Mostra de cinema

Trecho | O ritmo, pouco a pouco

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“O que é um filme senão uma tentativa de inventar relações originais entre o tempo e o espaço? Em certos filmes, como os meus, esse trabalho talvez seja mais aparente, e talvez mais radical também. Mas eu não procuro essa sensação de fascínio de modo teórico, eu me deixo levar pelos lugares onde filmo, não calculo a duração particular dos meus planos, eu encontro o ritmo geral do filme pouco a pouco.”

Trecho de entrevista de Hou Hsiao-Hsien a Antoine de Baecque e Jean-Marc Lalanne, no catálogo da mostra Hou Hsiao-Hsien e o cinema de memórias fragmentadas. Foto do filme Café Lumière, de 2003.

2 ou 3 parágrafos | Lola

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Duas avós: Sepa e Puring. O neto de Sepa foi morto pelo neto de Puring, ladrão de celular (um sujeito tão pobre que possivelmente já roubou galinhas). O bandido é preso e cria-se o conflito entre as personagens. Puring quer libertá-lo – mas, para isso, precisa entrar em acordo com uma inconformada, inconsolável Sepa.

Se fosse um filme americano, o que aconteceria? Uma baita crise moral, talvez. Algo como Casa de areia e névoa, imagino. Mas aposto que o tema central não seria dinheiro. A falta de dinheiro. A necessidade de dinheiro. O desespero por (qualquer) dinheiro. E é do que trata este Lola (3.5/5), um longa filipino dirigido por Brillante Mendoza (em 2009, ele também fez Kinatay, prêmio de melhor direção em Cannes) e levado no colo por duas senhoras atrizes. 

O filme passou na mostra Descobrindo o cinema filipino, numa cópia excelente em 35mm (o que, por si só, é um acontecimento). Infelizmente, não posso acompanhar toda a programação, mas o que comentam entre as sessões é que os filmes lembram algo do cinema brasileiro. Sei não: talvez lembrem mais a nossa realidade do que o nosso cinema (eu queria muito ver um Raya Martin por aqui). Mas voltando a Lola: o que noto de mais particular no filme é como ele transporta um dilema universal e até meio calculado (duas avós, dois dramas, as injustiças do sistema judicial, etc) a um determinado estado de coisas, a uma questão social. E aí tudo fica parecendo muito específico. Mesmo quando Mendoza (que procura realismo e crueza em tudo) cai na bobagem de eleger alvos de plástico – como os dois gringos que, apalermados, filmam e exploram as misérias do país.

Entre aspas | Chris Marker e as séries americanas

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chrismarker

“Para falar a verdade, eu já não vejo mais muitos filmes, exceto os dos amigos, ou as bizarrices que um amigo americano grava para mim no canal TCM. Há coisas demais para se ver na atualidade, nas reportagens, nos canais de música ou no insubstituível canal Animal. E minha necessidade de ficção se alimenta com o que é distante da fonte mais completa: as formidáveis séries americanas. Ali há um saber, um senso de narrativa, de economia, de elipse, uma ciência do enquadramento e da montagem, uma dramaturgia e uma atuação de atores que não possuem equivalente em lugar nenhum, sobretudo não em Hollywood.”

Chris Marker, em entrevista raríssima ao Libération, em 2003. Lembrando que hoje começa em Brasília, no CCBB, uma excelente retrospectiva com 31 filmes do cineasta – entre eles, Sem sol e O fundo do ar é vermelho, que vi e recomendo fortemente. Taí a programação completa

(E a imagem que ilustra este post, Gay Lussac, é de maio de 1968, em Paris).