Indie rock

Contra | Vampire Weekend

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10 ideias prematuras sobre Contra, o ótimo disco do Vampire Weekend.

1. A tal da “síndrome do segundo disco” existe sim, e aflige principalmente as bandas que estreiam com álbuns que soam como colagem de singles (Strokes, Arctic Monkeys, Talking Heads, The Clash e tantas outras). Contra é exemplo de como lidar elegantemente com esse rito de passagem: expandir o alcance sem alterar o código genético (e a XL Recordings deve ter adorado o resultado: os fãs não estranham e saem correndo – mas não morrem de tédio).

2. É, por isso, um primo globetrotter de Room on fire, do Strokes: o momento em que o VW tateia novos brinquedinhos sonoros e, ao mesmo tempo, reforça os códigos do mundo que criou lá no primeiro disco. Os elementos de eletrônica lo-fi (trazidos possivelmente pelo tecladista Rostam Batmanglij, que tentou tudo isso e muito mais no projeto Discovery) são o sabor da estação.

3. E, por falar em “reforçar códigos”, que mundo particular o deles! Como acontece com os discos da M.I.A. (que é citada num sampler de Diplomat’s son), não há como falarmos simplesmente em world music. O que eles fazem é incorporar sons estrangeiros (pop africano, folk britânico, reggae e, em Cousins, uma guitarra que só pode ser de Pepeu Gomes) com a naturalidade de quem faz pesquisas rápidas no Google, passa férias em resorts na América Central e opera transações comerciais via laptop com empresários europeus. Um disco que o Paul Simon adoraria ter escrito; um roteiro que o Olivier Assayas adoraria ter dirigido.

4. Antes que acusem os rapazes de explorar superficialmente a onda do “pop global”, é fundamental entender que a banda não é nada ingênua. Ela cria personagens, engendra relações entre esses personagens e compõe um ambiente onde essa gente se movimenta. Uma paisagem, diga-se, de bem-nascidos. Filhos esclarecidos e privilegiados (também intelectualmente) da América. A banda não se exclui em nenhum momento desse círculo, daí a generosidade (com uma ponta de ironia, já que, na terra do pós-pós-rock, David Byrne ainda é rei) como trata os tipos que inventa. Ninguém está fingindo ser o andarilho miserável do meio-oeste – um pouco de franqueza, às vezes, cai bem.

5. O agradável é como eles nunca confundem esperteza com pedantismo. Criam canções de que gostamos imediatamente, instintivamente. Quando voltamos a elas com mais calma, aí sim descobrimos do que tratam.

6. Mais do que isso, é um disco que – ainda que irrequieto (cada faixa abre um folder sensivelmente diferente na playlist do grupo, ainda que duas delas tentem repetir a taquicardia de A-punk) – soa fluente. Deve ser “culpa” da interpretação afável de Ezra Koenig, um sujeito capaz de narrar uma profunda desilusão amorosa (em I think UR a contra) sem perder um tom absolutamente gentil. Não dá mesmo para não querer jogar uma partida de xadrez com o moço.

7. Como se não bastasse, Koenig dá um salto como letrista: em Horchata, narra toda a trajetória de uma história de amor (do espanto caloroso com “sentimentos que você pensava ter esquecido” à decepção mais gélida); em White sky, acompanha o entusiasmo do homem que espera a hora do almoço para visitar o Museu de Arte Moderna; em Taxi cab (que parece até homenagem ao Magnetic Fields), vê a desintegração de um romance do banco de um táxi; em Run, sonha com a fuga do trabalho (adolescência tardia é pouco). São personagens que vivem o início do século sem perplexidade. Cultos e carentes, espertos e frágeis. Podemos e devemos nos identificar com tudo isso.

8. O mais impressionante é como, com apenas 36 minutos de duração, o disco empurra ao limite o principal dogma do VW: o desejo por precisão e economia. Começa minimalista, quase discreto, e vai dilatando até abrir-se em duas canções longas e abertamente sentimentais que poderiam ser confundidas com alguma belezura do Postal Service: a tocante Giving up the gun e o reggaeton Diplomat’s son.

9. (Daí minha única ressalva, por enquanto: esses “novos caminhos” nem sempre são explorados plenamente. O grupo passa de raspão por muitos deles e, quando tenta preencher com teclados, cordas e barulhinhos fofos as lacunas de uma sonoridade minimalista, acaba se assemelhando a uma série de outras bandas de indie rock que circulam por aí. Não queremos que eles acabem se transformando num Death Cab for Cutie ou num Ra Ra Riot, certo?)

10. O alívio é que, mesmo sem saber o que fazer com o próprio som, nos próximos discos teremos uma banda capaz de ver o mundo (e o pop) como quem sai para um passeio no parque. A ambição é parecer simples. Os primeiros dois do Shins soavam assim, não?

Mas sabemos que não é simples. Se escrevesse este post, o Vampire Weekend gastaria três parágrafos, cinco linhas e poucos adjetivos. Diria, ainda assim, muito mais do que eu disse. Eis o passe de mágica.

Segundo disco do Vampire Weekend. 10 faixas, com produção de Rostam Batmanglij. Lançamento XL Recordings. 8/10

Hombre lobo | Eels

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eelsEntendo Mark Oliver Everett. Depois de virar a alma pelo avesso em álbuns tortuosos de tão confessionais, escrever ficção pode funcionar como uma excelente válvula de escape. Hombre lobo, numa primeira audição, soa como uma colônia de férias para Mr. Eels.

O álbum é a biografia de um personagem criado por Everett na canção Dog faced boy, do álbum Souljacker. Um homem excêntrico, escondido em tufos de barba, que provoca estranheza por onde passa. Um lobisomem americano, um monstro do cotidiano. Uma besta humana. Um outsider.

Em torno do protagonista, há o conceito do disco: 12 canções sobre o desejo. “Eu não queria escrever sobre um velho roqueiro indie resmungão. Pensei que seria mais interessante criar um personagem”, escreveu Everett.

Quem conhece o Eels sabe que esse distanciamento nada mais é que uma reação aos melhores álbuns que Everett gravou: Beautiful freak, Electro-shock blues e Blinking lights and other revelations. Todos eles narrados radicalmente em primeira pessoa. É como se, com as regrinhas conceituais de Hombre lobo, o compositor se desafiasse a abandonar as barras de segurança. Novas aventuras.

Nas melodias, o que noto é uma relação de contraste entre a sonoridade predominante do disco (um blues-rock ruidoso, áspero, que nos leva à fase Souljacker) e as canções de ninar doloridas — pesadelos de criança pequena — que costumamos associar à banda. O álbum alterna a seco essas duas facetas de Everett — In my dreams e All the beautiful things, por exemplo, poderiam estar no disco anterior.

Admiro o esforço. Em tese, é um álbum corajoso, que tenta novos caminhos para uma banda que já começava a andar em círculos. Há um desejo de economia no interior de canções como The look you give that guy e Fresh blood que as aproximam de um Spoon, por exemplo. São absolutamente precisas, talvez as mais maduras da discografia da banda.

Na prática, porém, a ficção confunde-se com os dramas de Everett, com contos sobre rejeição, crises de auto-estima, amores platônicos e sonhos agoniados — e o resultado é exatamente o caldo meio-amargo que esperamos de um álbum do Eels. Soa como uma compilação formada por faixas de Blinking lights e Souljacker. E aí prefiro a franqueza dos diários de Everett — desajeitados, sim, mas que graça existe no pop perfeito?

Sétimo álbum do Eels. 12 faixas, com produção de Mark Oliver Everett. E Works/Vagrant Records. 6.5/10