George Harrison – Living in the material world

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Já quase na metade deste documentário dirigido por Martin Scorsese, acabei lembrando da revolta de uma espectadora que saiu bufando de uma sessão de Shine a light. “Mas é só um show!”, era o que ela dizia. Pois bem, caro leitor: talvez você encontre alguém esbravejando algo parecido contra este Living in the material world (A). “Mas é só um documentário musical!” (e já consigo imaginar a cena).

É que este filme sobre o beatle George vem com mais um argumento a favor da hipótese (in progress) de que os documentários de Scorsese são mais traiçoeiros – e difíceis, digamos – que as ficções do cineasta. Talvez porque pareçam simplérrimos, tão ou mais didáticos que aquele típico perfilzão jornalístico em que a gente tropeça de vez em quando nos canais de tevê a cabo. Living in the material world, aliás, estreou na HBO americana.

O acabamento do longa é de uma discrição, de uma polidez quase irritantes (adjetivos que também servem aos docs musicais The last waltz e No direction home). Mas se cercar das convenções (muito envelhecidas) de um gênero talvez faça parte de um jogo mais sutil, já que essas narrativas cristalinas estão sempre mirando personagens “embaçados”, complexos, que não se deixam enquadrar.

Daí que, mesmo quando convida uma dúzia de diretores de fotografia para captar os melhores ângulos de uma apresentação dos Stones (em Shine a light), é como Scorsese soubesse que uma química invisível não será captada pelas lentes (no caso, a faísca que provoca a performance mágica de Jagger e Richards).

No retrato de George Harrison, esse olhar bem sóbrio (posso dizer que também pragmático, posso?) faz ainda mais sentido: já que, como um dos entrevistados conta ao diretor, o próprio músico tentava criar no “mundo material” um ambiente tão sublime quanto aquele que imaginava existir no “mundo espiritual”. E não é esse clique-de-ilusão que se dá quando um documentário tão terreno se deixa contagiar por um homem cheio de mistérios?

(E também cheio de contradições: cercado de amigos, mas com fama de recluso; praticante de meditação e corridas de carros; apaixonado tanto pelo pop comercial quanto pela tradição musical-mística dos indianos; respeitoso em relação a assuntos da fé, mas um dos maiores fãs do humor iconoclasta do Monty Python etc)

A imagem que remete mais diretamente a esses paradoxos é o jardim de Harrison, o “paraíso particular” criado pelo compositor. Não é por acaso que o filme abre e fecha em meio a flores. É biografia direta, informativa (e frontal até nos momentos de comoção, porque as colagens visuais que acompanham um Here comes the sun, por exemplo, têm função de catarse mesmo), é só um documentário musical. Só que também transcendental – de uma forma que talvez nem o próprio George Harrison seria capaz de explicar.