Fever Ray

Penny Sparkle | Blonde Redhead

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Pode soar como sabedoria de autoajuda, mas é real: há os discos que você escolhe amar e há aqueles que, por uma combinação de fatores incontroláveis, entram na sua vida sem que você permita.

Penny Sparkle, o novo do Blonde Redhead, é um desses que chutam a porta, que chegam sem horário marcado. Que vão se instalando.

Ouvi este disco na hora errada. Ou na hora certa. Ainda não sei. Mas suspeito que, no futuro, ele será lembrado (por mim, obviamente) como a trilha sonora dos quatro dias terríveis que abriram o meu mês de setembro, em 2010.

Aliás: que ano!

Talvez, em alguns meses, eu nem consiga ouvir esse disco novamente, já que ele soltará uma torrente de memórias doloridas. E será uma pena — é um bom disco.

Não um grande disco. Mas que (e o acaso é o responsável por isso) eu já colocaria, de pronto, na lista dos 500 que marcaram a minha vida. Na verdade, ainda está marcando.

Há bandas de rock que definem as próprias expressões faciais (os traços, as rugas, tudo isso) logo no primeiro disco. E há outras que não se definem nunca, que preservam identidades borradas, derivativas. É o caso do Blonde Redhead. Ouço a banda e penso em Fever Ray (lite), em Beach House, em My Bloody Valentine, até em Mazzy Star e The Delgados. Penso em toda essa gente; só não penso em Blonde Redhead. Quem é Blonde Redhead?

E eles estão no oitavo disco!

Não consigo nem ao menos entender as diferenças entre Penny Sparkle e o anterior, 23 (de 2007). Talvez elas não existam. São dois discos às vezes sedutores, muito cuidadosos, mas vaporosos.

Voltemos, no entanto, à minha experiência. Ela deu um sentido muito mais forte (um sentido até mais profundo) a este disco meio raso.

Nos quatro primeiros dias de setembro, foi tudo o que ouvi. Minto. Tentei provar o álbum do Interpol (desisti após duas audições, mas voltaremos a ele) e o do No Age (que me parece excessivamente longo, mas voltaremos a ele), mas acabei retornando inúmeras vezes ao Blonde Redhead. O danado se impôs.

E tudo por conta de uma música chamada My plants are dead, que aparentemente foi enviada de Marte para me maltratar. E ela não tem nada de sobrenatural: é Kazu Makino flutuando sobre uma neblina de sintetizadores, murmurando algumas frases depressivas sobre plantas mortas e sobre o fim do amor. Coisa triste. Hardcore. E, para mim, a canção mais comovente de 2010.

É claro que, se eu tivesse ouvido essa música antes ou depois daqueles quatro dias de setembro, ela não teria me devastado dessa forma. Mas é o tipo de canção que agrava qualquer fim de namoro: é como se Kazu dançasse nas ruas de uma cidade recém-destruída por uma bomba atômica.

Era isso o que eu sentia (e ainda sinto, espero que com um pouco menos de intensidade). O horror. Destruição. O vazio. Um campo desolado. E chuva fria, ácida (de sintetizadores metálicos).

Por mais que eu tenha vivido essa situação outras vezes, por mais que eu tenha alguma experiência no ramo das separações e das crises amorosas, fui tomado pela sensação física de que algo estava morrendo. Deve ser uma impressão universal.

Tantos posts foram escritos sobre separações (eu mesmo assinei alguns muito constrangedores) que prefiro não me esticar no assunto. Ainda não consegui refletir sobre o caso. Como eu disse, estou um tanto paralisado. Separações são sempre cruéis. A minha aconteceu porque não havia outra saída.

O complicado, para mim (novamente), é olhar para a minha vida e me perguntar: o que eu faço com isso? Por onde começo? Dá para consertar? Posso tentar de novo?

Tudo ainda sem resposta.

Os discos (novamente) me ajudam nesse processo. Esses primeiros dias foram de catarse, de desabafo, de tentar encontrar algum sentido em coisas que não necessariamente têm lógica ou guardam algum senso de justiça. Meus amigos me ajudaram. Estão me ajudando. Mas daí a importância de Penny Sparkle, que cumpriu o papel de um colchão duro onde me deitei e onde me senti um pouco desconfortável.

O disco foi gravado entre Nova York (a cidade onde o trio mora) e Estocolmo (o lar dos produtores Van Rivers and The Subliminal Kid, que trabalhou com Fever Ray). No site da banda, o guitarrista Kazu Mazino diz que o disco foi gravado num ambiente “onírico e muito chuvoso”. Soa assim. Não muito especial, mas soa assim. As quatro primeiras faixas, creio eu, renderiam o EP chuvoso mais bonito do ano.

Há quem acredite que álbuns melancólicos não sirvam para nada. Eles amplificam nossos dramas. Eles nos puxam para baixo. Eles nos infernizam. Eles se humilham. Para mim, discos como Penny Sparkle contêm um desejo enorme de libertação: encaram o monstro para se livrar dele.

É o que tento fazer neste exato momento. Ainda que, admito, não seja fácil.

Oitavo disco do Blonde Redhead. 10 faixas, com produção da própria banda e de Van Rivers and The Subliminal Kid. Lançamento 4AD Records. 7/10

Adeus, 2009 | Superoito’s mixtape, parte 2

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Meu segundo best-of de 2009 saiu um pouco menos sombrio do que o primeiro, mas não tanto quanto eu esperava. Talvez o ano tenha sido assim mesmo: meio bizarro, osso duro de roer. Paciência.

Aos menos melancólicos, fica a dica: da sétima faixa em diante, a pista esquenta.

E tem pra todo mundo – uma óbvia do Dirty Projetors (eles estão ali em cima, na foto que abre o post), uma não tão óbvia do Animal Collective, um balanço charmoso do Basement Jaxx, a “devoradora de homens” Neko Case, o hit improvável do Phoenix e, claro, Fever Ray (para Diego e Filipe). Espero que vocês sofram um pouco, mas se divirtam.

Ei:  um abraço a quem baixou a primeira coletânea. O número de downloads me surpreendeu. E, já que a ideia não é um fiasco completo, em janeiro de 2010 começo a preparar coletâneas mensais.

Eis a tracklist desta nova mixtape:

1. Stillness is the move – Dirty Projectors
2. When I grow up – Fever Ray
3. Crystalised – The XX
4. Laura – Girls
5. Bonfires on the heath – The Clientele
6. Bluish – Animal Collective
7. People got a lotta nerve – Neko Case
8. 1901 – Phoenix
9. Ecstasy – JJ
10. Feelings gone – Basement Jaxx
11. Moth’s wings – Passion Pit

Faça o download (via Rapidshare): Superoito’s mixtape 2009, parte 2

E, ainda nesta semana, devo terminar minha lista de melhores filmes do ano. Até.

Adeus, 2009 | Os melhores álbuns do ano (parte 2)

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É isso, meus irmãos: o top dos melhores discos de 2009 está aí, galante e inteirinho para quem quiser ver. Mas lembro que, até o fim da próxima semana, a série Adeus, 2009 segue com a lista dos meus filmes favoritos (que será fechada assim que eu conseguir me livrar do trabalho e assistir a Avatar) e mais uma mixtape que, espero, será um pouco menos acinzentada do que a anterior. Espero que tudo termine bem. Enquanto isso… 

10. The Pains of Being Pure at Heart – The Pains of Being Pure at Heart

Certeza que o Pains of Being Pure at Heart nasceu mesmo em Nova York? Para mim, ainda soam como quatro galeses que, depois de passar o inverno ouvindo The Jesus and Mary Chain e Belle and Sebastian, resolveram passar o verão na Suécia: leram livros cabeçudos, gravaram um disco de rock, e lembraram dos dias calorosos de adolescência. Tipinhos blasé. Que sabem como matar o tempo de uma forma produtiva.

9. Together through life – Bob Dylan

O tempo de Dylan é ontem? É hoje? Não me pergunte. Together through life é mais um álbum que ri sarcasticamente das regrinhas do pop contemporâneo e inventa o som de uma época que talvez nunca tenha existido. Atenção para a sinopse: este é um road movie (em sépia) sobre a pré-história do rock, encenado por um ator/diretor que, impertinente, insiste em esnobar nossas expectativas. Moral da história: mais uma vez, o gênio ri por último.

8. Fever Ray – Fever Ray

A estreia solo de Karin Dreijer Andersson (a mulher-mutante-zumbi à frente do The Knife) é um breu. Não deve, por isso, ser ouvida de luzes apagadas. Como numa produção de horror alemã dos anos 1920, seres estranhos se movimentam lentamente sob sombras. Mais assustador é notar que, na tradição de um Portishead, trata-se de um álbum sobre o terror do cotidiano — que nos aflige entre quatro paredes de concreto. Sabe qual? Aquele que não poupa ninguém.

7. XX – The XX

Quatro moleques de 20 e poucos anos. O que eles teriam a dizer sobre o estado do rock britânico? Praticamente tudo. Mesmo sem querer, o primeiro disco do The XX soa como uma resposta a anos de grandiloquência, ambições épicas e uso descontrolado de fumaça artificial. Com fé quase cega na sutileza, a banda grava lindos esqueletos de love songs que, para nossa completa surpresa, soam mais sensuais que qualquer hit da Kylie Minogue. Sem exageros: um tesão de disco.

6. Dragonslayer – Sunset Rubdown

Pobrezinhos de nós, fãs do Wolf Parade. Depois do tufão chamado Dragonslayer, eu não me impressionaria se os canadenses resolvessem tirar recesso por tempo indeterminado. No disco, o exército de Spencer Krug renasce como uma criatura à parte, ameaçadora e misteriosa. É caminho sem volta: em apenas oito faixas (monumentais, ambiciosas), a banda cobra um lugar espaçoso no mundo. E não deixa que sintamos saudades daquele outro projeto de Krug.

5. Album – Girls

Conhecer a história de Christopher Owens não é fundamental para amar deste álbum (e amá-lo é muito fácil). Mas ela nos ajuda a entender por que um sujeito que passou a infância e a adolescência trancado num culto religioso estupidamente radical resolveu gravar um disco que soa como um grito de liberdade. Do rock ‘n’ roll ao noise, o Girls metralha canções com a alegria angustiante de quem finalmente abre um baú que havia sido trancado à força. Catarse. Ou, se preferir, apenas o som de uma juventude perdida.

4. Two dancers – Wild Beasts

No rock contemporâneo, muitas são as bandas conservadoras que se fazem de ultramodernas. Mas poucas tentam entender o que faz do “rock clássico” um porto seguro tão atraente para fãs de música pop. O Wild Beasts é, por isso, uma raridade: uma banda que abandonou tiques do indie para estudar a arte da canção. Two dancers parece familiar (e tipicamente britânico) desde a primeira audição. Mas a fórmula é revigorada de tal forma – pelas performances lânguidas dos vocalistas, pelos versos enigmáticos, pela atmosfera sombria e decadente que envolve as músicas – que, perto dele, qualquer hit do Coldplay parece desonesto. Nada de novo nessa história. Mas não é sempre que a tradição soa tão urgente.

3. Bitte orca – Dirty Projectors

Não importa quanto tempo você invista no álbum-revelação do Dirty Projectors: ele sempre deixará a sensação de uma obra aberta – uma narrativa sem desfecho. O processo criativo de Dave Longstreth é tão caótico que deixa a impressão de haver vários projetos em estágio embrionário dentro de Bitte orca. Essa profusão de ideias (quase todas inusitadas: há folk, pós-punk, afropop e o diabo) permite ao ouvinte um prazer incomum: somos convidados a nos perder dentro de um álbum de rock. Como nas melhores aventuras, o desafio é totalmente recompensado.

2. Veckatimest – Grizzly Bear

Veckatimest é o contra-ataque que não esperávamos do Grizzly Bear. Muitos fãs do disco anterior, Yellow house, talvez teriam apostado num álbum mais extrovertido e pop (ou, num sentido oposto, mais radical, experimental). Mas a banda – mais madura do que eu e você, possivelmente – preferiu seguir uma trilha mais enigmática. Sob neblina seca, o disco condensa as experiências anteriores (do rock californiano a uma psicodelia dura, quase entorpecida, quase fria) num molde absolutamente compacto. É como se todas as canções inesperadamente decidissem narrar uma só história, com a atmosfera desolada (mas com momentos de esperança e beleza) de um conto de fadas para adultos. Talvez seria melhor ouvir este disco em meio à leitura de A estrada, de Cormac McCarthy. Ou após uma sessão de Deserto vermelho, do Antonioni. Quem sabe aí começaríamos a entendê-lo?

1. Merriweather Post Pavilion – Animal Collective

Escrevi meus primeiros comentários sobre MPP (e o chamo assim porque somos íntimos) há exatamente um ano. Naquele dezembro, já dava para notar que seria quase impossível encontrar um concorrente à altura do impacto provocado por um disco que soa extraordinário até para os padrões (muito altos) do Animal Collective. Muito se falou sobre como a banda trata a música eletrônica – da mesma forma curiosa (infantil, no melhor dos sentidos) como brincou com elementos do folk e da música experimental. Mas o álbum ainda me deslumbra por outro motivo: por mostrar com clareza a face humana do trio.

Como sempre, não há limites para a invenção musical. O que faz de MPP uma obra-prima, no entanto, é como essa sonoridade irrequieta dialoga com os versos mais francos e emotivos que eles já gravaram. Depois da viagem ao fundo do coração selvagem, eis que encontramos a maior surpresa: Avey Tare, Panda Bear e Geologist, artistas do inusitado, também se sentem perdidos diante das incertezas do nosso mundo. Exatamente como quase todos nós.

Triangle walks | Fever Ray

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Veja bem: eu não ia postar este clipe porque, francamente, ele não presta. É só uma colagem de imagens feiosas e sombrias, um pisca-pisca cavernoso que já vimos centenas de outras vezes. Nota-se que o diretor Mikel Cee Karlsson não teve lá muito trabalho. Mas te dou dois motivos para aturar a pasmaceira até o fim: 1. Quando aparece em cena, Fever Ray interpreta uma mulher cadavérica que poderia ser a mãe de uma certa menininha cabeluda que vive no fundo de um poço num certo filme de terror que conhecemos bem. 2. A música é tão fantástica que renderá maravilhas mesmo se você decidir desligar o monitor e curtir o pesadelo.

Reafirmo: um dos grandes discos do ano, esse.

Fever Ray | Fever Ray

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feverrayDizem que Brasília tem o céu mais bonito do mundo. Não duvido. Mas, na estação das chuvas, não é raro olhar para o alto e se deparar com um espetáculo às avessas. A imagem não é exatamente agradável. São camadas cinzentas de nimbostratus, cortadas por relâmpagos e neblina espessa – uma colcha densa que devora a paisagem e, incontrolável, parece formar um túnel largo para uma dimensão terrível onde eu, sinceramente, não tiraria férias.

Há uma semana ouço obsessivamente o primeiro álbum do Fever Ray, projeto paralelo da sueca Karin Dreijer Andersson – que, com o irmão Olof Dreijer, forma o duo The Knife. Nos episódios mais automáticos da minha rotina (durante o banho, antes de dormir, enquanto leio o jornal, quando brigo com a torradeira ou tento regar as plantas da sala com a quantidade suficiente de água para que elas não caiam afogadas e morram), são canções que me assombram e hipnotizam – de tal forma que deixam a impressão de que eu poderia viver com elas, e apenas com elas, trancado num apartamento de um quarto.

Eu mentiria se afirmasse que essa sensação é rara – não é. Este é um daqueles discos (e há muitos desses discos, não sejamos injustos) que, por uns 40 ou 50 minutos, nos dominam completamente. Não somos nada perto deles. Depois, quando afastados, aí passamos a considerar racionalmente uma série de fraquezas, inconsistências e redundâncias, até tomarmos o disco como qualquer outro.

Eu estava procurando argumentos para defender este álbum, e só encontrei um suficientemente forte quando saí de casa ontem à tarde e fui surpreendido por um temporal violentíssimo, daqueles que alteram nossa percepção do céu da cidade. As árvores tombavam nos canteiros, os carros quase mergulhavam em poças de lama, o baruho dos trovões restremeciam as lâmpadas dos postes. E, nos meus ouvidos tensos, Karin sussurrava: “não há nada a temer”.

Sabemos que a eletrônica do The Knife é uma inesgotável trilha sonora para um filme de horror (o duo cita o cinema de terror coreano como uma das influências, ao lado de David Lynch e do videogame Doom). Por essa lógica cinematográfica, o Fever Ray pode ser tratado como uma impressionante obra de suspense psicológico – daquelas em que os monstros habitam a alma dos personagens.

Eu ficaria muito satisfeito se, superadas as comparações (inevitáveis) com Silent shout, do The Knife, o álbum encontrasse conforto na mesma prateleira de Dummy, do Portishead. São discos que criam atmosferas de agonia, de pavor contido, um meio-termo fascinante entre cotidiano e pesadelo. Karin é a única verdadeira sucessora de Beth Gibbons: a voz do desespero, a Miss Estranheza congelada no tempo.

É aí que Fever Ray se distancia do álbum do The Knife: se aquele era um disco para as pistas (e, de olho na performance dos singles, mais diversificado e extrovertido), o novo de Karin vem carregado daquele despojamento intimista típico de projetos paralelos como The eraser, de Thom Yorke: é o gemido, a encenação assustadora construída com longos planos-sequência. Nessa composição de um clima uniforme, de um tema, o álbum beira a perfeição: logo na primeira música, If I had a heart, somos atirados no inferno: “Se eu tivesse um coração, poderia te amar. Se eu tivesse uma voz, cantaria”, apresenta-se Karin, mascarada pelo recurso de alteração digital de vozes que marcou Silent shout e embala o disco inteiro.

Ao contrário do deslumbramento de um Kanye West, Karin usa os artifícios para rasgar a própria voz de uma forma monstruosa, como quem encarna uma série de personagens num longo drama. As peças se encaixam em When I grow up, veículo para pensamentos inconfessáveis: “Eu nunca gostei do olhar triste de alguém que quer ser amado”, ela admite. Divide o segredo, e assim cria imediatamente uma impressão de cumplicidade com quem a ouve. 

Aí já estamos presos. A faixa seguinte, Dry and dusty, compara dois amantes a cápsulas de energia. Enquanto as melodias dialogam com a secura dub típica do trip hop, a sonoridade electro nunca parece óbvia – cada ruído, cada batida é um achado. Eis que a quarta canção, Seven, avança rumo ao pop e vai à estratosfera – é uma das maiores do ano. Nos versos, Karin narra o encontro com um velho amigo. “Aos sete anos, sob um céu pesado, eu pedalava com a minha bicicleta”, ela lembra. E o céu continua a esmagar tudo.

Depois de um início com aparência de obra-prima, o restante do álbum inevitamente se revela bem menos poderoso. Mas é que nossas expectativas, agora, estão nas alturas: sem pressa, Karin faz de Concrete walls um lamento à Tricky que, na sexta audição, periga ofuscar o disco inteiro. Keep the streets empty for me é outra que (e aí é impossível não lembrar novamente de Portishead) poderia se transformar num standard para novas cantoras de jazz. Mas alguma delas teria coragem de cantar versos como “numa cama de teia de aranha, imagino em como posso me reinventar”?

O álbum termina com uma extensa viagem instrumental chamada Coconut, que sugere uma canção de ninar com letra agora incompreensível, empoeirada. Karin vai desaparecendo aos poucos, e o disco termina como uma paisagem um pouco menos acinzentada, mas ainda pronta para desabar a qualquer momento. É como o céu de Brasília logo depois de uma tempestade, no mês de janeiro: novamente encantador, mas sempre a apenas uma trovoada de fazer das nossas vidas um lugar mais sombrio.

Primeiro álbum do Fever Ray. 10 faixas, com produção de Karin Dreijer Andersson. Rabid Records. 8.5/10  

BÔNUS TRACKS

handsomeFace control | Handsome Furs | 7.5

Por falar em electropop mal-assombrado (e em projetos paralelos que soam tão ou mais instigantes que os pratos principais), o segundo disco do Handsome Furs é o reflexo invertido do Fever Ray e pode ser encarado como o irmão dançante e pop de At Mount Zoomer, do Wolf Parade. O duo liderado por Dan Boeckner (a face menos áspera do Wolf Parade) toma referências como Bowie e New Order para embalar a matriz pós-punk do compositor, e o resultado é o disco mais imediatamente acessível e polido (no caso, uma opção estética) de Boeckner.

Gravado no mesmo Mount Zoomer, o álbum prova o rigor conceitual dos canadenses – o que às vezes rende canções excessivamente racionais, que apenas materializam a ideia de como um determinado disco de rock deve soar (nisso, Face control se aproxima de uma versão indie para Eagles of Death Metal). Ainda assim, faixas como I’m confused e All we want, baby, is everything estão à altura do Wolf Parade – e podem virar ouro nas mãos da Sub Pop.