Marcelo Camelo

El Mapa de Todos: duas noches

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baba

Não sei se planejaram as duas primeiras noites do festival El Mapa de Todos para que sentíssemos a contraste entre o lado introspectivo e o extrovertido do rock ibero-americano. Mas foi o que aconteceu. Se a noite de quinta-feira caiu acinzentada de tão melancólica (culpem Marcelo Camelo), a de sexta brilhou no tom amarelo-ovo da calça de Adrián Rodriguez, vocalista do Babasónicos.

Infelizmente não estarei lá hoje para assistir ao Mundo Livre S/A. Só que já dá para cravar que este é um festival merece ser defendido: a curadoria (inteligentíssima) une alhos, bugalhos e uma penca de desconhecidos ilustres para formar o painel de um rock latino que desmonta os preconceitos do público brasileiro. Ainda me parece assustador que a estréia brasileira do Babasónicos, uma banda formada em 1991, tenha rolado apenas agora, e aqui em Brasília. Se o El Mapa de Todos veio para corrigir essas e outras distorções, que não nos abandone.

Quinta-feira: ‘Isso lá é bom, doce solidão?’

A seleção da noite de Marcelo Camelo parece ter sido montada para Marcelo Camelo. Dois outros convidados – o português Azevedo Silva e o brasiliense Beto Só – bateriam na tecla dolorida do rock em tom menor, com violões, murmúrios e versos sobre solidão, amores perdidos, saudade. Até os uruguaios do Danteinferno, que destoaria desse tom deprê, surpreenderam com um set mais calminho que de costume.

E Camelo? O barbudo confirmou o papel de trovador recluso (nosso Bon Iver!) e de ídolo de menininhas de 16 anos (era, e estou falando sério, a maior parte do público que lotou a casa de shows). Como entertainer, sai-se um ótimo professor de História. Camelo não quer entreter ninguém, certo? O que ele compõe é tão caseiro, tão íntimo, tão intransferível, tão essencialmente dele que parece pequeno demais até para um teatro para 800 pessoas. 

Em disco, esse tipo de viagem ao redor do umbigo parece fazer mais sentido. Soa como um sussurro (e no bom sentido). No palco, alguma coisa parece fora da ordem. Antes de assistir ao show me contaram que os músicos do Hurtmold garantiam profundidade à caixinha de música de Camelo. Há alguns barulhinhos sutis e tal. Mas nem isso compensa o clima aborrecido que paira sobre o lual.

Camelo, o anti-astro, faz um anti-show. Conversa pouco com os fãs (histéricos, como de hábito), não esboça sorriso e, num certo momento, toca de costas para a platéia. Como performance calculadamente blasé, não cola. “Ele tá dando uma de João Gilberto”, avaliou um fã. Repito: um fã.

As versões para músicas do Los Hermanos como Pois é e Morena conseguem soar diferentes sem trair o espírito das gravações originais. Mas, amplificadas num palco, diante de várias pessoas, as canções de Sou se revelam inacabadas, quase esquecíveis, e tão antipáticas quanto a pose do cantor (como antídoto, o português Azevedo Silva provou que é possível ser intimista sem fazer marra). Lição quase futebolística da noite: disco é disco, show é show.

Sexta-feira: ‘Algunas noches soy fácil, no acato límites’

Com Camelo jogando na defensiva, o melhor show do festival foi (fácil, fácil) o do Babasónicos. Em clima de ‘tudo ou nada’, os argentinos não se conformam com o fato de – com uma trajetória de nove álbuns! – vender bem em todo canto, menos no Brasil. Deve ter sido uma experiência estranhíssima: na Argentina eles lotam o Luna Park; em Brasília, levam metade do público do Camelo ao Espaço Brasil Telecom.

Mas eles pareciam preparados para lidar com a apatia da platéia – tanto que, no bis, conseguiram fazer com que muita gente se levantasse para dançar em frente ao palco. Não há como ficar emburrado com as acrobacias de Adrián Rodriguez, o baixinho-espoleta que emula James Brown, Mick Jagger e Michael Jackson num mesmo refrão. Ninguém pode pará-lo.

Quem conhece a banda de meados dos anos 90 pode ter reclamado de um set list previsível, armado em torno dos dois discos mais recentes deles (Mucho e Anoche). Ok, não deixa de ser, mas vale lembrar que o show apresentou o perfil de um cartão de visitas – e, para efeito máximo, o grupo lançou mão dos hits mais acessíveis, da fase pop iniciada com o álbum Jessico, de 2001.

Foi esse Babasónicos manso que vimos por aqui. O que não chega a incomodar, já queo grupo sabe (como poucos) aliar os truques comerciais à influência indie, psicodélica. Ainda se vestem como hippies sujos saídos de uma rave que varou a madrugada.

A noite de sexta ainda teve o skabilly do peruano Turbopótamos (uma espécie de Franz Ferdinand latino, bastante eficiente), mais um show hipnótico do Macaco Bong e a revelação Facas Voadoras, do Mato Grosso do Sul (que une Johnny Cash, Pixies, The Cramps e, incrivelmente, não soa como Matanza). 

Será que em 2009 rola Los Tres? Depois de ter visto Babasónicos a cinco palmos de distância, tudo é possível.

Mallu também chora

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Sem querer estressar quem tem dor de barriga só de ouvir falar em Marcelo Camelo e em Mallu Magalhães (mas já estressando), este é ou não é um seríssimo candidato ao momento-ternurinha do pop nacional em 2008? Camelo dedilha, os fanáticos deliram, Mallu chora. Taí uma cena que mataria o Noel Gallagher de inveja.

O insuportável

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Deu na Folha:

Nós, disco de Camelo, beira o insuportável. O que o Los Hermanos tinha de pior – a inútil idealização de uma época que não volta mais; a melancolia auto-indulgente; letras tão idílicas que fariam João Gilberto passar por contestador; arranjos que vão na direção do samba-canção e na tradição MPBística, mas que tateiam sem chegar a lugar nenhum.

Em seguida, o colunista de música pop elogia o projeto do Rodrigo Amarante (Little Joy) pelo “clima de total descontração” e recomenda os novos do TV on the Radio e do Glasvegas como “lançamentos incontornáveis” do ano (para quem assina o jornal, o link para o texto é este aqui).

Eu acho jóia o exercício da crítica, mas diz aí: que argumentos são esses?

Na primeira frase, fica claro que o jornalista não deu trela pro álbum (“beira o insuportável”). Nas seguintes, tudo o que ele consegue é (nas palavras dele, aliás) tatear sem chegar a lugar nenhum.

Quase ninguém leva esse tipo de análise publicada em jornais diários a sério, mas vale tentar: qual seria essa época-que-não-volta-mais idealizada inutilmente pelo Los Hermanos? A bossa nova (já que ele comparou com João Gilberto)? O samba-canção? A Tropicália? O auge de Dorival Caymmi? Chico Buarque? Mas que Chico Buarque? Aliás, o que ele quer dizer por “tradição MPBística”? O que significa isso? O que entra ou não entra nesse rótulo? Seria interessante que ele identificasse esse período histórico, ou pelo menos algumas referências, já que estamos falando de momentos e às vezes de décadas diferentes.

O engraçado é que, minutos depois, o colunista libera o Amarante para caminhar pelo “reggae, pelo pop californiano dos anos 60”. Ok, o compositor tem todo o direito ao flashback que ele bem entender, mas me explica: o pop californiano dos anos 60 não seria um gênero de uma época que não volta mais? Mais adiante, ele compara TV on the Radio com Pixies e My Bloody Valentine. Também concordo. Mas, nesse caso, por que os nova-iorquinos teriam permissão de remeter tão descaradamente ao passado?

O textinho dá a impressão de que todos podem sentir saudades, menos Marcelo Camelo. Curioso que, entre todos os álbuns comentados pela coluna, o dele é o único sobre saudade. Mais que insuportável, o disco do hermano parece uma objeto esquisito que o colunista não se dá ao trabalho de decifrar. Seria mais fácil se o álbum tivesse optado por um clima de descontração. Ou, claro, matado de inveja o Noel Gallagher.

Sou/Nós | Marcelo Camelo

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Você já levou um fora do Marcelo Camelo? Eu já. Na época do lançamento de Ventura, tentei perguntar a ele sobre as influências musicais do Los Hermanos. Uma questão bobinha e babaquinha que jornalistas bobinhos e babaquinhas costumam fazer mas que, no fim das contas, sempre me interessou bastante (ainda mais quando feita para uma banda que, no começo de carreira, se dizia influenciada pelo Weezer).

A resposta do moço foi mais ou menos assim:

– Ih, cara, olha, não sei, vá entender, sabe como é, não é bem assim, não é por aí, é que música, música, música… a gente não se inspira tanto em música, sabe? O que são bandas, o que são influências? Influências? Nossas influências podem estar no cinema, na fotografia, na vida.

(E, antes de ter ouvido finalmente o barulho de uma pauta se espatifando no chão, ainda pensei em perguntar sobre cineastas e fotógrafos, mas preferi deixar quieto).

Quando eles lançaram 4, meu disco favorito do grupo, preferi sugerir a entrevista a outro repórter. Naquela altura, eu já estava conformado com o fato de que o Los Hermanos se mostrava uma banda que se irritava com a idéia de conversar sobre música. No início, estranhei o desinteresse (se eu fizesse parte de uma banda, passaria horas divagando inutilmente sobre o assunto). Depois percebi que as coisas são assim e pronto, confrontá-las seria inútil. E, de fato, cada vez mais o quarteto parecia solto ao vento, largado no mar, pronto para se deixar levar por referências que muitas vezes não cabiam no nome de alguma banda estrangeira ou de algum gênero musical.

Acredito na hipótese de que o Los Hermanos nunca adorou entrevistas por medo de acabar condenado a um rótulo, a uma definição apressada, a um slogan desatento.

O disco solo de Marcelo Camelo leva essa aflição a um degrau acima. Soa tranqüilo, mas não é nada disso. Ouça três vezes e você descobrirá um álbum mais detalhista e aventureiro que qualquer um lançado pelo Los Hermanos. Se 4 representou a ruptura definitiva da banda com as expectativas alheias e com o rock – e, ao mesmo tempo, apontou para o desgaste de um longo relacionamento (hoje, o verso “eu preciso andar um caminho só” soa ainda mais apropriado) -, este Sou/Nós amplia a caixinha de música lírica e introspectiva de Camelo. Mas, surpreendentemente, não tem nada de inocente, de despretensioso.

Sou/Nós (e a ambição começa no título) não é um típico álbum solo. Não é desajeitado, não é um encontro casual, não é um bico de férias. Soa mais como um novo ponto de partida. Cada vez mais seguro daquilo que quer para si, Camelo gravou um disco brasileiríssimo com ecos tanto do novo-folk (em Janta, com Mallu Magalhães) quanto do chamber pop de bandas como Lambchop e do renovado The Sea and Cake (na excelente Téo e a gaivota, que, com participação do Hurtmold, abre o álbum cheia de vãos, lacunas, ruídos e uma melodia em estado de graça). E, sim, um álbum que passa pela MPB, com participações de Dominguinhos (em Liberdade) e uma crônica carioca que lembraria o Chico Buarque dos anos 90/2000 mesmo se não falasse em “velhinhos bons de papo” (a marchinha Copacabana).

Numa primeira audição, os temas do disco nos preparam para uma continuação direta de 4. Camelo ainda canta a solidão (doce ou dolorida), o amor, filosofia à beira-mar (“Acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”, diz em Mais tarde) e se afirma com um certo acanhamento decidido (“Eu caminho no tempo que bem entender”, avisa, em Vida doce). Mas, esparramadas num álbum inteiro, sem interrupções, as canções do compositor ganham a forma de um retrato integral, de uma jornada particular. Nada que tenhamos ouvido antes.

Marcelo Camelo está solto. E se este disco às vezes soa como trilha sonora (as versões em piano para Solidão e Passeando) ou como o documentário sobre a gravação de um disco (são vários as arestas soltas entre uma música e outra) ou como um cruzamento de Marisa Monte com Arnaldo Antunes (sem Carlinhos Brown, aleluia), é que ele vê a música de uma forma generosa, permeável. O medo de trair os próprios desejos talvez tenha sido o veneno que contaminou o Los Hermanos, mas taí o resultado da coragem: um álbum novo, um homem por inteiro.

Primeiro álbum de Marcelo Camelo. 14 faixas, com produção do próprio compositor. Zé Pereira/SonyBMG. ***