Massive Attack

Os discos da minha vida (4)

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A aventura continua: com você, mais dois para o ranking sen-ti-men-tal, quase irracional, dos discos que acimentaram a estrada da minha vida. Acredite: são 100. Garanto que, mais cedo ou mais tarde, este trem chegará ao fim da linha. Não, não estamos quase lá. Sim, ainda vai demorar. A má notícia? Quando o destino bater à porta, aposto que você olhará para trás e, pensativo, concluirá que perdeu tempo demais – uma eternidaaade – numa jornada muito improdutiva.

De qualquer forma, tome isto em consideração: do mundo nada se leva, mas aqui, neste site tão modesto e pobretão, você pode fazer o download de discos que são quase sempre decentes. A vida é ou não é boa (às vezes)?   

094 | Mezzanine | Massive Attack | 1998 | download

Mezzanine é uma das memórias mais fortes de uma período em que eu me via obrigado a “criar” os discos antes de conseguir ouvi-los. Na biblioteca da Cultura Inglesa, onde as assinaturas da New Musical Express e da Melody Maker praticamente salvaram a minha vida, eu ia construindo os álbuns na minha cabeça, torcendo para que eles aparecessem nas lojas. O do Massive Attack foi talvez o caso mais bizarro: acabei inventando um disco muito diferente daquele que conheci alguns meses depois – um disco mais mundano, mais palpável. Na época, muito se escreveu sobre Mezzanine, mas o som do álbum me tomou completamente de surpresa: uma massa compacta, escura, como que ejetada de um outro planeta, mas também adorável como as cantigas que você ouve desde criança. Lembro bem da sensação de ouvir Teardrop pela primeira vez: um hipnótico objeto voador descia no meu quarto. Top 3: Teardrop, Risingson, Group four.    

093 | Bookends | Simon & Garfunkel | 1968 | download

Os anos 60. A contracultura. O fim do mundo (como o conhecíamos). Quando pensamos nisso tudo, o que nos espera? Uma canção dos Beatles (como A day in the life), uma performance de Jim Morrison, o hino americano reinventado por Jimi Hendrix e outros símbolos que estampam matérias de jornal e documentários de tevê a cabo. Mas foi esse mesmo contexto que contaminou discos agradabilíssimos, elegantes, quase nada furiosos (e até mansos) como Bookends, a obra-prima de Simon & Garfunkel. O que se ouve é a viagem de dois bons moços por uma década que talvez eles não compreendessem muito bem – mas que, por inércia, remodelou uma sonoridade capaz de combinar tradição (em faixas caretinhas e lindíssimas como Overs e Old friends) com tentativas valentes de adaptação a mudanças (A hazy shade of winter, Save the life of my child). Não é um dos melhores discos de 1968. Mas provavelmente o que melhor define uma época de despedidas e transições. Top 3: A hazy shade of winter, Old friends, America.   

PS: Sei que é exigir muito de vocês, mas amanhã à noite, terça-feira, a mixtape de agosto (mais conhecida como “a melhor mixtape amadora de todos os tempos”) estará aqui neste bat-blog. Talvez às 22h. Espero vocês.

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Mixtape! | O melhor de fevereiro

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Pelo menos para este blog, que não é de ferro, fevereiro não foi um mês fácil. Depois do carnaval, ainda entorpecido pelo consumo desmedido de marchinhas desafinadas, este depósito de abobrinhas capotou na quarta-feira de cinzas e por pouco não saiu do buraco. Dureza, meus irmãos. O pobre coitado quase cometeu blogcídio. Sei que já vimos este filme – mas não deixa de ser um filme triste.

Pois bem: o blog agoniza, mas não nega fogo. E, já que todo fevereiro tem seu fim, chega a hora da minha obrigação mensal favorita – as coletâneas, que preparo com todo amor e carinho.

A deste mês é a mais sortida de todas (mais ainda do que a seleção de melhores de 2009, que você ainda encontra aqui, na parte 1 e na parte 2). Tem indie e soul e minimal e folk e até uma faixa alegrinha do Tindersticks com um quê de Burt Bacharach. É quase um desfile de escola de samba. Detalhe: sem modéstia, a seleção ficou muito bacana (vou até gravar num CD pra ouvir de vez em quando).

(Aliás, recomendo aos interessados que se apressem: a coletânea de janeiro durou menos de 10 dias, quando finalmente foi devorada pelo lado negro da força).

E os melhores do mês foram… O meu disco número 1 de fevereiro é o desta banda que está na foto do post, o Titus Andronicus. The Monitor é daqueles épicos exageradamente humanos. Mas vejam bem: ninguém pode virar o semestre sem ouvir os do Surfer Blood e do Local Natives. São finíssimos, bons do início ao fim. Antes que me perguntem sobre a Joanna Newsom, que entrou na mixtape (como não?), explico que estou desbravando len-ta-men-te o disco triplo da moça. Prometo um texto até… pode ser setembro?

Tai a setlist da vez:

1. Floating vibes – Surfer Blood
2. Airplanes – Local Natives
3. Paradise Circus (com Hope Sandoval) – Massive Attack
4. I learned the hard way – Sharon Jones & the Dap Kings
5. Harmony around my table – Tindersticks
6. Four score and seven (Part one) – Titus Andronicus
7. Bike (Pink Floyd) – The Hotrats
8. Stick to my side (com Panda Bear) – Pantha du Prince
9. Excuses – The Morning Benders
10. Good intentions paving company – Joanna Newsom

O link para download é este aqui: Mixtape – O melhor de fevereiro (link atualizado!).

Heligoland | Massive Attack

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Quem tem menos de 20 anos pode (e tem o direito de) desconfiar, mas havia um tempo em que o Massive Attack era uma das bandas mais importantes do planeta.

Sério. Quando lançaram Mezzanine, em 1998, Daddy G, Mushroom e 3D ainda posavam nas fotos como gângsteres emburrados, irritadiços, visionários e muito perigosos. Até eu, um inocente fã de Smashing Pumpkins e Oasis, os respeitava.

Nas revistas inglesas, pareciam intocáveis: passavam por “pais do trip hop” (o gênero mais cool na prateleira de CDs), “alquimistas pop”, “inventores da nova soul music”, “reis de Bristol”. Eram os caras que gravaram uma obra-prima precoce (Blue lines, de 1991) e dois grandes álbuns que chegavam bem perto daquela estreia (Protection, de 1994, e o próprio Mezzanine). Nas listas de melhores do ano, entravam sempre com pulseirinhas VIP.

Acredito até que, por algum momento, alguns meses, lá por volta de 1996, todo rapper sonhava em fazer uma ponta num disco do Massive Attack.

Para quem viveu os anos 90, é complicado entender por que, há 10 anos, o Massive Attack não é capaz de provocar tanta comoção. O que houve? Por que uma banda que traduzia tão bem a atmosfera de tensão e paranoia do fim de século não conseguiu sobreviver ao bug do milênio? Por que, justo no momento em que as coisas ficaram verdadeiramente confusas, eles nos abandonaram?

Sem querer encontrar o diagnóstico para a síndrome, minha hipótese é de que a musa do Massive Attack era os anos 90. O trio soube, como poucos, congelar a polpa de uma década transitória, sem identidade definida, um período de muitas incertezas e transformações velozes, às vezes inacreditáveis (e a banda nem teve tempo para entender a internet, por exemplo). O trip hop é a trilha sonora dos anos 90: uma colagem mutante, urbana, sombria e prestes a explodir.

Discos como Mezzanine e Pre-millenium tension (esse último, do Tricky) ainda soam como um réquiem para o século. Curioso é como o “novo mundo” previsto pelo trip hop acabou por destroçar o gênero. O Portishead demorou uma eternidade para lançar o terceiro disco, que só foi possível graças a um longo processo de reinvenção. O Tricky não soube se adaptar bem ao futuro e o Massive Attack acabou se desintegrando. O gélido 100th window, de 2003, soa como um projeto solo de 3D — ainda estiloso e fatalista, mas sem destino.

No álbum novo, Heligoland, eles tentam retomar uma estrada que parecia perdida desde o fim dos anos 90. Daddy G volta à cena e, agora como duo, a banda tenta retornar a uma sonoridade mais carnuda, calorosa, mais para a soul music do que para a eletrônica minimalista. É uma boa tentativa, com alguns grandes momentos. Mas, novamente, eles se esforçam para retratar um estado de coisas que não mais compreendem.

Para eles, a única salvação seria fazer justiça ao prestígio que ainda preservam junto ao público que cresceu nos anos 90. Muitos críticos vão tratar este disco com condescendência, talvez estimulados por lembranças daquela época. Ainda que nada em Heligoland dê sinais da maior qualidade do antigo Massive Attack: a capacidade de nos assombrar.

Pelo contrário. Este é o álbum mais domesticado que eles gravaram. Previsível na escolha dos convidados da vez (se bem que Horace Andy, Hope Sandoval e Damon Albarn mostram muito bem a saudade que este disco sente dos anos 90), mas o mais próximo que eles chegaram do pop. A faixa de abertura, com participação de Tunde Adebimpe (TV on the Radio), explica tudo: começa como um mantra à Protection e logo facilita nosso trabalho com um trecho melodioso que quase soa como uma homenagem a Brian Wilson. Slitting the atom, outro bom momento, abre com camadas de vocais abafados, mas quebra o mistério com um refrão até assobiável. O miolo do disco fica nessa dúvida: é possível reciclar e diluir o próprio passado com alguma diginidade?

Talvez sim. Um exemplo de que a banda realmente se esforçou é a alienígena Paradise circus, que poderia ser usada como tema de ficção científica (o clima cinematográfico do disco, aliás, diz muito sobre a experiência de 3D em trilhas sonoras). Ou o crossover, ainda que discreto, com o brit pop, em Saturday come slow (uma típica balada desesperada dos três últimos discos do Blur).

Há elegância, alguma segurança nesse tiroteio. Mas, é claro, eles continuam perdidinhos nos anos 00. Seria interessante se, nos próximos discos, 3D e Daddy G conseguissem usar essa dificuldade de adaptação como motor para dialogar com uma geração que também sofre com esse tipo de crise. Mas, ao contrário de colegas de classe como o Radiohead e o Portishead, o Massive Attack parece preocupado demais com a própria sobrevivência para pensar nesse tipo de aventura.

Daí que corre o risco de, para toda uma geração com menos de 20 anos, serem lembrados como os caras que criaram o tema de House. O futuro (eles estavam certos!) é mesmo triste.

Quinto disco do Massive Attack. 10 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Virgin Records. 6/10