Hunger

3 filmes | Hunger, Alexandra e Katyn

Postado em Atualizado em

hunger1

Irlanda, Rússia e Polônia: três experiências em guerras.

Hunger | Steve McQueen | 7 | Sempre haverá polêmica em torno de filmes que resgatam episódios reais por perspectivas radicalmente subjetivas. Lembro do lançamento de Elefante, quando Gus Van Sant foi acusado de explorar o massacre de Columbine. A questão de sempre: na arte, existe uma “forma correta” de lidar com determinados temas? McQueen traz das artes plásticas um olhar provocativo que me parece raro no cinema: em metamorfose constante, Hunger tenta se resolver como uma biografia intimista de Bobby Sands (Michael Fassbender, excepcional), líder do IRA que se submeteu a uma greve de fome, e também como uma reflexão pessoal, num tom abstrato e físico, sobre violência. O filme é composto como uma instalação de choque, com planos rigorosos e cenas agressivas – uma encenação que pode decepcionar quem procura um drama histórico ou um perfil aprofundado do personagem (e é didático o modo como o cineasta tenta mostrar os “dois lados” do conflito, por exemplo, ou explicitar o contexto da situação num diálogo interminável). Mas é um longa político a seu modo: menos sobre o IRA, mais sobre corpos em atrito e degradação.

Alexandra | Alexander Sokurov | 6 | É quase uma fábula dark – a guerra da Chechênia observada por uma avó que, em pleno conflito, decide visitar o neto numa base russa. Uma premissa até singela (que daria um horroroso melodrama hollywoodiano para a temporada do Oscar) é desenvolvida por Sokurov com uma estratégia nem sempre acertada, mas interessante: quanto mais naturais parecem as reações dos personagens, mais bizarro o filme fica. Acompanhar uma velhinha caminhando tranquilamente num campo minado provoca reações desencontradas do público – a maior parte cai na gargalhada (e há cenas, como a escapada noturna da personagem que só podem ter sido criadas com o propósito de fazer rir). Menos sutil e rigoroso que de costume (mais comunicativo, também um tanto acomodado), mas acredito que um típico Sokurov. Uma guerra que não assusta ninguém, cidades em ruínas, relações familiares impraticáveis e o sentimento de um ambiente devastado, em tons de verde-oliva.    

Katyn | Andrzej Wajda | 7 | Um duplo acerto de contas para Wajda: a reconstituição do massacre na floresta de Katyn, que vitimou oficiais poloneses em 1940, é uma saga, um épico. O diretor toma para si o compromisso de reparar um “erro histórico” (os assassinatos foram cometidos por soviéticos, não por nazistas) e prestar homenagem ao pai, morto na tragédia. Vence o dever cívico. Adotar uma narrativa clássica é uma opção até segura, já que o filme compõe um painel bastante abrangente de personagens para expor as consequências do crime (vários deles, por isso, têm a consistência de um desenho em papel-marchê). Mas um estilo também de austeridade e clareza, que prepara o espectador para um clímax chocante. Eu torcia para que o filme não dependesse desse tipo de impacto meio trivial. Mas é nessas cenas de catarse quase irracional que Wajda deixa transparecer a origem íntima do projeto, sem abandonar um sentimento universal de fúria e impotência.