ (de, digamos, atlético). Por enquanto, ainda não esbarrei em nenhum filme A+. Se vocês souberem onde esse danadinho está, portanto, sejam simpáticos e me avisem. Tá bem?

Histórias da insônia | Sleepless nights stories | Jonas Mekas | A | Até para quem é leigo na obra de Mekas (o meu caso), Histórias da insônia desce como um caderninho-de-anotações muito convidativo: lá pelas tantas, o próprio cineasta se dirige à câmera e, numa homenagem a uma diretora amiga que fez filmes minúsculos sobre o cotidiano, desanuvia as próprias intenções. O metiê de Mekas, aqui, é este: o da crônica etílica, o da conversa jogada fora, o do encontro com amigos (daria, portanto, uma ótima sessão dupla com qualquer filme do Hong Sang-soo), o de uma cinema íntimo, doméstico, que não quer (e não quer mesmo) se impor como monumento para qualquer coisa. Daí que a prosa do bom velhinho flui gentilmente, alegremente, como o videolog de um artista que não tem mais nada a provar, e que se sente confortável numa arte ultrapessoal que, para alguns espectadores, ainda pode soar como um grande insulto (ou como uma enorme bobagem). Um dos melhores filmes desta mostra (onde, talvez por coincidência, não faltam ótimos filmes caseiros).

Las acacias | Pablo Giorgelli | B+ | O argentino que venceu o Câmera de Ouro (prêmio para longas de estreantes) no Festival de Cannes deste ano é um road movie lacônico que pode ser tomado de uma forma simples (um conto humanista, à la Walter Salles, sobre três pessoas que precisam conviver por um certo período de tempo dentro de um espaço fechado, um caminhão) e como uma espécie de metáfora para as relações truncadas, silenciosas, entre países sul-americanos. De uma forma ou de outra, Giorgelli traça esses percursos com uma concisão que assusta: apesar das manhas sentimentais (o que um bebezinho adorável não faz por um “filme de arte” minimalista?), ele nos poupa de qualquer excesso, confiando mais nos gestos dos atores que nos diálogos. Filmezinho preciso assim, tão sutil e tão doce, periga ser tratado como obra-prima. Acredito que não seja isso tudo. Mas que deixa a impressão de ser uma estreia incomum, deixa sim.

Low life | Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval | B | Para que o cinéfilo de Brasília entenda o impacto de Klotz na Mostra de SP, basta pensar nas expectativas que um filme de Julio Bressane provoca quando exibido no Festival de Brasília: por aqui, o diretor francês é tratado como uma espécie de convidado de honra, recebido sempre com entusiasmo por um fã-clube já acostumado às manias de um cinema engajado/filosófico/sisudo que fluta entre o ensaio sociológico (sobre crises da Europa contemporânea) e referências a Robert Bresson e Jean-Luc Godard. Low life trata de uma juventude em colapso, implodindo em agonia, que marcha sabe-se lá para onde, sem um inimigo de fácil identificação. Um tema atualíssimo (vide os tumultos londrinos, por exemplo), que Klotz usa como um terreno cinzento habitado por personagens estilosos&desesperados. O sentimento de mal estar é constante e inevitável, e será sorvido com prazer pelos admiradores do diretor, mas me parece um golpe singelo quando aplicado à trama principal do longa: o romance amaldiçoado entre uma francesa e um migrante afegão (que, é claro, sofrerá as consequências de uma Europa falsamente livre). Leitura sugerida: o anterior, A questão humana, ainda mais incômodo.

As canções | Eduardo Coutinho | B | Um Coutinho-standard, que retorna ao formato de Jogo de cena (sem reflexões metalinguísticas), como um cantor veterano que distende os músculos, desabotoa a camisa e grava um disco pop após dois álbuns experimentais. Um tanto frustrante, tenho que admitir (imaginem aí o Radiohead anunciando um novo The bends), mas não há como negar os prazeres provocados por um um cinema que cria uma relação sentimental tão imediata com o espectador – e que não tem vergonha de chorar diante das câmeras. Pra todo mundo cantar junto, como se diz.

Cut | Amir Naderi | B | Este fight-club japonês, que poderia atender por O retrato de um cinéfilo quando saco de pancadas, não redime um personagem que lida com o cinema de uma forma masoquista (e sim, é claro que me identifiquei um pouquinho com ele). Bônus: no clímax, um top 100 de melhores filmes de todos os tempos.

Uma longa viagem | Lúcia Murat | C+ | Um doc doméstico, cheio de afeto e nada austero, com um personagem larger-than-life (o irmão da diretora, que deu a volta ao mundo duas vezes durante o exílio, na ditatura militar brasileira) e um recurso cênico que me irrita quando penso nele: Caio Blat contracenando com imagens projetadas numa parede.

Elena | Andrei Zvyagintsev | C | O diretor russo de O retorno faz um drama familiar lento, solene (feito marcha fúnebre), que investiga as banalidades do cotidiano como quem procura as evidências de um crime. Cada personagem tem os 20 minutos de contemplação que faz por merecer. Mas a encenação se torna tão embotada que, encerrada a tragédia, deixa um rastro de preciosismo: muita pompa para pouco filme.

Vulcão | Eldfjall | Rúnar Rúnarsson | C | Um dos filmes que mais emocionam nesta Mostra de SP me parece uma apelação sem fim. Mas talvez eu tenha perdido a sensibilidade para esse tipo de drama familiar higiênico: todos me parecem a mesma coisa.

Frango com ameixas | Poulet aux prunes | Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud | C | O novo dos diretores de Persépolis me parece uma linda embalagem sem muita coisa dentro. Nota-se que a dupla está encantada pela técnica, pelo truque frívolo, pela caixinha-de-surpresas, e por um roteiro que vai despistando o espectador até as cenas finais. Os fãs de Amélie Poulain, no entanto, possivelmente vão curtir.

Nervos à flor da pele | Órói | Baldvin Zophoníasson | C | Apenas mais um filme teen europeu (perto dele, Low life fica parecendo algo magnífico), com aparência de piloto de seriado. Pule.

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mostraSP | Dias 5, 6 e 7

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Cá estamos com mais uma rodada de textículos sobre filmes que vi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É. Pois é. Sei que este diário interessa a poucos leitores do blog, então tentarei ser (na medida do possível) breve.

No mais, é uma Mostra um tanto frustrante, com muitas sessões canceladas e problemas técnicos nas projeções (na primeira sessão de Habemus papam, quando o filme foi exibido sem legenda e com as cores alteradas, teve até barraco entre plateia e projecionista). Daí que bate desânimo só de pensar em escrever sobre o assunto.

A cotação utilizada neste blog permanece rigorosamente a mesma, e vai da letra D (de detestável, digamos) à letra A+ (de… amor eterno?). Na primeira semana de sessões, vi alguns filmes classe D e nenhum classe A+ (à exceção de Taxi driver, revisto na telona, mas este não conta), o que deve explicar alguma coisa sobre esta edição (ou sobre este blogueiro, vá saber). Acompanhem.

Habemus papam | Nanni Moretti | A | Para uma parte da plateia, a decepção vai ser inevitável: este feel-good movie frustra quem espera de Moretti uma charge cruel do catolicismo (com potência equivalente, por exemplo, à da sátira política de O crocodilo, sobre o governo Berlusconi), e talvez por isso as reações em Cannes, onde o longa competiu, tenham sido tão desanimadoras. Mas acredito que estamos diante da velha batalha entre as expectativas do público e as intenções do artista: em nenhum momento Moretti tenta criar uma comédia iconoclasta, rebelde. O tom aqui é bem outro, mais gentil e sereno. E o projeto, ainda que sem a carga pessoal que se encontra em filmes anteriores do diretor, reprisa o sorriso meio-amargo, da franqueza de longas como Caro diário e O quarto do filho: o cineasta vai ao Vaticano à procura de conflitos humanos, não de imagens-clichê ou de inimigos a combater. Enquanto Moretti adentra um mundo secreto (eis o poder do cinema), o excelente Michel Piccoli (o papa recém-eleito, perturbado com a responsabilidade de assumir o posto) se aventura lá fora. E é nesse duplo movimento de descoberta que a sátira abobalhada (e muito engraçada, aliás) se transforma num drama até tocante, plausível, mais sobre homens que sobre deuses. Um dos meus favoritos da Mostra até aqui.

Irmãs jamais | Sorelle mai | Marco Bellocchio | B+ | É um filme tão pessoal, e inclassificável (foi filmado ao longo de 10 anos na cidade natal do diretor, com um elenco que inclui parentes de Bellocchio), que será tratado como uma espécie de obra-prima maldita pelos fãs do cineasta. Eu prefiro tomar este OVNI como uma experiência estranha, pantanosa, crônica dilacerada (a fotografia, talvez por conta da técnica précaria usada nas filmagens, mergulha os atores em escuridão na maior parte do tempo), que me diz algo sobre tensões familiares e sobre um cinema que faz questão de tirar notas baixas nas disciplinas convencionais – uma das sequências, em que uma banca de professores avalia um aluno nada exemplar, nos explica mais sobre o diretor que qualquer biografia de Bellocchio.

Girimunho | Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr | B+ | O cinema do coletivo mineiro Teia oferece uma série de armadilhas para quem avalia a arte de um modo mecânico, pragmático, como quem testa a qualidade de um eletroeletrônico. Os diretores do grupo colocam em xeque a cartilha que uma parte da crítica usa para lidar com documentários. Filmes do gênero não devem “embelezar” a realidade? Pois os docs do Teia enquadram o mundo em planos lindíssimos. Filmes do gênero não podem “sufocar” os personagens? Na Teia, a intimidade que se cria entre a equipe e as pessoas filmadas é tamanha que não se sabe quando eles (os personagens) estão encenando a própria vida ou fazendo o que sempre fazem, naturalmente. Girimunho, se não me parece tão surpreendente quanto O céu sobre os ombros, também se mostra totalmente despreocupado com dogmas: não se sabe se é o filme que maquia as personagens (duas senhoras de 80 anos, no sertão de Minas) ou se são elas que criam o filme, da forma como bem entendem. Todos – equipe e personagens – jogam um mesmo jogo. E sim, e a encenação continua bonita demais da conta.

Tatsumi | Eric Khoo | B+ | O nível de sacarose desta cinebio de animação me incomodou um pouquinho (a trilha sonora é bonita, mas beleza em excesso também cansa), mas Eric Khoo é salvo pelo ídolo que retrata: ao alternar a fofura da narrativa com as tramas pessimistas de Tatsumi Yoshihiro, um dos criadores de mangás mais importantes do Japão, o diretor cria um contraste muito forte, e também muito interessante, entre um tom amável e o dark mais medonho. Como era de se esperar, a arte de Yoshihiro vence no final.

Respirar | Atmen | Karl Markovics | B | Um eurodrama quadradinho, filmado com aquela assepsia visual que se encontra todo ano na lista de indicados ao Oscar de produção em língua estrangeira, mas eu estaria mentindo se dissesse não comprei o drama de um personagem salingeriano cujo carisma acaba compensando o ramerrame da narrativa. Ou talvez eu tenha sentido saudades de O apanhador no campo de centeio, apenas isso.

The forgiveness of blood | Joshua Marston | C+ | O parágrafo acima, sobre Respirar, serve quase integralmente para este filme. A cena final deixa uma boa impressão, mas, passado o impacto da projeção (a nota inicial era B), não consigo encontrar nada muito elogiável num longa cujo tema me parece muito, muito mais interessante que a forma como ele é narrado. Para o público que vai ao cinema à procura de uma “boa história”, será eficiente.

Oslo, 31 de agosto | Oslo, August 31st | Joachim Trier | C | O processo de largar as drogas deve ser mesmo chato e frustrante, mais ou menos como este filme. E o que dizer do curta-powerpoint que abre a trama? (Faça a comparação entre a forma como Joachim Trier e o diretor de Drive usam a música Under your spell; quanta diferença!)

Adeus | Bé omid é didar | Mohammad Rasoulof | C | Feel-bad movie iraniano que trata um tema pesadão (o cerceamento das liberdades individuais pelo governo, Kafka style) com mão pesadona. Da série Tragédia Pouca é Bobagem ou: apelou, perdeu.

As ondas | Las olas | Alberto Morais | D | Road movie da terceira idade, devagar quase parando, quase agonizando. Todos (até os personagens) dormem.

Drops | Mostra de São Paulo (parte final)

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'A rede social', de David Fincher

A Mostra de São Paulo terminou ontem. Assisti a um punhado de filmes (ainda não fiz a conta) e, quando repasso todos os posts desta cinemaratona, percebo que o saldo deste ano foi muito positivo. Tão animador que consegui organizar um top 10 (+3) só com longas que, por aqui, mereceram cotação maior ou igual a 4 estrelas. E vocês sabem que, apesar de todo o meu bom-mocismo, não sou dos que saem distribuindo estrelas a torto e a direito. 

Pois bem: antes do besteirol sobre os filmes do dia, eis o meu top 10 (+3) da Mostra de SP. Alguns ainda vão passar na repescagem (hoje, amanhã e domingo). Por isso, fiquem atentos:

1. Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, Apichatpong Weerasethakul
2. Mistérios de Lisboa, Raúl Ruiz
3. Cópia fiel, Abbas Kiarostami
4. O estranho caso de Angélica, Manoel de Oliveira
5. Somewhere, Sofia Coppola
6. Homens e deuses, Xavier Beauvois
7. Film socialisme, Jean-Luc Godard
8. O mágico, Sylvain Chomet
9. Minha felicidade, Sergei Loznitsa
10. As quatro voltas, Michelangelo Frammartino
+3. Caterpillar, Koji Wakamatsu, Machete, Robert Rodriguez e Ethan Maniquis e Armadillo, Janus Metz

E novamente (que não custa ficar repetindo; este é um blog redundante e amnésico): muito obrigado a todos que me receberam tão bem em São Paulo. Abraço e até o ano que vem.  

Gainsbourg – Vida heroica | Gainsbourg (vie héroïque) | Joann Sfar | 3/5 | Serge Gainsbourg confinado numa cinebio corretinha é o tipo de ideia fadada ao inferno das boas intenções. Mas, apesar de toda a polidez, este retrato em 3×4 ganha algum colorido nos momentos em que Sfar se livra da obrigação de reconstituir a trajetória do compositor e passa a brincar com o mito Gainsbourg, quebrando a correção da narrativa com delírios à cartum. Não chega perto das liberdades de um I’m not there, mas também não é qualquer Cazuza – O tempo não para.

Um homem que grita | Un homme que crie | Mahamat Saleh Haroun | 3/5 | Um drama africano narrado com o estilo econômico dos Dardenne e que, como Homens e deuses, se deixa intrigar pelas escolhas tomadas pelos personagens em situações-limite: o que motivaria um pai a escalar o próprio filho para a guerra? Atuações muito fortes, mas não consegui ver nada de muito particular no olhar do diretor, que não escapa de um modelo de ‘realismo engajado’ que é tão querido em festivais.

A rede social | The social network | David Fincher | 3.5/5 | Admito que, quando fiquei sabendo que David Fincher dirigiria um filme sobre a criação do Facebook, logo lembrei da avalanche de aplicativos visuais que o cineasta usou em Clube da luta. Daí a minha surpresa (que não é boa nem má, apenas uma surpresa): A rede social é o longa mais sóbrio e funcional de Fincher – na maior parte do tempo, o diretor não faz muito além de arejar as lacunas mínimas de um roteiro escalafobético. Mas essa aparência clean (a ação transcorre em quartos de faculdade e salas de reunião) só destaca o traquejo extraordinário de Fincher para técnicas de narrativa: é um filme fluente do início ao fim, mesmo quando dispara um vocabulário tecnológico que nos soterra. Não dá para levar muito a sério, no entanto, quem encontra aqui um retrato complexo da geração-Facebook: o texto se sustenta em estereótipos e chavões (o vilão ganancioso, a vítima injustiçada, o conflito entre amigos, a velha lição de que sucesso e dinheiro não trazem felicidade) para amaciar a pílula high-tech e vendê-la a um público que talvez ainda não tenha uma conta no Twitter. A esperteza de Fincher é, apesar de todas essas concessões, preservar o mistério em torno do personagem principal, que, talvez muito a frente do seu tempo, flutua enfadado sobre todas as intrigas da trama: no papel desse gênio solitário, o nosso menino-da-bolha (e, se você quiser, o símbolo de um modelo econômico em que ideias contam mais que acordos publicitários), Jesse Eisenberg compõe a performance mais impressionante que vi este ano.

Drops | Mostra de São Paulo (12)

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'Homens e deuses', de Xavier Beauvois

O projeto Frankenstein | Tender son: a Frankenstein project | Kornél Mundruczó | 1.5/5 | Uma adaptação sui generis (mas desastrada) do romance de Mary Shelley, que praticamente anula o tom fantástico do livro para ressaltar a relação entre o filho-monstro (no caso, um adolescente de 19 anos) e os pais. O conceito não trai o espírito do original, mas os personagens unidimensionais – todos apáticos, infelizes – denunciam o traço mais incômodo deste “projeto”, que competiu este ano em Cannes: é uma ideia sem alma.

O silêncio | Das letzte schweigen | Baran Bo Odar | 1.5/5 | Apenas mais um filme de serial killer (só que alemão, e com uma conclusão tolinha e previsível que seria vetada por qualquer produtor hollywoodiano experiente).

Almas silenciosas | Ovsyanki | Aleksei Fedorchenko | 3/5 | Como acontece em Minha felicidade, este Almas silenciosas é um ensaio sobre a identidade russa metido num disfarce de road movie. Mas, se o filme de Loznitsa é um ataque direto aos traços mais brutais desse “espírito nacional”, Fedorchenko se interessa pelos rituais que moldam uma nação. São filmes-tese, mas validados por um fator humano muito forte: no caso de Almas silenciosas, os dois personagens principais estão quase sempre à frente de uma fábula que, apesar de afogar o motor em alguns trechos (no desfecho simplório, na narração em off excessiva), acabou me surpreendendo como um dos longas mais escancaradamente afetuosos que vi nesta Mostra. O conceito até sufoca, mas o coração do filme não para de bater.

!!! Homens e deuses | Des hommes et des Dieux | Xavier Beauvois | 4/5 | Talvez à procura de um retrato digno, justo, dos os oito monges franceses que inspiram o filme, Beauvois compôs seres imaculados: tipos tão corretos, tão absolutamente dedicados à fé e à caridade, que definitivamente estão mais perto dos deuses do que dos homens. Mas essa é uma opção que me parece coerente (e este, repare, é um filme também sobre opções), já que estamos falando de um drama disposto a entender e respeitar as crenças, os ritos, o ritmo dos personagens. A atmosfera de tragédia iminente contamina a trama, mas Beauvois minimiza o suspense e descreve uma marcha serena para a morte. Mais do que o desenlace terrível dos eventos, o que intriga o cineasta é o processo radical de confirmação da fé, da aceitação de um fardo e de uma missão. Perdoem o trocadilho, mas parece até milagroso que ele tenha conseguido congelar esse enigma todo numa única cena – que é sublime, é sim.         

Drops | Mostra de São Paulo (11)

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'Memórias de Xangai', de Jia Zhang-ke

Como acontece há três anos, acompanhar a Mostra de São Paulo me parece uma experiência ao mesmo tempo empolgante e terrível. Empolgante por conta dos filmes, é claro; e acima de tudo pelo encontro com pessoas em que, nas outras 50 semanas do ano, só consigo esbarrar via web. Mas terrível porque esses encontros, que intercalam os filmes, sempre se dão com muita pressa: impedem qualquer diálogo que vá além de um “o que você tem visto de bom?”. É um tanto frustrante. Mas deixarei claro: para mim, a Mostra perderia quase toda a graça sem os papos com o Diego, o Chico, a Alê, o Michel, o Bruno, o Carlos e tanta gente boa que acabo encontrando numa sessão e desencontrando logo depois. Abraço pra vocês.      

E uma boa notícia para quem curte este blog e está cansado desta cinemaratona: só restam dois posts, ok?

Arcadia lost | Hameni Arkadia | Phedon Papamichael | 1/5 | E, para começar o dia com o pé esquerdo e perdendo de vez a fé na humanidade, uma produção grega (com personagens americanos e participação de Nick Nolte) que entra de imediato no topo do ranking dos filmes mais constrangedores desta Mostra. A projeção, num digital tão cristalino quanto um vídeo do YouTube, estava péssima – mas o filme, que nada tem a ver com isso, é ainda pior. Após um acidente de carro, dois adolescentes mimados se descobrem presos numa espécie de limbo hippie (imaginem aí uma versão de baixo orçamento para a última temporada de Lost) onde meninos e meninas sarados dançam ao redor de fogueiras. Na trilha sonora, genéricos para as baladas do Cranberries. Fácil matar o enigma da trama: o próprio filme é o purgatório, certo?

Memórias de Xangai – I wish I knew | Hai shang chuan qi | Jia Zhang-ke | 3/5 | Há alguns dias, estava eu aqui no blog condenando os documentários que adotam o formato mais manjado do gênero (depoimentos + imagens de arquivo). Pois bem: I wish I knew seria, em tese, convencional, já que Zhang-ke usa entrevistas e cenas da cidade para compor uma colcha de lembranças sobre a vida em Xangai. Mas não há nada mecânico, nada nem mesmo simples na forma como o cineasta organiza (melhor: desorganiza) as informações e, principalmente, as imagens que intercalam os depoimentos: Zhang-ke não tenta definir um retrato didático da cidade, ele parece nem acreditar nessa possibilidade. Prefere espalhar na tela fragmentos de memórias que nos permitem uma impressão de Xangai. Um filme, portanto, muito coerente com a trajetória do diretor; ainda que talvez vago, etéreo demais para quem não conhece a história política da cidade (o título em inglês resume minha frustração: I wish I knew…).

Se eu quiser assobiar, eu assobio | Eu cand vreau sa fluier | Florin Serban | 3/5 | O candidato romeno ao Oscar aplica uma grife já muito conhecida no circuito dos festivais (trama e atuações realistas, tom crítico em relação às instituições, uma câmera paciente, economia de efeitos, etc) a serviço de uma trama quadradinha: um jovem detento que precisa urgentemente sair do confinamento para resolver uma crise familiar. A situação-limite seria, por si só, insuportável; mas o filme a espreme (até o bagaço) num clímax prolongado, artificial. Melhor lembrar da primeira metade do longa, que nos transporta ao cotidiano dos personagens com aquela já típica sofisticação romena: parece simples, mas não é.  

Atração perigosa | The town | Ben Affleck | 3/5 | O novo de Affleck está na programação da Mostra, mas entrou no circuito ainda na metade do festival. Um “jogo duplo”, aliás, que diz muito sobre as tentativas do filme de atrair públicos, em tese, diferentes: o fã de seriados policiais americanos e aquele espectador que talvez procure um thriller menos esquemático, com um quê reflexivo, na linha do primeiro longa dirigido pelo ator, Medo da verdade. É uma ambição saudável, mas Affleck nem sempre dá conta de dosar as intenções do filme: a história de amor, por exemplo, me parece uma bobagem típica de Jerry Bruckheimer; já o jogo de gato-e-rato entre os personagens, que rende um clímax muito forte, mostram que o ator/diretor entende de ação, está no caminho certo e talvez deva dirigir mais e atuar menos.

Drops | Mostra de São Paulo (10)

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'Vênus negra', de Abdellatif Kechiche

Copacabana | Marc Fitoussi | 2.5/5 | Babou é uma francesa com jeitinho brasileiro: cordial, otimista, desestressada, espirituosa, com muito jogo de cintura (também um pouquinho de malandragem; ninguém é de ferro) e o desejo quase avassalador de vestir plumas coloridas e cair no samba. O filme vê a personagem como um antídoto ao rigor por vezes sufocante da sociedade francesa – uma conclusão que, para o público brasileiro, pode soar irônica. Por sorte, o “gringo” Fitoussi tem Isabelle Huppert, que carrega uma comédia tão densa quanto um biscoito Globo.

O ultraje | Autoreiji/Outrage | Takeshi Kitano | 3/5 | Pode parecer uma contradição: depois de ter anunciado aposentadoria dos filmes sobre a máfia Yakuza, Kitano nos vem com um thriller que amplifica, agiganta, dá um close desagradável nos lugares-comuns do gênero: o sangue e a fúria. O tiroteio entre gangues rivais se torna tão repetitiva que, em vez da excitação típica de action movies, anestesia os nossos sentidos. Quando expõe exageradamente essa violência mecânica, banalizada da máfia japonesa (que não comove, que perde totalmente o significado e vira cartum), o diretor atira contra o gênero em que o filme supostamente se enquadraria. Mas, apesar de coerente com a fase autocrítica de Kitano, é um filme cujas ideias (sobre o cinema, sobre a máfia) me interessam mais do que a realização em si, que carece de uma artilharia de imagens poderosas.

Vênus negra | Vênus noire | Abdellatif Kechiche | 3.5/5 | Kechiche, o diretor de A esquiva e O segredo do grão, usa cada átomo da narrativa para esfregar nas nossas consciências o martírio da africana Sarah Baartman, exibida como atração circense para os pobres e os nobres ingleses do século 19. Não é, nem deveria ser, um retrato confortável: o cineasta organiza a trama de forma a acentuar, plano a plano, a intensidade do sofrimento da personagem, cujo corpo rechonchudo foi explorado cruelmente a serviço do comércio, do entretenimento, do sexo e, finalmente, da ciência. Os métodos de Kechiche têm um quê de chantagem sentimental (as cenas são estendidas implacavelmente dentro das 2h40 de duração; a câmera, grudada à ação, chega a pingar suor), mas eles se justificam por uma defesa incondicional, ferrenha mesmo, da dignidade humana. Como dizem, o feel-bad movie da Mostra.

Ondulação | Curling | Denis Côté | 1.5/5 | Um drama canadense projetado para preencher requisitos de festivais: paisagens exóticas (confirma!), famílias disfuncionais (confirma!), personagens lacônicos e solitários (confirma!), imagens lentas e silenciosas (confirma!), alguma reflexão sobre a banalização da violência (confirma!), roteiro inconcluso (confirma!), uma linda fotografia (zzzzzzzz).

Vocês todos são capitães | Todos vós sodes capitáns | Oliver Laxe | 3/5 | Como acontece em muitas estreias promissoras, este longa espanhol danta (às vezes sem conseguir) dar forma a um turbilhão de ideias interessantes – no caso, a meio caminho entre a ficção e o documentário. A intenção é das melhores; o resultado, um tanto vago: na trama, um diretor europeu quer fazer um filme “social” sobre crianças de um orfanato do Tânger, mas elas tomam o controle da câmera e obrigam a equipe a tomar um desvio imprevisto. Se Laxe desenvolvesse a narrativa com o mesma gana com que compõe imagens bonitas, estaríamos feitos.

Drops | Mostra de São Paulo (9)

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'Carlos', de Olivier Assayas

Aurora| Cristi Puiu | 3/5 | Quem acompanha os filmes romenos recentes – pelo menos aqueles que são exibidos em nossos festivais – pode ficar com a impressão de que eles são assinados por uma mesma pessoa ou por uma comissão que define padrões visuais e narrativos a serem seguidos. De início, este Aurora provoca algum estranhamento ao distender esse modelo a um ponto tão exaustivo que pode provocar no espectador uma sensação de entorpecimento. Talvez essa, aliás, tenha sido a intenção de Puiu (de A morte do sr. Lazarescu), que sabota as convenções de uma típica “fita de serial killer” ao seguir quase solenemente um homem comum, inexpressivo, oco (interpretado pelo próprio diretor), que, nas três horas de duração do longa, mata quatro pessoas. Logo percebemos que Puiu está, de fato, fazendo o filme que esperamos dos romenos (do tema cotidiano à fotografia realista, incluindo aí um olhar muito duro para as relações sociais e as instituições do país), só que distorcido por uma lente-lupa, que amplia e satura cada imagem. No desfecho, quando Puiu mostra uma sociedade tão impassível quanto o próprio protagonista, nos perguntamos se o nosso esforço não teria sido em vão.

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos | You will meet a tall dark stranger | Woody Allen | 3/5 | Allen deseja que tomemos este filme como uma comédia rasteira (a narração em off, por exemplo, trata a trama como se fosse uma grande bobagem), mas esse tom ligeiro diz muito sobre o momento do cineasta que, como no filme anterior (Tudo pode dar certo), elimina quase todos penduricalhos da narrativa para mostrar com muita precisão o que ele vê de patético e de encantador na vida. Muito pouco encanto, na verdade: para suportar o “som e a fúria” da existência, Allen recomenda uma dose diária de ilusão.

Carlos | Olivier Assayas | 3.5/5 | Esta minissérie francesa sobre a trajetória do terrorista venezuelano Carlos, o Chacal, carece da fluência do outro filme-maratona da Mostra, Mistérios de Lisboa. O formato da narrativa me parece até previsível, enfadonho: Assayas não renega muitas das obrigações de uma cinebiografia-padrão (talvez seja o filme mais convencional que ele dirigiu) e usa as 5h30 de duração principalmente para encenar os atos, a performance de Carlos (e dedicação de Edgar Ramirez impressiona) – daí que não será absurda a comparação com o Che de Soderbergh. As três primeiras partes do filme reconstituem os atentados (em ordem cronológica e com recursos de documentário, como a pesquisa de imagens de arquivo) com detalhismo que ressalta a mecânica do terrorismo internacional e o traquejo de Assayas para conduzir sequência de ação. Mas, apesar de todos os méritos (são muitos), essa estrutura se torna cansativa, um tanto redundante, para quem vê a série de uma vez só. Muitas das ideias do cineasta (a trilha sonora de punk e pós-punk, por exemplo) se diluem na imensidão da narrativa, ainda que Carlos me pareça um típico personagem do diretor: o homem que flutua livremente sobre um mundo, vencendo as fronteiras geográficas, a barreira dos idiomas – e, por fim, desaparecendo na paisagem.