Mickey Rourke

2 ou 3 parágrafos | Homem de Ferro 2

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A trilha sonora de Homem de Ferro 2 (2.5/5) é, em grande parte, uma compilação de sucessos do AC/DC. O que me parece uma escolha muito apropriada para um filme de ação que soa como um concerto recente da banda australiana: um espetáculo ensurdecedor para o papai e o filhinho, cheio de efeitos pirotécnicos, com um band leader zureta (Robert Downey Jr, nosso Brian Johnson), um coadjuvante mais alucinado ainda (Mickey Rourke, nosso Angus Young) e um script tão inofensivo e mecânico quanto os especiais de hard rock transmitidos pela VH1.

Mas eis que, lá pelas tantas, aparece Robot rock, do Daft Punk. A música é uma brincadeira irônica, muito francesa, com clichês do rock setentista. Se o filme seguisse esse rumo (e poderia ter seguido, já que a performance blasé de Downey Jr aponta para essa direção), eu ganharia o dia. Mas este não é o meu filme, não é o filme dos meus sonhos, não tem quase nada a ver comigo, e Jon Favreau está longe, muito longe de um Paul Verhoeven.

Ficamos assim: menos, bem menos Daft Punk; mais, bem mais AC/DC. Menos sarcasmo e sutileza (melhor: sutileza nenhuma), mais profissionalismo bem-intencionado. Entendo o sucesso do filme, principalmente entre os fãs de quadrinhos que cobram cineastas invisíveis, que de preferência não se metam no caminho dos personagens e da trama. Já contei para vocês que cochilei no meio de um show do Simply Red? Pois bem: se fosse uma love story, Homem de Ferro 2 seria um show do Simply Red.

O lutador

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wrestler

The wrestler, 2008. De Darren Aronofsky. Com Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood. 115min. 8/10

Até ontem, eu queria ver Mickey Rourke ganhando um Oscar só para dar uma espiadinha na reação do Rubens Ewald Filho, que insiste naquele papo frouxo de que Hollywood quer circo, Rourke é o palhaço da vez e Benjamin Button é uma obra-prima sobre o tempo que passa e (meu deus, tão triste) não volta mais. 

Hoje eu quero ver Mickey Rourke ganhando um Oscar por outro motivo: entre os cinco indicados, ele me parece de longe o mais forte. De longe. E já vi tanto Milk (uma ótima atuação de Sean Penn) quanto Frost/Nixon (Frank Langella merecia um… Emmy?). Li que o papel de Randy “The Ram” Robinson quase parou nas mãos de Nicolas Cage. Teria sido um filme extremamente diferente deste que vemos hoje.

Impossível calcular o valor daquilo que Rourke agrega ao filme: dignidade? O mais impressionante, no caso, é como o ator cede generosamente a própria imagem pública ao personagem. Talvez ele não tenha muito em comum com Robinson (mas sabemos da traumática passagem de Rourke pelos ringues, por exemplo), mas permite que acreditemos no contrário. A partir da primeira cena, assistimos a uma comunhão visceral entre personagem e ator. O filme está ganho por nocaute quando Rourke aparece na tela pela primeira vez.

O quão raro é isso? Na trama, Robinson é um homem largado no limbo da sociedade, obrigado a abandonar o único talento (a luta ensaiada, à telecatch) por problemas de saúde. Para qualquer ator, seria uma tarefa no mínimo complicada evocar essa sensação de solidão, de uma vida que instantaneamente perde todo o sentido quando os holofotes se apagam. Rourke encarna esse sentimento de desamparo sem o menor esforço. Não que ele tenha nascido para intepretar o papel, mas o ator é capaz de compreender profundamente as experiências e frustrações de Robinson.

Rourke carrega o peso do filme nas costas. O espectador sente. E, com o auxílio do ator, Darren Aronofsky dá continuidade ao cinema físico de Réquiem para um sonho, obcecado pela degradação do corpo, o choque carnal, o corte na pele. Numa das primeiras cenas, Robinson rasga a testa com uma gilete. O espetáculo dos ringues é falso e sabemos disso – mas os atores desse circo saem marcados, pagam o preço.

O corpo como performance. O roteiro de Robert D. Siegel, nesse sentido, não poderia ter sido mais explícito (quase didático, aliás). A pessoa mais próxima de Robinson é uma stripper (interpretada por Marisa Tomei, também excelente). E o maior dilema do protagonista é participar ou não de uma luta pouco depois de sofrer um dano no coração. 

O filme lida com os limites físicos e emocionais dos personagens, e o faz de uma forma direta, com câmera na mão e uma falsa aparência de urgência em cada cena. Aronofsky ainda se deixa levar por certos artifícios (comparar o primeiro dia de trabalho de Robinson num balcão de frios com a entrada no ringue = chover no molhado) e o roteiro de Siegel, ainda que tome um caminho realista, penaliza exageradamente o personagem como recurso para reforçar a catarse do clímax (a referência de A paixão de Cristo não é em vão; já a relação entre Robinson e a filha se aproxima perigosamente de um dramalhão à Rocky Balboa).

Mas tudo isso, esses detalhes, esses chavões, esses truques, só começam a chatear depois da exibição. Nas duas horas de filme, somos simplesmente cúmplices da via crúcis de um personagem e de um ator – que parece existir de fato, que machuca verdadeiramente, rende cicatrizes e, por isso, não nos deixa em paz. 

Mel Gibson tem muito a aprender com Darren Aronofsky, afinal. Não é um grande diretor. Mas, em O lutador, ele encontra o elemento que faltava a seus longas anteriores: força vital. Culpa de quem mesmo?