Girls

Mixtape! | Agosto, die young

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A mixtape de agosto, que agora vocês têm em mãos, me tomou de surpresa. Primeiro porque ela soa mais coesa (e intrigante!) do que eu previa. E, em segundo lugar, por um motivo que só descobri depois de ter ouvido o CDzinho pela terceira vez: ele se tornou muito mais cinzento do que a coletânea que eu planejei.

Acidentes acontecem, pois bem. E esta mixtape, oh sim, aqui me parece um belo acidente.

Logo depois que gravei o CD, me decepcionei um pouco com o resultado: parecia disforme, desajeitado. Depois percebi que ele fazia todo sentido. E exclamei, aqui comigo: “Uau! Ficou incrível!”. Hoje, neste último dia de agosto, estou certo de que é a melhor mixtape que apresentei neste nobre espaço on-line.

Mas essa é apenas a minha opinião, ok? Vocês têm todo o direito de xingar muito na caixa de comentários, é claro.

Deixe-me explicar o processo: esta mixtape começou como uma coletânea de hip-hop/R&B, e foi se transformando em algo totalmente diferente. Noto que existe uma camada de tristeza, talvez mal estar, ao redor destas canções. Não é uma mixtape eufórica como a de julho, e não funciona muito bem em academias de ginástica.

Acho até que, se vocês prestarem atenção, o disquinho contará a historinha de um amor violento que deu terrivelmente errado. E tem outra coisa: durante o mês, me peguei conversando muito (com minha família, amigos) sobre o medo que as pessoas têm de envelhecer, e sobre como às vezes se tenta prolongar a juventude (sem sucesso, obviamente). Talvez o disco seja um pouco sobre isso (e, por coincidência, tem uma música chamada Die young).

Sem mais divagações, então: este CD contém faixas de Richmond Fontaine, The Weeknd, Girls, Stephen Malkmus & Jicks, Kanye West & Jay-Z, Cities Aviv, Ford and Lopatin, EMA e Gillian Welch (para o Guilherme Semionato, que às vezes visita este blog). O melhor está no fim: a foto acima, portanto, é do Moonface.

A lista de músicas está na caixa de comentários.

Há duas formas de ouvir o CD: aqui no blog e fazendo o download. Eu sugiro a primeira opção (com músicas editadas e lustradinhas), mas a segunda é sempre muito válida (eu mesmo prefiro ouvir essas mixtapes enquanto caminho por aí). Espero que vocês gostem, e, se possível, deixem comentários.

Faça o download da mixtape de agosto

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Father, son, holy ghost | Girls

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A adolescência é uma fase tão estranha que você (no caso, eu) consegue gostar de Elliott Smith e de Oasis simultaneamente — e dá conta de ouvi-los numa mesma tarde, um depois do outro, assim, como se nada absurdo estivesse acontecendo.

Com o passar do tempo, fui me aproximando mais de Elliott Smith e me afastando progressivamente do Oasis. Talvez menos porque me tornei um sujeito mais sensato (permaneço um crianção) e mais por uma questão de temperamento.

Quando tento entender o que me conecta aos discos que amo, uma característica sempre se apresenta. Resumindo de um jeito singelo: são álbuns que dão forma musical a sentimentos/ideias/experiências/impressões individuais (e, por isso, únicas).

Parece algo corriqueiro (e seria incrível se fosse), mas o que ouço geralmente é o contrário disso: músicos que usam fórmulas, chavões, “tendências” para lustrar discursos que não têm nada de verdadeiramente pessoal. Há inúmeras canções de amor. Não são todas as que soam singulares.

Daí as diferenças entre um Elliott Smith e um Oasis. Elliott Smith não escrevia “canções de amor”, mas músicas sobre sensações e situações específicas, que diziam respeito ao modo (um tanto romântica, um tanto desencantada) como ele notava as relacionamentos amorosos. Os arranjos, nos melhores casos, se integravam às letras de tal forma que entenderíamos Smith mesmo quando ele apenas gemia algumas harmonias vocais à la Beach Boys.

Já o Oasis escrevia “canções de amor” enormes, para espelhar as experiências de todo um planeta — mas não comunicavam nada de muito específico.

O que Noel Gallagher pensa sobre o amor? Mesmo hoje, depois de ter ouvido todos os discos do Oasis (e, alguns deles, mais de uma vez), sigo me perguntando. Existe algo singular nessas canções? Algo que só pertença ao Noel Gallagher? E nas harmonias, nos arranjos? Noel consegue criar sonoridades que se relacionem minimamente àquilo que ele canta ou compõe? Se fosse um cineasta ou um artista plástico, Noel teria feito bons quadros/filmes?

Acredito que a resposta para todas essas perguntas é não.

O que não desqualifica, de forma alguma, o status de “rockstar” que Noel exibe sempre com muito orgulho. Há tradições no rock que validam uma banda como o Oasis — que quer escrever hinos sobre sentimentos-clichê para multidões anônimas. Quando cria versos como “conte comigo, porque ninguém sabe o que vai acontecer”, a banda simula o efeito de cartões postais ou mensagens de powerpoint: slogans que falam a todos, talvez por não falar pontualmente a ninguém.

É claro que será sempre fracassada a tentativa de dividir a música pop entre os artistas (Elliott Smiths) e os populistas (Oasis), até porque as coisas são um pouco menos catalogáveis – acidentes e bizarrices e erros sublimes acontecem. Mas percebo que muitas bandas às vezes flutuam entre esses extremos — ou, em alguns casos, querem ser uma coisa (artistas, por exemplo) quando acabam resultando em outra (populistas, digamos).

Percebo isso no Girls. E é chato comentar sobre o assunto só agora, depois de ter elogiado os dois discos anteriores do grupo. Mas é neste Father, son, holy ghost que o grupo parece finalmente afirmar uma postura musical. E essa postura me parece uma tese à la Elliott Smith que, na prática, se mostra um conjunto de hinos à la Oasis.

Numa entrevista à Spin, o vocalista (e candidato a Cobain/Elliott/Buckley) Christopher Owens comentou que o título do disco foi escolhido para refletir a “qualidade espiritual” do álbum. Pois bem. É um bom começo de conversa sobre o que acontece aqui.

A intenção de Owens está clara: soar franco, rascante, um homem à flor da pele, um singer/songwriter à beira do precipício (e outros lugares-comuns herdados lá de Nick Drake). Uma das músicas, percebam, atende por Vomit. E as letras são escritas quase sempre com a simplicidade de um primeiro rascunho: “Parece que tudo, tudo, tudo acabou. Sinto que ninguém está feliz agora”, ele lamenta, em Just a song. É um post, um tweet.

Até aí, nada de muito novo para quem conhece o Girls. Mas, se compararmos a sonoridade deste disco à estreia de Owens, de 2009, algo parece diferente. É como se, com a ajuda do produtor Doug Boehm, o compositor tentasse exprimir “maturidade” apertando o spray da polidez sonora. Não vou ficar surpreso se encontrar este disco em muitas das listas de melhores do ano: ele tenta uma espécie de crossover com o público desinteressado (porém cool) que só conheceu Cat Power graças ao soul lavadinho de The greatest.

Ao ordenar e espanar algumas inclinações musicais que já apareciam nos discos anteriores (o gosto pelo pop vocal dos anos 1960, pelo pré-rock de Buddy Holly e um feijão-com-arroz sentimental que inclui algo de McCartney e Donovan), Owens acaba optando por um som anódino, vazio de sentidos, que parece existir só para envolver canções bonitas. Estamos falando de um disco que não soa como um álbum, mas como uma compilação de músicas bacanas que Owen compôs nos últimos meses.

E aí vão dizer que é “desencanado”, que é “despretensioso”, e vão usar os adjetivos que as pessoas usam para valorizar obras que miram pouca coisa e acertam menos ainda. O que me incomoda, no entanto, é outra coisa: as canções de Owens (e, se estamos falando de um “disco de canções”, é hora de irmos a elas) são coleções de frases de efeito, de sentimentos “universais” que encontramos num álbum do Coldplay, do Travis e, claro, do Oasis.

Não vou listar todos os casos de indulgência poética (são muitos), mas aí vão alguns: “Você seguraria a minha mão? Estou mais gelado que a neve. Mas quem se importa sobre o amor? Podemos fugir?” (em Alex), “Eu saí e conheci o mundo moderno, mas sinto falta da vida quando você era minha garota” (em Jamie Marie), “Você espantou meus medos, agora vou ficar com você, ninguém faz com que eu me sinta melhor” (em Magic) e a pior: “Oh, deus, estou cansado e meu coração está partido. É tão difícil se sentir sozinho e tão longe de casa” (My Ma).

Um argumento possível para versos tão humildes é que eles seriam condizentes com muitas das referências musicais de Owens, que parece sentir um tanto de nostalgia por um tempo em que o rock produzia faixas mais imediatas e ingênuas (ou falsamente ingênuas). Mas só de pensar em comparar qualquer uma dessas faixas com, vejamos, All my loving… Dá um pouco de desânimo.

E isso porque estamos falando de um disco de forte “qualidade espiritual”, segundo Owens.

Se o Girls é apenas um jogo cínico de estilo — letras molinhas que acenam para itens vintage de outra época, embaladas em coros soul, solos de guitarra, violões e “sinceridade” –, então não vejo como Owens conseguiria se conectar, ou pelo menos preencher as expectativas, do público de um Elliott Smith: que, mesmo nas gravações mais precárias, encontra uma voz, um discurso muito particular. Este Girls, por mais agradável e doce, me parece dançar no vazio.

Mas taí um candidato sério ao Grammy (se o Grammy se dispuser a ouvi-lo).

Terceiro disco do Girls. 11 faixas, com produção do Girls e de Doug Boehm. Lançamento True Panther Sounds. 52

Vomit | Girls

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Quase prosaico (mas muito apropriado) este vídeo para a música nova do Girls, também conhecida como A Melhor Música do Girls de Todos os Tempos. Vomit. E não a julgue pelo nome. A direção é de Austin Rhodes – e a vontade que dá é de sair dirigindo a noite inteira, just to feel like you’re okay.

Adeus, 2009 | Superoito’s mixtape, parte 2

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Meu segundo best-of de 2009 saiu um pouco menos sombrio do que o primeiro, mas não tanto quanto eu esperava. Talvez o ano tenha sido assim mesmo: meio bizarro, osso duro de roer. Paciência.

Aos menos melancólicos, fica a dica: da sétima faixa em diante, a pista esquenta.

E tem pra todo mundo – uma óbvia do Dirty Projetors (eles estão ali em cima, na foto que abre o post), uma não tão óbvia do Animal Collective, um balanço charmoso do Basement Jaxx, a “devoradora de homens” Neko Case, o hit improvável do Phoenix e, claro, Fever Ray (para Diego e Filipe). Espero que vocês sofram um pouco, mas se divirtam.

Ei:  um abraço a quem baixou a primeira coletânea. O número de downloads me surpreendeu. E, já que a ideia não é um fiasco completo, em janeiro de 2010 começo a preparar coletâneas mensais.

Eis a tracklist desta nova mixtape:

1. Stillness is the move – Dirty Projectors
2. When I grow up – Fever Ray
3. Crystalised – The XX
4. Laura – Girls
5. Bonfires on the heath – The Clientele
6. Bluish – Animal Collective
7. People got a lotta nerve – Neko Case
8. 1901 – Phoenix
9. Ecstasy – JJ
10. Feelings gone – Basement Jaxx
11. Moth’s wings – Passion Pit

Faça o download (via Rapidshare): Superoito’s mixtape 2009, parte 2

E, ainda nesta semana, devo terminar minha lista de melhores filmes do ano. Até.

Adeus, 2009 | Os melhores álbuns do ano (parte 2)

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É isso, meus irmãos: o top dos melhores discos de 2009 está aí, galante e inteirinho para quem quiser ver. Mas lembro que, até o fim da próxima semana, a série Adeus, 2009 segue com a lista dos meus filmes favoritos (que será fechada assim que eu conseguir me livrar do trabalho e assistir a Avatar) e mais uma mixtape que, espero, será um pouco menos acinzentada do que a anterior. Espero que tudo termine bem. Enquanto isso… 

10. The Pains of Being Pure at Heart – The Pains of Being Pure at Heart

Certeza que o Pains of Being Pure at Heart nasceu mesmo em Nova York? Para mim, ainda soam como quatro galeses que, depois de passar o inverno ouvindo The Jesus and Mary Chain e Belle and Sebastian, resolveram passar o verão na Suécia: leram livros cabeçudos, gravaram um disco de rock, e lembraram dos dias calorosos de adolescência. Tipinhos blasé. Que sabem como matar o tempo de uma forma produtiva.

9. Together through life – Bob Dylan

O tempo de Dylan é ontem? É hoje? Não me pergunte. Together through life é mais um álbum que ri sarcasticamente das regrinhas do pop contemporâneo e inventa o som de uma época que talvez nunca tenha existido. Atenção para a sinopse: este é um road movie (em sépia) sobre a pré-história do rock, encenado por um ator/diretor que, impertinente, insiste em esnobar nossas expectativas. Moral da história: mais uma vez, o gênio ri por último.

8. Fever Ray – Fever Ray

A estreia solo de Karin Dreijer Andersson (a mulher-mutante-zumbi à frente do The Knife) é um breu. Não deve, por isso, ser ouvida de luzes apagadas. Como numa produção de horror alemã dos anos 1920, seres estranhos se movimentam lentamente sob sombras. Mais assustador é notar que, na tradição de um Portishead, trata-se de um álbum sobre o terror do cotidiano — que nos aflige entre quatro paredes de concreto. Sabe qual? Aquele que não poupa ninguém.

7. XX – The XX

Quatro moleques de 20 e poucos anos. O que eles teriam a dizer sobre o estado do rock britânico? Praticamente tudo. Mesmo sem querer, o primeiro disco do The XX soa como uma resposta a anos de grandiloquência, ambições épicas e uso descontrolado de fumaça artificial. Com fé quase cega na sutileza, a banda grava lindos esqueletos de love songs que, para nossa completa surpresa, soam mais sensuais que qualquer hit da Kylie Minogue. Sem exageros: um tesão de disco.

6. Dragonslayer – Sunset Rubdown

Pobrezinhos de nós, fãs do Wolf Parade. Depois do tufão chamado Dragonslayer, eu não me impressionaria se os canadenses resolvessem tirar recesso por tempo indeterminado. No disco, o exército de Spencer Krug renasce como uma criatura à parte, ameaçadora e misteriosa. É caminho sem volta: em apenas oito faixas (monumentais, ambiciosas), a banda cobra um lugar espaçoso no mundo. E não deixa que sintamos saudades daquele outro projeto de Krug.

5. Album – Girls

Conhecer a história de Christopher Owens não é fundamental para amar deste álbum (e amá-lo é muito fácil). Mas ela nos ajuda a entender por que um sujeito que passou a infância e a adolescência trancado num culto religioso estupidamente radical resolveu gravar um disco que soa como um grito de liberdade. Do rock ‘n’ roll ao noise, o Girls metralha canções com a alegria angustiante de quem finalmente abre um baú que havia sido trancado à força. Catarse. Ou, se preferir, apenas o som de uma juventude perdida.

4. Two dancers – Wild Beasts

No rock contemporâneo, muitas são as bandas conservadoras que se fazem de ultramodernas. Mas poucas tentam entender o que faz do “rock clássico” um porto seguro tão atraente para fãs de música pop. O Wild Beasts é, por isso, uma raridade: uma banda que abandonou tiques do indie para estudar a arte da canção. Two dancers parece familiar (e tipicamente britânico) desde a primeira audição. Mas a fórmula é revigorada de tal forma – pelas performances lânguidas dos vocalistas, pelos versos enigmáticos, pela atmosfera sombria e decadente que envolve as músicas – que, perto dele, qualquer hit do Coldplay parece desonesto. Nada de novo nessa história. Mas não é sempre que a tradição soa tão urgente.

3. Bitte orca – Dirty Projectors

Não importa quanto tempo você invista no álbum-revelação do Dirty Projectors: ele sempre deixará a sensação de uma obra aberta – uma narrativa sem desfecho. O processo criativo de Dave Longstreth é tão caótico que deixa a impressão de haver vários projetos em estágio embrionário dentro de Bitte orca. Essa profusão de ideias (quase todas inusitadas: há folk, pós-punk, afropop e o diabo) permite ao ouvinte um prazer incomum: somos convidados a nos perder dentro de um álbum de rock. Como nas melhores aventuras, o desafio é totalmente recompensado.

2. Veckatimest – Grizzly Bear

Veckatimest é o contra-ataque que não esperávamos do Grizzly Bear. Muitos fãs do disco anterior, Yellow house, talvez teriam apostado num álbum mais extrovertido e pop (ou, num sentido oposto, mais radical, experimental). Mas a banda – mais madura do que eu e você, possivelmente – preferiu seguir uma trilha mais enigmática. Sob neblina seca, o disco condensa as experiências anteriores (do rock californiano a uma psicodelia dura, quase entorpecida, quase fria) num molde absolutamente compacto. É como se todas as canções inesperadamente decidissem narrar uma só história, com a atmosfera desolada (mas com momentos de esperança e beleza) de um conto de fadas para adultos. Talvez seria melhor ouvir este disco em meio à leitura de A estrada, de Cormac McCarthy. Ou após uma sessão de Deserto vermelho, do Antonioni. Quem sabe aí começaríamos a entendê-lo?

1. Merriweather Post Pavilion – Animal Collective

Escrevi meus primeiros comentários sobre MPP (e o chamo assim porque somos íntimos) há exatamente um ano. Naquele dezembro, já dava para notar que seria quase impossível encontrar um concorrente à altura do impacto provocado por um disco que soa extraordinário até para os padrões (muito altos) do Animal Collective. Muito se falou sobre como a banda trata a música eletrônica – da mesma forma curiosa (infantil, no melhor dos sentidos) como brincou com elementos do folk e da música experimental. Mas o álbum ainda me deslumbra por outro motivo: por mostrar com clareza a face humana do trio.

Como sempre, não há limites para a invenção musical. O que faz de MPP uma obra-prima, no entanto, é como essa sonoridade irrequieta dialoga com os versos mais francos e emotivos que eles já gravaram. Depois da viagem ao fundo do coração selvagem, eis que encontramos a maior surpresa: Avey Tare, Panda Bear e Geologist, artistas do inusitado, também se sentem perdidos diante das incertezas do nosso mundo. Exatamente como quase todos nós.

Laura | Girls

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O vídeo novo do Girls é um passeio no praia. Sol, garotas e diversão. Ou mais ou menos assim. Sabemos que quase todas as canções ensolaradas contêm subtextos sombrios (Brian Wilson não nos deixa esquecer a lição, certo?), e esta aqui também soa um tanto melancólica quando deveria parecer alegre. O diretor se chama Brian Lee Hughes, e ele também compreende tudo isso.

Superoito express (13)

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girls

Em diferentes sabores e formatos.

Album | Girls | 8.5 | …Que, se fosse um filme, ganharia um título picareta em português, do estilo ‘Retratos de uma vida’. A estreia do Girls é direta e franca, mas acaba soando muito ambiciosa pelo esco do projeto: trata-se de um intenso álbum de fotografias que, em grande parte, exorciza sentimentos adolescentes (rejeição, frustrações amorosas, insegurança, uma aflição sexual meio destrambelhada e garotas, garotas, garotas). Conhecer a história de Christopher Owens — que forma o duo com JR White — não é necessário para gostar de uma banda que parece resumir o que há de especial em alguns dos nossos ídolos (de Elvis Costello aos primeiros discos do Sonic Youth). Mas saber que Owens passou a infância e boa parte da adolescência adestrado pelos dogmas do culto radical Children of God preenche as lacunas de canções como Lust for life e Hellhole ratrace, que tratam o rock como uma espécie de válvula de escape para as dores do mundo. Pura catarse. E soam verdadeiramente sinceras. Um dos álbuns mais emocionantes do ano, fácil.

Popular songs | Yo La Tengo | 7 | Mais um capítulo da tranquila maturidade do Yo La Tengo. E, se isso soa entediante (em alguns momentos, não há outra forma de definir um estilo que parece mesmo estagnado), é interessante como a banda consegue convencer mesmo quando explora velhos truques. A primeira parte do disco (que vai até a faixa 9) é de uma segurança matadora: como se o trio compusesse novos standards para o lo-fi dos anos 1990 (Nothing to hide é perfeita para quem gostou dos discos mais recentes do Dinosaur Jr). A segunda metade, mais experimental, não soa tão memorável, ainda que mostre uma banda sem freios (e isso, nessa altura, é pra lá de bom).

See mystery lights | YACHT | 7 | A partir do momento em que nos convencemos de que não é um novo disco do LCD Soundsystem, tudo termina bem (e The afterlife é uma delícia).

JJ nº 2 | JJ | 6.5 | Eurotrip exótica que dá água na boca de indie americano. Armadilha pra turista. Mas a paródia de 50 Cent (Ecstasy) é uma graça.

Heartbeat radio | Sondre Lerche | 6 | Um disquinho bonitinho, agradavelzinho, extremamente previsível e limitado (quase um Ron Sexsmith) e… Bonitinho e agradavelzinho.

The blueprint 3 | Jay-Z | 5.5 | Mais um capítulo da entediante maturidade de Jay-Z. Nesta altura, está claro que ele deve dedicar-se a histórias que não são necessariamente dele (como no álbum American gangster, que era jóia) e parar de acreditar que existe interesse no cotidiano de um rapper milionário e ególatra (e sério, quem se importa com a “morte do auto-tune”?). Ainda assim, nem tudo é Big Brother (e o bagaço dos Neptunes e do Timbalandem algum sabor).

Love 2 | Air | 5 | Só não é uma total decepção porque o Air ainda tenta encontrar formas de sabotar uma sonoridade que virou grife cedo demais. Mesmo com toda boa vontade do mundo, porém, não dá para negar que é um dos discos mais fracos da banda (talvez o mais fraco, já que soa como decalque, diluição de estilo). E me espanto quando noto que toda a reputação do duo se sustenta num só álbum (o excelente Moon safari), numa coletânea de singles (Premiers sympthomes) e em alguns momentos da trilha de As virgens suicidas. Os outros quatro discos não sabem para onde ir – este aqui segue a tradição.