Minha adolescência

My beautiful dark twisted fantasy | Kanye West

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Minha história com os instrumentos musicais (em cinco capítulos):

1, violão: tentei quando eu tinha 12 anos, me aborreci com a repetição dos acordes e, depois de memorizar todas as manhas de Michelle e Wave, puxei o meu banquinho. Antes disso, meu professor, um velhinho raquítico que viveu três ou quatro vidas, morreu.

2, piano: chegou muito antes, seis/sete anos, lembro da professora octogenária, a da ladainha medonha — ‘endireite os dedos, Tiago, os dedos, Tiago, os dedos’ — e eu nunca descobri se ela queria que eu mantivesse os malditos num ângulo reto ou levemente oblíquo. Aprendi uma versão débil para a nona sinfonia de Beethoven, fiquei superfeliz, concluí: escalei o Everest, quero descer.

3, pandeiro: foi numa roda de pagode que meus primos improvisaram na casa da minha avó ou da minha tia ou da vizinha, não recordo. Naquela época, ou você curtia pagode ou você era um pulha como eu. Tiago era menino, não sacava absolutamente nada de ritmo. Ritmo? Que ritmo? Os primos me aconselharam alguns truques, me envaideci com a performance, eu e o pandeiro, nascidos um para o outro, esqueci tudo no dia seguinte.

4, teclado: dava uma vergonha danada testemunhar as batalhas espartanas, sangrentas, gente sangrando e tal, que minha irmã travava contra o aparelho. Uma guerra sem vencedores e um mundo mais triste para todos. Eu gostava de ir aumentando a velocidade das batidas, daí a valsinha ficava punk rock. Era um brinquedo bobo, nunca levei a sério.

5, guitarra: muito, muito barulho; eu fazia muito barulho, mas, sinceramente, era um fiasco. Ai tentei tirar Palo Alto, aquele lado B do Radiohead que me fazia chorar, e o volume lá nas últimas, e o vizinho pendurou um Comandos em Ação num fio de barbante, que desceu até a janela do meu quarto. Grudado no soldadinho, um aviso breve: “morra, babaca”.

E é isso. The end, vamos para casa.

Ou, antes que eu esqueça: essa história toda, esses capítulos sobre minha relação conflituosa com os cinco instrumentos musicais (cinco namoros fracassados e de curta duração, mas que deixaram marcas e alguma saudade), diz algo sobre o meu gosto por discos desvairados e fantásticos e arriscados e intensamente criativos como este My beautiful dark twisted fantasy, do Kanye West. E, se vocês me permitirem, se vocês não tiverem algo mais interessante para fazer, vou tentar explicar a conexão que existe entre uma coisa e outra.

Não sou, como vocês devem ter percebido, o cara da técnica. Tentei aprender instrumentos e fracassei com todos eles. Hoje, arranho o violão, arranco uns efeitos cavernosos de guitarra e tiro Cai, cai, balão no teclado. Não sei muita coisa além disso. Mas, na minha adolescência, quando eu era um garoto enfezado e , esses instrumentos eram a minha maior diversão. Eram (serei dramático, spielberguiano, para que vocês entendam direitinho) meus amigos.

Agora tente adivinhar: como eles serviam a um zero à esquerda que não entendia nada, absolutamente nada de partituras, harmonias e acordes um pouquinho mais complexos?

Eles serviam a uma espécie de jogo, de laboratório inconsequente de barulhinhos irritantes e melodias imperfeitas. Eu costumava repetir acordes de violão, gravá-los em fitas cassete e, depois, combinar esses trechos com ruídos de teclados e, numa terceira fita, adicionar vocais quase sempre desafinados. Um horror. Mas lembro do prazer que eu sentia quando ouvia o resultado. Era mais ou menos como assistir a um número de mágica.

Guardo muitas dessas fitas e admito que não tenho coragem de ouvir nenhuma delas. São toscas, melancólicas e me mostram que fui um rapazinho infeliz. Isso me entristece. Elas me ensinam, entretanto, de onde vem a alegria que sinto quando ouço discos que usam instrumentos não para atingir ideiais de perfeição técnica, mas para criar combinações sonoras que provocam sorrisos de espanto e excitação – que fazem do pop uma espécie de playground.

Aposto que Kanye West também se entedia com a estrutura mais convencional daquilo que se chama de pop perfeito. Os solos límpidos de guitarra. O refrão certo na hora certa. A ideia polida. O riff sem arestas. Os versos simétricos, as rimas exatas. A sensação de que o compositor é também um músico dedicado e que, raios, ele levou alguns bons anos para aprender a dedilhar este violão!

Nada contra os virtuoses, mas sempre preferi o mal estar dos artistas que não se conformam com os limites da arte, de qualquer arte. Os idolos deslocados, os esquisitos, os incompreendidos, os solitários, os renegados, they don’t belong here.

Kanye West é, não se engane, não se iluda, um desses. Quem espia o blog do rapper ou o acompanha via Twitter sabe que o globetrotter é um acidente prestes a acontecer: são incontáveis os posts rasos e os tuítes risíveis, as demonstrações constrangedoras de amor às futilidades do showbusiness, o gosto por tudo o que é instantâneo e fashion e, principalmente, a necessidade de provar – a cada saraivada de caracteres – que merece reconhecimento, atenção, prêmios, elogios, um lugar cada vez maior e mais confortável no mundo. “Nenhum homem deveria ter tanto poder”, ele aconselha  (a si mesmo), no primeiro single deste disco, Power. Sejam bem-vindos.

O ego faminto de West é prato feito para revistas de celebridades, e o ídolo cumpre esse papel de forma exemplar: odiamos o homem que se descontrola diante da plateia, mesmo quando a crise nos parece falsa. Detestamos o ricaço que perde as estribeiras e sucumbe, erra, perde. Preferimos o autocontrole, a segurança, às demonstrações de fragilidade. Estamos ali para testemunhar o momento em que fracasso chutará a porta, e estaremos lá para celebrar o funeral de mais um astro pop superestimado por nós mesmos.

So what’s a black Beatle anyway?

Imagino que West escreveu as novas canções entre sessões de terapia, entre uma e outra compra milionária, entre um e outro desfile de moda. Nos momentos de incerteza (que, creio eu, existem até para um milionário esbanjador; vide qualquer filme de Sofia Coppola). Depois que você faz alguns discos de sucesso, o que acontece? Depois que você grava tudo o que precisava ter gravado, para onde ir? Quais são as canções que se escreve quando a plateia começa a cair em tédio?

“Todo mundo sabe que sou um monstro”, West se martiriza, ao som de efeitos robóticos. E depois quase entrega os pontos: “Eu cruzei a linha. Eu deixo que Deus decida. Estou de volta para casa.” A música seguinte prolonga o martírio: “A vida às vezes, meu amigo, é ridícula”. E não é?

O novo de West dá sequência a dois álbuns que soavam um pouco mais confiantes: mesmo a fossa de 808s and heartbreak parece controlada, estancada num conceito muito bem definido, um ato de bravura do macho sensível. Graduation era um brinquedo tão reluzente quanto superficial, mas que será lembrado como o retrato de um astro no comando do próprio destino, flutuando nos top ten. My beautiful dark twisted fantasy, em comparação, soa desastroso: da primeira à última faixa, West expõe o medo de perder, de ficar para trás, de se tornar irrelevante, de se tornar (tragédia!) qualquer um. De ser esquecido, perder a identidade, perder followers, etc.

Os versos, até um tanto entediados e conformados com as puxadas de tapete da existência, são o que este disco tem de mais dark. “Vai ser uma morte muito bonita, um salto da janela”, avisa em Power, o réquiem para o super-rapper.

É essa angústia, surpreendentemente, que acaba por energizar o disco, já que West compõe e grava como se estivesse à beira do precipício. Como se houvesse apenas mais uma chance (não é o caso, mas o sujeito é uma pilha de nervos). Em sua discografia, não existe um outro disco que aposte tantas fichas, que mire tão alto (sob pena de tombar no ridículo) e que tome caminhos tão arriscados. Talvez inspirado por Sufjan Stevens e pelo Arcade Fire, West percebeu que a temporada é propícia para esse tipo de monumento extravagante. Quase todas as 13 faixas do disco cabem nessa definição.

São canções como Runaway, All of the lights, Power e Blame game que condensam o espírito do álbum: elas começam e se recusam a terminar, se sabotam, abrem singelas e fecham estranhíssimas. Em alguns casos, como Devil in a new dress, um sampler se repete à exaustão, até esgotar todas as possibilidades de encantamento e morrer na praia. Existe algo de rock progressivo na estrutura dessas faixas, mas não é a melhor forma de defini-las. Existe algo de glam rock e ópera-rock, mas nenhum desses rótulos veste perfeitamente o estilo de West.

É um voo talvez alto demais, talvez cego. As faixas são grandiosas por birra, não por necessidade. Muitas delas caberiam em três minutos de duração. Só que, impertinente, West as alonga para explicitar o que elas têm de desconfortável. São paranoicas (o sucesso pode acabar num segundo). São ambiciosas (o céu é o limite). “Estou perdido no mundo”, ele reconhece, na penúltima faixa do disco, ao som de um sampler fantasmagórico de Woods, de Bon Iver.  A última canção, quase uma vinheta, atende por Who will survive in America. Sobreviver é a questão.

Goodnight, cruel world, I see you in the morning.

Voltando à minha relação com os cinco instrumentos musicais, reparo que álbuns assim – álbuns que não se aguentam dentro do pop, que querem quebrar as paredes do quarto – se comunicam com o meu desejo adolescente de encontrar sons para sentimentos que eu não conseguia decodificar de outra forma. Nessa tentativa, fracassei de todas as formas. Fracassei e fracassei feio. Eu e meus garranchos, minhas fitas toscas e ruidosas. Kanye West, porém, é desses que triunfam quando menos se espera. Um homem estúpido, egocêntrico, frívolo, uma celebridade em crise – tudo isso talvez seja verdade. Mas, neste momento, invejo o monstro terrivelmente.

Quinto disco de Kanye West. 13 faixas, com produção de Kanye West e outros. Lançamento Roc-A-Fella, Def Jam Records. 9/10

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Os discos da minha vida (10)

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Que coisa mais enfadonha esta saga dos discos que massacraram os meus sentimentos e violentaram a minha vida, não? Eu estou começando a concordar que já foi mais divertido.

Então vamos depressa que o calvário logo acaba.

Por minhas contas, ainda vai levar alguns meses, talvez muitos meses, possivelmente uma eternidade, mas… Preste atenção: pode ser que, num dia belo (e de sol), eu decida postar a lista completa dos 100 discos, abandonar o blog, correr pra praia e abrir um quiosque de mate, sanduíche natural e água de coco. Que a vida é só uma.

Por falar em vida, o post de hoje trata de discos que mexem com memórias doloridas e, portanto, eu preferiria simplesmente ativar o f**a-se e escrever zero caracteres sobre eles. Posso? Não posso? Isso quebra uma regra? Seria deselegante? Então ok, mas vou tentar ser frio e bruto. E forte. Que melancolia é coisa de macho.

Você pode fazer o download dos álbuns mas, nesses casos, não recomendo. Sério: é tudo muito triste, você vai se sentir mal, eles vão estragar seu dia, vão ficar te espezinhando e você não precisa disso. Prefira algo mais ameno. Prefira música de elevador. Que estamos num feriado.

082 | A ghost is born | Wilco | 2004 | download

Tem gente que considera este disco um estorvo: é blasé, é gélido, é artsy (no mau sentido) e em alguns momentos soa tão polido quanto um álbum do Fleetwood Mac. Eu, que nada tenho contra os discos do Fleetwood Mac, não posso me manifestar contra ou a favor dessa corrente do mal. A ghost is born é o disco do Wilco que não consigo avaliar racionalmente. A trilha sonora do meu longo namoro que deu errado também é um álbum que parece falar um pouco sobre o menino triste e inseguro que eu sempre fui. “O seu objetivo de vida era ser um eco”, diz Jeff Tweedy em Hummingbird. Sei como é. No mais, vou dar uma de Godard: no comments. Top 3: Handshake drugs, Spiders, Hummingbird.

081 | Songs from a room | Leonard Cohen | 1969 | download

Logo depois que descobri Leonard Cohen (graças a uma música do Nirvana, Pennyroyal tea), tratei de comprar quase todos os discos dele. Meu plano era ouvir todos de uma vez só, mas fiquei semanas preso a este aqui. Não é o melhor (eu recomendaria Songs of love and hate, de 1971, ou o primeiro, Songs of Leonard Cohen, de 1967), mas passa uma impressão de intimidade que Cohen nunca superou. Para mim, foi quase fatal: descobri essas canções quando eu era um moleque infeliz com uma grave tendência a achar que o meu futuro seria um quarto apertado, sem mobília e com paredes brancas. Voltar a este disco (e a esta época)? Não, obrigado. Top 3: Bird on the wire, The partisan, Tonight will be fine.

Os discos da minha vida (8)

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Após um breve intervalo, voltamos a apresentar a história dos discos que, digamos assim, deram uma rasteira na minha vida. Um ranking sentimental, particular, por vezes constrangedor, que eu deveria ter escondido junto com os desenhos que eu produzia (porcamente) aos oito anos de idade.

No episódio desta semana, o narrador encontra dois álbuns que ajudaram a moldar o gosto por canções ora confessionais, ora delirantes. Ele próprio, ao bater o olho no post, se surpreendeu: “isso explica tudo!”, exclamou. E explica sim. 

086 | Electro-shock blues | Eels | 1998 | download

Mark Oliver Everett escreveu as canções de Electro-shock blues logo após o suicídio da irmã e a descoberta de que a mãe sofria de câncer em fase terminal. Nessas condições, como gravar um disco de rock? Mark faz o que pode: abre a porta de casa e nos convida a compartilhar um segredo terrível. Ainda hoje me impressiono com essa sonoridade em carne nua: é desconcertante como Mark transforma a dor em melodias sem norte, quebradiças, com um quê de Tom Waits e outro de Neil Young – e alguma esperança torta. Um álbum todo fraturado, imperfeito, doméstico, que trava um pacto de sangue com o ouvinte. Hard listening, e infinitamente triste. Mas, em retrospecto, mostra a música pop como uma barra de segurança onde às vezes nos apoiamos quando as coisas deixam de fazer sentido. Top 3: My descent into madness, Dead of winter, Last stop: this town.

085 | Sheik Yerbouti | Frank Zappa | 1979 | download

Zappa gostava de dizer que fazia “dumb entertainment”. Não discordarei dele (estamos falando do sujeito que em 1968 gravou We’re only in it for the money). Álbuns como este são picaretagens assumidas: numa época em que precisava de dinheiro para bancar os projetos mais experimentais, o guitarrista fez discos que esperavam dele, tão grosseiros (e até estúpidos) quanto generosos e engraçados (na medida do possível). Dessa fase oportunista e irresistível, Sheik Yerbouti é o meu favorito. Mas há um motivo mais forte para ele ter entrado nesta lista: foi o primeiro disco do Zappa que ouvi, e ele imediatamente me ensinou que, no rock, delirar é permitido. Quem conhece este disco entende por que admiro sandices como Deerhoof e Fiery Furnaces. Top 3Dancin’ fool, Flakes, Bob Brown goes down.

The suburbs | Arcade Fire

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As tardes na minha quadra eram as tardes mais silenciosas.

Eu chegava da escola e ficava deitado na cama olhando para o teto. Nenhum barulho.

Eu voltava da rua e ficava deitado na cama olhando para o teto. Nada.

Eu adoecia e passava o dia inteiro deitado na cama olhando para o teto. E a quadra lá embaixo.

Teve o dia em que eu me ajoelhei na cama para olhar da janela as crianças brincando de basquete lá embaixo. Eu morava no terceiro andar e raramente descia.

E o silêncio. Teve aquele dia em que o garoto (que eu não conhecia) gritou “o mundo tá acabando!”, e depois contaram aos vizinhos que ele era louco. Não se preocupem que ele é louco, o garoto, o coitado do garoto, o mundo não está acabando, sem grilo, ele é louco.

E o início da minha adolescência foi assim: silêncio, silêncio, silêncio, loucura (dos outros), silêncio (da quadra).

Então não acontecia quase nada. Eu e as minhas centenas de atividades, mas o que ficou foi a lembrança daquela quadra silenciosa. Daí que, em vez de pular da janela, eu ficava escrevendo. E lendo: Salinger, Goethe, Conta comigo, O senhor das moscas e outros livros sobre meninos prontos para pular da janela (no caso de O senhor das moscas, acho que nem havia janela, havia?).

Depois cresci e lamentei – quanto tempo perdido! Vivi intensamente dentro dos meus livros e dos meus discos e dos filmes e da minha cabeça. Como se isso tudo bastasse (não bastava). Wasted hours. Eu era um menino tão melancólico que, quando lembro, quase dói.

Passei este fim de semana ouvindo The suburbs, o terceiro disco do Arcade Fire, e foi como se eu tivesse sido atirado novamente àquele estado de espírito, àquela cama, àquele quarto, àquele apartamento, àquele prédio e àquela quadra silenciosa. Perdão, amigos: este é um texto mais pessoal do que vocês gostariam.

Desconfio que seja um álbum poderosíssimo para meninos e meninas melancólicos. Perigoso, até (como O apanhador no campo de centeio é, sim, um perigo, estive lá!). Eu, que já estou noutra (e hoje sou um adulto quase seguro de mim mesmo, quase saudável, quase pronto para ter um filho e mudar o mundo), o admiro como uma obra sobre um período, sobre uma fase da vida, um disco que consegue se aproximar dos sentimentos de quem cresce trancafiado em quadras silenciosas (no caso mais específico do disco, em subúrbios confortáveis, organizados e medonhos).

Os personagens têm tudo e não têm nada, têm tudo e ainda não sabem o que querem, têm todo o silêncio do mundo à disposição. E não se movem (apesar do desejo intenso, quase louco, por movimento, por ruptura, por uma vida diferente). “Nós costumávamos esperar por um tempo que nunca chegou”, resume Win Butler, nosso narrador-protagonista, amargo e desiludido e olhando para o teto.

No álbum de estreia do Arcade Fire, Funeral, de 2004, a morte acendia e apagava as luzes da vizinhança – era a ameaça que varria o cotidiano, e ela estava lá. Neon bible, de 2007, era uma viagem a um mundo de pesadelos (e de goth rock oitentista, meio maçante e tedioso). Menos surreal, The suburbs soa como uma continuação dos temas de Funeral, mas com uma diferença cruel: em Funeral, a tristeza era provocada pela perda de pessoas queridas. Em The suburbs, o desespero aparece com a dificuldade de seguir com a vida, de escolher um futuro, de pegar as chaves do carro e sair.

“Quando as primeiras bombas caíram, nós já estávamos entediados”, explica Butler, na faixa-título (que praticamente resume o universo do disco). E continua: “Os meninos querem ser durões. Mas nos sonhos estamos ainda gritando.” E continua: “Todos os muros que eles construíram nos anos 70 finalmente caíram. Eles não significaram absolutamente nada.”

E (que pancada!) é só o começo de um álbum que vai à estratosfera sem sair do quarto.

Butler é dos nossos: acompanha os personagens com a autoridade de quem viveu sensações parecidas (e quem não viveu?). Desde a primeira música, estamos com ele. Não há movimentos em falso. Desta vez, o Arcade Fire nos ganha por uma questão de cumplicidade. A banda está do nosso lado (está no nosso mundo) mesmo antes de decidirmos se queremos ou não acompanhá-la. Butler canta para a própria geração, para os meninos e meninas da América (e do Canadá, e da minha quadra silenciosa). Canta para uma multidão que provavelmente retribuirá em estádios lotados e com olhos cheios de lágrima.

É esse tipo de disco.

E o que ainda me impressiona (e já ouvi o álbum mais de uma dezena de vezes) é como esse laço que a banda cria com o público acaba por anular quase todas as fraquezas do disco. E (como não?) há fraquezas. É um álbum excessivamente longo, para começo de conversa. Que deixa a impressão de que três ou quatro faixas poderiam ter virado lados B de singles. É um álbum musicalmente conservador – que, no máximo, arrisca alguma combinação de Bruce Springsteen com Brian Eno e David Bowie fase Low (e quem fez isso recentemente? Quem? Quem? Cold-o-quê?). É uma dessas óperas-rock que não vão longe demais.

(Aliás, é curioso que Butler tenha falado nos “muros dos anos 70”, já que este disco inteiro parece criado com tijolinhos do rock dos anos 70, do punk de Month of may ao prog de Suburban wars ao soft rock de Modern man ao stadium rock de City with no children e ao clima new-wave de Mountains beyond mountains, que é quase uma versão lo-fi de Heart of glass).

Mas, é claro, é um disco que quer conquistar o mundo. E, hoje em dia, quantos discos querem conquistar o mundo? Não que isso seja mérito (e revistas como a Rolling Stone vão tentar convencê-los de que é sim um mérito). Eu mesmo prefiro os discos que não querem conquistar o mundo (ou que desprezam essa ambição muito ultrapassada, tão mid-eighties). The suburbs é Joshua Tree, é Born to run, é Use your illusion, é (sim, engulam) Viva la vida e é todos esses álbuns-monumentos family-size, grandes demais para nossos mundinhos. Estátuas de pedra, entertainment, quase autoparódia.

O fator-estranheza, no caso de The suburbs, é que esse porte épico parece contradizer um discurso introspectivo. Os hinos do Arcade Fire são frágeis e tristes, são hinos para consumo individual, hinos em cápsulas, hinos dos solitários. Mas, antes que eu cometa um erro muito feio (e eu já ia cometendo), devo notar que essa aparente contradição acaba se convertendo em força. Já que as melodias parecem ecoar os sentimentos gigantescos de personagens pequenos. The suburbs é, se prestarmos atenção, o som dos desejos que não se concretizam.

Um disco planejado para soar mundano (a faixa de abertura, por exemplo, é até contida para os padrões da banda; idem para Deep blue e Wasted hours) e espetacular. Talvez um salto maior do que as pernas, mas um salto. Talvez não funcione totalmente, mas eles tentaram.

Mas – como eu disse e repito – nenhuma dessas questões conceituais soa mais decisiva do que a forma como o discurso do Arcade Fire se infiltra em nossas vidas, em nossas lembranças, em nossas aflições. Não existe conclusão em The suburbs porque nossas vidas também são imprecisas. E, se o disco parece se movimentar em círculos (com trechos de melodias e de versos que se repetem), é que estamos sempre retornando às nossas casas, aos nossos antigos problemas, aos nossos sonhos mortos, às nossas frustrações e à nossa adolescência.

É que, de vez em quando, ainda nos pegamos deitados na cama olhando para o teto e decepcionados e melancólicos e sem ter para onde ir e o silêncio lá fora. Mesmo adultos. Não é simples como parece.

Terceiro disco do Arcade Fire. 16 faixas, com produção de Markus Dravs e Arcade Fire. Lançamento Merge Records. 8.5/10

Before today | Ariel Pink’s Haunted Graffiti

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Ariel Marcus Rosenberg tem 31 anos e nasceu no dia 24 de junho de 1978. Eu tenho 30 anos e nasci no dia 25 de julho de 1979. Isto é: não somos exatamente irmãos gêmeos, mas há um cordão invisível que nos une. Há sim. Nós dois, talvez na mesma época, fizemos loucas viagens ao mundo mágico do pop doméstico.

Não é incrível?

É claro, há algumas (pequenas) diferenças entre nós dois: eu gravei umas 20 fitas-cassete incrivelmente toscas, prestei vestibular, consegui um emprego, encostei a guitarra e hoje economizo cada centavo para pagar o aluguel e a tevê a cabo. Já Ariel Pink gravou umas 500 músicas lindamente toscas, fez amizade com o Animal Collective, assinou contrato com o selo 4AD, foi a Abbey Road e, no fim do ano, estará em um punhado de listas de melhores discos de 2010.

Mas voltemos ao mundo mágico do pop doméstico, ok?

A sonoridade de Ariel Pink — mais lo-fi do que o lo-fi — me transporta para 1999, 2000, quando descobri como transferir minhas canções para o computador e, depois submetê-las a cirurgias digitais tortuosas, transformá-las em criaturas esquisitas. Elas continuaram soando incrivelmente toscas, só que também muito bizarras.

Minha carreira musical tornou-se tão obscura quanto a dos candidatos rejeitados nas primeiras sabatinas do American idol. Eu não deveria estar me comparando a um ídolo indie que, de acordo com o Wikipedia, faz “outsider music”. Mas só forcei a barra para explicar que o estilo de Ariel não é uma novidade efêmera (repito, princemaníacos: 1999!) nem algo exatamente original, que surgiu como uma faísca de vida em Saturno. Aos meus ouvidos, soa como uma evolução daqueles testes muito inocentes que eu, Ariel e milhares de outros adolescentes desocupados fazíamos em nossos PCs antiquados.

Entre 2004 e 2008, Ariel lançou uma série de discos longos (cada um dura em média 60 minutos) e desarranjados que são mixtapes cujo objetivo é recriar essa pré-história do indie-digital-de-garagem-suja. Admito que tentei ouvir um desses discos e parei no meio: são experimentos tão particulares que me lembram das primeiras gravações do Pavement. É como se Ariel gravasse por tentativa e erro, sem destino, sem ambições, procurando um som que não sabia bem se conseguiria encontrar.

Mas encontrou. Daí a importância de Before today, que congela essa descoberta em 12 faixas adoráveis que soam como resíduos do apocalipse digital. É como se um vírus perverso resolvesse corromper e embaralhar uma playlist composta por cacos de pop oitentista, soul music dos anos 1970 e rock psicodélico dos anos 1980.

Nos primeiros discos, Ariel soava confuso. Agora, soa como se estivesse no controle de um estilo que, entre outras propriedades, desorienta quem ouve. É um grande avanço.

Cada pedacinho das canções parece estar no lugar certo (e, pela primeira vez, o compositor é acompanhado de uma banda muito afiada, que entra na brincadeira), ainda que o efeito do disco seja o de uma obra espontânea, uma jam siderada. A comparação parece absurda, mas Ariel joga no mesmo time do velho Bob Dylan e do jovem The XX: antes de se preocupar com canções, eles criam atmosferas que remetem a determinados períodos do passado do pop.

Ariel também tem algo em comum com o Super Furry Animals de álbuns ensebados e “datados” como Love kraft e Hey Venus. Mais do que remeter a ídolos da psicodelia, o vocalista tenta reprisar o espírito sacana e mutante de discos do T-Rex, de David Bowie e do Love. Daí que, quando as guitarras explodem em Butt-house blondie, elas nos lembram menos de noise pop e mais do som caloroso (mesmo quando pouco barulhento) de antigos vinis. E o discurso andrógino de Menopause man bate como uma ousadia perdida no tempo, como que tirada de uma cena perdida de Hedwig and the Angry Inch.

O mais divertido, no entanto, é quando Ariel leva uma mochila de vanguarda ao estúdio Abbey Road e sai de lá com Round and round. Uma canção áspera e doce. E tão bonita que me deixou com vontade de desenterrar minhas antigas fitas-cassete e — coragem! — ouvi-las mais uma vez.

Disco de Ariel Pink’s Haunted Graffiti. 12 faixas, com produção de Sunny Levine, Rik Pekkonen e Michael Wagener. Lançamento 4AD. 8/10

Nothing hurts | Male Bonding

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Quando eu era um rapazinho que usava blusas de flanela e lia quadrinhos do Batman, lá na metade dos anos 90, uma multidão de roqueiros gringos sonhava em surpreender o mundo com um momento-Nevermind. Você olhava lá longe e ainda via a fila de candidatos à Grande Guinada: revelações indie dispostas a, subitamente, escalar a parada da Billboard com um álbum de rock tão poderoso (e apaixonante) quanto profundamente sincero (e, às vezes, amargo).

Na época (e não se sinta velho: não faz muito tempo!) ainda havia alguma romantismo nesse plano de dominação mundial. Que maravilha: ser íntegro e popular, ahn?

Discos como Nothing hurts, do Male Bonding (e, antes dele, Nouns, do No Age, Post-nothing, do Japandrois e tantos outros) mostram que, hoje, uma geração de bandas prefere sonhar com, digamos, um momento-Bleach. Nada mega, nada ultra, nada uber: tudo o que elas almejam é o apreço de um selo indie que permita o parto de álbuns curtinhos, ruidosos, sem ambições comerciais e profundamente sinceros.

1989: o ano que não terminou.

Talvez contaminado pelo espírito da minha adolescência, eu ainda prefiro Nevermind a Bleach. E costumo valorizar as bandas que tentam ampliar o público, sair da caverna, sem abandonar a dignidade. Mas, quando penso muito friamente nisso tudo, não consigo negar que a atitude intransigente e introspectiva que se costuma encontrar no circuito indie combina com um tempo em que a mise-en-scene do showbusiness e das majors soa como uma paródia de si mesmo.

A principal questão não é “como faço para gravar um novo Nevermind?”, mas simplesmente “por que gravar um novo Nevermind?”.

A estreia do Male Bonding foi lançada pela Sub Pop, que também vai distribuir o disco novo do Wolf Parade. Nos dois casos, o selo de Seattle teve que sair da América para encontrar bandas que, de uma forma ou de outra, dão prosseguimento à sonoridade áspera e garageira que associou-se ao selo no início dos anos 90. A história se repete, mas como?

O caso do Male Bonding, um trio londrino de noise-pop, é o mais impressionante de todos: em algumas faixas, eles soam como uma releitura tão fiel do pré-grunge que dá arrepios. Jorros de guitarras agudas em canções de dois minutos, com refrões que grudam na orelha e confissões juvenis como “nada vai mudar, tudo continua igual” (All things this way tem 1 minuto e meio e é a melhor do disco). E dá-lhe feedback.

É claro que, como acontece com o Surfer Blood, a banda prova alguns dos sabores da estação: o rock ‘n’ roll sixties (Weird feeling lembra um pouquinho os Beatles de Please please me) e o pós-punk com molho exótico e tropical (Pirate key cheira a Vampire Weekend), tudo condensado em 30 e poucos minutinhos que passam tão rapidamente (e provocam tantas sensações nostálgicas) quanto um episódio de That 70’s show. That 90’s show, melhor dizendo.

É um disco muito decente, compactado a um formato típico da Sub Pop (pílulas noise para consumo rápido e repetidas audições), mas que me deixa torcendo para que esta banda comece a sonhar com um momento-Nevermind. Quem sabe, né? Não custa nada.

Primeiro disco do Male Bonding. 13 faixas, com produção de Pete Lyman. Lançamento Sub Pop Records. 7/10

Measure | Field Music

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Entre os meus 15 e 17 anos de idade, escrevi cerca de 200 músicas. Curtas e longas, alegres e tristes, algumas verdadeiramente radicais (lembro que, entusiasmado com um novo software, tentei cruzar grunge com trance), outras confessionais, singelas. Todas sofríveis. Muitas das canções foram gravadas em fitas-cassete. Volta e meia, ouço tudo novamente, meio constrangido com o meu passado. Mas fico aliviado. Esses registros lo-fi são a prova concretíssima de que não cometi um erro que poderia ter me transformado num sujeito miserável: não superestimei meu dom para a composição.

É que, para quem começa a arranhar o violão, criar canções parece algo até simples. Sei de pessoas que se orgulham de repertórios mais vastos que o meu. 500, 600 músicas. Todas inéditas, à espera de algum afago, de reconhecimento tardio, de um tapinha nas costas. Eu não tenho ilusões. Aposto que, aos 15 anos, Kurt Cobain já conseguia converter desespero em diamante. O petiz Elliott Smith, não duvido, fazia os primos chorar com interpretações agoniadas para Happy birthday. Eu, no máximo, usei acordes primários como escape para tristeza (quase sempre despropositada) e tédio. Tudo o que fiz foi um longo diário sonoro (e eu cantava terrivelmente mal).

Conheço bandas iniciantes que cabem nesse relato sobre a minha modesta aventura no universo do bedroom rock. É a mesma história. São esforçadas, prolíficas e (infelizmente!) desprezíveis. A elas recomendo Measure, o terceiro disco do Field Music. Um álbum que esfrega na nossa cara a tal verdade inconveniente. Existe sim uma matemática da música pop (que soma carisma, conceitos espertos, timing, malabarismos estilísticos, “atitude”), mas, quase sempre, ela nos leva a um denominador muito simples e muito abstrato: alguns têm talento para a coisa, outros não.

E alguns têm talento extraordinário para o que há de básico na arte da canção. É o caso dos irmãos David e Peter Brewis, o “núcleo duro” do Field Music. Eles praticam um estilo que parece destoar de tudo o que está na moda, tanto no nicho indie como nas rádios: discos como Tones of town, de 2007, e Measure poderiam ter sido lançados em 1979, em 1989 ou em 1999. São álbuns que permitem fácil classificação (pós-punk, indie rock, garage britânico) e que não pedem para ser valorizados pela ousadia do conceito, pelas experimentações formais. Soam até conservadores, talvez um tanto nostálgicos, mas, acima de tudo, desprendidos do tempo em que foram produzidos.

Nada retrô nisso — eles soam simplesmente despreocupados com o mundo ao redor. Uma questão de temperamento. O ouvinte é que deve se adaptar à discrição da banda, que se especializou em criar arranjos sinuosos (às vezes complicadíssimos) para canções que parecem mais simples do que são. Numa das faixas deste novo disco, Something familiar, eles até brincam com essa aparência ordinária: “Sempre encontro uma forma de complicar as coisas. Não é nada difícil ser complicado.” Eles fazem isto: descomplicam.

Essa obsessão por estruturas familiares de canção pode provocar alguns mal-entendidos. Para os iniciantes, Measure periga parecer fácil demais. Sei que isto é um blog e leitores de blog curtem amores à primeira audição, paixões explosivas, mas sei também que os leitores deste blog são inteligentes e curiosos o suficiente para, neste caso, dar pelo menos cinco chances ao disco, pacientemente, antes de tirar conclusões. Ele tem 20 canções que, na melhor tradição de um Guided By Voices e de um Sea and Cake, se instalam na nossa vida quando estamos prestes a descartá-las para sempre.

Até para quem acompanhava o Field Music com interesse, Measure soará um tanto surpreendente. Nem parece o retrato de uma banda que, há poucos anos, parecia prestes a desmontar (David e Peter pareciam mais entusiasmados, respectivamente, com os projetos School of Language e The Week That Was). Sem tapa-buracos, este álbum duplo tem o tamanho exato para fazer justiça a uma fase de alta produtividade. São poucas as bandas que conseguem justificar esse formato widescreen: mas, como o Frank Black de Teenager of the year, o Field Music nos convence com uma justificativa simplezinha — as canções eram boas demais.

Claro que não é só isso: conhecedores que são da história do rock, David e Peter fazem um inventário sutil de todos os gêneros que os influenciaram, do soft rock ao pós-punk, do folk à música abstrata, de Pixies a The Who. Nas primeiras 10 músicas, o disco se desenrola como uma continuação direta de Tones of town: com polidez e ironia tipicamente britânicos, um artesanato impecável (a irresistível In the mirror, com guitarras que choram e versos existencialistas, é uma aula para qualquer novato em rock), vocação literária (uma das canções se chama Let’s write a book) e sem o menor esforço (a faixa-emblema se chama Effortlessly). Finíssimo — e seu pai, que tem muito bom gosto, ouviria numa boa.

Na segunda metade, a banda aproveita as liberdades típicas de um álbum duplo, perde a medida e supera tudo o que já gravou — quase como numa mini ópera do The Who, as canções parecem narrar uma trama com leve tom de rock progressivo, à Pink Floyd (You and I é belíssima), e de psicodelia sessentista à Love (First comes the wish, The wheels are in place). Influências que aparecem mais na estrutura das canções e menos na atmosfera do disco, que passa longe da grandiloquência ou da psicodelia cool que está em voga.

Veja: Measure é um disco que pode ser defendido assim, com argumentos organizadinhos num texto de blog. E que provavelmente será desprezado por parte da crítica, tratado como um álbum ultrapassado e corretinho demais. Ok. Entendo. Mas nada explica de onde vem a força elementar dessas canções: algo que David e Peter têm e nós, meros compositores dedicados e quase eficientes, nunca teremos.

Terceiro disco do Field Music. 20 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Memphis Industries/Revolver. 8.5/10