Homem em queda

Kaputt | Destroyer

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No espelho, não me reconheço. Estou mais velho, me sinto mais velho, mas a imagem é de uma pessoa cada vez mais nova.

Meu apartamento também virou outro ambiente: ele está mais vazio, ainda que eu não tenha me livrado de móvel algum.

Até os textos que escrevo – e escrevo todos os dias! – deixaram de sair dos meus dedos. Como que escritos por outra pessoa.

Algo mudou.

Há alguns dias, uma amiga enviou uma confissão via e-mail. Ela estava estudando para uma série de provas e, depois de passar por três ou quatro etapas, começou a se sentir confiante de que conseguiria uma vaga. Quanto mais recebia sinais positivos, mais criava planos, explorando mentalmente um futuro novo que se abria, se desdobrava. Chegou o resultado e ela não passou. “Agora não sei o que fazer. Me sinto perdida”, ela escreveu, no e-mail.

Eu a consolei, garanti que aquela fase ruim passaria. Disse também que entendia o que ela estava sentindo; e, desta vez, não precisei mentir. É tudo o que sinto desde que meu namoro acabou. Quando os meus planos foram interrompidos (e planos cuja existência eu nem mesmo conhecia), sobrou uma vida antiga que não parecia mais pertencer a mim.

Subitamente, me vi de volta aos meus 24, 25 anos de idade. Antigos medos, a insegurança de volta. E aí tudo começou a parecer dissonante: minha imagem no espelho, o apartamento (um espaço provisório berrando para ser tratado como definitivo), meu cotidiano, meus amigos, minha família, a forma como falo e escrevo, o jeito como levo a minha vida.

Algo mudou. E foi uma mudança principalmente de percepção. Comecei a me notar de uma forma diferente.

Foi até um pouco irônico, por tudo isso, ouvir o disco novo do Destroyer com esse estado de espírito. É um disco também de mudança. Sobre o momento em que Dan Bejar, o bandleader, começa a perceber a própria banda de uma forma diferente.

E um disco que também mostra desconforto com a imagem que o espelho reflete. Dan Bejar tenta mudar, precisa mudar, mas ao mesmo tempo hesita, e essa hesitação foi registrada, essa hesitação está no disco. E é essa hesitação, eu digo, que talvez me faça voltar tantas vezes ao álbum.

Nem sei se gosto tanto dele, do disco. São poucas as músicas que eu lembro depois que ele termina. Mas não é uma questão de gostar ou não gostar. Existe algo aqui, neste disco, que me diz respeito. Estamos, eu e Dan Bejar, entre um passado que pesa nos nossos ombros e um futuro totalmente indefinido, às vezes assustador. Não temos a mínima ideia de onde vamos chegar.

Discos (e momentos) de ruptura são sempre complicados, principalmente quando a banda (e o sujeito) tem um estilo (um dia a dia) já muito bem definido. E principalmente quando não se tem por que mudar.

Eu ficaria satisfeito se o Destroyer se contentasse em ser sempre a banda de Rubies, aquele grande disco de 2006. Ele concentra a personalidade musical de Bejar: o fã de Dylan que tropeça nas próprias palavras, o vocalista hiperativo que não consegue amarrar dois versos sem balbuciar frases sem sentido, o compositor surrealista, o trovador que esnoba a métrica do pop. O Bejar do Destroyer é o homem livre e louco que se esconde no hitmaker blasé do New Pornographers.

Por que mudar?

Em Kaputt, no entanto, a impressão é de que o Bejar que conhecíamos, bem… ele não está mais aqui. Ou que aquele Bejar se diluiu em outro, com novas roupas e novos sonhos. O anterior, Trouble in dreams (2008), soava como capítulo de história antiga (e a voz e os maneirismos de Bejar eram todos inconfundíveis). Já este é o primeiro dia num emprego novo (ou, para os mais novinhos: o primeiro dia no ensino médio).

Cada um dos discos anteriores tem uma atmosfera bem definida, que vai interligando as canções (em Rubies, posso apertar o play em qualquer faixa que me sinto imediatamente feliz, transportado para aquele mundo, aquelas sessões de gravação). Mas era como se, antes, a atmosfera de um disco apontasse para o passo seguinte. Não mais.

Desta vez, numa transformação anunciada desde o EP Bay of pigs (2009), Bejar experimenta criar uma mise-em-scene a partir do zero, mais Stanley Kubrick que Woody Allen. O que encobre as músicas é uma neblina cinzenta, com uma chuva de sintetizadores démodé, oitentistas, com relâmpagos de saxofones, flautas e solos de guitarra. Quase chillwave, quase ambient, quase Bowie vs Eno, quase um delírio numa noite de inverno. “Miles Davis dos anos 80… O último tango em Paris”, explica Bejar, no estranhíssimo texto de divulgação.

Acontece que, sob essa cenografia que define todos os limites do disco, existe a voz, o temperamento de Bejar. Nós a conhecemos. E, talvez para se adaptar ao novo figurino, ela parece um pouco mais arredia, um tanto mais desiludida do que de costume, ainda que ainda fale pelos cotovelos. A euforia que se ouvia em faixas como Watercolours into the ocean agora cede lugar para um olhar que já viu tudo e está anestesiado – um ponto de vista que nos leva aos momentos mais cabisbaixos da dance music de um New Order ou dos discos mais recentes de Leonard Cohen.

A eletrônica, aliás, não é um elemento que Bejar profana em vão. O disco é todo habitado por personagens que habitam a noite, que “perseguem cocaína nas portas de fundos do mundo” (na faixa-título), que vivem “noites selvagens na ópera, noites selvagens no club” (na ótima Savage night at the opera) e relembram histórias de amor tortuosas (e as guitarras cheias de ecos de Poor in love poderiam estar em Joshua tree, reparem). O narrador observa o mundo da sacada de um castelo decadente, com um pôster de Morrissey pendurado na parede.

Um disco sobre a “falta de sentido que existe no projeto de fazer música para os dias de hoje”, Bejar avisa.

Num dos trechos mais pungentes, Suicide demo for Kara Walker, o homem leva oito minutos para divagar sobre uma menina que entendeu “tudo errado, tudo de trás para frente”. O que segue é agonia. “Garota tola, você nunca vai conseguir chegar lá. Toda Nova York apenas quer te ver nua”, avisa. “Negociações brancas e translúcidas passam por amor nos dias de hoje”, lamenta.

As letras de Bejar seguem se equilibrando para não tombar no abismo, entre o realismo e o absurdo. Mas o conteúdo dos versos me parece mais claro, mais preciso do que nunca. O que Kaputt ressalta são as notícias tristes de um narrador que, decepcionado com o que vê, procura uma sonoridade capaz de dar conta de tanta melancolia. E por isso ele muda.

Talvez seja o disco mais difícil do Destroyer, já que totalmente desconectado do que acontece no indie rock americano e canadense (ele tem mais parentesco, digamos, com o pop espanhol de um Delorean, ou com os suecos). Mas também um dos mais fáceis, já que Bejar abandona quase todos os tiques antigos para interpretar esse novo papel. Ainda ele, mas totalmente diferente. E um pouco perdido. O que sobra do homem que conhecíamos?

Não sei. Ouço este disquinho sinuoso (mistério sem fim) enquanto tento me acertar com a imagem que aparece no meu espelho.

Décimo disco do Destroyer. Nove faixas, com produção de JC/DC. Lançamento Merge Records. 8/10

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High violet | The National

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Tenho quase certeza de que conheço o narrador das canções do The National: é um homem de trinta e poucos anos, intensamente melancólico, que, depois de uma noite terrível, acordou com a sensação de que as paredes do quarto ganharam uma consistência macia, feito colchão de água. As cortinas perderam a cor (o que aconteceu com elas?). O teto decolou para Marte. Ele tenta se concentrar, mas só consegue pensar em três ou quatro frases sem sentido, que giram em torno da cama numa ciranda enervante.

Ok, vocês mataram a charada: eu sou o narrador das canções do The National. Bingo. Muito prazer. Puxe uma cadeira, por favor. A vida… não… vai… fácil… meu…. irmão.

Bem, talvez eu não seja verdadeiramente o narrador das canções do The National. Talvez todos nós tenhamos nossas manhãs de narrador-das-canções-do-The-National, quando o cotidiano embaralha as nossas roupas, some com os nossos livros, derruba lama no piso da sala e, de surpresa, nos deixa mudos, congelados, estirados na cama, sem corpo, quase dissolvidos no ar (nem que por alguns dez minutos, e eles duram para sempre).

Esse protagonista recorrente, que aparece em faixas agoniadíssimas como Mr. November e Mistaken for strangers, retorna especialmente tenso em High violet, o quinto disco do The National. Um sujeito inseguro e atormentado, que luta em silêncio para se livrar de uma rotina infernal. “Eu vivo numa cidade que a tristeza construiu. Ela está no meu mel, no meu leite”, ele admite, em Sorrow. A canção-autorretrato oferece um perfil psicológico até muito preciso desse homem em queda (que poderia ser confundido com o vocalista Matt Berninger, mas vamos fazer de conta que é tudo ficção, ok?).

Antes, na primeira música do disco, o narrador confessa que está preso a um amor terrível. A dor é uma companhia silenciosa. “Eu não consigo dormir sem uma pequena ajuda”, diz. Mas, ainda assim, não se entrega. “Não vou te seguir à toca do coelho. Eu disse que iria, mas sua pele e seus ossos disseram não”, ele conta. Enquanto isso, as guitarras rasgam a melodia, os versos se repetem (dão voltas ao redor da cama) e o drama permanece sem solução.

De forma mais ou menos explícita, essa história triste se repete no disco inteiro. Em alguns momentos, ganha tom de crônica tragicômica. É o caso de Bloodbuzz Ohio, que relata um encontro familiar. “Eu nunca pensei em amor quando lembro da minha casa. Eu ainda devo dinheiro ao dinheiro que devo ao dinheiro”, diz, antes de deitar a cabeça no carro, desamparado. “Eu sinto medo de todo mundo”, confessa, em Afraid of everyone.

Esse homem comum não está, no entanto, num beco sem saída. Em Little faith, ele aponta para uma discreta salvação. “Eu não quero ser o fantasma de ninguém”, avisa, em Anyone’s ghost. “Não serei um fugitivo”, promete, em Runaway. Mas terminamos o disco sem saber se esse desejo de libertação foi concretizado. É tudo muito vago, confuso (de propósito). Fluxo de consciência. Pesadelo.

A cada disco, a banda parece procurar uma sonoridade adequada para ilustrar esses sentimentos conflitantes e destrutivos, essa “reunião secreta no fundo do cérebro” (como explicam em Secret meeting). Em Alligator, os momentos delicados eram alternados aos mais raivosos. Esquizofrenia pura. Já em Boxer, as melodias definem uma atmosfera de monólogo íntimo, sussurrado, quase doce, Tindersticks meets Joy Division, mas tão desesperado quanto.

Agora cá estamos. Em High violet, os arranjos soam tão febris e instáveis quanto as confissões do narrador. As maior parte das músicas lembra o repertório de Boxer, mas caminha para desfechos violentos, ruidosos, de catarse. Elegância manchada de sangue. Aposto que, no palco, elas provocam taquicardia.

É de doer. Em Afraid of everyone, Sufjan Stevens acompanha Berninger no vocal (“Sua voz roubou minha alma”, eles cantam), enquanto a bateria de Bryan Davendorf vai empilhando efeitos até estourar em golpes agressivos. Terrible love, outro veneno, vai se afogando em distorção. O aparato luxuoso do disco (que usa vários instrumentos de sopros, cordas, além de piano) e os convidados especiais (além de Sufjan, tem Justin Vernon e Nico Muhly na folky Vanderlyle crybabe geeks, talvez a única grande surpresa do disco) só aparecem quando precisam aparecer – e, geralmente, são as cerejas explosivas desses hinos dark.

É um paradoxo dos bons: enquanto a banda se mostra mais segura do que faz e certa do som que procura (correndo o risco de esgotar um formato que ela refina desde o primeiro disco), o narrador das histórias parece cada vez mais fragilizado, desencantado, um homem condenado a viver dentro de canções tristes e de manhãs traiçoeiras. Mas temos o direito de cobrar algo diferente? Esse é o mundo do The National. E, às vezes, esse é o nosso mundo.

Quinto disco do The National. 11 faixas, com produção de Peter Katis e da própria banda. Lançamento 4AD. 8/10

Superoito e o fio da tragédia

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Sim, eu estava em Angra dos Reis entre os dias 30 de dezembro de 2009, quando pancadas insistentes de chuva começaram a descamar o balneário, e 3 de janeiro de 2010, o domingo em que conseguimos finalmente tirar os carros da garagem e, num passeio melancólico de não mais que 15 minutos, desviamos dos morrinhos de lama, das pedras pontiagudas cuspidas no asfalto e das vias bloqueadas (eram três, todas estreitas) para abandonar apressadamente uma cidade que…

…uma cidade que, naquela manhã, vinha para cima das pessoas, de todas as pessoas, atacava-nos com o muque de um terrível paradoxo: o céu brilhante de tanto azul (sem nuvens, lindo), o mar quase vermelho (de tanto barro), os turistas nas lanchas, as crianças de bicicleta, gente apreensiva gesticulando nas varandas de casas que se equilibravam perigosamente nas encostas, postes tortos, fios soltos nas calçadas, crateras nas curvas, jet skis e piscinas lá longe, uma menina com um balde vermelho na cabeça, cerveja gelada no boteco, futebol no campinho e o vulto de um trator. É pegar ou largar, a cidade dizia. Permaneça ou fuja, que sou estranha e incompreensível e contraditória e você não me entenderá.

Decidimos fugir. Essa paisagem em scope ficou para trás quando tomamos a rodovia e seguimos ao atalho que dava para a Via Dutra.

Você quer o relato objetivo da aventura? Então tome: eu e cinco pessoas muito queridas estávamos hospedados numa casa a poucos quilômetros do centro. Como quase todas as casas da região, ela foi construída a poucos passos da encosta. Uma bela encosta, por sinal: árvores altas e exóticas, de todo tipo, uma vegetação robusta que sempre associei ao cheiro úmido que antecipa as chuvas. O cheiro lembrava a minha infância. Algumas pessoas ergueram casas elegantes e chamativas sobre o morro – não para copiar os miseráveis que se empilhavam nas favelas próximas, mas talvez para que a paisagem da Praia do Retiro enchesse as janelas todas as manhãs, com os jet skis, as lanchas e todos os outros acessórios da boa vida. Não sei explicar: há pessoas que curtem viver perigosamente, nas encostas, em meio às árvores, ali num poleiro privilegiado, e prefiro parar esse raciocínio por aqui e voltar ao relato objetivo dos fatos.

Chegamos à casa na noite do dia 28, uma segunda-feira. No dia seguinte, tomei banho de mar e fiquei queimado de sol. Tudo muito comum e desinteressante. Minhas costas ainda ardiam quando, na quarta-feira, começamos a sentir uma chuva fina, fria. O céu fechou em camadas infinitas de cinza e os turistas guardaram os jet skis para jogar baralho, tirar sonecas, ler livros e fazer os planos para o réveillon. “Que pena. Essa chuva…”, lamentavam. Mas ninguém parecia preocupado com ela, a chuva, que não caía com a potência de um tsunami. Era uma chuvazinha de nada. Está certo que, de vez em quando, o chuvisco engrossava e virava um chuvão. Mas depois voltava ao normal, àquela aguazinha sem graça, que precisaria comer muito feijão para botar alguém pra correr.

Na manhã do dia 31, estranhei a persistência da chuva. Ela simplesmente continuava. Continuava. Fraca, tímida, mas firme na labuta. Sugeri (juro que sugeri!) que fizéssemos um filme de horror sobre a chuva que nunca para. Um filme chamado A chuva que nunca para. Ninguém achou muita graça. Mas estávamos certos de que o sol voltaria a brilhar e de que (quem sabe?) a noite de ano-novo seria luminosa. Por volta das 19h, acabou a energia elétrica. Às 21h, recebíamos os primeiros telefonemas: “Parece que o caso aí de emergência, tome cuidado” (era minha mãe). “As estradas estão fechadas, parece que caiu uma encosta na rodovia” (era outra pessoa, não lembro quem). “Parece que parece que parece que parece que a coisa está feia, mas parece que parece que talvez pareça que” (tudo parecia, nada era).

Jantamos à moda medieval, iluminados por um santo lampião e nos embalos de uma trilha sonora orquestrada por grilos e ondas do mar. Os encantos selvagens da natureza, sem óculos 3D. Os vizinhos trouxeram um som portátil que espantou um pouco o clima de frustração. À meia-noite, vimos a queima de fogos mais sombria da história: explosões coloridas engolidas pela neblina, pipocos amarelados numa ilha perdida, cores meio mudas, já que a chuva (cada vez mais feroz) minimizava o impacto dos sons. As pessoas, coitadas, deixaram de lado até um ritual dos mais sagrados: pular três ondinhas do mar. Esquecemos de brindar. Trocamos champanhe por água-com-açúcar. No início da madrugada, fomos todos dormir, fulos da vida com a vida.

Antes de deitar, ouvi um barulho que em nada soava assustador. Era um baque abafado. Depois do baque, um sopro gordo de vento atravessou a janela (como se produzido por um dragão de desenho animado).

Logo descobrimos que uma árvore havia desabado no quintal da casa onde estávamos hospedados. Os galhos grossos (de quase 10 metros de largura) desceram a encosta, deitaram sobre a fiação elétrica, entortaram dois postes e foram parar exatamente à frente do nosso portão, bloqueando a passagem. Para nosso azar, não havia como sair de casa (e, com o estrago na fiação, ficaríamos sem luz por mais um tempo). Para nossa sorte, as duas outras árvores que quase cederam continuavam se equilibrando no barro de uma encosta que havia (também para nossa sorte) descolado só um pouquinho.

Todos estávamos tensos quando fomos dormir. “Com essa chuva, e as outras árvores? E a encosta? E se?” Ainda assim, deitamos. Não havia o que fazer. Tínhamos medo, mas não contávamos com possibilidades terríveis. Pouco antes de tudo isso, na manhã daquele 31, saímos de carro para o centro da cidade e, numa ladeira íngreme, quase fomos levados por uma carreta velha que, pouco antes de se chocar contra o nosso carro, fez um desvio acelerado e colidiu numa parede. Seria muita tragédia para um dia só, eu pensei. E já havíamos passado muito tempo dançando no fio da tragédia. Deveria haver uma lógica nisso tudo, na nossa vida, e essa lógica possivelmente permitiria um pouco de sorte a quem havia vivido duas quase-catástrofes em menos de 24 horas. Isso sim faria algum sentido!

Passamos o primeiro dia do ano olhando para um portão trancado, preso dentro da barriga de uma árvore morta. Não parecia muito engraçado.

Mas, de uma perspectiva menos pessimista, era sim muito engraçado. Era! Sem energia elétrica (e impedidos de sair até para comprar o jornal), não sabíamos nada sobre a dimensão de uma tragédia que era narrada a conta-gotas, com tons de exagero e nonsense. “Parece que morreram 200 pessoas numa pousada”, comentou um sujeito que havia seguido de lancha até a cidade. “Parece que fecharam a rodovia, e pra não abrir tão cedo, talvez semana que vem”, arriscou o outro. “Dizem que os homens da Defesa Civil estão chegando pra tirar a árvore e abrir o portão, mas só semana que vem”, prometiam. Enquanto ninguém aparecia para resolver o problema, tomávamos banho de piscina e tostávamos ao sol, mais ou menos felizes, mas nunca completamente felizes, com o momento de descanso (era nossa folga e éramos filhos de deus). Vi até uma cena que era puro surrealismo: uma mulher de biquíni verde, tristíssima, concentradíssima, de pé sobre uma prancha de surfe, flutuando lentamente sobre o mar plácido e marrom. Era um sonho. Era um pesadelo. Era algo inexplicável.

Abreviando o caso: a luz não voltou, os homens da Defesa Civil não chegaram, o jornal não veio e ficamos completamente alienados por 24 horas. As informações faziam eco por telefone, e truncadas. “Não vi o noticiário, meu filho.” “Mas por que, mãe?”, eu perguntava. “É que me assusto.” “Mas mãe…” E o cabo-sem-fio continuava a dissolver notícias que pareciam falsas de tão mirabolantes. 500 mortos numa pousada? Que pousada grande.

Na manhã de sábado, alguém decidiu fazer um passeio de bicicleta no fundo do apocalipse. Das cinzas do armagedom, a boa alma trouxe o jornal.

E que notícias! Era tudo tão horrível que parecia não ter acontecido. Aquela chuva boba havia criado avalanches de terra que, na noite em que a árvore caiu no quintal, aniquilou cerca de 50 pessoas. Todos corríamos risco: os da favela e os da beira-mar, os que estavam em pousadas e os que moravam perto de pousadas. A Defesa Civil pedia para que os turistas deixassem a cidade, mas não parecia ter nenhum conselho para os turistas que queriam deixar a cidade, mas estavam impedidos de sair de casa. Que Buñuel morresse de raiva: ainda havia macarrão e molho de tomate – de fome e sede nós não morreríamos.

Diante das páginas do jornal, me assustei com a ideia de que, sem o registro oficial, eu provavelmente não teria sentido a tragédia de que – em alguma medida – eu fazia parte. Depois de ter assistido às notícias da tevê, minha mãe parecia outra pessoa: estava transtornada, chorando e soluçando e gemendo ao telefone.

– Tiago, vocês foram se meter no meio de uma notícia! – minha mãe estava assombrada com aquilo tudo.

– Mas mãe, eu não sinto como se estivesse no meio de uma notícia.

– É que você não tem a noção.

– Não tenho, mãe.

– As pessoas morreram.

– Elas morreram.

– E você quase morreu.

– Não sei se foi isso o que aconteceu. Nunca se sabe.

– Um moço de 30 anos desapareceu.

– Eu estou bem aqui.

À tarde, quando os homens da Defesa Civil chegaram (com tratores e serras a diesel), começamos a notar o que (não) havíamos vivido.

– Resgatamos cinco corpos. Muitos mortos. Vocês foram sortudos. Estão dentro de casa. Tem de tudo aí pra baixo. Árvore esmagando os carros. Árvore quebrando telhados. Pedras desse tamanhão assim. Hoje cedo, fizemos dois partos numa lancha – narrou o chefe da equipe, que usava óculos Ray Ban modelo 1978 e, com um topete generosamente branco, parecia o personagem de uma série de tevê prestes a ser criada.

Não entendi onde os partos aquáticos se encaixavam na trama, mas a narrativa contada por aquele homem, vestido num macacão alaranjado e pronto para a guerra atômica, começaram a nos tragar para a cidade. O coração da selva. Quando a Defesa Civil foi-se embora e abrimos o portão, vimos a cidade. E foi só aí que sentimos a cidade. O cheiro da cidade. Um ar de ressaca. Uma impressão de medo. Depois, a sensação de que a tragédia havia passado de raspão. E que estávamos vivos graças a uma conjunção muito delicada de fatores. E se os troncos que caíram a alguns centímetros da janela do meu quarto tivessem se aproximado um pouco mais, um pouquinho mais, alguns centímetros? E se a encosta tivesse lambido o asfalto com a força com que desabou sobre as cinco casas de lha Grande? O que faríamos? Para onde correríamos? De que janela saltaríamos? Estaríamos acordados? Daria tempo? Seríamos fortes? Quem sofreria mais? Quais traumas seriam os mais intensos? Que história contaríamos? Que relevância teria a nossa história? Em quanto tempo ela seria esquecida? Como sairíamos no jornal?

E se?

Na verdade, estávamos à margem de qualquer matéria de jornal. Talvez por isso, um pouco aliviados. Se algum jornalista nos abordasse para saber sobre a nossa experiência, diríamos simplesmente: “Mas não aconteceu nada! Estamos muito bem! Foi um feriado um pouco tenso, mas saímos dele sem arranhões. Veja: estamos respirando!” Tudo muito limpo e civilizado. Quase nada aconteceu. Não havia motivo para virarmos celebridades-relâmpago.

De volta a Brasília, narrei o caso a algumas pessoas curiosas. Dez, quinze pessoas. A mesma ladainha. A casa, a árvore, a falta de luz, a encosta, a cidade esvaziada, as rodovias fechadas, o medo de morrer. Meus amigos ficaram verdadeiramente espantados com a situação, mas tenho poucos amigos. Alguns deles fizeram piadas, o que me deixou menos preocupado com a minha própria vida: rir do quase-desastre mostrava para mim que ele, o quase-desastre, estava cada vez mais longe do meu alcance, como que perdido numa realidade inventada por softwares de efeitos visuais. E, distante dele, eu poderia cumprir as atividades do cotidiano de uma forma mais leve e despreocupada, e não prestes a correr para a sala do cafezinho com medo de que uma encosta desabasse sobre o meu computador. Eu não estava perturbado por nada daquilo. Repeti três vezes, no banheiro: eu não estou perturbado, eu não estou perturbado, eu não estou perturbado.

Quando voltávamos para São Paulo, pela estrada, um dia antes, alguém comentou que eu não tinha demonstrado nervosismo algum quando vi a árvore caída no nosso quintal.

– Você ficou tão tranquilo, Tiago. Eu mal consegui dormir. Talvez você só se desespere com as pequenas tragédias.

– Deve ser isso – eu respondi (mas menti, já que não entendia ainda nada do que havia acontecido).

A viagem de volta, de carro, durou seis horas. A pista estava menos movimentada do que esperávamos. Parecia inacreditável. Tudo conspirava para a nossa felicidade, enfim. Um desfecho razoavelmente feliz. Não perdi o avião. Quando desembarquei no aeroporto de Brasília, minha mãe chorou, me abraçou e pediu para que eu dormisse em casa. “Não quero perder meu único filho”, ela chantageou, entregue ao papel de mãe total, com aquele jeito dramático que é todo meu. Decidi ficar com eles. Minha mãe, meu padrasto, minha irmã e os cachorros.

Chegamos a tempo do noticiário da meia-noite. “Venha ver o que aconteceu com vocês”, minha mãe exigia. Preferi ler o capítulo de um livro e dormir. Chega de histórias reais, pensei. Mas tombei no segundo parágrafo. Eu estava exausto.

Sonhei com encostas azuis e vermelhas sob um céu verde. Desabando.