Green Day

2 ou 3 parágrafos | Machete e Green Day

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Robert Rodriguez, 42 anos. Billie Joe Armstrong, 38. Poderiam ser meus tios. Mas posso usar a palavra maturidade (ou outra menos desgastada, com o mesmo significado) para descrever a fase atual de um cineasta e um rockstar que nunca abandonaram a adolescência? Por coincidência, assisti a Machete na manhã seguinte ao show do Green Day em São Paulo: são dois exemplos de arte juvenil pensada por gente grande.

No show, Armstrong cria um circo, um playground quase grotesco (há um momento especialmente kitsch que me lembrou as cafonices de Las Vegas), para assumir a vocação para entertainer. O espetáculo é tão populista quanto possível (em quase três horas, a banda toca praticamente tudo o que os fãs querem ouvir), mas até essa imensa generosidade  do trio vem carregada com um tom de farsa, de brincadeira venenosa. O “show de calouros” de Armstrong mostra com clareza a identidade da banda: mais afinada ao hard-rock excessivo dos anos 70 do que ao hardcore melódico dos anos 90.

Machete (4/5) é todo feito de conceitos também precisos, que definem um estilo. Rodriguez, que codirige o longa com o montador Ethan Maniquis, geralmente é atropelado pelas próprias ideias. Filmes como A pedra mágica e até mesmo Planeta terror (de que não sou grande fã) podem deixar a impressão de um moviemaker criativo porém frenético e desatento, sem paciência para consolidar todos os planos que faz na pré-produção. É uma surpresa, por isso, notar que Rodriguez finalmente conseguiu criar uma comédia sangrenta, à grindhouse, com alvos muito bem definidos (a esculhambação mal esconde um ataque feroz às instituições e às manias americanas) e um protagonista que representa a obsessão do diretor pelos heróis mexicanos (e Danny Trejo, antes coadjuvante, é um achado). E é um filme ainda mais “grosseiro”, mais popularesco quanto os primeiros projetos do diretor. A crianções como eu, Rodriguez e Armstrong alertam: pode levar muito tempo para que nos tornemos adolescentes verdadeiramente interessantes.

21st century breakdown | Green Day

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greendayGreen Day é uma das maiores bandas de rock do mundo? Ainda não me acostumei com a ideia. O que aconteceu com o mundo, afinal?

Fico com a impressão de que poderia ter sido qualquer um. Quem cresceu nos anos 90 talvez sinta a mesma cosia. E se o Offspring, depois do sucesso de Americana (1998), tivesse gravado uma ópera-punk sobre a saga de um anti-herói adolescente massacrado por uma América apocalíptica? E se o Weezer, em vez de abraçar o power pop eufórico e autoirônico, tivesse optado por fechar o sorriso e mirar coração e mentes da juvenília desesperada? E se…

Não, sério: não poderia ter sido qualquer um. Não. Ao contrário do Offspring e do Weezer (e do Foo Fighters e do Korn e do My Chemical Romance e do Oasis etc), o Green Day descobriu o milagre do rejuvenescimento. Mais que isso: o trio parece habitar indefinidamente uma bolha de adolescência. Depois de 22 anos de carreira, Billie Joe Armstrong (37 anos!), Mike Dirnt (37 anos!) e Tré Cool (36 anos!) ainda são três moleques de 16 anos.

Não sei como. E também não me decidi se isso contaria como uma qualidade. Tomemos como um fato, um traço de personalidade. Recorro a Caetano Veloso, Verdade tropical: “Alguém já disse que os homens que fixam seu espírito nos temas enfrentados na infância produzem obras profundas, enquanto os que repetem indefinidamente as questões e ilusões da adolescência estão fadados a girar nessa zona periférica em que se discute repressão, definição sexual e satisfação dos anseios de liberdade. Eu me situo no segundo grupo.”

Se Caetano é uma personalidade atormentada por inquetações de adolescente, preciso fazer uma correção: o Green Day é uma banda de rock pré-adolescente.

Talvez esse espírito de juventude sirva de explicação para as duas ressurreições da banda: depois de ocupar o vazio deixado pela queda do grunge com a despretensão de um punk californiano arejado, divertido (Dookie, 1994), o grupo combateu o cansaço da fórmula e voltou à briga com uma balada pop de sucesso (Good riddance, de Nimrod, 1997). Já ali, Armstrong se mostrava um band leader duro-na-queda, sem vocação alguma para o underground.

O segundo retorno, depois do morninho Warning (2000), viria com American idiot, a ópera-punk inspirada em The Who que, apesar de recebida com críticas desanimadoras (a produção automática de Rob Cavallo e as baladas derramadas pesaram contra — e ainda não consigo ouvir o álbum sem sentir saudades de Dookie), começou a história da estaca zero: conquistou um novo público, virou fenômeno e fez do Green Day um monstro de arenas. Ninguém grava uma parceria com o U2 em vão.

Essa história longa e enfadonha nos leva a 21st century breakdown — que, se dependesse do histórico de altos e baixos do Green Day, seria um projeto fadado ao fracasso, a um (novo) desagaste de uma (nova) fórmula. Mas, pela primeira vez, o trio avança furiosamente na oportunidade de manter-se no topo. Como um summer movie de Hollywood, o disco é uma continuação segura do blockbuster American idiot — mas trata-se de uma sequência que preserva elementos do longa-metragem original como um template para novas criações. Homem-Aranha 2, digamos.

E, bem, devíamos ficar felizes por isso! Ao trocar Michael Ba… Rob Cavallo por Sam Raim… Butch Vig, o Green Day encontrou finalmente o produtor certo para o projeto pop que eles sempre sonharam. Pode parecer tardio, mas 21st century breakdown ergue-se como o manifesto definitivo do Green Day: um álbum tolo, escancaradamente comercial, repleto de baladinhas para seriados de tevê, mas igualmente poderoso no acúmulo de referências de glam e classic rock. Um disco assumidamente comercial, popular, que faz tudo para agradar e, não sem forçar a barra, consegue despertar uma alegria pré-adolescente no ouvinte. Em qualquer ouvinte.

Procurar alguma transgressão no discurso de Armstrong é caçar vanguarda em fita de ação. Dividido em três atos, o álbum acompanha a fuga enloquecida de um casal de outsiders: Christian e Gloria. As canções atacam instituições religiosas (sem citar nomes), governo (e aí cita pelo menos um nome: Nixon), a “opressão da sociedade” (trademark punk) e um inimigo que pode estar em qualquer lugar. Não é uma narrativa tão clara quanto a de American idiot: a paranoia que move os personagens embaça as cenas e situações. E que ninguém esqueça de que, nas bordas do roteiro, existe uma história de amor.

A faixa-título, inspirada em Queen, é ambientada na virada do século. É um flashback adequado, já que o álbum pertence àquela época: é um tipo de superprodução que nasce datada, como um exercício de nostalgia, uma peça à antiga (coloque na mesmo arquivo de Stadium arcadium, do Red Hot Chili Peppers, The black parade, do My Chemical Romance, Viva la vida, do Coldplay, e No line on the horizon, do U2). O formato do disco recicla clássicos como The Who sell out como um cineasta que recorta cenas de Easy rider e cola num videoclipe da Shakira.

Mas existe uma força ingênua no disco que acaba por justificar essa colagem superficial: em quase 70 minutos, o Green Day usa todos os recursos a que tem acesso para manter o público atento, entusiasmado. É uma banda limitada — Bohemian rhapsody, do Queen, já instigou experiências mais ousadas (Paranoid android?) —, mas disposta a testar o próprio fôlego. Daí a forma meio desengonçada como eles tentam expandir um som quadrado e se aproximar do power pop (Last of the american girls é quase Fountains of Wayne), do pós-punk da geração 2000 (Horseshoes and handgrenades copia Main offender, do Hives), e de soft rock levado a sério (o Foo Fighters teria feito uma balada como Last night on Earth, mas com algum sarcasmo).

Estou certo de que o Green Day planejou este álbum como um resumo da ópera — o último grande disco de rock. Soam até preocupados. Na pele deles, eu não me incomodaria. Depois desta geração de adolescentes haverá outra, e depois outra. Quando se tem 16 anos para sempre, essa imagem de futuro deveria servir de conforto.

Oitavo álbum do Green Day. 18 faixas, com produção de Butch Vig e Green Day. Reprise Records. 7/10