Garapa

2 ou 3 parágrafos | Garapa

Postado em Atualizado em

garapa

Gosto muito de Tropa de Elite, mas Garapa (4/10) não desceu.

O filme tem um objetivo muito claro: sensibilizar o espectador com imagens de dor, abandono e pobreza. Uma observação seca, num preto e branco de intensos contrastes (o estilo visual remete a Vidas secas, talvez de propósito), sobre o cotidiano de famílias que passam fome. Não há narração em off ou entrevistas com especialistas. Cinema direto. Como em seus filmes anteriores, Padilha dá o diagnóstico sem oferecer remédio para a doença social. É mesmo difícil ficar indiferente a imagens de crianças nuas cobertas de moscas, condenadas à desnutrição.

O que mais me perturbou, ainda assim, é a forma como Padilha se relaciona com os personagens. E aí vai minha insatisfação: são embates. Numa das cenas, um homem afirma um analgésico teria curado a dor de dente do filho. “Você sabe que esse remédio resolve a dor, mas não a doença?”, pergunta o diretor. O sujeito, obviamente, não entende nada do assunto. O cineasta reforça o alerta e, num diálogo curto, o filme revela toda uma carga pesada de paternalismo. Em outra cena, Padilha questiona a mulher miserável: “Se você não tem condições, por que continua a ter filhos?” Ela não faz ideia do que responder. O filme deixa transparecer essa fricção entre o homem que sabe (o diretor) e os ignorantes. Notícias de encontros impossíveis.