James Cameron

Forced to love | Broken Social Scene

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Vocês me conhecem muito pouco, mas o suficiente para saber que não vou trocar meu televisor de 42 toneladas por um desses monitores que prometem altas viagens em três dimensões. Não vou. Mas, graças ao Broken Social Scene, prometo pensar no assunto. É que esse clipe ultra-mega-tecnológico de Forced to love me deixou salivando por um daqueles óculos quadradões. Os diretores Adam Makarenko e Alan Poon usam um scanner que distorce a forma das imagens e cria camadas fantasmagóricas. E, no fim, usam um toque eco-friendly para… Péra aí. Certeza que não foi James Cameron quem dirigiu?

No Twitter | 10/6 a 13/7

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Uma compilação dos comentários-relâmpago sobre séries e filmes que postei no Twitter durante a semana. Em alguns casos, com adjetivos e interjeições que não couberam nos 140 caracteres. Nesta edição, só filmes. Com faixas-bônus e easter eggs.

(Pescando os textinhos no Twitter, notei que escrevi uma torrente de barbaridades durante a Copa do Mundo. Perdão, amigos, e até 2014)

A mulher sem cabeça | La mujer sin cabeza | Lucrécia Martel | 4/5 | Daqueles grandes filmes de mistério em que o detetive é o público. Cada cena é essencial (ainda que, numa primeira impressão, possa sugerir um torto fluxo de consciência). Não se apresse usar o rótulo ‘lynchiano’ – antes, note as sutilezas de uma trama menos delirante do que as aparências indicam.

Um lago | Un lac | Philippe Grandrieux | 4/5 | Grandrieux tem todo um ambiente exótico à disposição (é um mundo congelante, e deslumbrante), mas prefere usar a câmera para ampliar sentimentos: amizade, amor, relações familiares, ciúmes, dependência, isolamento e solidão. Cada uma dessas palavras é encenada com tanta precisão que, em alguns momentos, passei meus olhos pelo filme como quem vira as páginas de um dicionário: as nossas emoções, capítulo 1.

Nausicaä of the Valley of the Wind (1984) | Hayao Miyazaki | 3.5/5 | Que poderia se chamar ‘James Cameron’s wet dream’: lições de ecologia + imaginação febril. Mas tudo bem (do que estou reclamando mesmo?): um tempo depois, Miyazaki revisou a ideia em A princesa Mononoke – esse sim, um assombro.

A Riviera não é aqui | Bienvenue chez les Ch’tis | Dany Boon | 2.5/5 | 80% das piadas se perdem na tradução. O que resta é uma comédia gentil (e quase singela) que não chegou a me irritar.

Encontro explosivo | Knight and day | 2/5 | Os atores se divertem mais do que o público. Mas são pouco exigentes e, por isso, senti alguma vergonha alheia: Cruise & Diaz, vejam que constrangimento, não superam o patamar de Brad & Angelina (Sr. e sra Smith) e Harrison Ford & Anne Heche (Seis dias e sete noites).

Patrik 1.5 | Ella Lamhagen | 2/5 | Os atores até enganam, mas as situações são tão forçadas que me lembraram as comédias românticas mais tolinhas. Bobagem.

2 ou 3 parágrafos | Como treinar o seu dragão

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Esta boa animação digital da Dreamkworks (3/5) bem que poderia se chamar Como sobreviver no mundo de Avatar. Os diretores de Lilo e Stitch, mais espertos do que imaginávamos, entenderam a lição de James Cameron: usam o 3D como elemento criativo, essencial à narrativa.

Os personagens do filme são vikings que enfrentam dragões. Os monstrengos voam alto, dão piruetas. E é como se voássemos com eles. Parece um detalhe bobo, mas poucas fitas do gênero se beneficiaram tanto da tecnologia para nos transportar a um ambiente fantasioso. Em alguns trechos, parece até que os diretores se entusiasmam com o truque, curtem a brincadeira. Não vi nada parecido em Up – Altas aventuras, nem em Monstros vs. alienígenas, muito menos em A era do gelo 3. É um avanço.

No mais, Dean DeBlois e Chris Sanders vão ao trabalho (isto é: confrontam a Pixar) com as armas menos vulgares: a exemplo de Wall-E e Up, vão buscar no cinema de Hayao Miyazaki uma pincelada de lirismo que dá uma outra dimensão à amizade entre o menino outsider e o dragão com fama de mau. Nada muito pessoal, é claro (aliás, quando é que vão lançar Ponyo no Brasil?). Estamos falando de uma animação by the numbers (tudo é fórmula: a narração em off, os coadjuvantes engraçadinhos, o motivo romântico etc). Mas é um alívio notar que os estúdios querem bancar a “revolução” de Avatar: não tenho muito a reclamar de filmes que levam a sério tanto o 3D quanto esse tipo honesto de sentimentalismo, à japonesa.

2 ou 3 parágrafos | Lunar

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Desde o lançamento de Avatar, ouço a reclamação de que, apesar de todo o deslumbramento visual, o filme de James Cameron tem um problema: a trama é fraca. A esses, indico Lunar (Moon, 6/10), uma ficção científica muito engenhosa — mas que, pelo menos na tevê lá de casa, não pareceu nem um pouco hipnótica.

Duncan Jones, o diretor (e filho de David Bowie), tenta uma provocação sobre a ética da ciência. Para isso, joga com as expectativas do público, que fica meio perdido entre personagens que, isolados numa estação espacial, podem ou não ser clones. Como reconhecer um ser humano?, eis a questão. Sam Rockwell embarca no delírio solitário como quem tenta superar o Robert Duvall de THX 1138.

As ideias são até atraentes; o visual, old school (e, como Avatar, Jones cita um punhado de fitas de ficção científica, de 2001 a Alien). Mas me incomoda a falta de domínio da narrativa, a dificuldade de traduzir as filosofices em situações vivas, fortes, singulares. Parece até que a trama está emperrada, embolada. E, se é assim, do que adianta uma trama supostamente complexa? Em matéria de clareza e fluência, ninguém tem muito a reclamar de James Cameron. E me parece um erro essa história de confundir ficção científica inteligente com ficção científica que, às custas da nossa paciência, se faz de inteligente. São duas coisas bem diferentes. De aparente simplicidade, o mundo de imagens criado em Avatar me parece mais autêntico.

Adeus, 2009 | Os melhores filmes do ano (parte 1)

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Primeiro, às regras: entram nesta lista apenas os filmes que foram exibidos no circuito de cinemas brasileiro em 2009. Não contam, por isso, os que vi em festivais ou em DVD.

Isso significa, por exemplo, que Guerra ao terror (que chega às telas em fevereiro) talvez fique para o top do ano que vem. E que, para nosso azar, não haverá lugar para 35 doses de rum, Vício frenético, A família Wolberg, O que resta do tempo, Ricky e outros filmes mui bacanas que certamente estariam neste ranking.

Em resumo: o nosso circuitinho anda morno, o circuitão vai pior ainda, mas este foi (surpreendentemente) um bom ano. Os filmes que ocupam as oito primeiras posições são especiais, recomendadíssimos – e há outros, ainda que não tão extraordinários, se comunicam comigo de formas profundamente misteriosas (pule para a 12ª posição). Esta é a minha lista, e eu gostaria muito de conhecer a sua.

Infelizmente, não vi Moscou, do Eduardo Coutinho. Não sei, por isso mesmo, se gosto ou desgosto dele. 

Vou tentar ser breve nos comentários: sei que vocês estão de férias na praia, que a conexão é discada e que, neste mundo, ninguém tem mais tempo para nada. Comecemos (e sem menções honrosas, que aí já é abuso).

20. Milk – A voz da igualdade – Gus Van Sant

O filme político de Gus Van Sant é de uma precisão que emociona. Sem distrações, o cineasta desenha o perfil de um homem que virou mito que virou símbolo. Imagens dignas. E Sean Penn faz o resto do trabalho. 

19. Entre os muros da escola – Laurent Cantet

A escola de Cantet é uma metáfora para as tensões sociais da França, ok: mas bom mesmo é como este filme permite que entremos de corpo inteiro num ambiente tão familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Imersão absoluta – sem a necessidade de óculos 3D.   

18. O equilibrista – James Marsh

Não são muitos os documentários que abrem lacunas misteriosas para que preenchamos com a nossa imaginação. O que motiva o equilibrista Philippe Petit a se arriscar em espetáculos de altíssimo risco. James Marsh, felizmente, não tenta explicar.   

17. O fantástico sr. Fox – Wes Anderson

Um giro colorido e acelerado no parque temático de Wes Anderson, com todos os tiques, neuras e maravilhas a que estamos acostumados. Um avanço importante, no entanto: inesperadamente, o cineasta reencontrou a fluência narrativa e o gosto pelo riso solto. Brinquedinho bom, portanto. 

16. Up – Altas aventuras – Pete Docter

No formato de um curta-metragem de 15 minutos, seria a obra-prima melancólica da Pixar. Do jeito que está, mais para Madagascar do que para Meu vizinho Totoro, mostra que existe um preço que se paga quando o objetivo é agradar à toda família. Para os padrões dos blockbusters de férias, porém, é sofisticação em alto grau.

15. Valsa com Bashir – Ari Folman

Com traços psicodélicos e cores quentes, Folman reconstroi as memórias de uma guerra. De quebra, tira o cinema de animação do quarto das crianças.

14. Se nada mais der certo – José Eduardo Belmonte

Um olhar desconfortável para o Brasil, um país em perigo. Belmonte mira a classe média, essa gente estranha que compra ingressos para ver filmes, mas não se contenta com o diagnóstico da nossa tragédia: nos laços de companheirismo, há esperança. 

13. Avatar – James Cameron

O Star wars de James Cameron também é um filme “para crianças de 10 a 12 anos” (como diria George Lucas), com assumida carga moralizante, personagens-arquétipos e conflitos que cabem em pilulas que alimentam astronautas. Só não é ingênuo. Com a tecnologia 3D, o cineasta nos atira num mundo maravilhosamente estranho. Um planeta de ilusões palpáveis – sonhos reais.  

12. Presságio – Alex Proyas

A ficção científica mais subestimada do ano é também a mais assustadora. Esqueça 2012: Alex Proyas nos conduz numa viagem a um fim de mundo que soa cruel de verdade. O desfecho, que frustrou uma multidão, é a peça de resistência: uma ideia talvez tola, mas levada apaixonadamente às últimas consequências.  

11. Horas de verão – Olivier Assayas

Depois de rodar o mundo no encalço de personagens sem destino certo, Assayas os reúne numa casa de campo. A nossa trajetória deixa algum rastro? Uma crônica em tom menor, atenta a detalhes e à composição de ambientes, que, apesar de aparentemente singela, logo se faz grande: um dos melhores filmes do diretor.

O exterminador do futuro: a salvação

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terminator

Terminator salvation, 2009. De McG. Com Christian Bale, Sam Worthington, Bryce Dallas Howard e Helena Bonham Carter. 115min. 4.5/10

Outro dia comentei neste blog sobre duas sessões de cinema inesquecíveis, que marcaram minha vida para todo o sempre: a de O demônio das onze horas, de Jean-Luc Godard, e a de Playtime, do Jacques Tati. É a pura verdade. Mas não deixa de ser bonito escrever esse tipo de coisa — as pessoas leem e pensam que sou um cinéfilo culto e sofisticado.

Pois bem: uma das maiores sessões da minha vida ocorreu numa sexta-feira de agosto, 1991. Eu tinha 12 anos de idade, morava no subúrbio do Rio de Janeiro, liderava um clubinho de ciclistas desajeitados, detestava matemática e imaginava que, aos 29 anos, eu estaria trabalhando como um cardiologista muito bem remunerado. O filme? O exterminador do futuro 2 — O julgamento final.

Hoje, se alguém analisar o caso com distanciamento, possivelmente chegará à conclusão de que o longa de James Cameron simboliza (como poucos!) o avanço incontrolável dos efeitos visuais nas superproduções dos anos 90. Eu compro essa tese. Mas, para mim, ele representou uma revolução ainda mais avassaladora. Chegou na minha pacata pré-adolescência praticamente como o fim do mundo.

Por isso, não me peça para escrever seriamente sobre qualquer filme desta série. Os episódios que vieram depois, coitados, empalidecem perto daquela experiência. Nesses casos, só consigo fazer um tipo de texto que você encontra aos montes no meu blog, mas que não me deixam nem um pouco satisfeito: viagens egocêntricas ao redor da minha relação afetiva com o cinema. Sinto lembrar que that’s all, folks.

Acontece que a sessão de O exterminador do futuro 2 virou um fantasma, e eu ficaria até feliz se decidissem explodir logo essa franquia em mil pedacinhos. Mandar tudo para o ar em zilhões de pixels. Para mim, a série acabou faz tempo. Leio algumas críticas sobre este O exterminador do futuro: a salvação e fico abismado: as pessoas conseguem se divertir com isso? Conseguem devorar pipocas em paz? Não é uma questão de gostar ou não gostar: para mim, provoca apenas de uma viagem melancólica ao passado.

O filme de McG (que é um cineasta de imagens escancaradamente falsas, processadas por camadas de efeitos de computador — vide As panteras: detonando) é árido e enlameado. Uma espécie de Mad Max 2 atualizado para a geração Playstation. James Cameron filmou os robôs do futuro com um misto de deslumbramento tecnológico (estávamos no início dos anos 90, afinal) e horror. McG vive num mundo saturado de efeitos de computação e aproveita-se da possibilidade de compor universos quase abstratos, sem lei de gravidade, onde tudo pode acontecer. Ao mesmo tempo, parece um pouco entediado com tudo isso. É um filme sobre o apocalipse de um cinema de entretenimento mais inocente — para ser visto, por isso, junto com Transformers e Speed Racer.

(E Christian Bale é o ator-modelo para esse tipo de filme: expressivo como uma placa de metal).

Tudo o que posso dizer sobre O exterminador do futuro 2 remete a algumas sensações que entusiasmaram um menino de 12 anos. A principal delas: o filme parecia dividir comigo uma descoberta. Uma descoberta técnica, talvez. Mas a compartilhava graciosamente. Fiz questão de pegar a primeira sessão, na sexta-feira de estreia, como quem se apressava para ver o filme primeiro, antes dos outros. Era um acontecimento. Cada efeitos visual prateado que irrompia na tela era motivo para espanto. Às duas tarde, a sala estava lotada. O cinema ficava bem perto de uma estação rodoviária e, para vocês terem uma ideia do grau de comoção provocado por Mr. Cameron, quando o filme acabou, um grupo de cobradores e motoristas de ônibus o aplaudiu de pé, no corredor central do cinema.

Ao mesmo tempo em que entendo o fim desse cinema (e não consigo imaginar esse tipo de reação em sessões de Harry Potter e Homem-Aranha – aplaudíamos a tecnologia!), não me sinto confortável diante desse novo entretenimento, que me parece frio e aborrecido. Pensando um pouco sobre o assunto, talvez encontrarei aí a razão do meu desconforto com este quarto O exterminador do futuro: os filmes que me formaram como cinéfilo, de certa forma, me estragaram. Inconscientemente, talvez eu busque experiências que, hoje, são impossíveis.

No máximo, McG acena de longe para esse espectador distante: inclui Guns n’ Roses, a clássica frase “I’ll be back” e, finalmente, o próprio Schwarzenegger, que passa a habitar uma realidade paralela, reconstruído por efeitos de computação gráfica. Em tese, a liberdade como o cineasta picota essas e outras referências parece interessante. Mas, na prática, me deixa com a impressão de assistir a um protótipo truncado de um cinema que o nem próprio diretor sabe ainda como manipular.

Ou tudo pode ser apenas um tipo de saudade, um sinal de envelhecimento deste meninão aqui. Reconheço: também pode ser.