Guillermo del Toro

cine | Gato de Botas

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O primeiro Shrek é o melhor da série. Estou quase certo, vejam só, de que ele mereceria uma boa cotação neste blog (B+, digamos). Mas recomendo que, nesse caso, você não confie muito em mim: sempre fui uma mãe para as comédias que satirizam filmes conhecidos e, quando vi aquele desenho, eu tinha 21 anos. Em 2001, este blogueiro dizia/escrevia coisas que hoje me envergonham.

As três sequências de Shrek são bobagens bobíssimas, certo? A segunda era um pouquinho engraçada. As outras duas, nem isso. Não lembro delas, e duvido que muita gente lembre. Mas tenho vagas lembranças sobre aquele primeiro Shrek. Na época, num texto que escrevi (um post cheio de adjetivos, como quase tudo o que eu escrevia naquela época), o qualifiquei como “empolgante”, “vívido”, “alegre” etc. O que ficou na minha memória foi mais ou menos isso: uma animação rancorosa/recalcada, sim (é um fuck-off pra Disney, resumindo), porém cheia de joie de vivre; graça, entusiasmo.

É tudo o que (também resumindo) este Gato de Botas não tem. Possivelmente o filme será acolhido com carinho por críticos que rejeitam o humor despeitado de Shrek. Gato de Botas passa, nesse aspecto, à margem da franquia onde nasceu. Em parte, o faz por razões comerciais: existe toda uma impressão de desgaste associada à série. Mas a alternativa dos produtores (entre eles, Guillermo del Toro) me parece inócua: criar uma fita de aventura levemente cômica e com algo surreal (um dos personagens é um ovo falante!), com sotaque espanhol, que poderia ser descrita como, ai-ai, uma versão animada e em 3D para, sono, A Lenda do Zorro. Um cineasta mais sacana, um Robert Rodriguez, teria tratado os personagens e as situações de uma forma mais apaixonada. Mas Guillermo del Toro não é Robert Rodriguez. E Robert Rodriguez não está aqui.

(Puss in Boots, EUA, 2011) De Chris Miller. Com vozes de Antonio Banderas, Salma Hayek e Zach Galifianakis. 90min. C

cine | Não tenha medo do escuro

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Não consigo lembrar de outro remake de horror recente que tenha nascido de um projeto tão pessoal: Não tenha medo do escuro é uma tentativa de recriar um telefilme de 1973 que despertou em Guillermo del Toro, então com nove anos de idade, o desejo de se realizar filmes de fantasia. A proximidade entre o cineasta e o longa-metragem era (e é) tão intensa que, talvez por isso, del Toro tenha preferido delegar a função de diretor a um estreante, Troy Nixey, e tomar para si a responsabilidade pelo roteiro (escrito também por Matthew Robbins) e pela produção. Entendo o receio do diretor: o excesso de nostalgia e sentimentalismo, no caso de reencontros com filmes que amamos, pode ser mesmo fatal.

No mais, se era esse o plano, ele funciona: não é uma refilmagem excessiva, extravagante. Pelo contrário. Parece ter sido dirigida por um calouro que passou o semestre estudando o estilo de del Toro – acima de tudo, a cumplicidade como vai à imaginação infantil, sem encarar os personagens com ar de superioridade. A câmera de Nixey (como acontecia em O labirinto do fauno, por exemplo), está até um pouco aquém da protagonista, uma menina que responde às ameaças medonhas com reações valentes, curiosas, que nos surpreendem (e às vezes nos fazem pensar: eu não teria a coragem). Uma menina talvez frágil, inocente demais para ser considerada uma super-heroína; mas vítima, nunca.

O filme posiciona essa personagem num mundo que é também típico de del Toro, um cineasta que prefere um horror mais, digamos, mitológico (povoado por fábulas, lendas) às fórmulas de slasher movies (as fitas de serial killers monstruosos) ou dos thrillers assombrados por espíritos malvados (os dois maiores clichês do gênero, e os que estão mais em voga atualmente). Não tenha medo do escuro não é uma coisa nem outra e, por isso, parece até datado, errado. Quando os vilões finalmente se revelam às câmeras, o espectador é obrigado a tomar uma decisão: ou abandona o filme por completo (sem pipoca nem fé), ou entra (receoso, porque não há outro jeito) no parquinho temático de del Toro.

O que parecia um joguinho singelo de horror, a partir daí, se transforma numa experiência um pouco mais sofisticada, já que alterna dois pontos de vista (o do diretor, mais pragmático, e o de del Toro, mais lúdico) e duas formas de lidar com o gênero (uma “caduca”, B, outra mais contemporânea, toda demarcada por efeitos grosseiros de som e CGI). E são essas tensões que deixam o espectador sempre às escuras, mesmo quando ele deixa de acreditar no que vê na tela e passa a assistir ao espetáculo como uma criança já crescida, sem tantas ilusões e já familiarizada a muitos dos lugares-comuns do gênero. De uma forma ou de outra, este aqui tem minha defesa: uma pequena fábula de terror para crianças corajosas de nove anos de idade.

HELLBOY II: O EXÉRCITO DOURADO

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Hellboy II: the golden army, 2008. De Guillermo del Toro. Com Ron Perlman, Selma Blair e Doug Jones. 120min. ***

Guillermo del Toro vê beleza no que é estranho.

Uma das grandes seqüências de Hellboy 2 trata exatamente disso: nela, nosso herói monstruoso – vermelho, tosco, louco por doces e tevê – enfrenta um gigantesco deus da floresta. Depois de escalar a fachada de um hotel (com um bebezinho no colo!), ele mata o vilão. Em vez de um desfecho triunfante para o duelo, com o típico jorro de alegria vingativa, a criatura morta se abre numa exótica flor verde, que se desmancha numa bela chuva de pétalas. A trilha sonora chega em tom menor – o som não é de vitória, mas de melancolia mesmo.

Em outra cena, essa mais cômica, o vermelhão freak divide uma cerveja com um monstrengo azul-piscina. Juntos, eles choram as pitangas de relações amorosas mal-resolvidas ao som de uma canção pop romântica. I can’t smile without you. “Eu daria minha vida por ela”, confessa o super-herói bebum. “Mas ela também quer que eu lave a louça.”

Eis o conflito.

Mas é apenas um entre tantos conflitos de Hellboy 2, um filme de ação que Guillermo del Toro dirigiu e escreveu talvez para nos provar que é possível pagar as contas e, no meio-tempo, fazer um tipo bastante pessoal de cinema de entretenimento.

Na primeira hora de duração, a trama parece mera desculpa para que o diretor desenhe as criaturas extraordinárias de sempre. Da metade em diante, o longa assume uma dimensão épica que poderia ter arruinado o playground. Mas não. Del Toro banca o espírito nerd de uma história que se empenha em construir toda uma mitologia em torno de Hellboy – o arruaceiro ganha até mesmo uma perspectiva sombria de futuro que envolve o destino da humanidade.

E aí toca Beautiful freak, do Eels (apelação!).

Muito esparramado no próprio universo, del Toro não se envergonha dessa guinada da trama. Trata o filme com um tipo destemido e desvairado de fantasia, raro no gênero. Taí uma continuação que avança em território desconhecido e prega peças em quem esperava dela apenas mais um capítulo de franquia. O cineasta está brincando, se divertindo, testando uma nova linha de monstrengos – Hellboy 2 não é, não quer ser O labirinto do fauno. Mas del Toro brincando vale (ah sim, vale) por um batalhão de cineastas tão sérios.