Minha felicidade

Drops | Mostra de São Paulo (12)

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'Homens e deuses', de Xavier Beauvois

O projeto Frankenstein | Tender son: a Frankenstein project | Kornél Mundruczó | 1.5/5 | Uma adaptação sui generis (mas desastrada) do romance de Mary Shelley, que praticamente anula o tom fantástico do livro para ressaltar a relação entre o filho-monstro (no caso, um adolescente de 19 anos) e os pais. O conceito não trai o espírito do original, mas os personagens unidimensionais – todos apáticos, infelizes – denunciam o traço mais incômodo deste “projeto”, que competiu este ano em Cannes: é uma ideia sem alma.

O silêncio | Das letzte schweigen | Baran Bo Odar | 1.5/5 | Apenas mais um filme de serial killer (só que alemão, e com uma conclusão tolinha e previsível que seria vetada por qualquer produtor hollywoodiano experiente).

Almas silenciosas | Ovsyanki | Aleksei Fedorchenko | 3/5 | Como acontece em Minha felicidade, este Almas silenciosas é um ensaio sobre a identidade russa metido num disfarce de road movie. Mas, se o filme de Loznitsa é um ataque direto aos traços mais brutais desse “espírito nacional”, Fedorchenko se interessa pelos rituais que moldam uma nação. São filmes-tese, mas validados por um fator humano muito forte: no caso de Almas silenciosas, os dois personagens principais estão quase sempre à frente de uma fábula que, apesar de afogar o motor em alguns trechos (no desfecho simplório, na narração em off excessiva), acabou me surpreendendo como um dos longas mais escancaradamente afetuosos que vi nesta Mostra. O conceito até sufoca, mas o coração do filme não para de bater.

!!! Homens e deuses | Des hommes et des Dieux | Xavier Beauvois | 4/5 | Talvez à procura de um retrato digno, justo, dos os oito monges franceses que inspiram o filme, Beauvois compôs seres imaculados: tipos tão corretos, tão absolutamente dedicados à fé e à caridade, que definitivamente estão mais perto dos deuses do que dos homens. Mas essa é uma opção que me parece coerente (e este, repare, é um filme também sobre opções), já que estamos falando de um drama disposto a entender e respeitar as crenças, os ritos, o ritmo dos personagens. A atmosfera de tragédia iminente contamina a trama, mas Beauvois minimiza o suspense e descreve uma marcha serena para a morte. Mais do que o desenlace terrível dos eventos, o que intriga o cineasta é o processo radical de confirmação da fé, da aceitação de um fardo e de uma missão. Perdoem o trocadilho, mas parece até milagroso que ele tenha conseguido congelar esse enigma todo numa única cena – que é sublime, é sim.         

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Drops | Mostra de São Paulo (8)

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'Minha felicidade', de Sergei Loznitsa

Jean Gentil | Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas | 3/5 | Esta produção da República Dominicana é uma das boas descobertas da Mostra: a jornada de um homem comum, em agonia, cidade adentro. A câmera o acompanha de muito perto, mapeando ações, gestos, o cotidiano e os momentos de fuga. Num determinado momento, não sabemos se esta é uma fita de ficção ou um doc sobre o ator principal. Daria uma bela sessão dupla com Agreste, de Paula Gaitán.

Distantes juntos | Tuan yuan | Quanan Wang | 2.5/5 | Um drama familiar singelo que tem lá alguma graça, mas o fôlego é de curta-metragem. A trama se escora no impasse criado entre três idosos: uma dona de casa chinesa, o marido que retorna da guerra após 40 anos e o homem com quem ela vive. O inusitado é que esse conflito não chega a produzir explosões: ele se resolve com civilidade, à mesa de jantar, num acordo de cavalheiros. Nos subterrâneos da narrativa, todos os sentimentos que os personagens aprenderam a reprimir.

!!! Minha felicidade | Schastye moe/My joy | Sergei Loznitsa | 4/5 | Este road movie pancada provoca a incômoda sensação de que tomamos o desvio errado e nos metemos numa estrada sem saída. Georgy, um caminhoneiro quase sempre apático, é o nosso guia nesta viagem infernal que (não fosse por flashbacks que acomodam a trama dentro da história russa) poderia ser interpretada como uma fita de horror B conduzida por um documentarista de sangue frio (e Loznitsa, dizem, é um ótimo documentarista). Os contornos enviezados da narrativa, que vai cruzando e descruzando atalhos imprevistos, me parecem às vezes exageradamente obscuros (admito que me perdi em mais de um trecho), mas até esses momentos truncados, confusos, condizem com a aspereza de um filme que é duro feito cimento e, ao mesmo tempo, enigmático feito fábula dark. O olhar para os personagens e para a Rússia (o país de origem do diretor paira sobre o filme) é implacável, sem qualquer degradê, desagradável. A morte pede carona na Ucrânia ou Alice no país da brutalidade – você decide. De uma forma ou outra, há algo podre (e estranho) no ar desta nação.

!!! Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas | Apichatpong Weerasethakul | 5/5 | A revisão só confirma que esta é uma obra-prima tão sublime quanto Mal dos trópicos. No fim da sessão, alguém comentou que os fãs do filme não sabem como defendê-lo. Então vou tentar rapidamente, sem muita pretensão nem nada: o que mais me fascina neste filme é como o sobrenatural é tratado sem espanto, como uma entre tantas características do mundo. Espíritos e pessoas dividem uma mesa de jantar, um quarto de hotel – conversam e se tocam. No ambiente criado por Apichatpong, não se discute crenças, fé: o mistério está em cena, visível, material; logo, ele existe.

Para fechar os drops de hoje, um trecho da entrevista de Raul Ruiz, diretor do genial Mistérios de Lisboa, à Folha de S. Paulo: “A atitude de Camilo Castelo Branco (autor do romance que deu origem ao filme) é a seguinte: ‘Não creia demais no que estou narrando’. É como se dissesse: a vida não tem a coerência de um filme americano. A vida é incoerente e é um caos, ou seja, é um folhetim, mas sem ‘happy end'”.