Meus onze anos

Superoito e as memórias perdidas

Postado em Atualizado em

Meu padrasto está perdendo a memória. Não sabemos exatamente por que. O drama começou há alguns meses, quando ele passou a esquecer o caminho de casa. Depois foi piorando. Nas semanas seguintes, aquele homem sério e alto repetia frases inteiras, perdia as chaves, se atrasava em compromissos, alimentava os cães quando os bichos já estavam empapuçados. Em alguns momentos, ele próprio percebia que algo estava errado na forma desajeitada como lidava com situações triviais. Nessas horas, abria um sorriso envergonhado, meio torto, e era como se tivesse rejuvenescido de uma forma constrangedora.

Foram dias difíceis. Minha família é pequena e, talvez por isso (mas não somente por isso), dependemos intensamente uns dos outros. Cumprimos papéis fixos na aventura do nosso cotidiano, que não é lá muito excitante. Minha mãe é o coração da casa (sempre perto de explodir de emoção), minha irmã é a angústia em pessoa, eu sou filho responsável, bem-humorado e incrivelmente sortudo. Meu padrasto, que sempre tratei como pai, é o cérebro desse organismo — o provedor das decisões racionais que colocam nossa rotina nos eixos.

Quando a memória do meu padrasto começou a derreter, a família trincou. Por pouco caiu em pedaços. Parecia que estávamos todos adoentados. Ficamos perplexos por alguns dias e, quando percebemos que nada daquilo era uma espécie de pesadelo passageiro, começamos a procurar explicações. Todas as possibilidades nos tiravam o sono: a causa do problema poderia ser aquela doença terrível ou aquela outra doença incurável. Poderia ser indício de um mal assustador ou sintoma de um outro tipo de fardo cruel.

Esperamos o resultado dos exames e, quando eles vieram, descobrimos que não era nenhuma tragédia. Meu padrasto estava bem. Saudável. Sofria de estresse (mas quem não sofre?) e de carência de algumas vitaminas (mas quem não sofre também disso?). Os médicos prometerem uma investigação mais detalhada e, enquanto ela não terminava, percebemos que meu padrasto aparentemente começava a recuperar parte das memórias. Tocava acordes complicados no violão. Encontrava o caminho de casa. Nos animamos com a notícia. Depois, nos deparamos com o fato de que as lembranças continuariam a se apagar. Lentamente. E sem explicação.

Continuamos a procurar as causas do problema, mas tudo o que encontramos foi um ponto de interrogação piscando em neon. O cérebro da família dava sinais de cansaço. Eu, trancado no meu apartamento minúsculo, recebia notícias desanimadoras ao telefone. Depois, novos (e empolgantes) indícios de recuperação. Nos fins de semana, eu percebia que meu padrasto estava diferente. Mais moço, num sentido não necessariamente agradável. Mais desligado. Dizem que sou um sujeito sóbrio (sempre sóbrio!) por influência dele. Mas o que teria acontecido se eu tivesse sido criado por esse meu novo padrasto, um homem tão… fragilizado?

Não faço ideia. Se meu pai tivesse meu criado, eu teria crescido um sujeito mais preguiçoso e passivo. Estou certo disso. Tenho 29 anos de idade e sou o retrato cuspido e escarrado do meu pai biológico, mas pouco me pareço com ele. Quando o vejo, dou de cara com uma versão alternativa da minha pessoa. Um espelho mágico. Um desvio que dá num lugar onde eu não gostaria de ter visitado. Com meu padrasto, funciono de uma forma diferente: o que falta em conexão emotiva, sobra em identificação. Eu sempre quis ser um adulto parecido com o meu padrasto e, talvez ele nem saiba disso!, meu padrasto sempre deu o exemplo discreta e elegantemente bem. Somos (éramos) como um par de vasos.

As memórias perdidas levaram para longe o padrasto que eu conhecia e admirava. O que, no início, foi um choque. O homem ao volante, seguro de tudo o que fazia, onde estava? No sofá, olhando para as paredes, dedilhando o violão, em crise de auto-estima, digitando longos e-mails para parentes distantes, brincando com os cães, cada vez mais dependente do auxílio da minha mãe e da compreensão da família. “As coisas vão melhorar”, ele parece nos dizer, triste com a própria situação. “Não sei quando, mas vão.”

Sabemos que não vão. Nesse período de reajustes, minha mãe assumiu a direção da casa, minha irmã encontrou paz de espírito (ainda não sei como ou onde ou se isso conta como um tipo de milagre) e eu me afastei do lar para cumprir rigorosamente minhas obrigações e, aos poucos, me transformar no homem que meu padrasto era. Não é tão fácil quanto parece. Há dias solitários em que tranco a porta, apago as luzes e, com o som de guitarras à britadeira, tento esquecer o pensamento recorrente de que minhas memórias, também elas, um dia serão poeira.

Quando isso acontecer, o que será disso tudo? O que será da minha trajetória? Tai o tormento número um, o pavor que ocupa o primeiro posto no top 5 das minhas aflições recentes. As memórias perdidas. Eu mesmo já devo ter perdido muitas delas. Não me dei conta, será? Outro dia, num desses momentos em que o mundo parece ter se vestido de onça e ninguém se entende, tentei lembrar da minha infância e se, naquela época, eu era um menino menos intransigente, mais flexível, mais paciente. Depois, num desses momentos em que o mundo parece ter se vestido de moedor de carne, tentei imaginar se, quando criança, era esse o futuro que eu planejava para a minha vida. Uma competição ferrenha pelos melhores assentos no Superdome da nossa eterna insatisfação? Não consigo chegar a lugar algum. As memórias se perderam.

O tempo passou e, depois de algumas semanas, comecei a me acostumar com a versão 2.0 do meu padrasto. Nossa relação entrou numa nova adolescência. Éramos dois estranhos até o dia em que decidimos nos conhecer. Aposto que para ele também deve ser difícil. Não sou mais menino e não tenho mais medo de trovoada e já poderia ser pai e é assim que as coisas são.

Há um lado relaxante nessa descoberta. Meu padrasto, um ser humano? Quem diria! Eu, um ser humano? Que coisa, hem! A nova lição do meu padrasto talvez seja a mais valiosa de todas. Talvez seja isso. Nos poucos fins de semana em que me encontro com ele (minha vida é trabalho), passamos horas conversando na varanda, como nunca fizemos. Lavamos os carros e brincamos com os cachorros, e às vezes dá vontade de perguntar se aquele sujeito antigo ainda vive ali dentro daquele corpo branco, mas fico quieto, pensativo. Depois de um tempo, passo a enxergar meu pai biológico no meu outro pai. E tudo fica bastante confuso. E é aí que identifico uma terceira pessoa, completamente diferente.

Por recomendação dos médicos, puxo assuntos que nos levam ao passado. E é bonito. Falamos do tempo em que eu era um moleque despreocupado e dessa fase ele lembra mais do que eu. Uma dia, ele pescou uma cena inteira. “Você subia naquelas montanhas de bicicleta. Você e seus amigos. Era um clube de garotos. Vocês faziam carteirinhas. Com fotografias e tudo. Vocês passavam o dia inteiro nas montanhas. Depois voltavam, exaustos.” E eu reconstruía aquelas imagens de um jeito que elas nunca existiram. Não lembro de nada. Está tudo perdido, perdido, perdido. Mas é emocionante saber que meu padrasto, mesmo lembrando cada vez menos, ainda assim guarda uma lembrança tão inútil e pequena relacionada a este aqui, Tiago, o menino na bicicleta subindo as montanhas.

Ele lembrava com tantos detalhes que parecia o fim do pesadelo. Ele estava curado do mal misterioso! Cinco minutos depois, no meio de outra conversa, ele voltava à história dos meninos de bicicleta, as montanhas, o clube, as carteirinhas com fotografias. Uma frase repetida com o entusiasmo de quem a pronuncia pela primeira vez. Retornamos ao começo, mas agora sem sustos: meu novo padrasto está ali, e ele até que não vai mal.