Mãe

(sábado, no carro, 14h20)

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Minha irmã: Não. Não, mãe. É conservador pra burro, totalmente atrasado dizer um negócio desses. Chegar dizendo que a menina abandonou o colégio, namorou aquele estúpido e começou a usar crack ou sei-lá-que-bagulho só porque, olha isso, só porque a mãe dela resolveu assumir o caso com uma mulher? Ó, conheço umas três pessoas que viveram esse tipo de draminha e sei de umas duzentas que estão cagando pra isso. Imagina se vão se preocupar com quem a mãe fica ou deixa de ficar. A vida da mãe é a vida da mãe. E ponto final, meu deus! Pode acreditar: ninguém tá nem aí.

Eu: Você acha? O que eu noto hoje é que os pais se preocupam demais com esse tipo de coisa, enquanto que os filhos estão pensando em outros assuntos. Quer dizer: é claro que, se minha mãe começasse a sair com uma mulher, eu perguntaria: como assim? Mas eu tenho 30 anos, não sei o que eu pensaria se tivesse 12. Na verdade, acho que não sei mais nada sobre os meninos de 12 anos. Pra mim é meio que um outro mundo, e eles estão mil anos à frente de mim. Outro dia eu tava entrevistando um cabeleireiro totalmente afetado e daí entrou o filho dele, um rapazinho de 15 anos, enganchado numa menina de uns 18. O garoto todo marrento, aquela voz de ‘não mexe comigo que sou machinho’, foi lá e deu um beijo no pai, brincou com a cabeleira do homem, e eu fiquei pensando: caramba, alguma coisa aconteceu, alguma coisa está acontecendo, ou talvez não esteja acontecendo nada e eu seja o cara mais conversador do planeta. Ou talvez não esteja acontecendo nada e este seja um caso muito específico.

Minha irmã: Está acontecendo, Tiago. Já aconteceu.

Minha mãe: Não é tudo isso.

Eu: Aí eu fico pensando no que acontece com o garoto que é criado por duas mães, como funciona? De verdade, na real, como acontece? Sei que não é nada extraordinário, que tem família de todo tipo, boas e ruins. Que as pessoas se viram, seguem em frente do jeito como conseguem. Mas fico pensando se o menino vai tentar compensar a ausência do pai, se ele vai buscar o pai em algum lugar. Se ele vai precisar do pai em algum momento. Se ele vai tentar compensar isso de outra forma. Cê entende, né? Falo sobre pessoas como nós dois… Nós, com os nossos pais. Dois pais, e todos esses problemas. O pai ausente, o outro que passou a vida inteira meio distante. E eu senti isso, você sentiu isso. Essa falta. Então me pergunto se, quando superarmos todos os nossos preconceitos e aceitarmos todo tipo de formação familiar menos convencional, se não vamos voltar a essa velha discussão sobre a figura paterna, sobre o quão importante ou desimportante ela é para nossa vida. Esse debate vai voltar à moda? Quando? Ainda quero saber muito sobre isso, sobre esse tema, ele me persegue todos os dias, e é como se estivessem encerrando o assunto, dizendo: não é grande coisa, Tiago, é uma questão ultrapassada. Entendem?

Minha mãe: Você devia arrumar uma namorada.

Minha irmã: Não tô nem aí, sinceramente.

Superoito e o fio da tragédia

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Sim, eu estava em Angra dos Reis entre os dias 30 de dezembro de 2009, quando pancadas insistentes de chuva começaram a descamar o balneário, e 3 de janeiro de 2010, o domingo em que conseguimos finalmente tirar os carros da garagem e, num passeio melancólico de não mais que 15 minutos, desviamos dos morrinhos de lama, das pedras pontiagudas cuspidas no asfalto e das vias bloqueadas (eram três, todas estreitas) para abandonar apressadamente uma cidade que…

…uma cidade que, naquela manhã, vinha para cima das pessoas, de todas as pessoas, atacava-nos com o muque de um terrível paradoxo: o céu brilhante de tanto azul (sem nuvens, lindo), o mar quase vermelho (de tanto barro), os turistas nas lanchas, as crianças de bicicleta, gente apreensiva gesticulando nas varandas de casas que se equilibravam perigosamente nas encostas, postes tortos, fios soltos nas calçadas, crateras nas curvas, jet skis e piscinas lá longe, uma menina com um balde vermelho na cabeça, cerveja gelada no boteco, futebol no campinho e o vulto de um trator. É pegar ou largar, a cidade dizia. Permaneça ou fuja, que sou estranha e incompreensível e contraditória e você não me entenderá.

Decidimos fugir. Essa paisagem em scope ficou para trás quando tomamos a rodovia e seguimos ao atalho que dava para a Via Dutra.

Você quer o relato objetivo da aventura? Então tome: eu e cinco pessoas muito queridas estávamos hospedados numa casa a poucos quilômetros do centro. Como quase todas as casas da região, ela foi construída a poucos passos da encosta. Uma bela encosta, por sinal: árvores altas e exóticas, de todo tipo, uma vegetação robusta que sempre associei ao cheiro úmido que antecipa as chuvas. O cheiro lembrava a minha infância. Algumas pessoas ergueram casas elegantes e chamativas sobre o morro – não para copiar os miseráveis que se empilhavam nas favelas próximas, mas talvez para que a paisagem da Praia do Retiro enchesse as janelas todas as manhãs, com os jet skis, as lanchas e todos os outros acessórios da boa vida. Não sei explicar: há pessoas que curtem viver perigosamente, nas encostas, em meio às árvores, ali num poleiro privilegiado, e prefiro parar esse raciocínio por aqui e voltar ao relato objetivo dos fatos.

Chegamos à casa na noite do dia 28, uma segunda-feira. No dia seguinte, tomei banho de mar e fiquei queimado de sol. Tudo muito comum e desinteressante. Minhas costas ainda ardiam quando, na quarta-feira, começamos a sentir uma chuva fina, fria. O céu fechou em camadas infinitas de cinza e os turistas guardaram os jet skis para jogar baralho, tirar sonecas, ler livros e fazer os planos para o réveillon. “Que pena. Essa chuva…”, lamentavam. Mas ninguém parecia preocupado com ela, a chuva, que não caía com a potência de um tsunami. Era uma chuvazinha de nada. Está certo que, de vez em quando, o chuvisco engrossava e virava um chuvão. Mas depois voltava ao normal, àquela aguazinha sem graça, que precisaria comer muito feijão para botar alguém pra correr.

Na manhã do dia 31, estranhei a persistência da chuva. Ela simplesmente continuava. Continuava. Fraca, tímida, mas firme na labuta. Sugeri (juro que sugeri!) que fizéssemos um filme de horror sobre a chuva que nunca para. Um filme chamado A chuva que nunca para. Ninguém achou muita graça. Mas estávamos certos de que o sol voltaria a brilhar e de que (quem sabe?) a noite de ano-novo seria luminosa. Por volta das 19h, acabou a energia elétrica. Às 21h, recebíamos os primeiros telefonemas: “Parece que o caso aí de emergência, tome cuidado” (era minha mãe). “As estradas estão fechadas, parece que caiu uma encosta na rodovia” (era outra pessoa, não lembro quem). “Parece que parece que parece que parece que a coisa está feia, mas parece que parece que talvez pareça que” (tudo parecia, nada era).

Jantamos à moda medieval, iluminados por um santo lampião e nos embalos de uma trilha sonora orquestrada por grilos e ondas do mar. Os encantos selvagens da natureza, sem óculos 3D. Os vizinhos trouxeram um som portátil que espantou um pouco o clima de frustração. À meia-noite, vimos a queima de fogos mais sombria da história: explosões coloridas engolidas pela neblina, pipocos amarelados numa ilha perdida, cores meio mudas, já que a chuva (cada vez mais feroz) minimizava o impacto dos sons. As pessoas, coitadas, deixaram de lado até um ritual dos mais sagrados: pular três ondinhas do mar. Esquecemos de brindar. Trocamos champanhe por água-com-açúcar. No início da madrugada, fomos todos dormir, fulos da vida com a vida.

Antes de deitar, ouvi um barulho que em nada soava assustador. Era um baque abafado. Depois do baque, um sopro gordo de vento atravessou a janela (como se produzido por um dragão de desenho animado).

Logo descobrimos que uma árvore havia desabado no quintal da casa onde estávamos hospedados. Os galhos grossos (de quase 10 metros de largura) desceram a encosta, deitaram sobre a fiação elétrica, entortaram dois postes e foram parar exatamente à frente do nosso portão, bloqueando a passagem. Para nosso azar, não havia como sair de casa (e, com o estrago na fiação, ficaríamos sem luz por mais um tempo). Para nossa sorte, as duas outras árvores que quase cederam continuavam se equilibrando no barro de uma encosta que havia (também para nossa sorte) descolado só um pouquinho.

Todos estávamos tensos quando fomos dormir. “Com essa chuva, e as outras árvores? E a encosta? E se?” Ainda assim, deitamos. Não havia o que fazer. Tínhamos medo, mas não contávamos com possibilidades terríveis. Pouco antes de tudo isso, na manhã daquele 31, saímos de carro para o centro da cidade e, numa ladeira íngreme, quase fomos levados por uma carreta velha que, pouco antes de se chocar contra o nosso carro, fez um desvio acelerado e colidiu numa parede. Seria muita tragédia para um dia só, eu pensei. E já havíamos passado muito tempo dançando no fio da tragédia. Deveria haver uma lógica nisso tudo, na nossa vida, e essa lógica possivelmente permitiria um pouco de sorte a quem havia vivido duas quase-catástrofes em menos de 24 horas. Isso sim faria algum sentido!

Passamos o primeiro dia do ano olhando para um portão trancado, preso dentro da barriga de uma árvore morta. Não parecia muito engraçado.

Mas, de uma perspectiva menos pessimista, era sim muito engraçado. Era! Sem energia elétrica (e impedidos de sair até para comprar o jornal), não sabíamos nada sobre a dimensão de uma tragédia que era narrada a conta-gotas, com tons de exagero e nonsense. “Parece que morreram 200 pessoas numa pousada”, comentou um sujeito que havia seguido de lancha até a cidade. “Parece que fecharam a rodovia, e pra não abrir tão cedo, talvez semana que vem”, arriscou o outro. “Dizem que os homens da Defesa Civil estão chegando pra tirar a árvore e abrir o portão, mas só semana que vem”, prometiam. Enquanto ninguém aparecia para resolver o problema, tomávamos banho de piscina e tostávamos ao sol, mais ou menos felizes, mas nunca completamente felizes, com o momento de descanso (era nossa folga e éramos filhos de deus). Vi até uma cena que era puro surrealismo: uma mulher de biquíni verde, tristíssima, concentradíssima, de pé sobre uma prancha de surfe, flutuando lentamente sobre o mar plácido e marrom. Era um sonho. Era um pesadelo. Era algo inexplicável.

Abreviando o caso: a luz não voltou, os homens da Defesa Civil não chegaram, o jornal não veio e ficamos completamente alienados por 24 horas. As informações faziam eco por telefone, e truncadas. “Não vi o noticiário, meu filho.” “Mas por que, mãe?”, eu perguntava. “É que me assusto.” “Mas mãe…” E o cabo-sem-fio continuava a dissolver notícias que pareciam falsas de tão mirabolantes. 500 mortos numa pousada? Que pousada grande.

Na manhã de sábado, alguém decidiu fazer um passeio de bicicleta no fundo do apocalipse. Das cinzas do armagedom, a boa alma trouxe o jornal.

E que notícias! Era tudo tão horrível que parecia não ter acontecido. Aquela chuva boba havia criado avalanches de terra que, na noite em que a árvore caiu no quintal, aniquilou cerca de 50 pessoas. Todos corríamos risco: os da favela e os da beira-mar, os que estavam em pousadas e os que moravam perto de pousadas. A Defesa Civil pedia para que os turistas deixassem a cidade, mas não parecia ter nenhum conselho para os turistas que queriam deixar a cidade, mas estavam impedidos de sair de casa. Que Buñuel morresse de raiva: ainda havia macarrão e molho de tomate – de fome e sede nós não morreríamos.

Diante das páginas do jornal, me assustei com a ideia de que, sem o registro oficial, eu provavelmente não teria sentido a tragédia de que – em alguma medida – eu fazia parte. Depois de ter assistido às notícias da tevê, minha mãe parecia outra pessoa: estava transtornada, chorando e soluçando e gemendo ao telefone.

– Tiago, vocês foram se meter no meio de uma notícia! – minha mãe estava assombrada com aquilo tudo.

– Mas mãe, eu não sinto como se estivesse no meio de uma notícia.

– É que você não tem a noção.

– Não tenho, mãe.

– As pessoas morreram.

– Elas morreram.

– E você quase morreu.

– Não sei se foi isso o que aconteceu. Nunca se sabe.

– Um moço de 30 anos desapareceu.

– Eu estou bem aqui.

À tarde, quando os homens da Defesa Civil chegaram (com tratores e serras a diesel), começamos a notar o que (não) havíamos vivido.

– Resgatamos cinco corpos. Muitos mortos. Vocês foram sortudos. Estão dentro de casa. Tem de tudo aí pra baixo. Árvore esmagando os carros. Árvore quebrando telhados. Pedras desse tamanhão assim. Hoje cedo, fizemos dois partos numa lancha – narrou o chefe da equipe, que usava óculos Ray Ban modelo 1978 e, com um topete generosamente branco, parecia o personagem de uma série de tevê prestes a ser criada.

Não entendi onde os partos aquáticos se encaixavam na trama, mas a narrativa contada por aquele homem, vestido num macacão alaranjado e pronto para a guerra atômica, começaram a nos tragar para a cidade. O coração da selva. Quando a Defesa Civil foi-se embora e abrimos o portão, vimos a cidade. E foi só aí que sentimos a cidade. O cheiro da cidade. Um ar de ressaca. Uma impressão de medo. Depois, a sensação de que a tragédia havia passado de raspão. E que estávamos vivos graças a uma conjunção muito delicada de fatores. E se os troncos que caíram a alguns centímetros da janela do meu quarto tivessem se aproximado um pouco mais, um pouquinho mais, alguns centímetros? E se a encosta tivesse lambido o asfalto com a força com que desabou sobre as cinco casas de lha Grande? O que faríamos? Para onde correríamos? De que janela saltaríamos? Estaríamos acordados? Daria tempo? Seríamos fortes? Quem sofreria mais? Quais traumas seriam os mais intensos? Que história contaríamos? Que relevância teria a nossa história? Em quanto tempo ela seria esquecida? Como sairíamos no jornal?

E se?

Na verdade, estávamos à margem de qualquer matéria de jornal. Talvez por isso, um pouco aliviados. Se algum jornalista nos abordasse para saber sobre a nossa experiência, diríamos simplesmente: “Mas não aconteceu nada! Estamos muito bem! Foi um feriado um pouco tenso, mas saímos dele sem arranhões. Veja: estamos respirando!” Tudo muito limpo e civilizado. Quase nada aconteceu. Não havia motivo para virarmos celebridades-relâmpago.

De volta a Brasília, narrei o caso a algumas pessoas curiosas. Dez, quinze pessoas. A mesma ladainha. A casa, a árvore, a falta de luz, a encosta, a cidade esvaziada, as rodovias fechadas, o medo de morrer. Meus amigos ficaram verdadeiramente espantados com a situação, mas tenho poucos amigos. Alguns deles fizeram piadas, o que me deixou menos preocupado com a minha própria vida: rir do quase-desastre mostrava para mim que ele, o quase-desastre, estava cada vez mais longe do meu alcance, como que perdido numa realidade inventada por softwares de efeitos visuais. E, distante dele, eu poderia cumprir as atividades do cotidiano de uma forma mais leve e despreocupada, e não prestes a correr para a sala do cafezinho com medo de que uma encosta desabasse sobre o meu computador. Eu não estava perturbado por nada daquilo. Repeti três vezes, no banheiro: eu não estou perturbado, eu não estou perturbado, eu não estou perturbado.

Quando voltávamos para São Paulo, pela estrada, um dia antes, alguém comentou que eu não tinha demonstrado nervosismo algum quando vi a árvore caída no nosso quintal.

– Você ficou tão tranquilo, Tiago. Eu mal consegui dormir. Talvez você só se desespere com as pequenas tragédias.

– Deve ser isso – eu respondi (mas menti, já que não entendia ainda nada do que havia acontecido).

A viagem de volta, de carro, durou seis horas. A pista estava menos movimentada do que esperávamos. Parecia inacreditável. Tudo conspirava para a nossa felicidade, enfim. Um desfecho razoavelmente feliz. Não perdi o avião. Quando desembarquei no aeroporto de Brasília, minha mãe chorou, me abraçou e pediu para que eu dormisse em casa. “Não quero perder meu único filho”, ela chantageou, entregue ao papel de mãe total, com aquele jeito dramático que é todo meu. Decidi ficar com eles. Minha mãe, meu padrasto, minha irmã e os cachorros.

Chegamos a tempo do noticiário da meia-noite. “Venha ver o que aconteceu com vocês”, minha mãe exigia. Preferi ler o capítulo de um livro e dormir. Chega de histórias reais, pensei. Mas tombei no segundo parágrafo. Eu estava exausto.

Sonhei com encostas azuis e vermelhas sob um céu verde. Desabando.

Superoito e a ordem no caos

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Tenho a impressão de que meus sonhos contam uma história. Desconfio que, se fosse possível organizá-los em ordem cronológica, como quem forma um quebra-cabeça de milhares de peças, eles narrariam uma saga. Minha saga. As peripécias da minha existência. Com tintas surrealistas. E desfechos quase sempre surpreendentes.

O problema é que não lembro de todos os sonhos. Daí as lacunas entre um capítulo e outro. Espaços em branco. Buracos negros. Crateras que nunca serão preenchidas, coisa e tal (a menos que os cientistas inventem uma forma de escanear nossa consciência em busca de fragmentos de sonhos invisíveis, mas acho difícil).

Gosto quando lembro dos meus sonhos e adoro interpretá-los. Principalmente na hora do jantar. Minha mãe, que é psicóloga, costuma ajudar. Dá boas dicas. Geralmente cita Freud para interpretar as cenas mais abstratas. Duvido que ela acredite em Deus. Mas tenho quase certeza de que minha mãe tem fé em Freud.

Os sonhos recorrentes sempre me espantaram. Ainda me espanto com eles. Nesses casos, suspeito que meu cérebro esteja atuando por conta própria, sem minhas ordens. Um free-lancer. Um microcomputador que aprendeu as delícias do livre-arbítrio. Um CPU fantasma! Há duas semanas sonho com o mesmo tema. Quase todos os dias. Meu subconsciente, de vez em quando, é meio burrinho, coitado: funciona como um LP arranhado.

O sonho de ontem explica todos os outros sonhos recentes, que reprisam uma mesma aflição. Aconteceu assim: eu estava num transatlântico, em alto mar, vestido com uma camisa muito extravagante e improvável (amarela, brilhante, com coqueiros e um laguinho) e sunga preta. O sol queimava minha testa, mas eu me recusava a pular na piscina. Eu preferia ficar sentado numa mesa de rodinhas, sozinho, jogando cartas (quem me conhece sabe que odeio jogar cartas, mas sonhos são sonhos são sonhos). Meu adversário na brincadeira não estava ali. Eu esperava que ele retornasse para que continuássemos a partida.

Havia 10 ou 12 pessoas na piscina. Todas muito contentes. Estávamos de férias, aparentemente.

Meus sonhos sempre começam felizes e terminam tensos, apocalípticos. Aquele não era exceção. Minha mãe, que usava um maiô verde-escuro muitíssimo brega, parecia nervosa quando se aproximou da minha mesa. Ela bebia um drink cor-de-rosa e tinha uma notícia séria para contar. Preferiu falar baixo, talvez para não estragar o dia dos outros passageiros.

– Tiago, seu padrasto está doente – ela disse.

– Como assim? – perguntei. Minha testa ardia.

– Ele machucou os braços. Não pode comandar o navio.

– Mas ele estava comandando o navio? O nosso navio?

– Sim, obviamente. Ele era o comandante do nosso navio.

– Meu Deus.

– Você não acredita em Deus, Tiago.

– Mesmo assim. Meu Deus. Ele era o comandante do navio?

– Sim, sim. E está doente. Não consegue mover os braços. Por isso não pode mais comandar o navio.

– E não existe um copiloto no nosso navio, mãe? Sempre existe um copiloto.

– Não existe um copiloto.

– Piloto automático?

– Não.

– Talvez seria possível… Usar os pés?

– Ele tem cãibra.

– Cãibra?

– Tiago, estamos perdidos. Eu, você e as 60 ou 70 pessoas que estão se divertindo à beça neste navio.

– São 60 pessoas?

Minha mãe me olhou com ar de cansaço. Deixou a toalha na mesa, espalhou as cartas do baralho, abandonou o drink exótico e correu para a piscina. Deu um mergulho. Olhei para o horizonte e vi um clarão atômico. Acordei.

Nos outros sonhos, a situação muda superficialmente: o carro, a motocicleta, a bolsa de valores, o controle de energia elétrica da cidade – tudo no mundo subitamente passou a ser controlado por meu padrasto. Que, infelizmente, estava doente e não poderia nos ajudar naquele momento. Eram sonhos didáticos. Extremamente e estranhamente didáticos. Sonhos até triviais. Bobos mesmo. Sonhos dirigidos por cineastas amadores. Escritos por Paulo Coelho. Com roteiro do Manoel Carlos. Não havia quase nada incompreensível neles. Eles queriam dizer algo muito simples, e diziam em voz alta.

Diziam com poucas linhas: você está amedrontado, Tiago. (Ou algo assim.) Você está desesperado, Tiago. Você não sabe o que fazer da sua vida, Tiago. Você está encrencado, Tiago.

O complicado é que, com o tempo, tento me convencer de que o transatlântico está sob controle. Que tudo vai terminar relativamente bem. Que o ser humano se adapta a tudo. E que meu coração vai seguir em frente! No entanto, quando durmo, sou nocauteado pela realidade. Meus sonhos são mais duros que a minha vida. E eles dizem: Tiago, não se engane. Você não está bem. Não estamos bem. Ninguém está bem. Estamos soltos no oceano. Seu padrasto está doente. E isso não é bom nem vai melhorar. Acorde para dentro do pesadelo, Tiago.

Meus sonhos têm a sofisticação de meninos de sete anos de idade. São estupidamente honestos. Por isso confio neles. Crianças são cruéis. Lá no terreno pantanoso do meu cérebro, sei que não estou bem.

Desde que descobrimos a doença do meu padrasto, eu e minha família tentamos calcular o quanto custaria à nossa sanidade manter esperanças e viver a vida como se existisse algo parecido com luzes no fim do túnel (por enquanto, temos o túnel e o blecaute no túnel). Eu sou o mais racional e radical de todos. Não acredito em quase nada. Creio um pouco em extraterrestres, já que o espaço sideral é extraordinariamente grande e seria tolo não acreditar um pouco neles. E só. Minha mãe acredita em Freud e nos avanços da ciência. Acredita que, apesar de tudo, existe um floco de esperança em tudo. Minha irmã não fala muito.

A tragédia me transformou num sujeito descrente. E prático. Praticamente descrente. Em tudo. Quando um dos meus cachorros foi internado para uma cirurgia na orelha, procurei no Google uma forma de comprar outro cão. Tudo para evitar que minha mãe caísse em depressão profunda. O cachorrinho vai morrer, pensei. Quando os veterinários começaram a adiar a alta do beagle, que se chama Hatty, criei uma teoria da conspiração. “Eu disse, mãe. Não tem jeito. É o que é. Acabou-se o que era doce.” Encontrei um cão adorável num site e mostrei a fotografia para a minha irmã. “O Hatty vai sair dessa, Tiago”, e ela parecia confiante. Duvidei.

Há uma semana, nosso cão voltou para casa. Usa um protetor de orelhas que dá a ele a aparência de um beagle-cosmonauta, mas o acessório futurista não o impede de fazer gracinhas, assediar sexualmente o meu golden retriever e cagar no estofado. Está forte. Está atento. E, mais importante que isso, está vivo.

caocueca

Hatty, o cão-abajur (também conhecido como cão-parabólica), mordendo a minha cueca. Hoje à tarde.

A doença do meu padrasto (que é um cético) confirmou nossa hipótese de que a vida é uma canoa furada e salve-se-quem-puder. E, para esgotar as metáforas baratas e aquáticas: a onda, quando vem, é um maremoto. Não tivemos tempo para tomar fôlego. Em poucos dias, estávamos afogados em exames médicos, estatísticas, documentários chorosos, artigos científicos que ardem feito picada de abelha, conselhos imprecisos, estimativas assustadoras, estudos de caso pessimistas e uma imagem de futuro que fazíamos questão de encarar como um slide sem foco. Tínhamos medo. Temos medo.

O que devemos fazer? Acreditar em incríveis reviravoltas do destino ou manter os pés no chão? Sofreremos de uma forma ou de outra. Mas qual dessas opções é a estritamente necessária? Existe vida após o diagnóstico?

Não vejo uma resposta consistente para essas questões. Procuro, mas não a encontro. Bons acidentes acontecem. Hoje à tarde, depois de voltar do 210º médico, meu padrasto finalmente trouxe uma boa notícia. Aquilo nos perturbou. Não estávamos prontos. Ficamos até um pouco chocados, na verdade. Minha mãe telefonou para o doutor, que sublinhou a esperança. Esperança. Ela chorou. Eu permaneci estático, sem saber como reagir. “O que aconteceu, mãe?”

Ela estava sem voz.

Depois de um tempo, descobri tudo. O médico disse ter dúvidas sobre o diagnóstico do meu padrasto. A doença poderia ser outra. Poderia não ser tão grave. Os exames talvez indicassem, vá saber, um problema hormonal muito atípico e intenso. Algo raro. Mas existe a probabilidade de que algo raro aconteça, não existe?

– É um bom médico, Tiago. Os pacientes fazem uma fila imensa. E a fila costuma durar anos.

Havia uma esperança. Talvez.

– O que quer dizer essa deficiência de hormônios, mãe?

– Quer dizer que essa queda desativa os neurônios. Por isso ele está perdendo a memória aceleradamente. O médico disse que é um tipo de situação que ele nunca viu. E que outros pacientes costumam perder a consciência de que estão doentes, o que não aconteceu com seu padrasto.

– E isso pode ser bom?

– Pode ser ruim, Tiago. Mas não tão ruim quanto imaginávamos.

– E isso pode ser bom?

– Isso pode ser ótimo.

Minha mãe estava radiante. No fim da tarde, saímos para caminhar. Ela comprou croissants. E salgadinhos e sorvete napolitano. A nossa imagem sombria de futuro era, agora, um slide rabiscado com giz de cera. Meu padrasto voltou a tocar violão. Os cães, que talvez consigam mesmo sentir as boas vibrações, brincaram de pique. O Hatty foi ao meu quarto e roubou minha cueca. Ele não costuma fazer isso. Mas fez.

Por coincidência, terminei há dois dias um livro sobre o acaso, chamado O andar do bêbado. Do físico Leonard Mlodinow. Com Stephen Hawking, ele escreveu Uma nova história do tempo. O autor defende o raciocínio (estudado seriamente por cientistas de todo o mundo) de que nos deixamos enganar por falsas conexões que criamos entre fatos aleatórios. Por exemplo: quando um produtor de Hollywood assina três fracassos de bilheteria, passamos a acreditar que ele é um péssimo executivo – mas nos esquecemos repentinamente dos cinco sucessos incríveis que ele criou, e dos vinte filmes que tiveram performance digna. Julgamos pessoas e eventos a partir de uma lógica que não tem nenhum embasamento científica. E por que somos estúpidos a esse ponto?  Simplesmente queremos acreditar que o acaso faz sentido. Isso nos conforta.

É um livro bonito (principalmente porque Mlodinow demonstra uma fé tremenda num mundo governado pelo aleatório). E o engraçado é que – note o acaso puxando as nossas cordinhas! – logo depois li o tocante Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer. O protagonista, um órfão de nove anos que perdeu o pai no 11 de setembro, é um fã de… Stephen Hawking!

Bem. Estou desviando do tema. Lá pelas tantas, num emaranhado de pequenas biografias de físicos e filósofos que estudaram probabilidades e estatística, Mlodinow lembra a trajetória de Blaise Pascal. Depois de uma revelação espiritual, o francês escreveu ideias que foram publicadas num livro chamado Pensamentos. Talvez afetado por um transe, ele resolveu calcular os prós e contras de nossos deveres para com Deus (criou, assim, um conceito que ficaria conhecido com esperança matemática).

Pascal propôs o seguinte: existe uma probabilidade de 50% para que Deus exista. E uma de 50% para que não exista. Nesse contexto, devemos ou não devemos levar uma vida pia? Se agirmos piamente e Deus existir, argumentou Pascal, nosso ganho – a felicidade eterna – será infinito. Por outro lado, se Deus não existir, nossa perda, ou retorno negativo, será pequena – os sacrifícios da piedade. Desenvolvendo essa epifania, ele criou um equação matemática que, aqui, não vem ao caso. Eric Rohmer aplicou essa teoria numa obra-prima do cinema, mas que também não vem ao caso.

O que vem ao caso é que, na prática, é impossível negar minha simpatia por Pascal. Quantos são capazes de criar uma equação tão bela? Talvez não faça tanto sentido (acredito que levar uma vida de sacrifícios, sem overdoses ocasionais de chocolate ou sites pornográficos, pode sim representar um retorno bem negativo se a descobrirmos enfim que não existe felicidade eterna). Mas gosto de acreditar naqueles que acreditam numa possibilidade tão poética. Acredito na minha mãe. E hoje ela conseguiu me encher de esperança.

À tarde, cochilei no sofá e sonhei com um balão. Solto no ar. Sem dono. Sem pai ou padrasto ou mãe ou irmã. Mas, mesmo perdido, ele descrevia um voo seguro. E gracioso. Não sei explicar, mas talvez tenha sido um bom sinal.