Micachu

Jewellery | Micachu and The Shapes

Postado em

micachuMica Levi é uma inglesa de 21 anos que não quer ser Lily Allen. Nem Amy Winehouse. Talvez prefira ser conhecida uma versão reformulada, atualizada de Kim Deal. O que, em tese, parece uma notícia extraordinária (sempre cabe mais uma Kim Deal no mundo pop).

Tal como a vocalista do Breeders, Mica se interessa por canções econômicas e encardidas, esboços de hits interpretados com rispidez herdada do punk. Os versos renderiam posts do Twitter – aposto que têm menos de 140 caracteres. O álbum vem com 13 faixas, dura pouco mais de 25 minutos e sofre de desvio de atenção.

Para escrever este textinho aqui, ouvi o disco cerca de 350 vezes. Não foi difícil. As ideias de Micachu são tantas – e a velocidade com que são executadas é tão acelerada – que as faixas se desintegram antes que comecem a fazer algum sentido.

A uma certa distância, esse estilo supersônico pode lembrar o pós-punk-em-cápsulas, breve mas altamente nutritivo e provocativo, que o Pixies produzia no início da carreira. Ou o primeiro EP do Yeah Yeah Yeahs. É um álbum alérgico a clichês – impossível, mesmo depois de centenas de audições, formar um retrato completo de Micachu. Ela escapa de nossas mãos.

Mas o que faz dela um hype tão barulhento no mundinho do rock independente? O apadrinhamento de Matthew Herbert, gênio excêntrico da eletrônica, vale como cartão de visitas. Mas talvez o acessório mais caro no figurino da musa pós-tudo seja o despudor: para ela, a música pop é antes de tudo um jogo, uma atividade de lazer.

Micachu tem a espontaneidade (ou, antes disso, a aparência de espontaneidade, já que o produtor Herbert sabe muito bem onde pisa) que falta a outras candidatas à área VIP indie. A fome com que avança em minúsculos emoticons da cultura pop (várias das canções soam como mash-ups de hardcore com trilha de desenho animado) remete a M.I.A, a Santigold e outras mutantes.

Até aí, como não entrar na onda? Jewellery tem a coragem de testar formatos mínimos para canções que poderiam ser trabalhadas como sucessos de rádios (dois exemplos: Just in case e Golden phone, além de Calculator, que soa como um remix punk para uma faixa perdida do Kraftwerk). E é conciso, inclassificável, mesmo quando as experiências convencem apenas como experiências, sketches.

Numa entrevista à Time Out, Micachu define esse som como pop. “Mas não sei exatamente o que é. Quando estou interessada em algum estilo, como garage ou R&B, tento escrever músicas parecidas às que gosto de ouvir”, diz. A estreia dá um close nesse processo ainda incompleto. Obra em construção. Até o dia em que resolvam fazer dela a nova Lily Allen.

Espero que leve tempo.

Primeiro álbum de Micachu and The Shapes. 13 faixas, com produção de Micachu e Matthew Herbert. Rough Trade/Accidental Records. 7/10