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Bastardos inglórios

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Inglourious basterds, 2009. De Quentin Tarantino. Com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Diane Kruger e Daniel Brühl. 153min. 8.5/10

Filme do Tarantino, pra mim, ainda é um tipo extraordinário de evento. Acordo cedo, faço a barba, uso o perfume caro que fica enfiado entre a penúltima e a última cueca. O francês. Não chego a tentar a camisa social, mas escolho uma blusa bacana.

São felizes as lembranças de cada uma das sessões (a exceção: Cães de aluguel, que vi só em VHS).

Pulp fiction: pela primeira vez, encarei a censura e entrei no cinema assim mesmo, na raça, cara lavada, coragem de piloto de bimotor, 14 anos e o coração metralhando. Orgulhoso de mim mesmo. Assisti ao filme duas vezes no dia de estreia e, à noite, escrevi um roteiro de dez páginas que eu jogaria no lixo mais ou menos 32 horas depois.

Jackie Brown: talvez o período mais aborrecido da minha vida. Eu confinado em salas de aula, confrontando provas e simulados, um tédio sem fim. Havia decidido abandonar o cinema (nem que por um tempo) para ler livros. Abri uma exceção para este aqui. Depois voltei a ler livros. E me apaixonei por soul music.

Kill Bill, vol. 1: quase um homem feito. Vi primeiro numa cópia de serviço vagabunda, em VHS, que revi três vezes já memorizando algumas cenas. Mas entendi que algumas delas eram eternas (a chegada da Noiva em Tóquio, sob um cenário que parece feito de cartolina e celofane) quando vi no cinema. E foi um choque para sempre.

Kill Bill, vol 2: vi primeiro em Portugal, numa viagem de trabalho. Adiei um compromisso, saí do hotel mais cedo, caminhei pela cidade e me enfiei numa sala de multiplex às onze da manhã. Eu estava com tanto sono que vi metade do filme em estado de profundo transe. Só comecei a entender do que se tratava já no Brasil. Um filme de amor, então.

À prova de morte: em DVD, depois no cinema, e eu cético feito um astrofísico. Em vez das cenas de ação, me vi amarrado pelos diálogos – um mundo dentro de um filme – e por um desfecho violentamente doce. Imaginei até que o diretor tivesse crescido mais ou menos da mesma forma como eu cresci. Dialogamos.

E agora estamos aqui novamente. Desta vez, tive que acordar cedo por uma outra razão: a sessão começava às 10h15. Continuo guardando meu melhor perfume entre a penúltima e a última cueca.

(Chego a acreditar que, para mim, os filmes de Tarantino funcionam mais ou menos como pontos de referência. Quando os revejo (e só consigo rever trechos), é como se eu retornasse imediatamente a um ponto específico da minha vida. Não há como evitar.)

E agora Bastardos inglórios. Belo filme. Onde paramos?

Numa análise muito superficial da coisa, noto que a trajetória de Tarantino conta a história de um cinéfilo – talvez desde sempre – que aos poucos aprendeu a dominar a linguagem do cinema e tomá-la para si. Os filmes mais recentes mostram uma segurança no tratamento das imagens que não existia, por exemplo, em Pulp fiction. Ainda assim, existe uma característica que se repete em todos os filmes: um desejo intenso por cinema. Isso é palpável. Esteve sempre lá.

E está neste novo filme. Tarantino vai à briga como quem tenta criar uma obra-prima (e um dos personagens chega a dizer algo do gênero; “acho que fiz minha obra-prima”), com uma determinação quixotesca. E demonstra tanto controle – da técnica, do próprio estilo, das opções formais que escolhe para si – que fica a impressão de uma obra perfeita, até meio fria (como são frios e perfeitos alguns dos filmes do Stanley Kubrick e do Tarkovski), quase sem arestas, construída milimetricamente (o roteiro ficou germinando por uma década, e dá para perceber). Um relógio suíço.

Para quem acompanha o diretor há tanto tempo, mais impressionante será notar como ele vai apurando a química dos filmes anteriores enquanto se desafia a seguir experimentando. A estrutura do longa lembra um pouco a de Sangue negro, já que é toda calculada com sequências longas, diálogos que começam tolos e terminam trágicos – tudo encenado com uma rigidez, uma dureza um tanto teatral. E, impossível deixar escapar, é no mínimo muito ousado como Tarantino usa a gramática quase surrealista de um “mundo de cinema” para interpretar um dos episódios mais conhecidos (talvez o mais conhecido), debatidos, filmados do século 20: a Segunda Guerra Mundial.

É um filme de vingança, como era Kill Bill. Mas, aqui, a vingança é gatilho de uma catarse maior, de um acerto de contas histórico. Tarantino reescreve os livros didáticos não apenas como diversão inconseqüente, mas como uma forma de fazer justiça. O cinema salva o mundo. O cinema reescreve a história. Há algo de poético nisso. E é por isso que, lá perto do desfecho, este filme muito duro (e às vezes pouco fluente, quase arrastado mesmo) vira mais um típico Tarantino: um filme de cinema.

Nada de novo nisto: ele se reinventa para reafirmar uma antiga fé. Só que, agora, de uma forma tranquila, sem tanta aflição. Entendo. E continuo a tratar essa história como se fosse um pouco minha.