Marçal Aquino

2 ou 3 parágrafos | Cabeça a prêmio

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Quando li o livro do Marçal Aquino, lembro que pensei o seguinte: 1. o romance daria um filme muito tenso, um legítimo thriller à brasileira (os capítulos são concisos, a prosa de Aquino provoca asfixia, o Brasil que aparece no papel é imenso e desolado etc), mas 2. esse filme custaria uma fortuna e, portanto, não seria feito.

A adaptação dirigida por Marco Ricca (3/5) resolve essa questão de escopo de uma forma muito prática e, às vezes, elegante: ele achata a trama (narrada de forma linear e em menos locações), mas mantém os personagens. Também preserva uma característica muito marcante do texto, que é a aproximação com o folhetim. Todos os elementos de uma boa novela das oito estão aqui – amores impossíveis, fuga, traições, assassinatos, intrigas familiares -, mas desnudados por uma câmera seca, por uma fotografia amarelada, por um diretor que dá tempo aos atores e parece se preocupar mais com os personagens do que com o desenvolvimento da ação. Nisso, lembra um pouco o Beto Brant de O invasor.

E é essa a maior diferença que noto entre filme e livro. No filme, a narrativa é mais frouxa – talvez de propósito, talvez por inexperiência de diretor estreante. A aflição de Aquino é como que dissolvida pela montagem. Outra característica que me incomoda é que, ao tratar todos os personagens de uma forma mais ou menos igualitária, o roteiro acaba subestimando aquele que se revela um dos mais importantes da trama: o capanga de Eduardo Moscovis merecia mais tempo na tela, até para identificarmos a agonia que engata a reviravolta final. No mais, uma estreia muito mais forte e bem sucedida do que eu esperava.