Independentes

Before today | Ariel Pink’s Haunted Graffiti

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Ariel Marcus Rosenberg tem 31 anos e nasceu no dia 24 de junho de 1978. Eu tenho 30 anos e nasci no dia 25 de julho de 1979. Isto é: não somos exatamente irmãos gêmeos, mas há um cordão invisível que nos une. Há sim. Nós dois, talvez na mesma época, fizemos loucas viagens ao mundo mágico do pop doméstico.

Não é incrível?

É claro, há algumas (pequenas) diferenças entre nós dois: eu gravei umas 20 fitas-cassete incrivelmente toscas, prestei vestibular, consegui um emprego, encostei a guitarra e hoje economizo cada centavo para pagar o aluguel e a tevê a cabo. Já Ariel Pink gravou umas 500 músicas lindamente toscas, fez amizade com o Animal Collective, assinou contrato com o selo 4AD, foi a Abbey Road e, no fim do ano, estará em um punhado de listas de melhores discos de 2010.

Mas voltemos ao mundo mágico do pop doméstico, ok?

A sonoridade de Ariel Pink — mais lo-fi do que o lo-fi — me transporta para 1999, 2000, quando descobri como transferir minhas canções para o computador e, depois submetê-las a cirurgias digitais tortuosas, transformá-las em criaturas esquisitas. Elas continuaram soando incrivelmente toscas, só que também muito bizarras.

Minha carreira musical tornou-se tão obscura quanto a dos candidatos rejeitados nas primeiras sabatinas do American idol. Eu não deveria estar me comparando a um ídolo indie que, de acordo com o Wikipedia, faz “outsider music”. Mas só forcei a barra para explicar que o estilo de Ariel não é uma novidade efêmera (repito, princemaníacos: 1999!) nem algo exatamente original, que surgiu como uma faísca de vida em Saturno. Aos meus ouvidos, soa como uma evolução daqueles testes muito inocentes que eu, Ariel e milhares de outros adolescentes desocupados fazíamos em nossos PCs antiquados.

Entre 2004 e 2008, Ariel lançou uma série de discos longos (cada um dura em média 60 minutos) e desarranjados que são mixtapes cujo objetivo é recriar essa pré-história do indie-digital-de-garagem-suja. Admito que tentei ouvir um desses discos e parei no meio: são experimentos tão particulares que me lembram das primeiras gravações do Pavement. É como se Ariel gravasse por tentativa e erro, sem destino, sem ambições, procurando um som que não sabia bem se conseguiria encontrar.

Mas encontrou. Daí a importância de Before today, que congela essa descoberta em 12 faixas adoráveis que soam como resíduos do apocalipse digital. É como se um vírus perverso resolvesse corromper e embaralhar uma playlist composta por cacos de pop oitentista, soul music dos anos 1970 e rock psicodélico dos anos 1980.

Nos primeiros discos, Ariel soava confuso. Agora, soa como se estivesse no controle de um estilo que, entre outras propriedades, desorienta quem ouve. É um grande avanço.

Cada pedacinho das canções parece estar no lugar certo (e, pela primeira vez, o compositor é acompanhado de uma banda muito afiada, que entra na brincadeira), ainda que o efeito do disco seja o de uma obra espontânea, uma jam siderada. A comparação parece absurda, mas Ariel joga no mesmo time do velho Bob Dylan e do jovem The XX: antes de se preocupar com canções, eles criam atmosferas que remetem a determinados períodos do passado do pop.

Ariel também tem algo em comum com o Super Furry Animals de álbuns ensebados e “datados” como Love kraft e Hey Venus. Mais do que remeter a ídolos da psicodelia, o vocalista tenta reprisar o espírito sacana e mutante de discos do T-Rex, de David Bowie e do Love. Daí que, quando as guitarras explodem em Butt-house blondie, elas nos lembram menos de noise pop e mais do som caloroso (mesmo quando pouco barulhento) de antigos vinis. E o discurso andrógino de Menopause man bate como uma ousadia perdida no tempo, como que tirada de uma cena perdida de Hedwig and the Angry Inch.

O mais divertido, no entanto, é quando Ariel leva uma mochila de vanguarda ao estúdio Abbey Road e sai de lá com Round and round. Uma canção áspera e doce. E tão bonita que me deixou com vontade de desenterrar minhas antigas fitas-cassete e — coragem! — ouvi-las mais uma vez.

Disco de Ariel Pink’s Haunted Graffiti. 12 faixas, com produção de Sunny Levine, Rik Pekkonen e Michael Wagener. Lançamento 4AD. 8/10

2 ou 3 parágrafos | E o Oscar foi para…

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Vi o Oscar aos pedaços, pela internet (não sei se perdi muita coisa, perdi?), mas preciso dar duas palavrinhas sobre o resultado. É que me incomoda muito essa conclusão (cada vez mais generalizada) de que a vitória de Guerra ao terror é um soco em Hollywood, um sinal de mudança, uma sandice da indústria. Calma lá. Não é bem o que acontece.

Desde o fim dos anos 80, a Academia aprendeu a lidar com as pressões criadas pelos próprios “independentes”, que passaram a investir em campanhas mais agressivas para emplacar produções e aquisições no Oscar (e o maior exemplo é a Miramax). Mas, já no fim dos anos 90, quando a própria Miramax já tinha sido comprada pela Disney, o conceito de independência ficou nebuloso. O que diferencia verdadeiramente esses filmes daqueles validados pelos grandes estúdios? Quem quer ser um milionário, Juno e Pequena Miss Sunshine, todos com o selo da Fox Searchlight (setor de um estúdio enorme), devem ser classificados como indies? E essa classificação, o que representa hoje além de um valor de marketing? Lembro de uma entrevista que fiz com o Todd Solondz, de Felicidade. “O único cineasta independente é o George Lucas, que controla todo o processo de produção dos próprios filmes”, ele comentou. É por aí.

Guerra ao terror é uma fita distribuída nos Estados Unidos pela Summit Entertainment, uma “pequena empresa” que lançou Crepúsculo e Lua nova. Me pergunto que, se num ataque de loucura dos integrantes da Academia, uma vitória dos vampiros adolescentes teria provocado manchetes em defesa dos independentes. Aposto que não. O que me interessa mais é notar como, nos últimos anos, a Academia tenta usar a (muitas vezes falsa) ideia de autenticidade associada aos “pequenos filmes” para recuperar prestígio e simular a aparência de uma festa relevante e séria, comprometida com um cinema supostamente adulto e legitimado pela crítica. Guerra ao terror cumpre todos esses requisitos. E (ainda que, no contexto, este seja um detalhe) calha de ser um belo filme.